segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Animago Mortis - Capítulo 44 - Volta - FINAL

Capítulo 44 - Volta.

O sol já desaparecia no horizonte montanhoso. Apenas se avistava um círculo laranja e disforme que parecia derreter por entre nuvens rajadas pelo vento do fim de tarde.
O silêncio era quebrado apenas pelos pássaros que pareciam discutir seus lugares nas árvores, e por grilos e outros insetos noturnos que começavam a despertar para mais um "dia de trabalho".

A brisa forte já anunciava os dias do Outono que se aproximava, deixando as noites mais estreladas e mais frescas.

Hermione, sentada sob o belvedere do gazebo no alto da colina, que era enfeitiçado com o Fidellius e que ela tinha o conhecimento do lugar por causa de Crookshanks, apreciava o cair da noite, após passar toda a tarde ali, recompondo-se e relaxando-se do estresse em que estava. A luz do dia rapidamente se esvaia e o manto azul escuro já começava a cobrir a paisagem. As estrelas do Céu e os pirilampos da Terra começavam a irradiar sua própria luz, fazendo pontos brilhantes e dispersos em vários lugares.

Mais uma vez valeu a pena cabular as aulas para descansar e recompor sua tranqüilidade interior. Em outros tempos, Hermione não poderia sequer sonhar com isso – que, com certeza, seria interpretado como um pesadelo – o que lhe seria visto como uma falta imperdoável, mas... muitas coisas mudaram ao longo do tempo e, principalmente, nas últimas semanas; e hoje a jovem se permitia quebrar regras (ilusórias, diga-se de passagem) para ouvir seus sentimentos, dar atenção ao seu coração, órgão das ponderações do amor.

Negligenciar-se, negar-se, é levar-se ao caos e à ruína. O mundo de fora é o reflexo do mundo interior e este apenas se conserta quando o outro se ajusta.

E levar-se aos limites extremos, ultrapassá-los, não respeitando-se, não parando, não descansando, não refletindo quando se deve, é auto-crueldade e auto-desamor.

Portanto, quando se chega aos limites e tudo começa a ruir, é hora de parar, se acalmar e refletir, "pôr a casa em ordem". E aí sim, depois de tudo limpo, arrumado, consertado, é hora de retornar à estrada, renovado e recarregado de novas energias.

Hermione mantinha-se de olhos fechados, como em estado de vigília. Apreciava a brisa que deslizava por ela, acariciando seu rosto e esvoaçando seus cabelos, que estavam soltos, livres. A gravata vermelha-dourada estava afrouxada e os primeiros botões da camisa branca estavam abertos, demonstrando a displicência necessária para conseguir o devido relaxamento. Mas uma vozinha fina e baixinha a trazia de volta ao ambiente quase escuro.

—Srta Hermione Granger... vamos, coma um pouco, Karinska lhe trouxe um lanchinho, pois faz horas que a menina não se alimenta.

—Karinska? – Hermione foi surpreendida pela pequena elfa doméstica, já que não esperava por ninguém estando ali, isolada.

—Sim, senhorita, é a Karinska e ela estava aqui faz tempo, observando a menina. Mas Karinska pensou que a menina estaria com fome, pois é quase noite. Desculpe a Karinska, Srta Hermione, ela não queria assustá-la! – A pequena elfa terminou de falar com voz fugidia, curvando-se em seguida, quase encostando a testa no chão. Hermione se apressou em rapidamente recompor a pobre criatura, que vivia ainda mentalmente agrilhoada pelo servilismo, que já fazia parte de sua personalidade.

—Karinska, sabe que comigo não precisa dessas formalidades... – Hermione repreendeu-a docemente, trazendo a pequena criatura ao seu lado, fazendo-a sentar encostada a si, envolvendo-a com seu braço direito. —Mas vou adorar comer o que trouxe! Agora que falou, notei que estou com um pouco de fome, sim

A elfa alargou um enorme sorriso, pondo-se em pé num instante, fazendo uma reverência. Hermione sorriu sem graça, sabendo que não adiantava muito tentar reprimir esse servilismo automático de elfos domésticos como Karinska.

—Gostaria de apenas pedir algo, Karinska... – Hermione pausou apenas pelo tempo necessário do assentimento da pequena elfa. —Será que poderíamos lanchar juntas aqui, na varanda da casa?

A elfa sequer respondeu e saiu em disparada – e sorridente – para dentro do gazebo, trazendo, logo em seguida, uma bandeja enorme (proporcionalmente a ela) com jarra de suco, copos e sanduíches bastante gordos, que Hermione duvidava muito que conseguisse comer um por inteiro, mas, enfim, deu de ombros e se apressou em auxiliar a elfa, pois a impressão que tinha é que a bandeja a esmagaria.


A hora de intervalo para a concessão de opiniões dos membros do júri transcorria. Nicolai aguardava na sala destinada ao réu, em companhia de Davis. O advogado permanecia absorto e silencioso num canto da sala, sentado à mesa, enquanto folheava o Profeta Diário daquela data. A impressão que se tinha ao vê-lo é que ele estava completamente tranqüilo, de alma lavada e missão cumprida. Nicolai, que já não nutria mais a velha antipatia por ele – mas que ainda estava longe de sentir alguma simpatia – apenas o observava em silêncio. Aparentemente, ele próprio estava calmo, mas somente ele sabia a ansiedade que vinha em seu peito. Recostou-se na poltrona e fechou os olhos a fim de não ver os minutos passarem e – quem sabe? – quando os abrisse novamente tudo já teria terminado e se definido.
O término desse desagradável episódio havia finalmente chegado. Não mais depoimentos; não mais acusações; não mais defesas; não mais tribunal. Apenas viria agora a resolução desse problema e a idéia de ser preso já não era mais tão aterradora, visto o massacre psicológico que sofreu nesse famigerado julgamento.

"—Lamento muito, Hermione... por tudo isso que ocorreu... gostaria de poder lhe ver uma última vez, lhe ver com o ar suave como a muito não vejo..." – Nicolai pesou consigo mesmo, as palavras mansas misturadas às lembranças de quatro anos junto de Hermione.

Os minutos se escoaram e a hora fática chegou e pegou Nicolai entre o sono e a vigília. Um sinal luminoso sobre a porta se acendeu e dela entrou um homem trajando terno preto, convocando o réu e seu advogado ao Plenário. O Animago acordou e logo sua mente estava alerta, um choque gelado em seu peito desceu até o estômago e entranhas. Não havia mais nada para se esperar e finalmente estaria livre... livre daquele tribunal nojento.

Nicolai pôs-se de pé e jogou apenas um olhar de esguelha para Davis que, quase num sussurro, o convidou a seguir em frente, rumo ao salão do julgamento. Cabisbaixo e quase num estado de torpor, Nicolai saiu seguido de Davis. Nada disseram um ao outro, apenas lançaram seus passos rumo à resolução desse problema.

O plenário estava tão cheio quanto nas primeiras horas do primeiro dia do julgamento. Nicolai lançou um olhar furtivo por todo o ambiente, parando por imperceptíveis instantes na figura altiva de Dumbledore, que estava logo na primeira fila de cadeiras da assembléia, bem ao centro. O Animago e seu advogado foram para seus lugares de antes, as cátedras do réu e defesa, sentando-se e dando toda a sua atenção ao juiz, que se concentrava em arrumar um pequeno bolo de papel, enquanto os membros do júri, que também retornavam do intervalo e agora no reduzido número de sete, ajeitavam-se em suas próprias cátedras.

O Juiz reabriu a sessão:

—Após o intervalo de uma hora para a avaliação e concessão do júri, a última parte da sessão está aberta. Dentro das normas jurídicas e de acordo com a legislação vigente, cada um dos sete membros do júri selecionados aleatoriamente apresentará a sua decisão, cabendo ao Juiz Pleno deste caso acatar a vontade da maioria e distribuir, de acordo com a Lei do Código Penal Bruxo, a sentença, dando o Veredictum Maximu. Lembrando que, qual seja a sentença, as partes, Defesa ou Acusação, poderão contestar posteriormente, fazendo-se uso do recurso da apelação.

—Por favor, isso não... não de novo! – Nicolai sussurrou para si mesmo. Davis apenas deu uma rápida olhada de esguelha, voltando novamente sua atenção ao juiz.

—...dos vinte e um membros do Júri Popular, sete membros foram selecionados a fim de representarem a vontade do grupo maior e de toda a Sociedade Bruxa. O número ímpar favorece uma decisão plena e raciocinada e não um sorteio que poderia vir acarretar, injuridicamente, um empate na decisão do Júri. Porém, prevalecerá a decisão com maior número de votos, caracterizando a democracia do julgamento daqueles que representam a Justiça e a Sociedade.

—Aos senhores membros do Júri, de acordo com a ordem do número de chamada de suas fichas, concedo que apresentem ao Plenário sua avaliação, decidindo se o réu presente, Sr Pavel Nicolai Donskoi, será penalizado ou absolvido.


Sentado sob a meia luz que adentrava o luxuoso escritório, Vassili Afanassievich olhava centrando para o pergaminho amarrotado que segurava com firmeza. O olhar denso e a postura rígida demonstravam que uma decisão importante estava sendo tomada, mas para que tal era necessário abrir mão do amor-próprio, do orgulho.
Levemente a porta do escritório é aberta e por ela entra Maria Ivanóvna, que, delicadamente, recosta a porta e desliza até a escrivaninha onde o esposo se encontrava tão absorto em decisões e pensamentos.

Não foi necessário nada ser dito; bastou que Vassili levantasse os olhos duvidosos para sua esposa para que esta encontrasse a resposta e entendesse o que se passava. A carta de Dumbledore mantinha-se firmemente segura nas mãos fortes e sulcadas do velho mago russo.

Ivanóvna sorriu leve e docemente e sua mão direita pousou como uma pluma sobre a mão do esposo, e a envolveu como uma decisão certa a ser tomada.

—Meu amado... deixemos o passado descansar em paz, dando-nos a paz neste presente que nos é oferecido... acolhemos de coração a chance redentora que nos é concedida... deixe-nos estar novamente com o nosso menino...

Vassili não esboçou nenhum som ou expressão, apenas continuou a olhar diretamente para sua esposa que permanecia firme em sua doçura diante dele.

A decisão certa seria tomada. Uma decisão que tardou longos vinte e dois anos, mas que ainda não era tarde demais, pois ainda havia vida e havia esperança.


A tensão pairava no ar como energia elétrica de uma tempestade. Nicolai estava hirto, olhos vidrados em direção à bancada do Júri. Davis mantinha-se tranqüilo, braços cruzados sobre a mesa e apenas prestava atenção à bancada. Quando o primeiro jurado levantou-se, Nicolai, involuntariamente, fechou a mão em punho, prensando-a contra seu estômago. A mandíbula tensa se fechava com força e o animago quase não se permitia respirar.
Um homem calvo, rosa-amarelado, aparentando por volta dos cinqüenta anos, de ar insone, levanta-se de sua cadeira na bancada do Júri, fazendo um leve meneio em cumprimento ao Juiz, limpa a garganta antes de proferir o primeiro veredicto do grupo:

—Culpado.

Uma palavra esperada, completamente passível que ser proferida, mas que toma ares graves e lisérgicos quando é proferida dentro de um Tribunal e se torna ainda mais densa quando no Tribunal você é o réu em acusação. Nicolai sorveu todo o ar que seus pulmões comportavam e estes parecem ter enviado todo o oxigênio ao cérebro, pois uma sensação desagradável de devaneio tomou conta dele e o mundo a sua volta pareceu tomar outro aspecto, outras cores e outra textura. Esse 'culpado' lhe atravessou o cérebro como fosse um projétil disparado contra sua cabeça.

O tempo é relativo. A distância entre os instantes toma proporções completamente adversas aos números lógicos do relógio. Um segundo, um minuto, podem demorar muito, serem muito lentos para passar de um ponto a outro, ou serem rápidos como o pensamento, rápidos como a luz. A relatividade disso está na importância em que se dá ao objeto que se deseja e que está a espera no segundo, no minuto seguinte.

Foram apenas alguns segundos entre um jurado e outro, mas para Nicolai, os segundos tornaram–se horas tortuosamente lentas, que se arrastavam nos ponteiros do relógio fictício.
E o alívio. Ah, e que alivio! Como a água fria que apaga o fogo.

—Inocente.

E uma jovem bruxa, de aparência benevolente, levanta-se em seguida após a outra quando retorna ao seu lugar:

—Inocente.

Nicolai se permitiu o esboçar de um sorriso, um sorriso incrédulo, mas ainda um sorriso quando o quarto jurado, um homem idoso, de cabelos e bigodes brancos e abundantes, levanta-se lentamente, sem muita vontade, proferindo rapidamente seu veredicto:

—Inocente.

Davis esboçou um imperceptível sorriso vitorioso, enquanto Nicolai se permitiu, mais uma vez, extravasar sua emoção em um sorriso largo e uma quase inaudível exclamação, fechando energeticamente as mãos em punho, como se para conter uma exaltação maior.

Uma bruxa mediana, de cabelos platinados e expressão sisuda, levanta-se de sua cátedra e responde ao mundo de nariz erguido:

—Culpado.

O sorriso confiante de Nicolai se desmanchou num brochar decepcionante. Recriminou-se instintivamente por sua exaltação anterior, por se deixar levar por um otimismo que chegava a ofender sua inteligência. Jonathan Davis, muito perceptivo, sequer voltou sua atenção a Nicolai, mas sussurrou algo para manter-lhe a confiança:

—Isso não é nada... ainda não terminou.

Um outro jurado idoso, de aspecto bonachão e muito gordo, levante-se e com um largo sorriso parvo, dá seu veredicto:

—Culpado.

Não mais a água fria que abranda o calor do fogo. Agora uma verdadeira enxurrada de gelo sobre a frágil chama de esperança de Nicolai, que retorna ao seu típico pessimismo, entregando-se às piores conjecturas. Instintivamente volta-se para Dumbledore que está sentado na primeira fila da platéia. O olhar desalento do animago busca desesperadamente o consolo azul-água do velho mago, mas encontra um ar tenso também em Dumbledore, que, de expressão fechada, dispensa toda a sua atenção ao Júri.

Jonathan Davis, que antes demonstrava toda sua tranqüila confiança, torna-se também tenso, curvando mais para frente os ombros enrijecidos pela tensão do suspense. Mais uma única sentença, apenas mais uma, a última, e Nicolai poderia ser mandado à Azkaban ou de volta à Sociedade. Mesmo com todos seus anos de experiência, mesmo sendo capaz de "prever" os fatos apenas pela observância dos ocorridos, o instinto de preservação falava mais alto nesses momentos cruciais e Davis entregava-se em seu lado humano.

Um bruxo negro, calvo, de expressão grave e aparência severa, levanta-se lentamente e põe-se riste militarmente. Os olhos muito negros e firmes dentro das escleróticas amareladas, deitam-se por instantes sobre Nicolai, que devolve um olhar apreensivo e angustiado. O homem lentamente caminha com o olhar do réu para o Juiz, e sua voz densa e cristalina ribomba no Plenário:

—Inocente!

Da Terra ao Céu. Em milionésimos de segundos, à velocidade da Luz que clareia as mentes e liberta as consciências, Nicolai sentiu-se planar num espaço amplo e tranqüilo, de brisa suave e fresca, de leveza de pluma, de pétala. O rapaz estava atônito, com a mente vagando entre a realidade e a dúvida, o ceticismo. A emoção era tanta, e a leveza tão grande que chegava a sufocar e Nicolai não conseguia expressar mais que um sorriso largo e aparvalhado, de boca aberta e congelada na expressão 'Ah!'. Davis, muito sério, posta-se em pé e quase rudemente pega Nicolai pelo braço esquerdo e o condiciona até o centro do palco, frente ao Juiz, que bate insistentemente com o martelo sobre sua mesa, exigindo silêncio e respeito dentro do Plenário que estava tomado por um burburinho de vozes, exclamações e arrastar de cadeiras. Não saberíamos dizer se a platéia comemorava ou condenava a decisão suprema do Júri, mas que todos estavam alvoroçados, estavam. Ninguém ali era o réu além de Nicolai, mas o veredicto final sempre é um alivio, pois, ao menos, a pena de estar sendo julgado havia terminado.

Parados ao centro, Nicolai e Davis aguardavam o Veredictum Maximu do Juiz. Cessados os barulhos no Plenário que desconcentravam, o Juiz dá a palavra final aquele julgamento.

—Por quatro votos a três, o Júri popular declara que o Sr Pavel Nicolai Donskoi é inocente nas acusações a que foi julgado, sendo que o réu está absolvido e apto à regressar à sociedade dentro das normas de conduta pré-estabelecidas pela Secretaria de Defesa do Ministério da Magia.

—Normas de condutas pré-estabelecidas? O que é isso agora? – Nicolai, desconfiado e cauteloso, sussurrava a Davis.

—Você esperava sair daqui com um forte abraço e beijos no rosto, meu caro? – Davis respondia em ironia.

—... como não houve unanimidade na decisão do Júri, o réu deverá permanecer em observação pelo período de um ano, contando a partir da data do veredicto, isto é, da data de hoje. E durante esse período o réu deverá apresentar-se à Secretaria de Defesa do Ministério da Magia uma vez a cada trinta dias. Como o Sr Donskoi não completou o tempo de estudo exigido para exercer a magia, fica proibido de portar uma varinha e utilizar qualquer artifício mágico, bem como conjurar feitiços, encantamentos, prestidigitação ou mesmo fazer preparos de poções, filtros, ungüentos ou qualquer outra forma química mágica; não poderá fazer uso de qualquer aparato, objeto, equipamento, acessório ou mesmo um brinquedo de cunho mágico; enquanto o Sr Donskoi não estiver devidamente registrado e regulamentado não poderá exercer sua animagia.

—A quarentena durará exatos doze meses, e quando esse período expiar, o réu deverá ser submetido a severa avaliação psico-social para poder continuar a gozar de liberdade na Comunidade Bruxa. Este prazo de quarentena poderá ser adiantado ou prorrogado de acordo com a conduta do próprio réu.

—O Sr Donskoi não poderá sair da Inglaterra por igual período ao menos que seja deportado em acordo com o país de interesse, seja por iniciativa do réu ou do Ministério, e ainda assim deverá ser observado os critérios do Ministério da Magia da Inglaterra, país de origem do caso. Em caso de viagens, a Secretaria de Defesa deverá ser informada de datas e destinos e o réu não poderá permanecer ausente da Inglaterra por um período superior a três semanas ou vinte e um dias.

Nicolai estava boquiaberto, estupefato. Até mesmo Davis parecia surpreso e incrédulo diante da "absolvição" do Juiz. Davis sabia que alguma norma seria imputada a Nicolai, mas não pensava que o círculo seria fechado a ponto de praticamente obrigar Nicolai a sobreviver como um muggle!

—Mas... eu fui mesmo absolvido? – Nicolai perguntava em tom irônico, numa expressão incrédula e sarcástica.

O Juiz se mostrou aborrecido com o tom de Nicolai e respondeu-lhe no mesmo tom, porém mordaz. O magistrado debruçou-se sobre seu balcão e um sorriso de canto acompanhou suas palavras:

—Sr Donskoi... o senhor foi considerado inocente das acusações por apenas quatro votos, sendo que quarenta por cento do Júri o considera culpado... o que queria, meu filho? Uma varinha nova em folha, mil galeões em seu nome no Gringotes e vassoura para ir até o Rio de Janeiro passar o verão?!

Jonathan Davis intercedeu, segurando quase imperceptivelmente Nicolai pelo ombro esquerdo, impedindo-o de retrucar e deixar o Juiz de mau-humor.

—Meritíssimo! Tendo em vista o desfecho do caso e as circunstâncias que pesam sobre meu cliente, concordo que tais medidas sejam justas e coerentes, mas ainda preciso interceder sobre a decisão de deixar o Sr Donskoi completamente inapto ao uso da magia. Devido a peculiar realidade de meu cliente, ele não terá como sobreviver no mundo bruxo e sequer no mundo não-mágico. Como defesa, não posso aceitar que o Sr Donskoi fique plenamente inapto ao uso da magia.

—Compreendo sua preocupação com seu cliente e é justa sua apelação, Dr Davis, mas o senhor sabe perfeitamente que um bruxo não pode fazer uso legalmente da magia se não tiver sido graduado para tal, seja nos sete anos básicos de estudos numa escola qualificada, seja num curso supletivo para adultos, após, logicamente, ser aprovado mediante avaliações. Portanto, Dr Davis, se quiser que seu cliente possa ter acesso ao uso da magia, matricule-o num supletivo de intensidade avançada e ele poderá portar uma varinha e exercer a magia dentro do domínio escolar e, após sua graduação, poderá fazer isso como qualquer outro bruxo adulto graduado. Creio estejamos compreendidos e dou por encerrado esse caso. Passar bem e desejo boa sorte ao Sr Donskoi.

O Plenário começou a esvaziar rapidamente, desmanchando-se em ruídos de passos e arrastar de cadeiras. Atônito, sentindo a cabeça cheia de ar, Nicolai foi conduzido por Davis para o corredor que dava acesso à entrada/saída do Tribunal.

O que, afinal, o Animago sentia depois de tudo? Estava confuso, não saberia o que responder. Estava livre e isso deveria lhe trazer, no mínimo, alegria... mas algo pesava sobre seus ombros. Estava livre de Azkaban, estava livre dos dementadores... mas apenas isso: ainda estava agrilhoado à condição de suspeito, de criminoso passível; estava proibido de se utilizar de magia, não poderia sequer se utilizar de sua forma animaga sem que o Ministério não o punisse por isso; não havia um lugar para retornar; poderia pedir asilo ao Ministério da Rússia, mas também lá não haveria para onde voltar. Se ao menos tivessem lhe dado o direito ao uso da magia, seria mais fácil sobreviver dignamente. Estava confuso e não sabia o que deveria fazer agora que estava legalmente livre e perdoado, mesmo que de uma forma torta.

—Sem saber o que fazer, Russo? – Perguntava um divertido Davis, dentro de sua percepção extra-humana.

Nicolai parou ao meio do corredor e encarou Davis, desanimado. A sua antipatia pelo advogado havia finalmente desaparecido, mas nada lhe respondeu em troca.

—Já que sou um cara legal e estou de muito bom humor, vou te dar um parâmetro inicial: amanhã mesmo iremos retornar à Secretaria de Defesa e fazer a solicitação da sua licença para uso de animagia, que por ser uma forma de magia nata, teoricamente incapaz de causar danos a terceiros, você poderá exercer livremente depois de fichado e licenciado, daí poderá usar sua animagia para revirar latões de lixo e não morrer de fome...

Você é desagradável, Jonathan Davis! Seu humor negro não tem a mínima graça!

—Lamento muito, mas concordo com Nicolai, John! E eu tenho uma idéia muito melhor quanto ao fato do nosso ex-réu sobreviver no mundo bruxo...

Dumbledore surgia com seu sorriso sincero e costumeiro no corredor quase vazio, onde apenas algumas poucas pessoas passavam apressadas sem mais se preocuparem com os "astros" daquele julgamento. Nicolai nada disse ou esboçou, apenas o fitou curioso.

—Eu sugiro que Nicolai volte a estudar magia em Hogwarts, concluir seu curso básico a partir de onde parou, para, ao menos, ter o direito de fazer algum uso disso. E, claro, antes deverá fazer seu registro de animagia, afinal, um dom maravilhoso como esse não deve ser deixado de lado...

Uma onda de alegria abrasou o interior de Nicolai que se permitiu um sorriso, mas um sorriso entristecido pelo raciocínio:

Isso seria mesmo maravilhoso, Professor! Mas... eu não sou mais um garoto, tenho 37 anos de idade, embora não seja essa a minha aparência... legalmente eu não posso freqüentar Hogwarts, certo?

—O ideal, claro, seria que você estivesse de acordo com a faixa etária da série a que deveria pertencer, não é uma questão legal ou ilegal, mas uma questão de estatuto geral das escolas de magia de nível elementar. Mas como seu caso, Nico, é atípico e peculiar, e eu sendo o Diretor de Hogwarts, posso abrir-lhe uma exceção...

Então, o senhor está querendo dizer quê...? – Nicolai sabia perfeitamente o que Dumbledore estava falando, mas fez-se de sonso, pois queria ouvir todas as palavras ditas pelo Diretor. Um sorriso – ainda incrédulo – se formou em seu rosto, desanuviando-lhe.

O mago bondoso abriu ainda mais seu sorriso e suas palavras lhe saíram felizes, emitindo, além do som, a sua alegria e vibração positiva de fé e esperança. Fez porque sabia que era isso que o garoto queria e julgava que ele o merecia.

—Eu, Alvo Dumbledore, Diretor de Hogwarts, o convido, Sr Donskoi, a retornar à Hogwarts e completar o seu ensino básico ainda este ano, continuando de onde parou há vinte anos, dando prosseguimento ao seu sétimo ano... o senhor aceita esta humilde oferta? É pouco em vista do que fez pela comunidade há tantos anos atrás e mesmo há pouco tempo, enquanto ainda preso em sua forma animaga, mas é tudo que posso ofertá-lo neste momento...

A resposta de Nicolai foi um largo, sincero e feliz sorriso que, em toda a sua vida, talvez jamais tenha se desenhado em seu rosto. Muitas boas imagens vieram a sua mente, bons momentos de sua vida, e Dumbledore nunca lhe pareceu tão digno e superior. Por instantes lembrou-se de seus avós, especialmente de Vassili, que sempre fora com ele rígido e amável ao mesmo tempo. A resposta de Nicolai não veio em forma de palavras, pois a emoção inédita que sentia lhe era impossível se expressar verbalmente. Avançou em passos fortes até Dumbledore e abraçou-o como se ele fosse seu pai ou, melhor, como fosse seu próprio avô. Em voz rouca e embargada pela emoção, agradeceu ao velho mago com uma honestidade que jamais havia usado até então:

Obrigado, Professor... muito obrigado... por tudo...!


Dois dias haviam se passado quando Nicolai retornava para Hogwarts pela segunda vez em sua vida, depois que de lá fora violentamente arrancado, há vinte anos atrás. A primeira, que parecia ter sido há milhares de anos, foi em companhia de Hermione, dentro de um cesto de vime, como um gatinho de estimação.
Jonathan Davis completava a sua missão, entregando o rapaz à tutela de Hogwarts e Alvo Dumbledore. Os primeiros passos de uma vida nova e reta já haviam sido dados e agora Nicolai Donskoi era um animago registrado e legalizado. A influência de Davis agilizou a deferência no pedido de legalização e agora Crookshanks poderia revirar latões à vontade, nas palavras do sarcástico advogado.

Para evitar o assédio de curiosos, Nicolai e Davis chegavam à Escola altas horas da noite, sendo ambos recepcionados pelo caloroso Dumbledore em companhia de Snape e McGonagall, em sua sempre expressão sisuda.

Após a recepção e algumas palavras de apoio, Davis foi levado por elfos para um aposento destinado às visitas e McGonagall se recolheu a seu próprio quarto, ficando Nicolai a sós com Snape e Dumbledore no gabinete diretor.

—Filho... – Dumbledore se dirigia paternalmente a Nicolai, que já apresentava sinais de cansaço, mas com grande satisfação emprestava seu ombro como poleiro para Fawkes, a fênix de estimação do diretor. —Sei que é um homem adulto, bastante maduro e ponderado, e sei que não deixará se iludir pelas boas coisas que lhe sucederam após sua absolvição no Tribunal...

Snape, que conversava amigavelmente com Nicolai, parou para também prestar atenção à advertência de Dumbledore e só pelo tom solene com que ele falava, o mestre de Poções sabia que algo grave não poderia ser deixado de lado.

Nicolai tinha muitos defeitos, mas certamente que a fascinação não fazia parte dessa lista. Não se deixava iludir por ventos frescos, pois sabia que estes poderiam ser o prelúdio de devastadoras tempestades: —Sim, eu sei professor... sei que não terei uma vida tranqüila e isenta de problemas... não por enquanto, pelo menos...

Fawkes aprumou-se no ombro de Nicolai, também dando toda a sua atenção às palavras de seu Amo.

—Nicolai... você rompeu com a maldição Animago Mortis, mas não se iluda quanto ao seu aparente rompimento com o Círculo das Trevas... essa maldição só será rompida no instante que Voldemort morrer, deixar definitivamente este mundo...

Snape ficou apreensivo. Desconfiava que Dumbledore sabia muito mais do que Nicolai havia mostrado e dito e agora finalmente saberia se o seu velho amigo fora mesmo um Comensal oficializado ou apenas um seguidor ainda sem grandes vínculos.

—Alvo... se Nicolai se tornou mesmo um Comensal da Morte, o que houve então com a marca negra em seu braço?!

Nicolai dobrou-se sobre si mesmo, apoiando seus cotovelos sobre as pernas e olhando cegamente o chão ornamentado de pedras do gabinete diretor. Suspirou tristemente, mas não podia se enganar: aquilo era um fato que não poderia ser negado.

A fênix voou até o ombro de Dumbledore, que se aproximou suavemente do garoto cabisbaixo.

—Filho... seja sempre fiel a sua consciência, ao seu coração... é isso que vale.

Nicolai o encarou, por fim: —Então, Professor, se ainda estou... ligado àquela miséria, por que então...?

Dumbledore coçou o peitoril da ave que retribuiu o afago roçando a cabeça na testa do velho mago: —Essa ave maravilhosa que é a fênix, tem muitos poderes ocultos, assim como os dragões; esses animais fantásticos possuem poderes que eles próprios desconhecem ou tem controle, e muitas vezes seus poderes são manifestados com seus sentimentos. Fawkes se afeiçoou muito a você, Nicolai... e um dos poderes da fênix é suportar grandes cargas... e não apenas cargas materiais, mas também pesos morais que poderiam fazer sucumbir o mais forte e convicto ser humano...

Nicolai estreitou os olhos, fixando a vista na figura do mago e da fênix... ele havia entendido o que Dumbledore estava lhe dizendo.

—... e os dragões, como sabe, são extremamente valorosos moralmente: são honrados, dignos e leais entre eles. Instintivamente, ao juntar o fio de dragão com as penas que Fawkes lhe presenteou, você acabou criando uma espécie de amuleto que o protegeu de si mesmo, Nicolai... criou uma proteção espiritual para não sucumbir ao peso de seus erros passados no momento mais critico, onde sua mente poderia, naturalmente, traí-lo... você lembra do que ocorreu quando Oz Osborn conjurou a Morsmordre contra você, no Tribunal?

O animago ponderou por instantes, buscando suas lembranças; desviou o olhar para a janela em forma de gota, de onde entrava uma brisa fresca e podia ver o céu noturno e estrelado.

Naquele instante... foi como se eu tivesse sido transportado para muito longe dali... em tempo e espaço... fui para Zakopane, na Polônia... revi meu avô e revi o Sr Pderewski, o fabricante de instrumentos de cordas que vivia nos Montes Tatras... lembrei-me do dia em que o Patriarca me levou até lá para que o velho luthier fabricasse meu primeiro violino... sempre tive como esse um dos momentos mais agradáveis de minha vida...

—E ao ser mentalmente transportado para um episódio bom de sua vida, automaticamente você criou uma vibração de nível elevado, fazendo com que seu fluído que estava negativo se polarizasse, invertendo-o; ao fazer isso, criou uma barreira para que a energia maligna contida na marca negra não se manifestasse... por isso sua marca não apareceu, Nicolai. Mas, lembre-se: essa pequena magia apenas o livrou de um instante crítico, ela jamais o livrará de Voldemort...

Dumbledore completava sua dissertação de forma benevolente. Nicolai comprimiu os lábios numa atitude resignada de quem aceitava sua realidade.

Eu havia cogitado algo do tipo... mas não sabia de onde tinha vindo a força que havia me protegido.

Nicolai levantou-se e aproximou-se de Dumbledore, acariciando a cabeça de Fawkes: —Muito obrigado, belo Suzaku... você deu-me o maior de todos os presentes... Deu-me uma chance...


Eram 10:40h da noite posterior ao regresso de Nicolai à Hogwarts. A noite estava fresca, os dias cada vez com temperaturas mais brandas por conta da proximidade do Outono, que pouco faltava para se iniciar. Fora, a brisa corria solta fazendo farfalhar a vegetação que, lentamente, começava a se tingir de ocres e vermelhos oxidados. A Lula Gigante descansava placidamente sobre o espelho d'água do lago. Aves noturnas faziam seus vôos e outros animais suas atividades de sobrevivência. Tudo estava calmo e tranqüilo.
Dentro do castelo a atividade já havia se encerrado há quase uma hora. Todos estavam recolhidos em dormitórios ou salões e pelos corredores, soturnamente, apenas caminhavam a vigilância, alguns gatos e outros seres de atividades noturnas. O silêncio quase mudo era quebrado apenas pelo baque seco de solados ao chão de pedras, dos monitores que faziam suas rondas noturnas, cada qual em suas jurisdições.

Hermione caminhava quase que automaticamente pelos mesmos corredores de todos os dias. Sendo a Monitora-chefe, era de sua competência verificar as áreas principais do castelo, como o salão de refeições e os corredores centrais. Estava distraída pensando no dia seguinte. Através do Profeta Diário, sabia que Nicolai havia sido absolvido, e através de Dumbledore, sabia que o animago retornaria para Hogwarts, embora não soubesse exatamente quando.

Havia dentro de si, em relação a isso, um misto de alívio e aflição. Alívio, provindo de seus bons sentimentos altruístas, por saber que o rapaz ganhou uma nova chance; aflição, provinda de uma mente racional demais, por não conseguir prever com exatidão como serão seus próximos dias tendo Nicolai, ex-Crookshanks, sempre por perto.

O tédio de sua ronda foi quebrado ao avistar um vulto parado próximo à janela de vitral, que parecia se distrair olhando as formas retorcidas através do vidro colorido e nervurado. Naturalmente deveria ser um aluno insone, mas pelo porte deveria ser um dos alunos de sexto ou sétimo anos, que, possivelmente, lhe daria algum trabalho devido à rebeldia típica de adolescentes-quase-adultos.

—Alto! Quem aí está? Sabe muito bem que após às dez horas nenhum aluno pode transitar pelo colégio. Eu o aconselho a retornar ao seu salão comunal imediatamente!

Hermione deu voz de comando firme e autoritária, mas o vulto apenas sorriu sem nenhuma afetação e aproximou-se da monitora, deixando ser iluminado pela luz fraca dos archotes presos à parede.

Peço perdão pela insolência, senhorita... conheço bem esta regra, mas regras foram feitas para serem quebradas, principalmente quando se é necessário um encontro longe das vista da malicia e curiosidade.

Hermione permaneceu muda por um instante, até que baixou a varinha que apontava para o vulto, que era Nicolai.

—O professor Dumbledore havia me dito que retornaria para Hogwarts, mas não disse quando e nem que já estava aqui...

Não foi nossa intensão fazer uma surpresa, mas o mestre achou por bem não criar qualquer alarde até que eu seja apresentado oficialmente à Escola.

—Então.. você voltará a estudar aqui?

Sim... – Nicolai alargou seu sorriso, que até então estava tímido. —Agora serei seu colega de escola, continuarei de onde havia parado. Assim como você, estarei cursando o sétimo e último ano...

Hermione estava tensa e apreensiva, embora não demonstrasse. Incrivelmente não sabia o que dizer e havia a sensação de déjà vu, pois, pela segunda vez, se encontrava com Nicolai naquela mesma hora e mesmo local.

—Err, bem... fiquei.. feliz em saber que foi absolvido, creio que... você merecia essa segunda chance, independente do seu.. passado... seja lá qual ele for. Dumbledore foi muito justo e bondoso em trazê-lo de volta para completar seus estudos... então eu... lhe desejo muita boa sorte... e que... tudo seja mais fácil para você, agora...

Nicolai estava emocionado e não conseguia conter o sorriso parvo e teimoso. Estendeu suas mãos à Hermione, a fim de agradecê-la:

—Permita-me?

Hermione, desconfiada, fitou por instantes as palmas de Nicolai estendidas para ela, até que cedeu ao apelo mudo e pousou suavemente suas mãos sobre as do animago.

Novamente.. e sempre.. eu lhe agradeço por tudo que fez por mim, por todos esses anos, mesmo não sabendo o que Crookshanks era na verdade... e mesmo depois de tudo que ocorreu a nós dois, mesmo pelo que tive de passar agora, as especulações... muito obrigado pelo apoio que me deu... de alguma forma eu sabia.. eu sentia que torcia por mim...

Nicolai aproximou-se em dois passos de Hermione, que permanecia estática, mas mais relaxada, e levou as mãos da menina até os lábios, repetindo a mesma cena do primeiro encontro que tiveram, há muitos dias atrás. Com suavidade, beijou-lhe os nós dos dedos e após breves instantes, com relutância, afastou-se dela, soltando lentamente as mãos.

O rapaz fez uma solene reverência à Hermione, curvando-se ligeiramente para ela, virando sobre os calcanhares em seguida, começando a fazer o caminho que o levaria ao seu dormitório improvisado nas masmorras. Mas, há alguns passos, estancou e voltou a encarar Hermione, por sobre o ombro; uma expressão indefinida, marota, estranha, se desenhava em seu semblante. Hermione apenas vincou suas sobrancelhas em expectativa.

Apenas lhe advirto de algo, senhorita...

Hermione arregalou os olhos, sentindo um gelo invadindo seu peito e entranhas. Apesar de tudo, ainda havia em si o sentimento de cautela contra Nicolai. Por vez, o animago pareceu se divertir com a expressão da garota, pois seu sorriso maroto se alastrou.

... que talvez a senhorita não seja mais a melhor aluna da atualidade de Hogwarts... agora que estou de volta, creio que terá de disputar esse título comigo...

Hermione pareceu se aliviar da tensão e até deixou um sorriso mau se fazer no rosto. Num tom divertido e desafiador, replica à "ameaça" de Nicolai:

—E eu lhe digo, senhor, que tirar esse título de mim não será assim tão fácil, pois numa disputa como essa eu entro com muito prazer!

Nicolai apenas sorriu em resposta, assentindo com a cabeça. Com um passo à frente, uma névoa brilhante o envolveu, e saltando de dentro dela um enorme gato persa alaranjado correu faceiro de encontro à escuridão do corredor que levava às escadarias de acesso às masmorras.

Hermione apenas sorriu e meneou a cabeça, finalizando a sua ronda noturna e rumando às escadarias de acesso à torre da Grifinória.


Fim.
By Snake Eye's – Dezembro, 2007.

N/A:
Soltem rojões! Fogos de artifício! Balões! É festa!
E só por isso, quero um feriado nacional, em homenagem!
Finalmente, finalmente! Finalmente o fim de Animago Mortis!
Que alivio no coração! Que leveza nos ombros!

Desde já vou me justificando quanto ao término desse julgamento. Continuo não sabendo como é um julgamento autêntico. A princípio havia me baseado no que já vi em filmes e no que tinha lido num texto de net, sobre os julgamentos na Inglaterra; mas dae perdi esse texto e não tive paciência de procurar por outros, então esse final foi mesmo inventado, meio que baseado em parcas lembranças, mas ainda assim muito longe do que deve ser na real. Peço desculpas pela inventividade, embora aqui seja uma fic, há coisas que gosto que estejam bem de acordo com a nossa realidade. Fiz meu possível para que não saísse pueril, simplório e ilógico, fiz o possível para que saísse algo um mínimo convincente e que não ofendesse a inteligência de ninguém... espero ter conseguido.
Sim, minha ânsia de terminar Animago era enorme, mas sempre me freei para não fazê-la de forma desleixada, comprometendo a qualidade da fic. Espero muito que este final tenha agradado a você, Querida Leitora e, na pior das hipóteses, que não tenha de todo lhe decepcionado. E como pode perceber, foi deixado no ar um 'que' de continuação.
Então, eis meu presente para o seu Natal de 2007. Esta fic começou em meados de 2004 e não fossem as pendengas do mundo real, ela teria se encerrado há muito mais tempo e talvez com uma idéia mais bem desenvolvida e aproveitada.
É minha intensão, sim, criar uma espécie de "parte 2" de Animago Mortis e dar prosseguimento à idéia inicial que ficou perdida pelo caminho, juntar as pontas soltas e tentar realizar os sonhos das fãs por uma HG/ND. Mas isso levará ainda tempo e não garanto que será feita nos próximos meses e talvez até mesmo nos próximos dois anos, pois, a partir deste encerramento de Animago Mortis, partirei para a conclusão das outras três fics que estão também pendentes há anos e que quero muito concluí-las. Depois disso, então, veremos a tal continuação e a criação – talvez – de novas fics.
E quero muito os seus reviews, quero saber as suas avaliações e o que espera no futuro de Animago Mortis. Por favor, não deixe de comentar.
Não garanto nada pois ainda não me decidi por isso, mas talvez eu traga um capítulo 45 que seria um epílogo mostrando nossos personagens duas décadas depois (meio que imitando o final do livro 7 de HP, heheh). Uma pequena parte está escrita, mas ainda decidirei se é conveniente que seja terminada e publicada ou não, pois não quero que este epílogo influencie a continuação de Animago e talvez possa vir a desconsertar algumas coisas.
No mais, quero agradecer do fundo do meu coração de Cobra todo o bem que você me fez por ter lido, acompanhado, torcido, especulado sobre Animago Mortis. Muito obrigado por ter nos acompanhado até aqui e torcido por nós, sempre esperando pelo desfecho final.
Muito obrigado por ter estado conosco!
Luz & Força para todos nós!
Que Deus ilumine e guarde a todos nós!

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Animago Mortis - Capítulo 43 – Julgamento – Asserção.

Capítulo 43 – Julgamento – Asserção.

Uma fumaceira multicor e um bufão abafado fizeram chamar a atenção de todos os alunos reunidos dentro do laboratório nas masmorras. Grifinória e Sonserina, como de praxe, assistiam juntas a aula de Poções, mas quando se percebeu quem havia causado tal baderna, a perplexidade substituiu o escárnio típico dos Sonserinos, que observavam estupefatos, assim como os Grifinórios, para o causador de tal erro fedorento com uma poção, ou melhor dizendo, a causadora...
—Serei sincero: estou muito preocupado com você, Srta Granger... penso em enviá-la à Pomfrei para lhe fazer uma avaliação psicológica ao invés de acrescentar mais doze horas à sua anterior detenção, que, por acaso, foi determinada pelo mesmo motivo.
O tom sarcástico do Professor Snape se contrastava com a mansuetude das palavras por ele ditas à Hermione. Mesmo isso não foi possível trazer a zombaria de volta aos Sonserinos, que pareciam tão preocupados quantos os colegas de classe, afinal, ver a melhor aluna de Hogwarts dos últimos vinte anos, e a melhor aluna de Poções, errar grotescamente por duas vezes quase consecutivas, era um caso quase de vida-e-morte, pra deixar qualquer um preocupado.
—Ouch! Merlim! Nem eu teria errado essa fórmula deste jeito, Mione! Você não está bem, nada bem!
—Neville! Seu trasgo! Não torne as coisas ainda piores! – Bravejou Harry, puxando Neville grosseiramente pelo braço, afastando-o de Hermione, que olhava estática para o caldeirão ainda fumegante.
Harry conteve-se de segurar nos braços de Hermione, que estavam esticados ao longo do corpo, demonstrando que a aluna estava tão ou ainda mais perplexa com o novo erro cometido na aula de Poções. O rapaz deixou as mãos paradas no ar, contidas, mas falou à garota num tom doce, porém reservado.
—Mione... está tudo bem contigo, não está? Se quiser, podemos levá-la à Madame Pomfrei e...
—Eu-estou-completamente-bem! – Finalmente Hermione se manifestou, mas num tom impaciente, tanto com ela própria quanto com todos que ali estavam. —Será que eu sequer tenho o direito de me distrair e exagerar na dose de um elemento?! Será que não posso, de vez em quando, agir estupidamente como o resto de vocês?!
—Hermione.. não é isso, é...
Como o laboratório de estudos estava em total silêncio, todos puderam ouvir o desabafo nervoso de Hermione, e de perplexos, passaram a indignados, até mesmo os colegas da Grifinória. Hermione poderia ser a melhor aluna dos últimos anos, mas isso não significava que todo o resto fosse um bando de estúpidos... ou sim?
Snape aproveitou a deixa para fazer o que ele queria mesmo fazer... não poderia permitir que a intragável sabe-tudo saísse de Hogwarts ilesa, sem ter sofrido detenções ou advertências. E sabia que um acréscimo a sua atual detenção – que ela havia cumprido apenas duas vezes – a deixaria de péssimo ânimo.
—Vê-se que a senhorita está mesmo muito bem, psicologicamente, Granger... por mim, está livre de fazer uma visita à Pomfrei, mais sua atual detenção sofrerá um acréscimo de mais doze horas, compreendido?
—Aaah! Dane-se! – Hermione sussurrou baixo, mas duvidava muito que Snape não tivesse ouvido. Apontou sua varinha para o caldeirão que não parava de cuspir fumaça, e com um simples aceno toda a desordem desapareceu.
A garota não esperou por ordem alguma, nem se incomodou de dar qualquer satisfação para quem quer que fosse, apenas pegou sua mochila, jogou-a no ombro, e saiu em passos apressados daquele laboratório sombrio. A perplexidade voltou a tomar conta da turma, uns até teorizavam que talvez aquela não fosse mesmo Hermione Granger, mas uma impostora que estava fazendo uso da poção Polissuco.
E se for mesmo uma impostora, o que terá acontecido à Hermione verdadeira?
Oh, céus! Ela foi seqüestrada!
Ou, talvez, apenas abduzida...

Dizer que Nicolai estava desanimado equivalia a contar uma piada... ele era o desânimo, a falta de fé em pessoa! Em contraste a ele, estava Jonathan Davis, que até sustentava o esboço de sorriso em seu rosto arredondado.
Davis levantou-se de sua cátedra e postou-se em meio ao palco, frente ao Juiz, após a chamada deste. O advogado de Nicolai deveria conduzir as perguntas às testemunhas de defesa, e um choque, um desnorteamento, tomou conta de todos os presentes no Plenário, inclusive ao próprio Juiz. Apesar de Davis ter mais de dez anos de magistrado, ele continuava sendo imprevisível em suas decisões e ações; literalmente ele tomava resoluções exclusivas para cada caso que dirigia. Apesar de ser muito questionado e criticado a esse respeito, ninguém ousava afirmar o contrário, de que ele era muito bom naquilo que fazia, muitas poucas vezes perdendo um caso e, nessas vezes, não havia outra saída que não fosse mesmo a condenação do réu.
—Apresente a primeira testemunha a depor em favor do réu, Dr Davis... – Mandou o Juiz.
—Sr Meritíssimo, tomei a liberdade de dispensar todas as testemunhas de defesa, de acordo com a emenda do Código Criminal que trata das testemunhas, que podem ser dispensadas do labor a que foram intimadas, caso se constate que sua atuação seria desnecessária ou, em salvo conduto, que tal atuação fosse desvirtuar o processo.
—Merlim! O que John pretende? – Osborn sussurrou para si mesmo, também perplexo. Conhecia o colega de longa data e já havia atuado algumas outras vezes, tanto contra como a favor, mas até o presente momento ainda não havia entendido o seu estilo... se é que ele tinha um.
O Juiz ficou emudecido por instantes, talvez pensando não ter ouvido direito, tanto que reforçou a pergunta: —Dr Davis, não há nenhuma testemunha a depor? O senhor dispensou a todas? Até mesmo a Alvo Dumbledore?! – O Juiz terminou sua pergunta num sussurro, onde apenas Davis foi capaz de ouvir. O velho magistrado apoiava-se sobre sua bancada, olhando incrédulo para o bruxo metaleiro a sua frente.
—Sim, senhor, Sr Meritíssimo. Não haverá testemunhas de defesa para prestar depoimento.
—Bem.. então... – o Juiz se ajustou na cátedra, limpando a garganta e pronunciando em voz alta: —Com o cancelamento dos depoimentos que seriam dados pelas testemunhas do réu Pavel Nicolai Donskoi, iniciaremos os debates que serão proferidos pelas partes envolvidas no caso, a começar pela acusação, representada pelo Promotor Oz Osborn, seguida pela defesa, representada pelo Advogado Jonathan Davis. Dentro de quinze minutos, as partes deverão se apresentar diante do júri e defender suas asserções.

—E então, John, como está o nosso estimado réu? – Falava mansamente Dumbledore, sentado confortavelmente na poltrona de couro negro na sala das testemunhas. Pernas cruzadas, tamborilando uns dedos nos outros, o mago olhava por sobre os óculos de meia lua para a figura soturna de Jonathan Davis, parado em pé a sua frente, mãos na cintura e expressão indefinida, porém estava tranqüilo.
—Cético e pessimista como ele é, me surpreendo de que ainda não tenha tentado se enforcar... temos um belo lustre na nossa sala que serviria muito bem a esse propósito.
—Ora, não seja moleque John, nunca diga coisas assim, nem de brincadeira. Tenho certeza de que na situação dele, depois de tudo que passou, eu mesmo não agiria muito diferente.. é difícil se ter fé nessa circunstância.
—Isso sem contar que ele não confia nada em mim... certamente me acha um louco varrido.
—Hahahah! E isso é alguma novidade, meu garoto? Nicolai não é o primeiro e nem será o seu último cliente que acha que se meteu numa roubada tendo você como defensor.
—Nicolai é um caso inusitado, mas não é um caso difícil.. já peguei situações realmente complexas. E se tivéssemos o senhor depondo em favor dele, seria tão fácil ganhar esse caso que não teria a mínima graça e o pobre do Oz ficaria ainda mais frustrado!
—Eu sei que você sabe bem o que faz, filho, mas não gostaria que fizesse de seus casos jogos ou brincadeiras.
—Oras, Professor... a coisa sempre dá certo, na maioria das vezes, não dá? A diferença agora é que há a questão da mídia e o Ministério que quer se fazer em cima do ocorrido. No fim, tudo dará certo, eu garanto ao senhor! Embora.. eu ainda não entenda algumas coisas...
—Você está certo, Jonathan, não devo interferir no seu estilo... quanto às coisas que você ainda não entende e suponho quais sejam, depois de tudo se arranjar a nosso favor – e os ancestrais Merlins da Bretanha assim o permitam! – você será esclarecido naquilo que quiser, pois merecerá.
—E quanto ao senhor, Professor... irá assistir a audiência ou ficará aqui mesmo?
—Estarei na platéia, já que não poderei estar na cadeira da testemunha. Conforme envelhecemos ficamos mais sentimentais e me compadeço da situação de Nicolai, e espero que minha presença lhe seja reconfortante e ele saiba que não foi abandonado ou traído com uma jogatina.
—... e mesmo porque, Professor, se Nicolai for absolvido, entrará um outro processo a ser feito em relação à liberdade dele, pois, pela experiência que tenho, não creio que o cara saia totalmente isento de qualquer obrigação, saia com liberdade plena.
—A isso estaremos preparados. Agora apenas nos resta torcer para que o júri acate sua asserção, meu caro Jonathan...

O Patriarca Vassili sempre esteve certo... eu fico completamente idiota quando estou ansioso! Huhuhu! Ele se envergonharia terrivelmente de mim se me visse nesses atos subumanos de desespero! Onde foi parar a minha razão, afinal?
Nicolai se auto-censurava, enquanto esperava pelo retorno de seu advogado na sala destinada ao réu. Estava recostado na parede ao lado do serviço do chá, que deixou intocado desta vez. Gostaria muito que houvesse ali uma janela da qual pudesse ver algo que não fosse aquela sala sisuda que em tudo lembrava aquele desagradável Tribunal. Mesmo que sua vida e sua visão de mundo tivessem melhorado e muito nos últimos quatro anos em que conviveu com Hermione, neste momento ele gostaria – e muito – de ter a mesma visão fechada que tinha antes de ter a menina em sua vida, pois pelo menos neste momento a opressão que sentia seria menos intensa e sequer se preocuparia com o que havia a sua volta. Mas agora, com esse "novo Nicolai", ele queria respirar ar fresco, sentir o vento, ver a claridade natural do dia, e que o ajudaria muito a enfrentar tal situação.
Vanka! É isso que me tornei, um vanka! Como posso ter enfraquecido tanto?! Vergonhoso, vergonhoso... – Nicolai se desencostava e andava em direção à porta, meneando em negativo a cabeça, desaprovando e censurando a si próprio, por ter deixado a ponderação de lado, cedendo lugar a atos irracionais, demonstrando sentimentos que sequer deveria ter.
É, Nico, encare os fatos e aceite, deixando para depois a resolução do que vier. Já passou por situações realmente terríveis e sobreviveu, por que agora está cedendo ao desespero?! Como a Matriarca sempre me dizia: ... Na bezptichyu i zhopa sol/ove'y... "Qualquer porto é bom numa tempestade..."
Neste momento, Davis adentra a sala, convocando seu cliente para voltar ao plenário. Nicolai dá um raro sorriso, algo de quem aceita com resignação seu destino, sussurrando para si próprio aquilo que lhe parecia, neste instante, uma oração, e que, inconscientemente, lhe remetia à lembrança de sua querida avó, a Matriarca Maria Ivanóvna, que sempre lhe deu apoio e conselhos, dando-lhe força e coragem – e graças a isso suportou por tantos anos o castigo da Animago Mortis.
— Na bezptichyu i zhopa ove'y...

Todos já haviam tomado seus lugares no Plenário, que acabava de receber mais espectadores na platéia, pois na "Rádio Corredor" já havia corrido a notícia de que o Caso Donskoi teria finalmente um desfecho, pois os dois advogados, Defesa e Acusação, iriam apresentar suas asserções a respeito de tudo que foi ali exposto e finalmente teria o Julgamento e a Condenação... ou Absolvição.
—Nesta terceira parte do processo de Pavel Nicolai Donskoi, a Defesa e a Acusação deverão expor aos membros do júri suas asserções colhidas durante os depoimentos do réu e das testemunhas de acusação, lembrando, porém, que foi da parte da própria Defesa que as testemunhas que deporiam em favor do réu foram dispensadas. Conforme o estipulado pelo Código de Conduta, a primeira apresentação é feita pela parte da Acusação, representada aqui pelo Promotor Oz Osborn.
O Juiz, após a reabertura da seção, senta-se em sua cátedra, e Osborn apresenta-se ao centro do palco, cumprimentando em respeito ao Juiz e logo em seguida aos membros do júri, aos quais apresentará a sua asserção.
—Senhoras e senhores membros do júri, após vinte e cinco horas corridas do processo, chegamos finalmente ao momento derradeiro onde nos será elucidado esse caso e, conforme o julgamento dos senhores, a justiça será feita.
—Pavel Nicolai Donskoi chegou à Inglaterra há mais de vinte anos atrás, trazido por seus pais da chamada Rússia Oriental, na época, então, pertencente à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, que passava por crises internas e que servia de bom pano de fundo para justificar a saída do país... porém, os planos do casal Donskoi eram totalmente diferentes; o casal Donskoi veio em atendimento à convocação 'Daquele-que-não-deve-ser-nomeado', que buscava desesperadamente por aliados a sua causa.
—O réu, que à época contava com apenas dezesseis anos, foi matriculado na Escola de Magia e Bruxaria Hogwarts, não despertando qualquer suspeita em relação ao envolvimento dos pais com o Círculo das Trevas. Com o filho levando uma vida normal para um adolescente bruxo de sua idade, isso também servia como pano de fundo para ocultar os intentos obscuros. O réu confessou que seus pais, então Comensais da Morte, tinham a intensão de oferecê-lo ao Círculo das Trevas, porém, como o próprio réu afirmou e JUROU, o fato jamais foi consumado. E, segundo o próprio Sr Nicolai Donskoi, o fato de ter sofrido uma maldição proibida pelo próprio Senhor do Círculo das Trevas, foi apenas uma mera retaliação por algum erro cometido por seus pais... erro este que o réu não soube explicar ou apontar.
—E, segundo o depoimento da ex-Auror Bhagata Caborje, que participou das buscas na ocasião do desaparecimento do réu, em vinte quatro de dezembro de mil novecentos e setenta e sete, a afirmativa do réu ganha peso, porém não desvenda o verdadeiro motivo por ter sido amaldiçoado. Como quer que tenha sido, o fato é que o réu, Pavel Nicolai Donskoi permaneceu desaparecido por longas duas décadas, reaparecendo de forma inusitada num acontecimento desagradável.
—E é nesse acontecimento desagradável, a que foi intitulado "Sábado trágico em Hogsmeade", que o réu, segundo ele, adquiriu força de vontade necessária para se libertar da maldição Animago Mortis, proferida por 'O-que-não-pode-ser-nomeado'. Sim! Graças a isso, uma menina foi salva de ser morta por um Comensal da Morte, porém, por outro lado, o sujeito foi morto de forma cruel e desumana, embora o réu afirme que não tinha a vontade humana, pois agiu por instinto animal, mesmo não sendo. Temos aqui, senhores, uma recíproca:
—O réu, com suspeição de pertencer ao Círculo das Trevas, ocultou sua animagia inclusive pelos meses em que esteve em Hogwarts; desaparecido misteriosamente por mais de vinte anos, reaparece num episódio horrendo e cruel, onde um homem foi morto barbaramente, mesmo que este homem seja reconhecidamente um Comensal da Morte e a justificativa para o crime praticado pelo réu tenha sido de salvar a vida de uma pessoa de bem, no caso da jovem bruxa aluna de Hogwarts, Hermione Granger. Os meios jamais deverão justificar os fins, quando estes se apresentam de forma a ferir a dignidade humana, pois que o assassinato jamais deva ser justificado e ainda menos justificado os meios cruéis e desumanos em que tal ato hediondo é executado.
—Peço então, aos senhores e senhoras membros do Júri, que dentro de suas concepções de Justiça, julguem se é possível que um homem possa permanecer junto às pessoas de bem de nossa sociedade, não tendo o devido equilíbrio emocional – pois quem comete um assassinato não pode ser considerado equilibrado – e, num momento de ira ou de perturbação venha a cometer outros atos impensados e impulsivos, justificando-se com isso que a forma animaga o turva os sentidos e raciocínio...
—Considerem também que o passado familiar do réu pode ainda interferir em sua conduta futura, pois que o homem também é um produto do meio em que vive e sendo que o réu, nos anos em que se forma a personalidade humana, passou em companhia e influência dos pais que eram Comensais da Morte. Considerem o fato do réu ter passado a maior parte de sua vida na forma animaga, tendo os seus sentidos humanos entorpecidos e corrompidos pelo instinto selvagem do animal, o mesmo instinto em que o réu se justifica pelo cruel assassínio de um homem, há algumas semanas atrás.
—É confiável devolver à sociedade um homem cujo passado recente pesa um ato repulsivo? É confiável devolver à sociedade um homem de passado incerto, que teve os sentimentos mais nobres de um ser humano turvados pelo instinto animal que se arraigou através da animagia coagida por uma maldição?
—Que a sabedoria dos antigos Merlins de nossa Grã Bretanha se faça presente na decisão acertada dos membros honrados deste Júri, e que a Justiça seja feita dentro dos padrões mais nobres e dignos de nossa sociedade. Aqui se encerra a minha asserção, senhores! Muito obrigado!
Osborn encareceu seu agradecimento com um aceno leve de cabeça e voltou em seguida a sua cátedra. Davis foi convocado, como havia sido anteriormente seu colega, e postou-se ao centro do palco, para a sua asserção, que representava, além da justa defesa de Nicolai, o momento derradeiro do processo de acusação e defesa. Tal idéia não passou despercebida pelo animago, que dirigiu um olhar significativo para seu advogado, que Davis, por frações de segundos, percebeu e retribuiu com uma expressão fria, porém com ar confiante.
—Senhoras e senhores membros do Júri, é com satisfação que venho até vós passar a limpo todo este processo cansativo do caso Donskoi. Temos aqui fatos irrefutáveis que nem a mais pérfida hipocrisia seria capaz de fechar os olhos, pois concordamos, todos nós, que um homicídio é sempre hediondo, mesmo que este tenha sido praticado em legítima defesa própria ou do próximo.
—E foi em legítima defesa própria e de seu próximo que meu cliente, o sr Donskoi, matou um Comensal da Morte, anônimo, sem registros, fato que torna o infeliz sujeito ainda mais obscuro para a sociedade, fato que mostra o quão deveria ser perigoso. O infeliz covarde teve a hediondez de atacar uma menina de dezessete anos, indefesa, despreparada, que apenas aproveitava um sábado ensolarado para passear por Hogsmeade, no tradicional passeio que Hogwarts faz com seus alunos mensalmente ao nosso pacato vilarejo. Penso o que teria sido de Hermione Granger, que todos conhecem, não por esse fato desagradável, mas por seus talentos bem desenvolvidos e por ser a amiga mais próxima do ícone Harry Potter, um menino que foi herói antes mesmo de saber o que era o mundo e que proporcionou a todos nós, quatorze anos de tranqüilidade, sem ofensivas e ameaças por parte do Círculo das Trevas! Penso o que teria sido dessa moça brilhante se não fosse pela intervenção de meu cliente, que impediu que uma verdadeira tragédia tivesse acontecido. E digo-vos, senhores, com toda a certeza que minha longa experiência neste meio de mentes pervertidas pelo crime e ambição, que a morte teria sido pouca coisa comparada ao que o anônimo Comensal da Morte teria feito àquela pobre menina, sozinha e indefesa num local isolado como as margens do córrego de Hogsmeade, onde tudo ocorreu.
—Sim, meu cliente cometeu um homicídio e no auge da horrenda situação, onde acreditava que a jovem Hermione Granger estava morta por estrangulamento – pois, como sabem, a moça foi espancada e estrangulada pelo Comensal – ele usou de demasiada força, uma força que ele não poderia controlar estando inconsciente de si mesmo, inconsciente que havia rompido com uma maldição que o dominava há vinte anos. Não podemos culpar um ser inconsciente de seus atos, pois tudo que o sr Donskoi queria é que o homem pagasse o mal cometido contra uma pessoa de bem, uma pessoa brilhante e de futuro promissor que é Hermione Granger, a melhor amiga de Harry Potter, o nosso pequeno salvador e logo implacável inimigo 'Daquele-que-não-se-nomeia' e daqueles que o seguem pela turva senda das Trevas!
—E penso, também, senhores, que se meu cliente, em algum momento de sua vida houvesse tido qualquer envolvimento com o Círculo das Trevas, ele nunca que teria se voltado contra os seguidores e teria, mesmo que em sua forma animaga, tentado algo contra o fabuloso Harry Potter, pois, como sabemos, o réu, enquanto na forma animaga do gato de estimação de Hermione Granger, tinha acesso irrestrito ao círculo dos bons de Hogwarts.
—E é algo de extrema injustiça imputar uma conduta a alguém apenas por osmose: dizer que meu cliente, o sr Donskoi, pode ter ou vir a ter inclinações para o crime e para o Círculo das Trevas pelo fato dos pais terem seguido o 'Inomeável', é revitimar o réu: primeiro pelo intento que os pais tinham de entregá-lo como um presente ao senhor das trevas, intenção esta confirmada pelo renomado Mestre de Poções Severus Snape, em seu depoimento na primeira parte desta seção, intenção contra a qual meu cliente lutou como pode, escondendo, inclusive, a sua animagia, para que o processo de sua entrega não fosse adiantado devido a vantagem a mais oferecida e que, provavelmente, foi a causa de sua maldição; e meu cliente é vitimizado pela segunda vez ao acusá-lo de ser um Comensal apenas porque seus pais o eram... pensamento este pueril e injusto.
—O único crime realmente cometido por meu cliente é exatamente este: o homicídio, embora por legítima defesa própria e de Hermione Granger, a quem conseguiu proteger e salvar da morte trágica, mesmo que por meio escuso e cruel. Mas... lembremos que todo e qualquer réu que aqui depõe, antes jura sob magia responder a verdade e nada além da verdade, e.. Pavel Nicolai Donskoi afirmou, mais de uma vez, que não tinha consciência de sua condição humana no momento do crime perpetrado por ele. Ao ver o ente querido abatido, os instintos que se impregnaram pelos longos anos de cárcere carnal por uma maldição imperdoável e obscura se afloraram ao seu apogeu e o pobre amaldiçoado fez o que pensou ser a única coisa que realmente poderia fazer: fazer com que o Comensal pagasse com a própria vida a vida inocente tirada por ele mesmo, momentos antes.
—E será que devemos condenar Pavel Nicolai por ocultar sua animagia? Como o próprio réu afirmou em plenário, ele não tinha outra opção além de contar consigo próprio. Seus pais eram criminosos, Comensais da Morte à serviço do 'Inomeável'. Como filho, deve-se honrar pai e mãe, por mais errados que estes estejam; não poderia buscar ajuda de Alvo Dumbledore ou mesmo do Ministério, pois isso acarretaria pronta delação e prisão de seus pais; não podia recorrer ao único que poderia ajudá-lo, seu avô, pai de seu pai, que, por motivos que cabem a ele e sua cultura, deserdou e rompeu definitivamente os laços com o filho e sua família. O que mais um garoto de dezesseis anos poderia fazer? Apenas esconder-se, então...
—Foi provado dentro deste plenário que o réu não tem ou teve qualquer vínculo com o Círculo das Trevas, ficou provado em prova evidente e contundente que o réu não é e nunca foi um Comensal da Morte, pois que através da aplicação da Morsmordre, feita perante todos que aqui estavam, não surgiu nenhuma evidência que provasse o contrário. Pavel Nicolai Donskoi é completamente inocente nesta acusação.
—Portanto, senhores, não vejo onde poderíamos condenar o réu à pena de ser enviado à Azkaban, visto que seus crimes nada foram além de erros e equívocos: uns causados pela inexperiência e desorientação de um adolescente despatriado e vivendo uma séria crise familiar, outra de um ser humano entorpecido por uma maldição trevosa que o agrilhoava ao corpo de um animal por longas duas décadas... ponderemos, senhores, dentro de nossos conceitos mais justos e nobres e vejamos se o réu já não foi suficientemente penalizado por deslizes cometidos e se o réu não merece uma chance de se tornar uma pessoa de bem, como já provou ter tal propensão, ao contrair pesado débito ao salvar a vida de uma jovem promissora que, certamente!, fará muito ainda pelo Mundo Bruxo... muito obrigado!
Nicolai estava estupefato com a atuação de seu desprezado advogado de defesa. Achou convincente as palavras anteriores do promotor Osborn, mas ouvir e ver Davis atuando lhe remetia a um 'quê' que não sabia especificar... estava atordoado e não sabia dizer se pelas palavras misericordiosas do advogado ou por um magnetismo que parecia vibrar dele, no momento da asserção... talvez fosse essa a manifestação daquilo que ele havia dito, que Alvo Dumbledore havia lhe dito ser sua magia: Einfühlung e Persuasione – Empatia e persuasão.
E no mesmo instante em que se lembrava da figura onipotente de Dumbledore, eis que uma mão longa e fina pousa suavemente em seu ombro, quebrando-lhe o certo encanto em que parecia estar. Olhando por sobre o ombro, Nicolai avista a figura bondosa do Diretor de Hogwarts, sorrindo-lhe docemente e lhe transmitindo confiança e alegria através daqueles olhos azuis-água que transpiravam uma sabedoria anciã.
—Tudo dará certo, meu filho! Confie em seu destino...
Nicolai abriu a boca para responder algo, mas não foi capaz de externar sua voz. Neste mesmo instante, o Juiz encerrava a seção, estipulando um intervalo de uma hora para que os membros do Júri se recolhessem na sala precisa a eles e chegassem ao consenso de absolver ou condenar Pavel Nicolai Donskoi.
Uma atmosfera de ansiosa expectativa pairava no ambiente, tornando o ar dali quase que eletrizado. Nicolai sentiu o gelo emotivo o invadindo em seu âmago e soube, então, estar verdadeiramente diante de um momento derradeiro, mas também sentia-se aliviado por saber que toda aquela pressão já havia terminado. O que viesse depois, sua absolvição ou condenação, seria apenas um fato a ser comemorado ou enfrentado de cabeça erguida, mas não mais a terrível pressão psicológica enfrentada dentro do Tribunal.
Enfim, o fim havia chegado. Bem ou mal, algo dali sairia e não haveria mais a indefinição de sua situação, pois algo se resolveria a seu favor ou contra.

Fim do Capítulo 43 - continua.
By Snake Eyes - 2007.

N/A: Bem, usei novamente alguns termos em russo, porém não posso afirmar com exatidão que estão completamente corretos, mas, de qualquer forma, aí vai a tradução:
Na bezptichyu i zhopa sol/ove'y - Qualquer porto é bom numa tempestade. – Neste caso, há a dúvida quanto aos termos 'sol' e 'ove'y', que estão separados por uma barra. Ou são termos distintos, e devem ser escolhidos de acordo com a circunstância da frase ou a barra é algum tipo de acentuação usada no idioma. É um mico usar algo sem saber, então peço que, se alguém souber, pode reclamar.
Vanka (van'ku) – é o nome dado ao personagem idiota de histórias que se passam em aldeias.

Santa Tranqueira Magazine