quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Animago Mortis - Capítulo 40 – Preocupações Descartadas?

Capítulo 40 – Preocupações Descartadas?

O ambiente insólito se estendia a sua frente. Toda vez em que ele aparecia ali para receber alguma nova ordem ou para levar notícias, tinha a impressão que aquele lugar – suas paredes, teto e chão – estavam cada vez mais impregnados de uma carga negativa que começava a se tornar material e visível ao simples olho carnal. Não saberia dizer se era simples impressão sua, mas às vezes tinha a horrível sensação de ver algo pastoso como um óleo negro e muito denso escorrendo pelas paredes. Às vezes, em apenas lapsos de segundos, tinha a impressão de que todo o lugar havia se tornado pastoso e – pior! – vivo, como se pulsasse! Mas ao fixar a vista, tudo isso desaparecia e apenas via o que deveria ser considerado normal: um aposento com poucas peças mobiliárias, mergulhado na penumbra das janelas sempre trancadas e escondidas sob grossas e escuras cortinas, e que ainda sustentava a opulência de uma outrora já distante.
Seu mestre, de uma paciência oportunista, apenas o observava com um sorriso de escárnio que deixava a mostra seus dentes afiados como presas. Gostava de observar as reações daqueles que o serviam, pois, por mais que eles se diziam pertencerem às Trevas, sempre os pegava temerosos e esquivos quando deparavam-se com a verdadeira essência das Trevas. Ele bem sabia o que Peter Pettigrew tentava enxergar com horror, mas crendo que era apenas impressão, delírio.

Ele aprendeu a ter paciência e a não esperar demais de seus "fieis súditos". Quase todos eles simplesmente infartariam se entendessem realmente o que são as 'Trevas'. Infelizmente eram apenas uns tolos cegos. Pouquíssimos foram os que realmente o seguiram com o verdadeiro conhecimento de causa, isto é, o seguiram sabendo exatamente em que solo estavam pisando.

Mas, bem, paciência... para meros peões, eles ao menos serviam muito bem. Eram reles animais de carga, não necessitavam de consciência.

—E então, Rabicho? Vai me dizer ao que veio ou vai continuar aí, admirando a decoração de meu humilde aposento?

Pettigrew virou-se alarmado para Voldemort. As "visões" haviam feito com que ele esquecesse momentaneamente de onde estava e da presença de QUEM estava.

—Perdão, Milorde! – Ajoelhou-se ao chão, debruçando-se e encostando sua testa no taco de madeira escura. —Eu vim trazer-lhe uma notícia que talvez interesse ao senhor!

—Oh, bom menino... – ironizou Voldemort. —Há algo de que acha que eu não tenho conhecimento?

—Bem, não.. quer dizer... sei que o senhor está sempre a par de tudo, mas, sabe como é? Há tantas coisas importantes para o senhor se preocupar, Milorde, que creio que certos fatos menos relevantes lhe possam escapar.

—Então, Rabicho, veio até aqui para me trazer alguma notícia sem importância? – À menção de Voldemort, Pettigrew começou a ficar nervoso, fazendo trejeitos estranhos, tentando se explicar, porém foi salvo pela pouca disposição de seu mestre naquele dia para se deliciar com a angústia daqueles que o servem.

—Está bem, está bem, não precisa se justificar! – Voldemort levantou-se de sua confortável poltrona, meneando com sua mão macilenta e branca como osso, de dedos longos e finos cujas unhas pareciam mais garras afiadas, indo até a cômoda a um canto do aposento. —Diga ao que veio, e seja breve!

—Os jornais publicaram um caso que ocorreu em Hogsmeade, de um animago que derrotou e matou um de nossos Comensais e...

—Sim, é óbvio que já sei isso! – Voldemort jogou aos pés de Pettigrew o exemplar d'O Profeta Diário em que noticiava em primeira página o caso do "Sábado Trágico em Hogsmeade", contando sobre o aparecimento de um bruxo animago que diziam ter sido amaldiçoado e permanecido na forma de um gato por mais de vinte anos.

—E é óbvio de que sei de quem se trata, afinal – Voldemort alargou seu sorriso... —não é muito comum haverem animagos amaldiçoados por aí. E se você estava em dúvidas, Rabicho, pode passar a ter certeza desde agora!

Pettigrew mostrou-se nervoso, balbuciando monossílabos sem saber exatamente o que dizer, devido a sua confusão mental. Voldemort sentia-se enojado com situação patética como essa...

—Seu rato de esgoto! Por que está nervoso? Por acaso com medo do antigo colega de escola? Se ele não conseguiu pegá-lo aquela época, se ele conseguiu ser capturado por você – que é realmente algo para ficarmos admirados! – e não conseguiu acabar com você enquanto você era apenas um rato imundo e ele um gato vadio, acha que ele poderá fazer algo contra você agora?!

—Eu não sei, Milorde... mas, ele se libertou da Animago Mortis, a maldição que o senhor proferiu! Ele se libertou sozinho, Milorde!

—E eu devo me preocupar com isso, Rabicho? – Voldemort perguntou em tom de cinismo. —Ou será que acha que eu desconheço o contra-feitiço da maldição?

—Não, senhor, claro que não, mas é que...

—Sim, eu sei o que teme... acha que Nicolai Donskoi se tornou mais poderoso do que eu? De que ele é capaz de buscar sua vingança e me derrotar? – O tom de incredulidade na voz soturna de Voldemort era muito visível, deixando Pettigrew ainda mais constrangido diante do Lorde das Trevas.

—Eu.. eu não sei exatamente, senhor, mas eu...

—Sim, Rabicho! Você deve mesmo se preocupar... preocupar-se consigo mesmo caso o ex-gatinho de Hermione Granger o encontre por aí!

—Milorde!

—Eu acho incrível como vocês querem servir pra algo sem se dedicarem ao mínimo em adquirir conhecimentos! O que vocês sabem a respeito da magia, suas aplicações e contra-aplicações, se resume apenas ao exterior, à superfície!

—Já que não foi capaz de aprender nada enquanto esteve em Hogwarts, vou lhe explicar um pouquinho desse mecanismo: Pavel Nicolai Donskoi tornou-se, sim!, mais poderoso do que eu. No momento em que ele conseguiu romper a barreira da magia que o aprisionava no corpo animal, se ele tivesse me enfrentado com uma varinha em punho, é muito provável que ele tivesse me derrotado. Sim! E não é preciso fazer essa cara de espanto que lhe deixa com a feição ainda mais idiota! No momento que o jovem Donskoi rompeu a barreira, ele tinha poder para destruir até mesmo tudo a sua volta apenas dizendo a palavra certa. Mas foi apenas isso! Dê-lhe agora uma varinha e mande-o executar um simples cruciatus.. não conseguiria fazer nem cócegas em sua vítima!

Pettigrew ficou olhando para Voldemort boquiaberto, com expressão parva no rosto. Ele, definitivamente, não conseguia entender como aquilo poderia ser possível: se Donskoi foi poderoso o suficiente para subjugar e romper com o feitiço de Voldemort, como agora ele não era capaz de fazer um feitiço com o mínimo de eficiência?

Voldemort se divertia com a parvoíce de seus súditos.

—Definitivamente, Peter Pettigrew, você é um azarão! Você deve ser o bruxo mais sortudo que já pisou no Reino Unido! Como é possível um ser estúpido como você ter feito tanto quanto já fez e ter chegado tão longe? A sua estupidez deve protegê-lo, com certeza!

Voldemort dá por encerrado esse assunto. Não suportava mais a presença daquela besta humana.

—Volte para o seu buraco e não me apareça novamente aqui com essas amenidades! Donskoi continua não sendo ameaça alguma para mim ou para o Círculo das Trevas! Ele continua a ser o que sempre foi: um eslavo bárbaro com orgulho ferido e idéias de super-herói! Ele apenas foi capaz de romper a barreira do feitiço porque acreditou ter perdido a sua amada para aquele Comensal brutamontes e estúpido! Apenas idiotas como Dumbledore crêem que o amor é a força para se destruir o indestrutível como as Trevas! Suma! Desapareça!

Pettigrew não esperou segunda ordem e pôs-se fora dali em instantes. Apenas quando estava a centenas de metros distante da mansão onde Voldemort se escondia é que se permitiu um comentário, dito de si para si mesmo:

—O 'amor' pode não ser mesmo tudo isso como o Lorde diz, mas que foi capaz de fazer um amaldiçoado vencer uma maldição que já durava anos, isso foi capaz! Logo não acredito que seja algo para se descartar de nossas preocupações. Isso só pode ser o início de um passo mais importante. Se o Lorde já não consegue tomar o Mundo Bruxo por conta de ter como oponentes Harry Potter e Alvo Dumbledore, o que dirá se houver mais um bruxo que se iguale em poder com eles?!

—Devemos saber o que Voldemort acha do caso Donskoi, Severus. Tenho certeza de que ele já sabe até de mínimos detalhes. Ele não deixaria o caso passar despercebido.
—Ainda não recebi uma nova convocação, Alvo, mas isso deve ocorrer em alguns dias. Mas não creio que Nicolai seja preocupação para o Lorde.

Alvo Dumbledore e Severus Snape debatiam assuntos referentes à Ordem da Fênix e a Voldemort dentro do gabinete circular do Diretor de Hogwarts. Serviam-se de chá com biscoitos e torradas como fosse uma simples reunião amigável.

Para Dumbledore, o caso de Nicolai já era um caso ganho, principalmente sabendo a verdade por trás dos bastidores da justiça. Infelizmente, Nicolai não era mais que um mero bode expiatório... mais uma humilhação para o currículo do rapaz. O que o preocupava era o futuro dele depois desse julgamento.

Quanto a Snape, sua preocupação era referente a Voldemort.

—Obviamente que o Lorde não tem nenhum conhecimento sobre o que eu sei de Nicolai, quando éramos Comensais do Círculo das Trevas... não devemos jamais esquecer que o orgulho e a prepotência sempre o deixaram cego para as coisas mais evidentes. É certo que ele não me perguntará a respeito do porque eu não fiz nada com Nicolai enquanto ele vagava por Hogwarts como um mero gato – mesmo porque eu realmente nunca tive esse conhecimento, de que ele era um animago e, mais!, que vestia a forma felina! Mas certamente me pressionará para mantê-lo informado, caso ele seja absolvido no Tribunal e permaneça por perto.

—Isso também me preocupa, Severus... precisamos torcer para que ele não veja Nicolai como uma ameaça a ele, pois será mais um a quem deveremos redobrar vigilância, e já temos coisas demais para vigiar e nos preocupar.

—Assim que os jornais publicarem os detalhes do julgamento, eu temo que será possível que ele venha a se interessar por Nicolai, Alvo...

—Por que diz isso?

—Ora! Nico não apenas rompeu o feitiço do Lorde, como também, ao que parece, libertou-se do Círculo das Trevas! Eu ainda não compreendo como ele não apresentou a Marca Negra! Não há precedentes, mas será possível que se adquira poder suficiente para isso?

Dumbledore deu um sorrisinho enigmático e levou sua xícara com chá à boca. Só após instantes ele respondeu algo ao Mestre de Poções:

—Não há precedentes porque não houve realmente nenhum Comensal com força de vontade suficiente para se libertar do Círculo... mas, tudo é possível, não acha? Animago Mortis é uma arte tão rara quanto obscura, não podemos afirmar com certeza todos os efeitos colaterais de seu contra-feitiço, não é mesmo meu caro Severus?

Snape conhecia aquela expressão cínica de Dumbledore. O velho mago sabia a resposta, não iria dá-la e estava sondando-o... e ainda há quem diga que ele tem confiança cega em seus aliados...

—Sim, o senhor está certo, Alvo... são necessários anos de pesquisa para catalogarmos todos os efeitos dessa maldição que, graças a Merlin!, é tão ainda mais rara que os próprios animagos.

O Mestre de Poções deixou sua xícara vazia sobre a mesa, levantando-se em seguida e se despedindo de Dumbledore. O fato da Marca Negra de Nicolai não ter aparecido é mesmo um mistério que somente o Diretor sabia e que ele não iria contar, pelo menos não agora. Ou talvez Nicolai jamais chegou a pertencer oficialmente ao Círculo das Trevas? Essa hipótese também é provável. Mas deixaria essa curiosidade menor para ser sanada em outras circunstâncias, quando toda essa tensão de julgamento finalmente viesse ao fim.

Antes de sair, Snape volta-se para Dumbledore, com outra dúvida:

—Alvo.. recebeu alguma resposta dos avós de Nico?

O semblante do velho mago se entristeceu e ele depositou com cuidados sua xícara e pires sobre a mesa, meneando em negativa a cabeça, já adiantando sua resposta:

—Lamentavelmente não, meu caro...

—Ao menos, eles receberam sua carta? Ainda estão vivos?

—Sim, Severus.. pelo menos Vassili Donskoi eu tenho certeza de que ainda vive, pois foi a ele que Fawkes entregou a missiva... mas, uma resposta? Não, nenhuma ainda. Talvez estejamos nos precipitando, devemos dar mais tempo antes de desanimar...

—Não sei, Alvo...creio que no lugar de Vassili, eu já até estivesse aqui pessoalmente... mas, cada cabeça é uma sentença, como os Trouxas gostam de dizer, não é mesmo?
Dumbledore riu.

—Quem diz que você é um insensível, realmente não o conhece mesmo, não é Severus?
Snape sorriu em retribuição antes de sair porta afora, esvoaçando sua típica capa negra.

—E é assim que deve ser, Alvo...

Fim do Capítulo 40 - continua.
By Snake Eye's - 2007.

Santa Tranqueira Magazine