sexta-feira, 19 de julho de 2013

Animago Mortis - Capítulo 39 – Manhã Dorida

Animago Mortis - Capítulo 39 – Manhã Dorida

Quanto tempo já havia se passado?
 
Mais de sessenta anos... há muito tempo deixara de comemorar essa data... há muito tempo... há mais de vinte anos...

Jamais assumiu isso para quem quer que fosse, nem para seu reflexo no espelho, mas sabia que esse sentimento existia no fundo de seu âmago.

Quando seu filho tomou a pior decisão de sua vida, quando se foi, levando dali a esposa e o neto adorado, quando eles se foram sob as piores condições possíveis – sendo sua uma parcela de culpa nisso – algo de sua alma foi junto e morreu pelo caminho... não apenas a sua alma fora destroçada, mas também a dela, a Luz de sua existência.

Pois bem, mas de sessenta anos já haviam se passado e ela ainda era um enigma para ele... ainda não era capaz de conhecer seus pensamentos com pequenos gestos e olhares, com apenas o descompassar da respiração, como ela fazia com ele. Ela o conhecia profundamente, lhe dava as respostas sem que ele chegasse às perguntas; sempre estava por perto e oferecia o colo de seu consolo sem ele sequer demonstrar que precisava disso. Mesmo após sessenta longos anos de convívio intenso, sem terem se separado por um tempo mais longo do que poucos dias, ele ainda não a compreendia e ainda se encantava...

Ela estava lá nos jardins, parcialmente deitada naquela grande rocha recoberta de musgos e liquens; os longos cabelos lisos e prateados e o longo vestido sedoso e claro escorriam pela rocha e vegetação como fosse uma pequena cascata. Os cedros e abetos ao entorno formavam uma barreira contra a luz direta do sol que já se tornava cada vez mais tímido aquela época em que transcendia o outono. O vento manso fazia as folhas das árvores bailarem lentamente e o cedro despejava sobre ela, e tudo a sua volta, suas folhas penadas e as grandes flores alvas. Dela sempre emanou uma suave luz dourada que ele nunca soube dizer se realmente vinha dela ou vinha de seu próprio fascínio que sempre tivera por ela.

A criação machista que teve, os ensinamentos desde tenra idade de que ele era superior e inatingível, jamais surtiram qualquer efeito sobre ela, jamais foi capaz de usar isso contra ela... talvez por amá-la demais, jamais teve a ousadia de sobrepujá-la... mas a verdade ele sabia, embora não confessasse abertamente: ela lhe era superior, muito superior, embora jamais tivesse se posto acima dele em qualquer situação ou por qualquer motivo... talvez jamais isso fora necessário...

Aproximou-se calma e lentamente, não queria estragar aquele momento, aquela "pintura". No alto de seus quase oitenta anos, ainda sentia-se um menino ante ela, pois a superioridade natural dela o remetia a um humilde servo e que lhe devia todo o respeito do mundo.

Seus olhos dourados perdiam-se vagos pelas folhas irrequietas das árvores, trazendo brilhos difusos que modificavam constantemente as sombras e a luz. Somente depois de alguns instantes que ela percebeu que seu marido ali estava, e voltou lentamente seus olhos para ele, esperando por suas palavras.

Vassili entendeu aquele olhar como um consentimento e encontrou um lugar na rocha para sentar-se ao seu lado, não tão confortavelmente como Ivanóvna, mas o suficiente para desfrutar daquele momento ao lado dela. Ele gostaria de ser capaz de encontrar as respostas que queria somente olhando para os olhos dela, como ela fazia com ele, naturalmente, sem sequer usar de qualquer artifício ou magia para isso... mas ele, realmente, não tinha esse dom.

—Estás distante hoje, Ivana, já não estavas no solar quando saí para vistoriar os serviços dos campônios e checar nossas terras...

Ivanóvna ainda manteve seu olhar vago por alguns minutos, até achar por bem compartilhar aquilo que vinha já algum tempo se questionando.

—Ainda hoje me intriga o fato de seus pais terem escolhido a mim para a sua esposa...

Vassili estreitou os olhos e forçou as sobrancelhas, pensando se havia entendido ou não o que Ivanóvna acabava de lhe falar. Arqueou o corpo mais para frente, para encarar a esposa.

—Que conversa é essa, Ivana??

—Minha família não era tão rica e nem tão... tradicional quanto a Donskoi, e mesmo assim seus pais me escolheram...

—Tradicional que dizes é pertencente às Trevas... – Divagou Vassili, mais para si mesmo do que para Ivanóvna. —Mas não entendo onde queres chegar, Ivana.. não achas que já é muito tarde para esse tipo de questionamento existencial? – Embora a estranheza da conversa, Vassili não pode deixar de sorrir, afinal, divagações filosóficas eram bem comuns à esposa e, quase sempre, ele não entendia de pronto onde ela queria chegar.

—Eu queria equilibrar a educação de nosso filho, não queria que ele seguisse um caminho sem conhecer e ter outras opções... penso que se eu tivesse a mesma tradição que você, nosso filho teria sido forte o suficiente e não teria se deixado seduzir por... eu falhei quanto a Dmitri... – Ivanóvna terminou suas palavras com a voz embargada e os olhos marejados.

Vassili ficou pasmado por instantes, não acreditava no que ouvia.

—Ivana! A senhora ainda jogas a culpa em ti pelo erro cometido por Dmitri?! Isso é ilógico, é inaceitável!

—Somente o senhor deverias ter sido o responsável pela educação de Dmitri, Vânia! Ele teria recebido a educação tradicional do Clã Donskoi e não teria sucumbido a nenhuma tentação ilusória.

—Maria Ivanóvna! Isso é irracional! Tu não podes te culpar pela decisão estúpida e errada de um homem de quase quarenta anos! Dmitri era um homem formado, maduro, responsável, já não era uma criança há muito tempo! Ele fez uma escolha, uma péssima escolha! Ele tinha suas opções e tinha, principalmente, os nossos conselhos! Fizemos tudo que era possível para que ele enxergasse o erro que estava cometendo. Ele era um ser humano consciente e inteligente, não poderíamos ferir seu livre-arbítrio com a coação de magia negra, pois era a outra opção que tínhamos além dos diálogos e dos conselhos, que não foram poucos, principalmente da senhora!

Maria Ivanóvna debruçou-se sobre si mesma, apoiando seus braços sobre as pernas, deixando novamente o olhar vago e marejado descansando pelas folhas secas e flores brancas que se espalhavam pelo chão de seixos e gramíneas. Silenciou-se por algum tempo, até que a angústia da impaciência de seu marido fez trazê-la de volta à conversa:

—Por que isso agora, Ivana? Isso tem a ver com aquela maldita carta de Dumbledore?

A mulher voltou seu olhar para o marido, que estava incrédulo e aguardava uma resposta. A resposta veio, mas não era a esperada.

—Essa noite aconteceu algo... não tenho plena certeza sobre o que ocorreu, mas a intuição que tenho disso é que o que aconteceu foi mais que um sonho...

Vassili respondeu com um silêncio inquiridor. Maria Ivanóvna prosseguiu.

—Foi tão real e tão detalhado... eu senti uma força a me chamar, a me puxar para fora de mim mesma, para fora de meu corpo... andei o corredor do segundo pavimento.. estava horrivelmente opressor, com uma escuridão densa... fui até o salão de atividades, mesmo que a sensação que ele me causava de pavor me fizesse querer fugir dali, correr, voltar para a proteção de meu corpo e despertar daquele sonho horrível... as sensações eram muito nítidas.. materiais, eu diria...

A mulher não se conteve, não suportou manter-se sentada. Levantou-se nervosa e caminhou até ao grande cedro que estava a sua frente, apoiando-se nele e tentando se acalmar observando a paisagem pré-outonal que já cobria a natureza em volta.

Vassili não suportou a tensão e também se levantou, indo até a sua esposa, levando a mão ao ombro esquerdo dela, como se quisesse passar-lhe a coragem que lhe faltava para terminar o relato de seu sonho estranho. Inanóvna entendeu o recado.

—Dentro do salão a atmosfera estava carregada, terrivelmente trevosa, o ar estava pungente... e vi, horrorizada, vultos negros, esfarrapados, pútridos, como fossem dementadores! Eles rodopiavam pelo salão como fossem um enxame e no meio daquela tormenta negra, eu os vi, meu Deus! Eu os vi!

Ivanóvna finalmente caiu em prantos, sendo imediatamente amparada por Vassili, que a envolveu em seus braços, querendo ampará-la e protegê-la. Sabia que não se tratava de um delírio de sua esposa.. sabia também que não se tratava apenas de um sonho infeliz... mas queria saber o restante do que ela presenciou.

—Quem a senhora viste, Ivana?

Ivanóvna tentou novamente se acalmar e controlou seu pranto. Só então pode dar prosseguimento ao seu relato, mas sem sair da segurança dos braços do marido.

—Nosso filho, Dmitri.. e nossa nora, Nikita... Santo Deus, eles estavam irreconhecíveis, mas por alguma razão sabia que eram eles! Eles estavam medonhos, enlameados, ensangüentados, emanavam uma energia terrível! Dmitri esbravejava e Nikita chorava convulsivamente! O horror foi ainda maior quando entendi o que ele dizia! Dmitri amaldiçoava o próprio filho! Ele estava amaldiçoando o nosso neto, Pavel! Foi então que percebi uma energia diferente, uma força frágil, desesperada, que buscava socorro, então vi, prostrado diante de nosso filho, encoberto por um espectro negro.. era Pavel! Pavel, nosso neto!

—E como nos tempos em que ele era só um pouco mais que um bebê.. quando ele corria debilmente por essa estrada de seixos e caía... tudo que eu queria naquele momento era pegá-lo no colo e consolar a sua dor.. que era muita, muita, eu podia sentir!

—Quando eu o envolvi em meus braços, tudo desapareceu, aquela atmosfera trevosa desapareceu e então, acordei.. acordei ainda sentindo o nosso neto em meus braços, sentindo ainda a dor dele...

Ivanóvna voltou a chorar, escondendo seu rosto no ombro do marido, que a apertou ainda mais contra si. Não era hora de criticar, de maldizer, de opinar. Apenas ficaram ambos ali, entre os cedros e abetos, entre as pedras e a vegetação rasteira, ora iluminados pelos raios de sol que venciam os obstáculos das copas das árvores, ora encobertos pela sombra que essas produziam ao balançar do vento constante.

Hermione fez um rápido desjejum e fugiu para os jardins de Hogwarts, indo instintivamente para as margens do Lago da Lula Gigante, refugiar-se entre as grandes raízes sobresselentes da imensa figueira que parecia se debruçar sobre as águas.
 
Sentou-se sobre a raiz e ficou ali divagando seu olhar pelo espelho d'água, ora plácido, ora tremeluzente com uma brisa mais forte. Folhas oxidadas pelo tempo já começavam a navegar sem rumo pelo Lago e a floresta na margem oposta começava a perder seu verde vibrante, cedendo lugar para os ocres e amarelos que começavam a salpicar as árvores de densas folhagens.

Queria espairecer. Queria respirar. Queria se sentir livre e leve. Não queria carregar por mais tempo aquela opressão que sentiu dentro daquele salão sisudo do Tribunal. E divagando, percebia a simplicidade do mundo e da vida. Tudo na natureza parecia transcorrer normalmente, sem subversão, sem revolta.. tudo parecia obedecer à risca os planos de um Pai Maior, sem contestar, sem inventar problemas... e acabou percebendo que tudo parecia ser sempre feliz, sempre resignado, e apenas o ser humano causava todos os tumultos, porque não aceitava simplesmente ser feliz como havia sido criado.

Tudo é muito simples. As pessoas que complicavam. Tudo parecia feliz com aquilo que lhe fora planejado. Somente as pessoas não aceitavam a felicidade simples.

Ouviu passos cautelosos sobre a grama. Era horário de aulas, então não poderia ter muitas pessoas ali que pudessem estar vagando a essa hora. Pensou que poderia ser Alvo Dumbledore ou mesmo Hagrid, por isso olhou alegremente por sobre o ombro.

Sentiu o peito gelar quando suas perspectivas se mostraram frustradas. Não era nem Dumbledore e nem Hagrid que ali vinha, mas um Harry cauteloso, de expressão tensa.

Instintivamente Hermione se levanta, em defensiva. A última vez que uma situação como essa envolvendo ela e Harry aconteceu, foi aquele beijo forçado, nesse mesmo lugar, há alguns dias antes. A lembrança da sensação desagradável de violação a fez tomar uma posição sobressaltada e defensiva. Harry percebeu.

—Não.. não se preocupe, Mione... Eu.. eu não estou aqui para faltar novamente com o respeito com você... jamais, jamais voltarei a fazer isso novamente, prometo! Eu só queria saber como está. Eu estava... nós estávamos muito preocupados com você..

Hermione abaixou a cabeça, um pouco envergonhada. —Está certo, está tudo bem...

—Você.. você foi convocada pelo Ministério... como foi por lá? O que aconteceu, afinal?

A garota tornou a encarar Harry, ponderando se devia lhe contar alguma coisa ou não. O forte sentimento de amizade que nutria pelo garoto falou mais alto e achou por bem que ele deveria saber de algumas coisas, uma compensação pela preocupação que ele teve por ela.
—Fui intimada pelo Ministério para depor a favor de.. Donskoi... apenas isso.

—Imaginei que fosse... Neville viu quando.. Donskoi foi levado na semana passada por homens do Ministério... – Harry falou com certa cautela, tinha medo de alguma reação explosiva da amiga.

—O quê?! Como Neville viu isso?!

—Sim... sabe como é aqui em Hogwarts... nunca nada é tão sigiloso.

Hermione voltou seu olhar para o Lago, estava furiosa. Como é possível que nada possa se passar despercebido por seus colegas? Sempre há alguém por perto vigiando, tomando conta da vida dos outros, da sua vida! Volta-se ainda com raiva para Harry, precisava saber até onde foi essa história.

—E o que mais Neville lhe disse?

Harry pareceu desconsertado com a pergunta. Titubeou, não queria responder, mas já era tarde demais, já havia falado demais e Hermione não deixaria isso passar em branco. Ela tiraria a verdade dele de uma forma ou de outra.

—Neville ouviu quando os agentes mencionaram que o tal Donskoi é um Comensal da Morte... mas viu também que Dumbledore o defendeu e ainda ameaçou um processo contra o abuso dos agentes.

Hermione ficou quase possessa. Mas abriu um sorrisinho cínico, zombeteiro. A essa altura metade de Hogwarts deveria saber desse boato, muitos deviam estar se regozijando, como Harry parecia estar, então era um prazer enorme fazer os boateiros, os intrometidos, quebrarem a cara com a verdade.

—Fiquem então sabendo que aquilo não passou de uma provocação idiota de um agente idiota e preconceituoso. Donskoi foi submetido a Morsmordre e se ele fosse mesmo um Comensal da Morte, a Marca Negra teria aparecido em seu corpo, diante de todos! A Marca NÃO apareceu! Ele NÃO É um Comensal da Morte!

Hermione saiu apressada e bufando do lugar, deixando um Harry desconsertado, sem saber o que fazer. Não queria ter mais nenhum atrito com Hermione, mas pelo jeito o rancor da garota pelo que ele fez a ela, ainda estava muito vivo em sua memória. Mais uma vez ele ficou mal com a amiga e tudo que ele queria era apenas conversar com ela, como sempre fizera.

Mas o mundo havia mudado, as coisas haviam mudado, ele havia mudado! Hermione já estava longe e ele apenas reforçou um pouco mais o rancor da menina, lamentavelmente.

Fim do Capítulo 39 - continua.
By Snake Eye's - 2007.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Animago Mortis - Capítulo 38 – Pessimismo não ganha causa


Capítulo 38 – Pessimismo não ganha causa...

Hermione desperta numa manhã ensolarada e com poucas nuvens, onde um tímido sol ensaia seus últimos raios quentes de verão que se finda. Dentro do quarto, sob o dossel escarlate que caracteriza as camas dos dormitórios da Grifinória, algo peludo e de focinho gelado cutuca o rosto da garota, que gostaria de poder dormir por mais umas dez horas. Mas a coisinha peluda é insistente e continua a cutucar seu rosto, virando-se e esfregando as costas em sua boca e nariz, fazendo-a ter alergias. Por tão grande insistência, Hermione não tem outra opção do que acordar, nem que seja pra repreender esse bicho abusado. 
 
—Shanks! Seu chato! Você quer me sufocar com esse monte de pêlos, é isso?! – Hermione fingia um aborrecimento, pois o único ser que não a aborrecia neste mundo era seu gato de estimação Crookshanks.

Sem abrir os olhos, Hermione afasta o gato delicadamente com a mão esquerda, mas ao se deparar com um corpinho tão pequeno é que desperta de uma vez, piscando em profusão, sem entender nada de imediato.

Seus olhos encontram uma pequena bola de pêlos, um pouco maior que sua mão, branca e fofa feito algodão doce, e olhinhos azuis cristalinos e felizes. Hermione sorri pela visão – afinal é impossível não sorrir ao ver um gatinho – mas a melancolia toma conta de si ao ser remetida à realidade onde não mais existe seu leal companheiro, Crookshanks.

—Bom dia, bela adormecida! Como passou suas últimas doze horas? – Perguntava uma sorridente Gina Weasley, mas em sua voz pairava um tom cauteloso.

Hermione olhou cegamente para a ruivinha por alguns instantes – sabe-se lá o que passando em sua cabeça – e responde com um meio sorriso e um fio de tristeza.

—Oh.. olá Gina, bom dia pra você também! Quer dizer que estou dormindo há doze horas?

—Sim, mais ou menos... – Gina responde, sentando-se na cama, ao lado da amiga. O filhote pula em seu colo no mesmo instante e começa a ronronar. —Ontem, mal você chegou e já foi pra cama... estava tão exausta que dormiu e me deixou falando sozinha aqui...

—Merlin.. foi mesmo?! – Hermione levou a mão aos lábios, desviando seu olhar para um ponto qualquer de sua cama desarrumada. —Eu mal me lembro de algo... mal me lembro de ter chegado à Hogwarts... poderia jurar que isso já faz dias e não que foi ontem à noite...

—É... você estava mesmo muito esgotada... estava até envelhecida! Parecia até uma velha de 25 anos! Todos nós ficamos muito preocupados com você, foi um custo conter meu irmão e o Harry para que não viessem perturbá-la com todas as perguntas que eles queriam fazer... mas, vou deixar você se arrumar e irei tranqüilizá-los quanto ao seu estado... Já passou a hora do café, mas vai querer descer pra tomar o desjejum no salão ou vai querer tomar aqui mesmo?

—Já passou a hora do café? Mas.. mas.. e as aulas?! Santo Deus! Já estou perdendo mais aulas, de novo?! Mas isso não pode ser! – Hermione levanta-se da cama exasperada, jogando sua colcha para os pés. Gina a contém, tentando tranqüilizá-la, e não deixando que ela se levante tão abruptadamente.

—Calma, Mione! Calma! A Professora Minerva a dispensou das aulas por hoje e me pediu para avisar que ela mesma reporá as matérias que você perdeu nesses últimos três dias, contando com hoje, claro!

—Mas não estou doente e nem nada que justifique matar mais um dia de aula!

—Também foram ordens de Dumbledore... você quer contestar ele também?

Hermione acalmou-se, sentando novamente em sua cama, deixando Gina satisfeita. A menina sorriu, afastando-se da cama com o gato agarrado em seu ombro e que olhava curioso para Hermione.

—Relaxa, se arruma com calma, vá tomar seu café com cal-ma, vai dar umas voltas, , mais tarde, se você achar que tá cem por cento, você vai pras aulas... ok?

A moça olhou marotamente para Gina e não deixou de pensar como as coisas podem mudar de uma hora para outra... Gina lhe dando conselhos para se cuidar?

—Está bem, Gina, já que são ordens de Minerva e Dumbledore...

Gina sorriu satisfeita, girando em seus calcanhares e saindo quase saltitante do dormitório de Hermione, que se entregou novamente à melancolia assim que a ruiva fechou a porta as suas costas.

Ela estava ali bem, de volta a Hogwarts. Mas, e quanto a Pavel? Será que ele havia se recuperado do mal súbito que o acometeu horas antes?

As barras luminosas da cela se desvaneceram até desaparecerem completamente, dando entrada a dois homens trajados de ternos negros e muito bem alinhados. O sarcasmo e as risadas debochadas os acompanhavam. 
 
—E aí, o que daremos para o prisioneiro? Pedaços de peixe cru com uma tigela de leite? Ou será que ele prefere apenas ração seca?

—Talvez um rato de esgoto fosse mais apropriado para esse filho de comensal imundo!

Ambos caíram na gargalhada ante o trocadilho. Crookshanks, enrolado em torno de si mesmo sobre a cama estreita da cela, apenas levantou o olhar para observar; a sua prostração era tanta que sequer se permitia aborrecer com essas cenas ridículas.

—Ora, vejam só! Somente aquele idiota do Jonathan Davis para conseguir um hábeas corpus para que o réu possa usar de sua animagia! Isso não existe, cara!

Parado atrás do dois agentes e com um semblante de poucos amigos, encontrava-se o advogado de defesa de Nicolai, Jonathan Davis, que pronunciou sua presença com uma voz fria e letal: —Fico mesmo comovido com a parte que me toca, agentes... Deixem o desjejum do Sr Donskoi na mesa e saiam imediatamente. Tenho assuntos a tratar com meu cliente.

Os dois agentes gelaram e, figurativamente, abaixaram as orelhas e enfiaram os rabos entre as pernas. Deixaram a bandeja com o café da manhã de Nicolai sobre a mesa do canto e se retiraram apressadamente, sem olhar para Davis, que suspirou profundamente de enfado que tais criaturas ridículas o causavam.

Como eram as normas, Davis foi trancafiado dentro da cela juntamente com seu cliente. As barras de energia luminosa voltaram a trancar a entrada, emitindo um incômodo e baixo zunido.

Davis parou em frente a Crookshanks, olhando-o com desdenhoso lamento.

—Como é que é, Russo? Pretende ficar nessa forma até quando?

Crookshanks não respondeu, obviamente, apenas ergueu mais uma vez seus olhos, agora opacos e sem vivacidade, para Davis, que não demonstrava sinais de paciência.

—Isso é mesmo inusitado! Um gato em estado depressivo! Você precisa se alimentar, se reerguer e lutar! Cara, você tem o estrito apoio do Mestre Dumbledore! O que mais você quer?!

Sem mais nenhuma paciência, Davis saca sua varinha de dentro de sua casaca, apontando para Crookshanks, que finalmente manifestou alguma reação, ao ficar acuado com a atitude brusca do bruxo maluco a sua frente.

—Eu não tô aqui pra ser babá de ninguém, menos ainda pra ficar monologando com um animal! HOMORFO!

Um jato de cinza luminoso saiu da varinha de Davis, atingindo Crookshanks diretamente no peito e na cabeça. Uma pressão de ar se formou no local e uma névoa acinzentada tomou conta do gato, e de dentro do círculo de fumaça surge Nicolai amargo e rancoroso, porém calado; trajava o uniforme de detento do Ministério, camisa de mangas curtas e calças largas, de um pálido azul acinzentado.

—Melhor assim, não acha? Crueldade contra animais é covardia, mas contra um ser humano até que me dá prazer de vez em quando...

Nicolai olhou cansado e irritado para Davis, bufando em seguida e levantando-se da cama. Os ombros caídos e olhar baixo denunciavam flagrantemente seu abatimento emocional.

É muito difícil deixar os outros em paz?! A nova audiência será daqui a dois dias...

—Como você é arrogante e ingrato! Estou aqui na melhor das boas intenções para saber seu estado de saúde e você me recebe com pedradas? Vou acabar dando razão aos agentes pela forma como eles o tratam, Donskoi.

Estou mesmo muito comovido com sua atitude... – Escarneceu Nicolai, sentando-se na cadeira em frente à mesa e olhando com desdenho para o parco café da manhã.

—Se você me conhecesse, realmente estaria comovido, Russo. Já te falei uma vez: não estou nem aí para você! Eu apenas sirvo a Dumbledore e fim de papo! E ele me ordenou que eu cuidasse de você... compreendeu ?

Nicolai olhou de soslaio por sobre o ombro, deixando-se vencer novamente pelo cansaço e voltando para seu desanimador desjejum. Davis puxou a segunda cadeira e sentou-se encostado à parede, falando com Nicolai sem se voltar para ele.

—Apesar de tudo você é um cara de sorte, Russo! E precisa aprender a ver o lado bom das coisas...

Sei, um cara de sorte... – Nicolai respondeu desanimado, tentando engolir um pedaço de pão sem gosto juntamente com uma golada de chá preto e leite. Ainda com a boca cheia foi numerando nos dedos a sua "sorte":

Desde que cheguei neste país quente feito o Inferno, sofri inúmeras humilhações: Fui amaldiçoado por Voldemort há vinte anos atrás; quase fui morto diversas vezes; passei o diabo vivendo como um animal vadio; fui vendido como mercadoria; não consegui acabar com Pettigrew; sofri dores horríveis com o fim da maldição; mal me recuperei e fui mandado pra julgamento; estou neste maldito lugar e ainda, por fim, descubro que meus pais foram mortos barbaramente e certamente há minha culpa nisso! – Nicolai elevou tanto a voz ao longo de sua descrição que encerrou sua narrativa com quase um grito, silenciando-se logo em seguida e olhando cegamente para dentro de sua xícara de chá.

Davis, com a cadeira cambaleante e recostada à parede, braços cruzados sobre o peito e um olhar inquiridor de esguelha para Nicolai, também permaneceu por algum tempo em silêncio, como se formulasse uma resposta adequada ao Animago. O advogado não era sentimentalista, mas ver um bruxo que algum dia teve tudo nas mãos e perspectivas de um futuro promissor e agora estava reduzido a um farrapo humano, era de causar piedade mesmo.

—Mas ainda afirmo que é um cara de sorte, Nicolai... se você tivesse visto o que vi daquela menina, seu ânimo seria outro agora...

Nicolai estancou com a xícara a meio caminho da boca, voltando-se para Davis, desta vez olhando-o diretamente, como poucas vezes chegou a fazer.

Do que você está falando?

—Hahah! O que estou falando? Eu sei o que digo, Russo! Veja só como já se animou a uma mera sugestão!

O sarcasmo animado de Davis irritou Nicolai, que se odiou por instantes por dar atenção aquele doido varrido. Voltou para sua xícara de chá com leite, resmungando:

Você é completamente pirado, New Orleans! É melhor você ficar quieto e parar de me encher!

—Mau-humorado! Mas eu sou um sujeito legal e vou te contar assim mesmo! – Davis deixou que a cadeira se sustentasse com os quatro pés no chão e debruçou-se sobre si mesmo, apoiando as mãos em seus joelhos. O sorriso zombeteiro de dente lascado se fazia presente.

—Falo de Hermione Granger, a sua testemunha de defesa e... dona também, pelo que sei... – Nicolai parou novamente para prestar atenção a Davis, mas sem se voltar para ele desta vez. —Mesmo depois de tudo que ela passou – e imagino que não tenha sido nada fácil – mesmo ela não lhe conhecendo de verdade, ela lhe tem uma grande estima, Russo! Ela simplesmente ficou abalada quando contei que você tinha sofrido um mal súbito no Tribunal...

Nicolai não reagiu nem respondeu nada de pronto, como se digerisse o que Davis acabava de contar. Por fim, soltou um leve suspiro cansado, baixando sua xícara para a mesa e deixando vagar seu olhar pela borda.

Hermione é... muito altruísta.. extremamente altruísta, eu diria... ela se preocupa com tudo e com todos, é típico dela... – Falou num tom desesperançado.

—Dumbledore me falou que uma de suas principais características era o pessimismo... caramba!

Desgostoso, Davis levanta-se da cadeira e ajeita as suas roupas. Um sorrisinho enigmático pairava em seu semblante que o deixava com um aspecto de lunático.

—Tomo como meus os chavões da velha Caborje: quando digo que sei é porque sei, quando digo que vejo é porque vejo...

Nicolai simplesmente não dava a mínima para o que o advogado lhe dizia; ele já havia se condicionado a não relevar absolutamente nada que viesse daquele bruxo maluco, e esse seu desdenho por ele acabava sendo automático, para seu azar.

Davis despede-se de Nicolai, falando a ele em tom incisivo:

—Russo, águas passadas não rolam moinhos.. vai ficar aí se prostrando por algo que já aconteceu há décadas, se martirizando com culpas que talvez nem existam? Esqueça o passado, já foi! Olhe para seu presente, encare o seu 'agora' e tome uma decisão, faça a sua escolha! O futuro ainda será construído e o que vi é que há algo pelo qual você ainda pode lutar pela sua liberdade – e não digo apenas da sua liberdade física e civil, falo principalmente da sua liberdade emocional! Você se libertou fisicamente de uma maldição, mas pelo visto ela ainda atua em seu cérebro! Há algo para que lutar e há alguém para quem voltar, pode ter certeza disso!

—Nicolai, o pessimismo nunca ganhou uma audiência e jamais absolveu ninguém... ao contrario, ele derrota e encarcera.

—Não seja burro e acorda pra vida! Você perdeu vinte anos, mas ainda tem outros cem anos pela frente.. e pelo que percebi, será muito bem acompanhado se VOCÊ fizer por onde.

—Depois de amanhã nos veremos novamente, no Tribunal...

Davis saiu da cela sem olhar para trás, então não viu um Nicolai boquiaberto e atônito, pasmado com o sermão que acabava de ingerir.

Fim do Capítulo 38 - continua.
By Snake Eyes - 2007.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Animago Mortis - Capítulo 37 – Julgamento – Narrativa de Caborje.

Capítulo 37 – Julgamento – Narrativa de CAborje.
 
Nicolai estava chegando à triste conclusão de que não sairia psiquicamente ileso daquele julgamento, fosse ele absolvido ou não. Tantos ataques súbitos em sua emoção já frágil e abalada o enviariam certamente ao cárcere da perturbação mental. Protegia seu espírito e sua emoção como podia e como havia aprendido com seu estimado avô, Vassili Afanassievich, mas devido à sua exaustão mental e física, acrescentado ao ataque espiritual que sofreu enquanto descansava no intervalo das seções, suas proteções estavam ruindo. E depois de ter passado por toda a humilhação dentro daquele Tribunal, ele seria finalmente vencido por uma velha que deveria estar tricotando dentro de sua casa ao invés de ainda querer bancar a heroína diante da Comunidade Bruxa.

O rapaz inclinava-se para frente, segurando firmemente as pontas dos braços de sua cadeira. Diante da pressão que sentia envolvê-lo novamente, e já sofrendo por antecipação de continuar a passar por todo esse estresse ainda, para ao final ser condenado à Azkaban por ser um Comensal da Morte, Nicolai lutava contra o ímpeto de sua ansiedade para não confessar logo tudo de uma vez, diante de todos, e livrar-se daquele maldito lugar e da presença daquelas malditas pessoas! A este ponto já estava crendo com fé de que Azkaban e os Dementadores não poderiam ser piores que um Tribunal de Justiça e seus participantes.

Osborn, pela primeira vez sentindo-se vitorioso naquele Plenário, sorriu confiante para a velha Caborje, estimulando-a a continuar seu relato:

— Sra Bhagata Caborje, faça-nos a gentileza de nos contar tudo o que sabe sobre o réu aqui presente, o Sr Pavel Nicolai Donskoi?

A velha bruxa olhou divertida e zombeteira para o Promotor, que desmanchou seu sorriso logo após ouvir a repreensão de Caborje:

— Que abutre é você por chamar uma delação de gentileza? Valha-me, ó Merlin! – E num tom mais alto de voz esganiçada e fugitiva, Caborje pronunciou para o restante do Plenário: —Sim, sim! Quando digo que sei, é porque sei! Quando digo que conheço, é porque eu conheço! E o garotinho tolo aí na frente eu conheço de tempos idos já distantes... fui eu mesma que escrevi o relatório sobre ele no final da Primeira Guerra!

Um número infinito de "ohs" encheram o Plenário, as pessoas se remexeram ansiosas em seus lugares. Um nó se formou na garganta de Nicolai, quase o impedindo de respirar; jogou-se contra o encosto de sua cadeira, fechando seus olhos e murmurando para si mesmo, mas alto o suficiente para Jonathan Davis ouvir e entender.

— Por Merlin! Acabe de uma vez com tudo isso!

Davis o olhou de soslaio, murmurando em resposta:

—Quem não deve, não teme, Russo! Mantenha sua compostura se quiser fazer bonito ante o jurado... são eles que têm o poder de te mandar para o céu ou para o inferno...

—... pro inferno sou eu que estou quase mandando tudo isso aqui!

Voltou sua atenção para Caborje, que o fitava com um sorrisinho enigmático. Absteve-se de julgar qualquer comportamento dela, não queria mais desperdiçar sua já minguada energia mental. Depois disso imploraria por tudo que fosse mais sagrado que encerrasse o julgamento e marcasse a continuação para um outro dia qualquer. Nicolai precisaria dormir três dias inteiros para recuperar um pouco de sua saúde mental depois de toda essa pressão!

Bhagata Caborje soltou uma gargalhada esganiçada, batendo palmas feliz feito criança, deixando-se cair contra o encosto de sua cátedra. Todos a olhavam aturdidos, enquanto ela se desmanchava em risadas prazerosas. Riu tanto, e tão entusiasmadamente, que seus olhos verteram lágrimas... somente quando não lhe restava mais fôlego é que parou de rir; enxugou as lágrimas entre ainda uma risada e outra que saída involuntariamente.

Todos, TO-DOS no Plenário estavam estáticos, olhando abobados para a velha bruxa. Num rompante, saltou de sua cátedra e andou em passos apressados e serelepes que não condiziam com sua idade avançada e condição física. Levou alguns instantes para Osborn perceber o que estava acontecendo e tentou detê-la a meio caminho da cátedra de Nicolai, no entanto, sem obter sucesso. Todos continuavam mudos e estáticos, apenas observando atentamente o espetáculo que já havia se tornado aquele julgamento. Quanto a Nicolai, ele havia, literalmente, se tornado uma pedra, fitando-a com olhos arregalados.

Caborje, assim que alcançou a cátedra de Nicolai, levou suas mãos macilentas e enrugadas ao rosto do rapaz, segurando-o com uma firmeza quase maternal, e ainda sorrindo alegremente para ele.

—Aah, meu jovem! Você foi um grande mistério insolúvel por anos dentro do Departamento de Aurores! E veja só! Continua a ser um grande mistério mesmo quando reaparece após vinte anos de desaparecimento!

Com a ordem energética do Juiz, Osborn, aborrecido, pega Caborje pelos ombros e a reconduz à cátedra de testemunha. Leve com a solução de um mistério que a incomodou por anos, a velha bruxa se deixou conduzir até a cátedra sem pestanejar.

—Por favor, Sra Caborje! Não tumultue o Plenário! Agora, por favor, conte-nos os seus conhecimentos sobre Pavel Nicolai Donskoi!

—Aah, meu filho! Você nem imagina o peso que me foi aliviado! Pensava que levaria essa dúvida para o vazio de meu sepulcro, mas... vejam! Aí está o jovem desaparecido há vinte anos que sequer pudemos dar como morto, pois sequer havia um corpo para isso!

Nicolai gelou ante a frieza da exposição de Caborje... sequer ele pode ser dado como morto porque nem seu corpo morto fora encontrado! É uma situação lógica, mas não agradável quando se trata de si próprio.

—Com o maior prazer contarei o que sei desse belo rapaz da distante Rússia, onde estive diversas vezes em serviço secreto do Ministério, coletando informações sobre bruxos das Trevas que lá, vocês sabem, pipocam por todos os lados.

Se o corpo de Nicolai tivesse envelhecido assim como envelheceu sua mente, certamente ele teria ali uma síncope ou mesmo um infarto.

Bhagata Caborje se acalmou, aprumou-se em sua cátedra e viajou no tempo através de suas memórias, comentando sobre o passado com uma lucidez e um tom macio e firme de voz que parecia não pertencerem a ela.

—1974 foi um ano que ficou marcado no Ministério da Magia e, principalmente, no Departamento de Aurores, por conta de nossa invigilância e pouco cuidado. Se, naquela época, tivéssemos as precauções que hoje se têm a respeito de manifestações suspeitas envolvendo magia negra, certamente aquela fatídica guerra jamais teria explodido e o não-mais-tão-jovem Tom Riddle jamais teria ganhado terreno e fama como ganhou...

—Esse ano, 1974, foi o ano do recrutamento de jovens tolos para o exército de Tom Riddle, que tomaram por ridícula denominação Comensais da Morte. Já a essa época, Tom Riddle, que poderia tranqüilamente brilhar na Luz, mas preferiu ser uma luz negra nas Trevas, já tinha todos seus planos arquitetados, todas as estratégias já preparadas. Com a eloqüência de seu espírito brilhante e empreendedor, conseguiu vender facilmente o falso sonho de poder e liberdade para jovens sonhadores e também para velhos despreparados da vida. Os meios que seriam empregados eram drásticos e violentos, mas o fim objetivado fora tão maravilhosamente pintado por aquele bruxo enlouquecido, que foi muito fácil conseguir em muito pouco tempo montar um forte exército, como todos aqui têm o conhecimento. Tom Riddle fez com que todos acreditassem que quanto mais violenta fosse as medidas adotadas, mais rápido alcançariam seus objetivos, logo as pessoas sofreriam pelo menor tempo possível. Ele fez com que acreditassem que para alcançar a unificação do Mundo Bruxo e a imposição ao Mundo Não-Mágico, haveria de se sacrificar muitas coisas e pessoas, mas tais sacrifícios eram extremamente necessários para chegarem a tão nobre objetivo. Tom Riddle explorou o máximo não apenas os ideais de liberdade e justiça dos jovens, mas aguçou ao extremo a ambição e orgulho dos mais velhos, com isso ele conseguiu o que queria e fez o que fez...

—Os sonhos ambiciosos de Riddle não conheciam fronteiras e seus planos voaram com o vento até paragens distantes, como a onipotente Rússia. Algumas famílias e mesmo bruxos solitários abandonaram sua velha pátria motivados pela ilusão que a ambição sem limites proporciona... e tenho certeza que esse foi o caso da família do réu...

Caborje pausou propositalmente a fim de dar peso as suas palavras e aguçar ainda mais a curiosidade e atenção dos presentes. Nicolai abaixou a cabeça, sentindo o peso da vergonha que ainda o incomodava muito, o de ter sido expatriado e sua família ter se submetido à vontade de um ser miserável como Voldemort. A velha bruxa prosseguiu:

—Há muitas histórias belas e trágicas que eu poderia contar a vocês, e o farei com o maior prazer em outra ocasião se o quiserem, mas fico satisfeita no momento de poder contar o que sei sobre o réu... e sua família. – Bhagata Caborje terminou com um sorriso terno, observando incisivamente Nicolai que a fitava, não mais com a angústia de poucos instantes atrás, mas com o desejo de que logo toda a verdade viesse à tona e o libertasse daquele martírio, mesmo que ironicamente tal liberdade fosse levá-lo à Azkaban; ele já estava cansado demais, esgotado demais para continuar a se preocupar com isso.

—O réu e sua família vieram da longínqua Rússia Oriental, de uma pequena e isolada cidadezinha chamada Lentz, próxima da gelada Sibéria, nas planícies Oeste-Siberianas, onde o inverno rigoroso faz com que a temperatura chegue até cinqüenta graus negativos, devido a ser um vale cercado pelos Montes Urais de um lado e a floresta de Tundras ao outro.

—A família Donskoi, ou 'Clã' para mais propriamente ser dito, vem de um passado glorioso, embora a bruma das trevas estivesse sempre presente. O Príncipe Dmitri Donskoi, antepassado do jovem réu, graças à magia negra que em sua época era exercida inescrupulosamente, libertou a grandiosa Rússia dos Tártaros Mongóis no século 13, após um jugo que durou mais de duzentos anos e devastou a opulência e soberania daquele imenso país, lançando-o à miséria e ao caos.

—Tamanha façanha e glória nunca foram perdidas e estas foram passadas como riquíssima herança geração-pós-geração. Porém, com a queda do Czarismo no início do século 20, sucedendo a Revolução Russa, em 1918, os títulos de nobreza desapareceram, mas não a influencia dos Clãs, que continuavam a ter o mesmo poder, sem ter o mesmo nome. Lembrando, é claro, que o monarquismo e a nobreza em todo o mundo sempre esteve, em sua grande maioria, entre os bruxos.

—Dmitri Donskoi, pai do réu, embora envergasse o mesmo nome de seu glorioso antepassado, infelizmente não envergava a mesma honra e nobreza. Movido por ambição inexplicável, uma vez que era o único herdeiro e sucessor das terras de Lentz, logo era riquíssimo e influente, deixou-se dominar pela ilusão vendida por Tom Riddle. Em minha humilde opinião o pobre rapaz não estava bem de sua razão, pois, para seguir os ideais insanos de Riddle, Dmitri Donskoi pagou o caro preço de ser deserdado do Clã por seu próprio pai, o soberano de Lentz, Vassili Afanassievich Donskoi. Não apenas Dmitri perdeu seus direitos perante o Clã Donskoi, mas também sua jovem esposa, Nikita, e seu único filho e último membro do Clã, o jovem Pavel Nicolai, que contava com apenas quinze anos na época...

—E isso que digo é o que foi investigado pelo Ministério da Magia do Reino Unido e consta nos anais do governo e acessível a quem interessar... – Caborje deu um sorriso como de garota propaganda satisfeita em ter feito o seu serviço direito e pausou novamente por instantes, para deixar que sua narrativa flua entre os ouvintes que se mostravam bastantes interessados e entretidos; até mesmo o Juiz e Osborn prestavam fiel atenção à história que a velha bruxa contava.

Já Nicolai ouvia a tudo cabisbaixo e de olhos fechados, sendo levado à distância do passado, revivendo mentalmente como se tudo ocorresse no momento presente. Aquilo já não era mais um julgamento, mas uma tortura emocional para ele.

—Expatriados, deserdados, com poucos recursos no bolso mas muita ambição e insanidade em suas cabeças, os jovens tolos Dmitri e Nikita chegaram à Inglaterra e instalaram-se numa modesta casa nas imediações de Hogsmeade, onde poderiam passar despercebidos, apenas como uma pequena família refugiada de um país em caos e que buscavam novas condições de sobrevivência num país cuja qualidade de vida se encontrava em melhor situação que a decadente União Soviética. Conseguiram encaixar Pavel Nicolai em Hogwarts que, por ser um internato, livravam-os de ter um adolescente aborrecido atrapalhando suas atividades obscuras, chamando possível atenção para uma família que queria se passar por invisível.

Ao ouvir isso, Nicolai fitou com um olhar mal a ex-Auror, pois não gostou de ter sido tratado como um possível estorvo para as "atividades obscuras" de seus pais.

—Aquela época, quando uma sorrateira e silenciosa revolução se infiltrava na Comunidade Bruxa aqui na Inglaterra, todos acreditavam que o melhor lugar para se manter as crianças a salvas do que estava por vir era dentro de Hogwarts, sob os cuidados e vigilância de Alvo Dumbledore... porém, apesar de nossas suspeitas começarem a despertar quanto ao movimento do Circulo das Trevas que, de manso, adentrava a Comunidade por sob os panos, não acreditávamos, sequer cogitávamos, que Tom Riddle tivesse tamanha influência a ponto de burlar a vigilância de Dumbledore e contaminar as cabeças cheias de sonhos daquelas crianças que deveriam pensar apenas em seus estudos e em seus futuros como bruxos dignos e honrados. Mas ágil e fascinante como uma serpente, as idéias de Riddle envenenaram as mentes de muitos jovens, fazendo com que muitos deles entrassem nessa viagem sem volta.

—Muitos desses jovens foram recrutados e, anos depois, a maioria terminou morta ou encarcerada em Azkaban... os poucos que restaram, tentaram reunir os cacos de suas existências e partir para outras atividades, embora a maioria continuasse fiel aos ideais insanos do Círculo das Trevas, de tanto que o veneno da ambição e do orgulho estava entranhado no âmago de seus seres...

Achando que Bhagata Caborje havia chegado ao término de seu relato, Osborn, otimista, faz a pergunta fatal na esperança de finalmente terminar com essa primeira fase do julgamento.

—Então a senhora afirma que o réu, Pavel Nicolai Donskoi, foi um desses jovens estudantes que foram seduzidos e recrutados para o Círculo das Trevas Daquele-que-não-deve-ser-nomeado?

Caborje olhou estranhamente para Osborn, fazendo desaparecer seu sorriso otimista. Meneou em negativa a cabeça, soltando um muxoxo em reprovação.

—Tsc, tsc... o que contei sobre os estudantes é o que faz parte dos anais... não estou afirmando que o jovem Donskoi se deixou seduzir pelos ideais de Riddle. O que quero mostrar com esse relato é que o jovem fazia parte dessa geração e estava aqui presente nesta época, logo estava suscetível a tal sedução, assim como você também, Dr Osborn, e qualquer outro que já estava por aqui aquela época.

Osborn levou um choque e suou frio diante da língua afiada de Caborje. Jonathan Davis deixou transparecer um sorriso prazeroso, reflexo do gozo interno que sentiu ante as palavras da testemunha. Nicolai permanecia quieto, pois já não havia mais em si qualquer ânimo para vibrar com qualquer coisa que seja, mesmo que fosse a seu favor.

—Mas esse menino... sim, sim! Lembro-me de algo dele... de algumas pequenas coisas... – retornou Caborje, chamando a atenção de todos novamente para si. Nicolai voltou a encará-la, com expectativas.

—Eu o vi algumas vezes em Hogsmeade, durante as férias de Hogwarts. Se seus pais soubessem quantos Aurores moravam no povoado, certamente não teriam escolhido ali para viver. Mas aquela época, a nossa prepotência não nos permitia crer que qualquer bruxo das trevas tivesse a ousadia de estar tão próximo da boca do lobo... o que foi um ledo engano de nossa parte. Mesmo no Ministério da Magia e no Departamento de Aurores havia muitos membros do Círculo das Trevas. A artimanha de Tom Riddle os levou muito longe...

—E o que lembro do rapaz aqui sendo julgado, é que se tratava de um típico adolescente aborrecido com a vida. Sempre o vi sério, de cara fechada, jamais apto à conversas ou brincadeiras. O mais próximo que chegamos de suposições a seu respeito – e digo 'nós', os vizinhos desocupados e não 'nós' do Ministério, hihihi! – é que, por se tratar de um estrangeiro, não devia estar se adaptando ao novo estilo de vida. Se, ao invés de maledicentes, as pessoas fossem mais generosas e perscrutadoras, teríamos percebido a evidência dos fatos: de que havia um conflito gravíssimo na família, e talvez tivéssemos salvado o menino do destino que teve...

Nicolai arregalou os olhos, pasmado.. o que ele ouvia de Caborje era um relato que parecia ser mais um desabafo, um tom de culpa pairava em sua voz. O semblante da velha bruxa abrumou-se com o final de suas palavras. Ele jamais imaginara, em todos esses longos anos, de que havia alguém que sentia pesar e culpa por seu desaparecimento.

—Então, o tempo foi passando e muitas coisas foram acontecendo: ataques a nascidos-trouxas, vandalismos, tumultos; começaram as movimentações de pessoas muito estranhas, tipos que antes eram vistos apenas circulando na Travessa do Tranco; assassinatos inexplicáveis, desaparecimento de pessoas, túmulos saqueados, trouxas encontrados mortos com marcas de rituais... a guerra ainda não havia sido deflagrada, mas seus sinais se tornavam cada dia mais evidentes...

Dr Osborn já mostrava sinais de impaciência... Bhagata Caborje estava se alongando demais em seu relato, desvirtuando do assunto principal, e até o presente momento ela não havia mencionado com firmeza nenhum evidência que pudesse condenar Nicolai. Pensava consigo mesmo, aborrecido: "—Essas coisas sempre acontecem quando é o Ministério da Defesa que indica quais testemunhas a promotoria deve contactar e intimar... talvez o retardado do Davis esteja certo: o Ministério se tornou um teatro de macacos! Tudo o que eles têm feito nada mais é do que para fazer média com a Comunidade!"

O Promotor resolve interromper a testemunha:

—De certo que tais informações são de grande utilidade para a Comunidade Bruxa, pois foi algo que ficou impregnado em nossa História, e os relatos vindos de alguém tão influente na época tem inestimável peso. Mas devo alertá-la, Sra Caborje, de que a senhora não deve desvirtuar o seu depoimento. No momento precisamos apenas dos relatos referentes ao réu, o Sr Donskoi!

—É verdade, até que às vezes você tem razão, mocinho!

Osborn bufou de impaciência, levou uma das mãos à cintura e com a outra fez trejeitos para que Caborje continuasse seu depoimento, dando ênfase as suas ordens.

—Por favor, Sra Caborje, a senhora não se lembra de nenhum caso envolvendo o réu? Nunca viu evidências mais significativas do que a de um adolescente aborrecido?

—Quer saber de casos envolvendo o réu? Sim, meu jovem! É claro que há um caso envolvendo o réu, e isso eu tenho certeza de que até você sabe!

A velha bruxa olhou fixamente para Nicolai, com seu semblante novamente brumoso, e seus olhos demonstravam algo como piedade. O animago remexeu-se incomodado em sua cadeira, pois se havia um tipo de olhar que o aborrecia era exatamente esse olhar de compaixão... resquícios de seu orgulho ainda não totalmente sanado.

—Por favor, Sra Caborje, prossiga em seu depoimento... – incentivou um já desmotivado Dr Osborn.

—A primeira e única notícia que o Ministério pôde colher a respeito do réu, e que levou por suspeita algum envolvimento com o Círculo das Trevas, foi durante o inverno de 1976, mais propriamente no dia 24 de dezembro, quando Hogwarts comunicou o desaparecimento de Pavel Nicolai Donskoi e mais dois outros rapazes, de mesmo ano e classe que o réu... porém, os dois outros meninos foram encontrados amordaçados e mortos dias depois, a quilômetros de distância de Hogwarts; foram mortos cruelmente e desovados nas margens do Severn.. o mais provável é que tenham sido jogados ao rio e a correnteza os levou até próximo à Gloucester, em direção ao Canal de Bristol, devido ao já adiantado estado de decomposição que se encontravam, embora o frio tenha retardado e muito esse processo. As autoridades trouxas encontraram os cadáveres, mas nossos infiltrados logo descobriram que se tratavam de bruxos por conta do uniforme escolar que ainda usavam, sem contar a Marca Negra como cartão de visita exposto nas vítimas. As famílias foram contactadas e após o reconhecimento dos corpos, fizemos uma árdua investigação para saber as causas das mortes e se havia algum envolvimento dos alunos ou das famílias com o Círculo das Trevas. Não encontramos evidências diretas com as famílias e nem com as vítimas, embora elas tivessem familiares envolvidos, mas nada que chegasse propriamente ao crime e o explicasse.

—Mas ainda havia o mistério do terceiro desaparecido... com o aparecimento dos corpos dos dois outros colegas, foram feitas diversas buscas, principalmente nas margens e redondezas do Rio Severn, num raio de vários quilômetros, desde a cidade Shrewsbury até o Canal de Bristol. Ficávamos a espera de informações de nossos infiltrados dentro das autoridades Trouxas. Contactamos o casal Donskoi, mas, apesar de terem demonstrado medo e aflição, foram vagos em seus relatos... certamente escondiam algo. Não foi possível intimar o casal, pois logo depois que os contactamos, informando do desaparecimento do filho, eles próprios desapareceram sem deixar vestígios... a casa onde viviam foi completamente evacuada, o que nos despertou a hipótese de fuga... semanas após o ocorrido, o corpo do casal foi encontrado, ambos foram enforcados numa árvore seca numa área rural ao leste da Inglaterra, e seus corpos foram retalhados como se pessoas se divertissem fazendo-os de alvos. A única evidência do envolvimento do Círculo das Trevas nas mortes foram as Marcas Negras queimadas nos peitos das vítimas. A prova óbvia do envolvimento das vítimas com Aquele-que-não-nomeamos eram suas próprias Marcas Negras tatuadas nos braços esquerdos. Após isso, passamos a investigar profundamente, mas jamais conseguimos encontrar o paradeiro do réu, o que só poder...

Bhagata foi interrompida abruptamente pelo baque seco que reverberou por todo Plenário, ecoando pelas paredes e tetos. Apenas o eco era ouvido, pois o silêncio reinava absoluto no local, um silêncio mórbido e opressor.

Nicolai levantou-se tão abruptamente de sua cadeira que ela caiu para trás com um estrondo. Apoiou firmemente os braços sobre a mesa, como se preparasse para pulá-la. Fitou de forma desesperada a velha bruxa, não sendo capaz de acreditar no que havia ouvido.

Davis levantou-se e com energia segurou Nicolai pelos ombros e o reconduziu a sua cadeira, que já havia sido recolocada de volta em seu lugar. O garoto sabia que Davis lhe dizia coisas, mas naquele momento estava incapaz de ouvir e compreender qualquer coisa que fosse. Tudo se tornou surreal. Em sua mente ecoavam apenas as palavras de Caborje, a parte em que conta a morte de seus pais. E as palavras, repetidas incansavelmente em sua memória, faziam com que ele se remetesse à vaga lembrança do pesadelo que teve horas antes. As trevas da angústia o envolveram.

Deixou-se sentar na cadeira e, instintivamente, velou as mãos à cabeça, enterrando os dedos em seus cabelos em total desalinho. Apoiou os cotovelos sobre a mesa e manteve a cabeça abaixada, deixando-se vencer por sua angústia, perdendo-se nas palavras fatais de Caborje...

Nicolai tinha conhecimento da morte de seus pais, mas nunca soube quais foram as circunstâncias. Ele jamais imaginou que eles tivessem morrido pelas mãos dos próprios Comensais da Morte, tinha o romantismo de crer que haviam tombado em guerra. Mas, não. A verdade agora vinha à tona através de uma fonte indiscutível... seus pais foram assassinados com requintes de crueldade e, provavelmente, havia culpa dele nisso...

— Maldito sejas, Pavel, filho promíscuo e ingrato! – Sussurrou, mas sem dar-se conta de que era ouvido e que eram essas palavras que o Espírito de seu pai o havia vociferado em seu pesadelo.

Davis, temendo pelo estado de saúde de seu cliente, dirige-se ao Juiz:

—Sr Meritíssimo! Peço um intervalo de 15 minutos, para que meu cliente se recomponha do choque sofrido... por ter estado encarcerado por uma maldição todos esses anos, ele não tinha o conhecimento do destino de seus pais. Peço a assistência de um medibruxo, se necessário.

—Seus 15 minutos serão concedidos, Dr Davis. Leve seu cliente para a enfermaria e, caso ele não se recomponha no tempo previsto, encerraremos esta seção e marcaremos nova audiência.

O Juiz martelou em sua mesa, dando início ao breve intervalo. Nicolai, arrasado, foi encaminhado para a enfermaria por um paramedibruxo e uma enfermeira.

Osborn, aborrecido, aproxima-se de Davis, sussurrando-lhe, recebendo em troca a resposta de um Davis ainda mais aborrecido:

—Oscar de melhor atuação para o seu cliente, Davis!

—Como vão o papai e a mamãe, Osborn? Eles ainda continuam com aquela vidinha mansa de sempre, não é? – Davis saiu carrancudo, acompanhando seu cliente até a enfermaria.

Nicolai se deixava conduzir. Só de sair daquele anfiteatro abafado e opressor lhe melhorava muito o ânimo.

É engraçado como somente damos importância àquilo que temos quando não a temos mais...

Ele guardava um certo rancor de seus pais, por terem sido a causa de ter se tornado um pária, de ter sido entregue para Voldemort, e por toda a humilhação que esses atos lhe trouxeram. Foi ruim saber a morte de seus pais, mas agora estava sendo extremamente doloroso saber como morreram! Não acreditava que tinha apreço o suficiente por eles para sentir-se como estava se sentindo!

Nicolai estava profundamente abalado, e dentro de seu âmago questionava a si mesmo, seus sentimentos e comportamento. Sabia que seus pais haviam morrido há muito tempo. Soube pouco tempo após o ocorrido, quando teve a oportunidade de ouvir o noticiário pelo rádio da casa de uma velhinha que o alimentava de vez em quando, pensando mesmo que ele era apenas um mero gato vadio, perdido pelas ruas. O noticiário apenas relatou a morte de Dmitri e Nikita Donskoi, mas não as causas ou mesmo o estado em que foram encontrados... o exotismo dos nomes não lhe deixavam dúvidas de que havia ouvido direito. Recentemente amaldiçoado por Voldemort, largado para morrer num lugar distante e desconhecido, vagou por dias até encontrar uma pequena comunidade de bruxos paupérrimos, quase morto de inanição, pois seu orgulho o impedia de se alimentar de restos que encontrava pelos caminhos ou mesmo de caçar e se alimentar de ratos que sempre encontrava aos montes, mas achava-os repugnantes demais como comida.

Quando a fome já estrangulava até mesmo seu enorme orgulho, e tentava encontrar algo ainda aproveitável dentro de um latão de lixo, uma bondosa velhinha, que adorava gatos, o encontrou e se compadeceu de seu lastimável estado: estava imundo e faminto; pegou-o no colo e o levou para sua casa. Os pêlos abundantes encobriam e disfarçavam o corpo que estava apenas em pele e osso. Lembrou-se de como aquele pequeno gesto de humanidade, de fazer o bem sem esperar nada em troca, pois, teoricamente, um animal não tem como pagar pela ajuda recebida, o comoveu ao ponto de ver aquilo como um oásis em meio ao caos de seu deserto infernal. Em pouco tempo, mesmo que a comida não fosse muita naquela casa humilde, ele foi recuperando sua saúde e ganhando peso, ajudando-o a se aliviar um pouco que fosse do peso existencial que agora carregava: sozinho, perdido e incapaz de pedir por ajuda ou conjurar magias por estar preso na forma de um gato.

Os dias se passaram lenta e monotonamente. Todo seu mundo, suas perspectivas, seus sonhos, se tornaram um árido deserto. Sem força e sem coragem para lutar, entregava-se a sua atual condição. Nem o ódio nem a vingança o motivaram por aqueles tempos.

Com o passar dos dias, descobriu que a bondosa velhinha era uma bruxa sem poderes, um aborto. A pobre mulher passava o dia fazendo serviços de costura para ganhar a vida e conversava com os animais que abrigava, na sua maioria gatos miseráveis e abandonados como ele próprio. A chama de seu orgulho se reascendeu. Antes um aborto que um trouxa, é claro! Afinal, na casa de seus avós apenas abortos trabalhavam como serviçais. Enquanto na maioria das residências bruxas trabalhavam elfos-domésticos, no solar de Lentz eles eram terminantemente proibidos; primeiro, porque seu avô era totalmente contra a escravidão, pois fazer de qualquer ser um escravo o remeteria ao nível de um Tártaro Mongol, que por dois séculos escravizou o povo russo; segundo, que elfos-domésticos eram criaturas repulsivas demais para serem dignas de permanecerem no palácio de um senhor de terras...

Então, Nicolai/Crookshanks permaneceu com a boa senhora Figg, nos tempos em que ela vivia na pequena e pobre comunidade bruxa, isolada e distante dos grandes centros, tanto do Beco Diagonal quanto da Londres trouxa. Seu orgulho agora o fazia crer que ela não lhe fazia mais nenhuma caridade, mas que era o dever dela o servir... até que mais uma vez suas emoções foram abaladas, quando soube da morte de seus pais pelo noticiário bruxo do rádio.

Nicolai somente percebeu que havia chegado à enfermaria quando foi posto sentado sobre uma maca e a enfermeira já prendia seu pulso com um artefato que mediria a sua pressão e batimentos cardíacos. Foi só então que sua mente desanuviou e olhou para os lados, tomando ciência de onde se encontrava. Davis entrou logo em seguida e ficou observando-o com um misto de confiança e cinismo no olhar, que Nicolai não conseguiu entender de pronto.

Logo após o rápido enxame, o paramedibruxo empurrou para o garoto um copo longo de vidro contendo uma substância encorpada, de um marrom quase negro. Ao sentir o cheio enjoativo e gorduroso, afastou de si o copo com uma careta.

—Eu não vou beber isso! Estão querendo me envenenar?!

O medribruxo torceu o rosto de raiva e respondeu asperamente:

—Para que eu vá para Azkaban ao invés de você?!

Nicolai ficou chocado com a atitude do medibruxo. Davis intercedeu e pediu para que o médico e a enfermeira saíssem, o que fizeram com prazer, sem murmurar.

—Tsc, tsc... deve sentir-se um privilegiado por estar sendo julgado dentro de um tribunal, com todas as condições que nos impõe a Lei, Russo!

—Por que isso?

—Porque a maioria das pessoas julgam injustamente, sem conhecimento de causa, sem sequer buscarem uma causa. Outras sequer julgam, já condenam em primeira instância, são carrascos injustos. É o caso dos dois agentes de saúde que lhe atenderam... para eles o réu é sempre culpado, logo não merece sequer estar dentro desta enfermaria.

Há pessoas que tem o maravilhoso dom de deixar os outros se sentirem ainda mais miseráveis que antes... o que acabou de acontecer entre Davis e Nicolai. O animago deixou-se prostrar, desviou seu olhar para seus pés, sentindo apenas a fadiga infiltrada em todos os músculos de seu corpo e em todas as suas células cerebrais.

—Suponho que você não tenha mais condições de retornar ao Plenário...

Nicolai levou algum tempo ainda para responder e quando o fez foi de forma pesarosa, arrastada, atestando a sua débil condição espiritual: —Não.. não tenho... encerre aquilo ou me leve direto pra Azkaban, pelo amor de Deus!

—É.. a situação está feia mesmo, heim? – Davis falou mais para si do que para Nicolai o ouvir.

Assim que Davis girou em seus calcanhares para sair da enfermaria e chamar o paramedibruxo, sentiu uma pressão de ar em suas costas e virou-re abruptamente, em defensiva. Onde antes estava Nicolai, agora estava Crookshanks, completamente enrolado entorno de si mesmo e com o focinho enfiado sob as patas dianteiras. Obviamente que Davis tinha o conhecimento da animagia de Nicolai, mas a cena o chocou.

Mandou entrar o paramedibruxo e a enfermeira, apontando para o gato alaranjado sobre a maca.

—Psicologicamente o meu cliente não tem mais nenhuma condição de retornar para o Plenário. Peço que encaminhem um laudo ao Juiz, para que possamos adiar a audiência de hoje e marcar nova data.

O médico olhou torto para Davis, desafiando-o: —Conheço as artimanhas que vocês usam para retardar as suas causas perdidas... mas, eu quero que isso se dane, eu quero é ir para casa! Odeio esses julgamentos que estrapolam os limites das horas! Vocês não têm noção de tempo, não?!

Davis retorceu os olhos em desdenho, já também cansado da situação: —Não é uma artimanha e você sabe muito bem disso; examinou o réu e viu que ele se recusou a ser medicado e... você sequer insistiu naquilo que era seu dever! Por favor, doutor, o laudo.. e todos nós iremos felizes para casa, dormirmos confortáveis em nossas camas!Após os 15 minutos de intervalo, Davis apresentou-se novamente em Plenário, diante do Juiz, apresentando o laudo. Quando o Juiz proferiu a sentença, muitos dos presentes, inclusive alguns membros do júri, soltaram exclamações de alegria e alívio, afinal, passar mais de vinte horas dentro de um lugar como aquele, sem poder se alimentar ou descasar direito, era um verdadeiro castigo.

—A audiência está sendo encerrada. A próxima apresentação será a daqui três dias, às 14 horas. O corpo de jurados será insolúvel e as testemunhas convocadas e que ainda não deram seus depoimentos deverão comparecer ao Tribunal, inclusive a Sra Bhagata Caborje, que teve seu depoimento interrompido pelo mal súbito acometido ao réu. Estão todos dispensados por ora.

Osborn passou por Davis, e sussurrou, desgostoso: —Por que o seu cliente não passou mal dez horas antes, John?

—E por que você não é mais eficiente, Oz? Poderíamos já ter concluído esse julgamento...

Jonathan Davis se retirou. Iria para a sala das suas testemunhas, pois sentia que devia-lhes alguma desculpa, já que tinha plena consciência de quanto é inconveniente e desgraçado esperar o momento para depor... e, apesar da longa e desagradável espera, essa hora não iria chegar naquele dia e teriam que voltar outro e passar por tudo isso de novo...O Porteiro da Audiência informa às testemunhas de Nicolai de que a seção foi encerrada e que deveriam retornar daqui a três dias, às 14 horas. Quem ali estava foi pego de surpresa e diante do inesperado não sabia dizer se isso era bom ou ruim... Hermione foi a primeira a se manifestar:

—Não! Eu acho que não estou entendendo direito! O senhor está nos dispensando, depois de todo esse tempo aqui, esperando para depor?!

—É isso mesmo que ouviu, senhorita.

—Ah, hahah! Mas isso não pode ser assim! Isso...

Hermione foi contida por Dumbledore, que segurou de leve em seu ombro, olhando-a de forma resignada.

—É assim mesmo que ocorre em alguns casos, filha... agora voltaremos para Hogwarts e depois retornaremos para cá, dentro de três dias.

—E passar mais vinte horas aqui dentro novamente?! E sair de novo sem fazer o que vimos fazer?!

Neste momento Jonathan Davis entra na sala, desviando-se do Porteiro que já se retirava, juntamente com mais duas testemunhas, ficando apenas Hermione e Dumbledore. Hermione se cala assim que vê Davis, que a observava seriamente, com as sobrancelhas erguidas.

—Jonathan, meu caro! O que aconteceu, afinal? – Dumbledore aproximou-se de Davis, estendendo-lhe a mão em cumprimento. O advogado retribuiu o cumprimento, com um sorriso desmotivado, que demonstrava seu cansaço físico.

—Ah, Alvo, o que aconteceu é o que costuma acontecer em audiências longas como essa... o réu não suportou a pressão e tivemos que encerrar a seção, marcando nova audiência para daqui há três dias.

Hermione, instintivamente, sobraça o braço esquerdo de Dumbledore, sentindo o peito oprimido.

—O réu não agüentou a pressão?! Mas.. mas o que aconteceu a Pavel?! – Hermione perguntou em aflição, sem se questionar o porque disso.

Complacente, Davis mediu suas palavras, a fim de não causar transtornos ainda maiores que já foram causados.

—Todo esse evento ocorrido abruptamente acabou por enfraquecer as defesas emocionais de Nicolai.. ele... não está psicologicamente equilibrado e... quando a testemunha de acusação, a ex-Auror Bhagata Caborje foi depor, ela falou demais, falou coisas que não eram necessárias serem ditas... Nicolai foi pego de surpresa, assim como todos nós..

—Por favor, Jonathan, sem rodeios! O que Caborje falou para abalar a este ponto Nicolai? – Perguntava Dumbledore, emprestando para si a aflição de Hermione que ainda estava agarrada ao braço do Diretor.

—Nicolai não sabia que seus pais estavam mortos... ou melhor, a velha Caborje não apenas falou isso, mas contou em detalhes as circunstâncias da morte deles... Nicolai entrou em estado de choque.

Hermione soltou o braço do Diretor e levou as mãos à boca, impedindo que um grito saísse involuntariamente. Toda aquela angústia, toda aquela ardência em seu peito tinha esse motivo: por alguma razão, ela estava interligada ao animago, e a dor dele acabava sendo a sua também.

Era só uma tragédia atrás da outra... alguém teria que ter a mente de Cristo para suportar tamanha pressão. Como se todo o mal que caiu sobre Nicolai em tão poucos dias fosse pouco, foi ainda necessário ele saber que seus pais não estavam mais vivos?

—Mas.. mas.. ele pensava que os pais ainda estavam vivos?! Ele, do jeito dele, mesmo sendo Crookshanks, deve ter investigado, deve ter procurado pelos pais e...

—Não, Hermione.. não foi bem essa questão... – Cortou Dumbledore. —Nicolai sabia que seus pais não mais viviam, mas não conhecia as circunstâncias de suas mortes... eles eram Comensais da Morte e foram cruelmente mortos pelos seus próprios companheiros, pelos Comensais da Morte... e isso ocorreu pouco tempo depois do desaparecimento de Nicolai. Ele apenas não devia saber isso, como também, devia estar sentindo-se responsável por isso...

A cabeça de Hermione girou, pois um furacão acabava de passar por ali. Sentindo-se fraca, agarrou novamente o braço de Dumbledore e encostou sua cabeça, fechando seus olhos e tentando organizar seus pensamentos.

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