terça-feira, 25 de junho de 2013

Animago Mortis - Capítulo 36 - Julgamento - Bhagata Caborje

Capítulo 36 - Julgamento - Bhagata Caborje

A arquibancada do júri começava a se encher novamente, assim como uma pequeníssima parte da platéia, composta mais por jornalistas e jovens estudantes de Direito, que encontravam nesses julgamentos ótimas oportunidades para observarem na prática aquilo que aprendiam na teoria das aulas. O Plenário, após intervalo de três horas, voltava à vida ruidosamente em arrastar de sapatos e cadeiras sobre o assoalho de madeira escura. Os demais espectadores, formados por curiosos, alcoviteiros e ociosos, se foram para suas casas, esgotados pelas longas horas de julgamento. Com isso, os fluídos do ambiente - já carregado por si só - ficou menos estagnado, pois ali agora só restavam verdadeiros interessados na causa, seja para colaborar no desfecho - positivo ou negativo para o réu, não importa. - seja para aprender mais sobre as Leis Bruxas e suas aplicações. Os curiosos de antes poderiam ter suas curiosidades satisfeitas quando os jornalistas publicassem as matérias referentes ao julgamento do bruxo que foi amaldiçoado através da animagia por vinte anos.
Já eram altas horas da noite. Lá fora, na madrugada fresca, a Lua já rumava para desaparecer no horizonte. Aqui dentro, quando todos já em seus postos e a ordem voltava ao recinto, o réu entrou com seu defensor no mesmo momento que a acusação, e ambos dispuseram-se em seus anteriores lugares, esperando respeitosamente o retorno do Juíz, que entrou e sentou em sua cátedra instantes depois.

—A seção está reiniciada. Dr Osborn e Dr Davis apresentem-se diante do Tribunal.

Como ordenado, os dois advogados apresentaram-se diante do Juíz, ao centro do palco. Após breve resumo dos fatos anteriores acontecidos dentro do Plenário na primeira parte da seção pelo Auditor, Osborn recebe o direito de chamar ao Plenário sua segunda testemunha de acusação. O Porteiro que apenas aguardava a ordem, retirou-se imediatamente pela porta de acesso ao corredor, retornando minutos depois acompanhado de uma senhora franzina e pouco curvada para frente, que andava com certa dificuldade, em passos lentos, apoiando-se numa bengala. O silêncio reinava absoluto ali, todos apenas acompanhavam com o olhar para a velha bruxa que, lentamente, postava-se sentada na cátedra de testemunha, ao lado da cátedra alta do Juíz.

Nicolai, que estava totalmente desperto e alerta, embora ainda com uma ruim sensação ocasionada pelo sono perturbado que teve, arregalou seus olhos diante da diminuta anciã que ocupava a cadeira de testemunha e, por breves instantes, seus olhares se cruzaram. Embora ela estivesse ali para servir-lhe de acusação, Nicolai sentiu uma certa doçura contida naqueles olhos já apagados pela idade avançada. O rapaz lembrou-se ligeiramente de quem ela era, embora não fizesse a mínima idéia de seu nome. Estava tão feliz naquele dia de passeio à Hogsmeade que não deu devida atenção a essa figura que agora se apresentava a ele pela segunda vez após duas décadas. Era a mesma velhinha gentil que falara com Hermione naquele sábado trágico. E Nicolai, agora, lembrava-se dela, de muitos anos atrás... por que, diabos, ela fora convocada para ser testemunha de acusação em seu julgamento?!

Distraído com sua pequena descoberta, Nicolai não ouvia o início da apresentação da testemunha. Este agora era mais um fato esdrúxulo que ele não sabia o que esperar. O que há com esse pessoal, afinal de contas? Primeiro chamam Snape para depor contra ele; agora essa velha que parece ter perdido a lucidez séculos atrás. Se é para ser um julgamento teatrético, que ao menos não fosse ridículo. Quem seria sua próxima testemunha após ela? Lucius Malfoy?

—Bhagata Caborje, 125 anos, sim-senhor! Eu já era uma respeitável Auror quando Grindelwald brincava de grifo de pau com a vassoura voadora de sua mãe! - E a velhinha desatou a gargalhar esganiçada, até ser interrompida por um acesso de tosse e asma.

Os ombros de Nicolai caíram com a patética cena. Davis arqueou as sobrancelhas, torcendo o rosto de desagrado. Osborn, encabulado, dá uma rápida olhada para Davis, como se pedisse desculpas, e este retribui o olhar com um silencioso "—fazer o quê?!"

Um assistente aproximou-se da velhinha, para ver se ela estava bem - seria algo teatral demais se ela viesse a falecer naquele momento - providenciando de imediato um copo d'água que foi bebido inteiro em dois goles. Dada por satisfeita e retomando seu fôlego normal, a velhinha aprumou-se na cátedra e tomou ares de séria importância, cruzando as mãos sobre a pequena bancada a sua frente.

—Desculpe-me, senhores! Meus pulmões não são mais os mesmos de antes...

—Tenho certeza que sim... - Osborn sussurrou imperceptivelmente para si mesmo, antes de inciar seu inquérito. Deu dois passos adiante em direção à Bhagata Caborje: mãos cruzadas às costas, cabeça inclinada para baixo para ocultar sua expressão de desalento pela má escolha da testemunha... afinal, o que ele poderia fazer, se as boas testemunhas que acreditava serem, eram Comensais da Morte, logo devedores da Lei Bruxa, impossibilitados de servirem de testemunha para acusarem um réu sem antecedentes registrados?

—Bhagata Caborje, a senhora, como acabou de falar, foi Auror do Ministério da Magia, em época que o Ministério da Defesa era ainda um Departamento do primeiro... por quanto tempo a senhora atuou nessa carreira?

—Por gloriosos 83 anos, 5 meses e 20 dias! - Falou a velhinha, toda orgulhosa, arrancando espasmos de admiração - positiva e negativa - da platéia presente. Bhagata Caborje esperou pacientemente que todos se esfriassem os ânimos, voltando ao recinto um olhar perscrutador e um sorrisinho sarcástico que se deformava em seu rosto enrugado com sulcos profundos e pregas salientes. —Ah, mas sei o que estão todos vocês pensando!

—Temos certeza de que sim, Sra Bhagata Caborje. - Osborn interrompeu, impacientado. —E de acordo com a sua informação, a senhora então estava ainda atuante durante a primeira ascenção Daquele-que-não-deve-ser-nomeado?

Bhagata sentiu-se ofendida com a interrupção do molecote de cabelo lambido e dirigiu a ele um olhar rancoroso, que logo se abrandou. -—Se o senhorinho me permitir, contarei uma bela história até chegar a esse outro senhorinho prepotente aí, cujo nome é Tom Marvolo Ridlle, e não esse apelido ridículo que inventaram para encobrir um outro apelido ainda mais ridículo!

Os presentes instintivamente se encolheram ao ouvirem a audácia da decrépta velhinha, temendo que ela pronunciasse o nome proibido - Lorde Voldemort. O Juiz lançou a ela um olhar ameaçador de censura. Davis deu seu sorrizinho zombeteiro e por pouco Nicolai não faz o mesmo, mas contentou-se em apenas erguer as grossas e arqueadas sobrancelhas... aquilo ali era mesmo um circo!

—Perdão, Sra Caborje, mas não é exatamente sobre 'esse senhor' que gostaríamos de saber, mas sobre aqueles que o seguiram há vinte anos atrás. - Respondeu o já impaciente promotor.

—Sim, sim, chegaremos lá! - Abanando desdenhosamente a mão destra para Osborn, a velhinha respondia com um sorriso no rosto enrugado.

—Por favor, senhora, isso é para agora! Gostaríamos de saber o seu conhecimento sobre a família Donskoi: Dmitri e sua esposa Nikita Donskoi, que foram Comensais da Morte e tombaram ainda durante a primeira guerra.

Jonathan Davis soltou um muxoxo de impaciência, chamando para si a atenção de Nicolai, murmurando de forma que apenas o garoto pudesse ouvir: —Eu não acredito que Osborn ainda esteja batendo nessa tecla em tentar te acusar através dos teus pais!? - Davis virou-se para Nicolai, com um sorriso incrédulo e sarcástico no rosto. —Eu não consigo é acreditar que esse cara estudou na mesma faculdade de direito que eu estudei!!

Nicolai torceu o rosto em descontentamento, voltando sua atenção ao palco, replicando em resposta: —Eu que não vejo diferença alguma entre vocês!

Davis lançou um olhar mau para seu cliente, mas preferiu manter-se calado e voltar sua atenção novamente ao inquérito.

—Jovens! Por que tanta pressa pra tudo?! - Resmungou a velha Bhagata, aborrecida. —Sim, sim, lembro-me alguma coisa sobre esses dois jovens tolos, lembro-me de ter escrito o relatório de baixas do campo inimigo na Primeira Guerra. Pra que quer saber deles, garoto? Deixe que os mortos enterrem seus mortos!

—Só que os mortos, embora estejam mortos e enterrados, também podem nos ajudar a elucidar muitas dúvidas... portanto o que queríamos que a senhora afirmasse é se Pavel Nicolai Donskoi, filho de Dmitri e Nikita Donskoi, também foi um seguidor do Círculo das Trevas? Talvez a senhora lembre-se de algo a respeito.

Bhagata debruçou-se na bancada de sua cátedra e olhou profundamente para Nicolai, que sentiu gelar e derretar por dentro. A velhinha parecia decrépta e demente, mas seu olhar afiado parecia perscrutar dentro de sua alma, tentando buscar respostas e conhecimentos. Seria ela uma legilimante? Seu olhar era o mesmo que já presenciou outras vezes em outras personagens, como o de seu próprio avô, Vassili Afanassievich, e até mesmo de Voldemort e Dumbledore. Vassili Afanassievich ensinou tudo o que Nicolai sabe quanto às artes obscuras, inclusive Oclumância, o que lhe salvou em muitas situações pretéritas, na época da Primeira Guerra...

A Oclumância, por se tratar de uma arte obscura, usada para trancar a mente, logo era uma magia interna, era a única defesa de que Nicolai dispunha dentro daquele tribunal. Mas, embora o olhar de Bhagata fosse afiado como uma adaga, era apenas aparentemente, pois Nicolai não sentia nada de diferente em si, como aquele fio invisível penetrando em sua cabeça pela glândula pineal, como era o costume de acontecer quando se sofria a legilimência. O garoto relaxou de sua tensão, deixando-se escorregar ligeiramente em sua cátedra, encarando confiante a velhinha carcomida.

Pois, o que Bhagata Caborje fazia era tentar enxergar com alguma exatidão o rosto de Nicolai, uma vez que se recusava a usar seus óculos de grau, teria que fazer esforço de alguma parte para substituir o esforço de se usar tal incômodo acessório. E, sim! Ela lembrava-se do garoto! Recostou-se novamente a sua cátedra, com um sorriso e expressão confiantes que fez Nicolai ficar preocupado...

—Sim, sim! Eu me lembro do garoto!

O público presente ovacionou ante a resposta firme de Bhagata. Nicolai e Jonathan Davis remexeram-se incomodados em suas cátedras. Osborn soltou um sorriso de satisfação, embora ele, intimamente, não desse muito crédito a qualquer coisa que a velha dizia.

—Então, Sra Caborje, a senhora afirma ter conhecimento de Pavel Nicolai Donskoi, o réu aqui presente? - Perguntou, feliz da vida, Osborn, apontando para um preocupado e aborrecido Nicolai.

—Conhecimento? Sim, sim! Mas é claro que sim! Posso hoje me esquecer em que dia da semana estamos, mas minha memória das minhas atividades no passado, na minha gloriosa época no Departamento dos Aurores, sendo uma gloriosa 'Inominável'... ah, sim, sim! Dessa maravilhosa época me lembro cristalinamente!

Mais uma vez, naquele julgamento, o mundo desabou para Nicolai! Nada é tão oculto que não haja sequer uma alma que não saiba! Sua atividade no Círculo das Trevas talvez não tenha passado tão despercebido assim. Então, por quê, não havia nenhum indício de sua passagem pelos arquivos do Ministério?

Hermione andava de um lado para outro. As demais testemunhas que ocupavam o mesmo recinto que ela, dormiam em suas poltronas, ou estavam ausentes, como Alvo Dumbledore. A garota estava aborrecida, com o corpo dolorido, impaciente, a cabeça zunindo. Que espécie de tratamento estúpido era esse que o Ministério da Defesa dava às testemunhas?! Nem o réu merecia tal tratamento! Como pode pessoas serem arrancadas de suas vidinhas diárias para estarem ali obrigadas, sendo oferecidas a elas um péssimo tratamento, sendo obrigadas a esperarem por horas a fio por um depoimento que parecia nunca chegar?!
—Pobre Pavel! Se é assim tão ruim para as testemunhas, imagine como será para o próprio julgado?! - Resmungava para si mesma, enquanto andava estressada de um canto ao outro do recinto.

A porta se abriu, dando passagem para um sério Alvo Dumbledore, que fitou por instantes Hermione, seguindo seu caminho logo depois, parando na direção da garota, quando esta retornava de seu trajeto em linha reta no salão. Hermione parou frente ao velho mago, levando as mãos à cintura e o encarando impacientemente. Dumbledore a encarou de volta, com pena.

—Estou exausta, professor! Não agüento mais ficar aqui dentro, não agüento mais essa situação! Até quando vai isso?! Por que, simplesmente, não marcam o tempo certo para cada caso?!

—Lamento muito que esteja passando por isso, Hermione. Há muitas deficiência nas ações do Ministério e esse tratamento a que estamos sendo submetidos é um desses defeitos! Peço-lhe mais um pouco de paciência. Tente relaxar corpo e mente. Sente-se e mentalize algo de que gosta: um lugar, uma atividade, uma pessoa... isso lhe ajudará a manter a calma e a lucidez.

Hermione continuou a encarar Dumbledore, ponderando e aceitando, por fim, os conselhos do sábio mago. Meneou positivamente a cabeça e sentou-se novamente no sofá onde antes estava, recostando-se e tentando relaxar, fechando seus olhos e controlando sua respiração... mas a angústia do 'não saber nada' a impedia de relaxar completamente. Reabriu seus olhos e encontrou Dumbledore, que a observava atento, como se estudando suas ações. A verdade é que ele sabia o que tanto a incomodava e somente aguardava a oportunidade de ela se manifestar por livre e espontânea vontade.

O orgulho que ficasse à parte.

—Professor... o senhor... o senhor soube de algo referente a... Donskoi? - Hermione perguntou, enfim.

—Sim, eu soube algo que, tenho certeza, será um alívio para você tanto quanto foi para mim...
Hermione desencostou do sofá, apoiando seus braços sobre seu colo e olhando afinado para Dumbledore, com sua curiosidade e expectativa a flor da pele: —O quê? O que aconteceu a Donskoi, professor, para dizer que foi um alívio??

Dumbledore deu seu suave e sincero sorriso, respondendo muito satisfeito à pergunta de Hermione: —O nosso caro Nicolai foi submetido, em plenário, a apresentação de uma prova, uma prova aplicada a todos os suspeitos a Comensais da Morte.. Nicolai foi submetido a 'morsmordre' e... se ele fosse mesmo um Comensal da Morte, como se suspeitava, a marca negra estaria visível ante o feitiço de invocação... coisa que não aconteceu!

Hermione alargou seu belo sorriso, tendo seus olhos brilhantes de satisfação: —Então, quer dizer...?

—...que nosso caro Pavel Nicolai Donskoi NÃO É um Comensal da Morte! - Mentiu Dumbledore, uma vez de que ele era conhecedor da "verdadeira verdade". Mas, para Dumbledore, o que valia era a intenção e não apenas o fato isolado.

A garota jogou-se contra o encosto do sofá, sorrindo feliz de satisfação. Um grande peso havia desaparecido de seu coração, deixando de oprimir seu peito. Instintivamente, fechou seus olhos e agradeceu em oração o ocorrido. Ela sempre soube que aquele que fora Crookshanks jamais poderia ser algo voltado para a perversidade. O rapaz animago já tinha sofrido demais e por muito tempo, já havia sido castigado o suficiente em passando vinte anos trancafiado num corpo animal por uma magia, não era necessário que ele viesse a sofrer ainda mais sendo mandado à Azkaban por crimes que talvez tivesse cometido há tantos anos atrás... e mesmo que tivesse cometido tamanhas faltas, ele merecia a chance de regeneração, pois ainda poderia oferecer muita coisa boa à Comunidade Bruxa e ser enviado para morrer lentamente em Azkaban não traria as possíveis vítimas de volta e nem consertaria o passado tão errado - e nem consertaria a ele próprio.

Eram erros por erros.

Mas, agora, com essa certeza, ela poderia relaxar e descansar. E, assim, poderia oferecer seu melhor em defesa ao pobre garoto.

Fim do Capítulo 36 - continua.
By Snake Eye's - 2006.

N/A:
Bhagata (do hindu) e Caborje (africano) são apenas palavras que significam bruxaria. No Brasil ambas palavras são usadas no populismo em lugares diversos, para a mesma finalidade: outros nomes para bruxaria.
Servolo ou Marvolo, qual dos dois é mesmo o da versão brasileira??!
Nikita (finalmente a mãe de Nicolai ganha um nome!) é uma homenagem à doce gatinha da doce Pat Kovacs, que faleceu em outubro passado. Embora 'Nikita' seja um nome masculino, fica sendo pela homenagem mesmo. E a personalidade da mãe de Nico (que não devia ser boa coisa já que era uma comensal da morte) é irrelevante quanto à homenagem.
"Deixe que os mortos enterrem seus mortos" - frase de Jesus Cristo escrita no Evangelho.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Animago Mortis - Capítulo 35 - Julgamento - Recesso & Pesados Elos

Mesmo que sua aparência e a impressão que causava às pessoas fizessem dele um sádico e lunático, no fundo Jonathan Davis era um ser humano ponderado e compreensível. Olhou por algum tempo, observando Nicolai em seu atual estado: completamente diferente do rapaz orgulhoso e frio de vinte anos atrás, que envergava a muito contra-gosto o uniforme de Hogwarts. A face era a mesma. O porte físico também. Embora ainda mantesse a altivez, muita coisa mudou. A terrível provação a que fora submetido durante vinte anos através da maldição Animago Mortis esmantelou seu orgulho e trepidez como se um trator ouvesse passado sobre ele inúmeras vezes. Esse Nicolai Donskoi a sua frente estava mais para um farrapo humano, uma criatura de dar pena, que um altivo bruxo das Trevas. E ele era, sim!, digno de compaixão.

Achou melhor parar de imaginar as tormentas a que o velho garoto passou nas últimas duas décadas e voltar ao seu trabalho, pois, ao contrário de seu cliente, ele não poderia ter o luxo de tirar uma soneca e descançar até à reabertura da seção.

Nicolai estava mesmo acabado, esgotado. Mesmo depois de ter terminado seu sanduiche e seu chá, não se animou sequer a depositar o prato e a xícara sobre a mesa de centro a sua frente, preferindo mantê-las sobre seu colo. Davis torceu o rosto numa lamentação silenciosa, pegou prato e xícara, colocando sobre a mesinha; em seguida segurou com firmeza Nicolai pelo braço, levantando-o e encaminhando-o até um divã no fundo da sala. O animago estava tão prostrado que sequer relutou ou teve a mínima resistência.

—Você precisa estar bem e lúcido, russo! Procure pôr todo o seu esforço em descansar completamente em duas horas, quando irei acordá-lo e voltaremos ao Plenário.

Não era necessário a sugestão ou mesmo uma segunda ordem. Nicolai desabou ao divã e adormeceu instantaneamente, completamente fustigado por todos os acontecimentos das últimas horas. Um momento de repouso não era somente para poupar o corpo e recompor sua energia, era principalmente para manter a lucidez da mente e buscar lenitivos para seu espírito esgotado.

Dizem que basta uma pequena brecha, uma pequena invigilância do corpo para que o Espírito se veja momentaneamente liberto do cárcere carnal. Quanto mais debilitado o corpo, mais frouxo acha o Espírito os laços que o prendem, daí que este pode sair em busca de alívio e conhecimento, visitar entes e lugares queridos, inundar-se no lago sereno de reforços fluídicos para conseguir as forças necessárias para continuar sua caminhada terrena, com a coragem e vontade necessárias.

Infelizmente, o inverso também acontece.

O mau não existe, é apenas a ausência do bem. E quando estamos em estradas turvas e trevosas, nosso caminho se torna perigoso.

Nicolai adormeceu instantaneamente logo que Davis praticamente o jogou no divã. Certamente já estava em estado de vigília desde que terminou seu parco lanche. O seu grande desejo oculto no abismo de seu coração, nas últimas horas, era poder retornar à Lentz, sua cidade natal situada na parte oriental da grandiosa Rússia. Desejava retornar à Lentz em princípios de floradas primaveris, e respirar novamente aquele ar puro e frio, de vento fresco que vinha da Sibéria. Para ele não havia lugar mais belo, pois era ali que seu coração havia sido plantado. O céu de primavera, de azul profundo, e a neve restante, que resistia aos primeiros dias ensolarados, cintilava qual estrelas fulgidias sobre galhos e folhas de pequenos arbustos; o musgo úmido sobre troncos de velhas árvores e pedras desprendia um perfume suave e refrescante ao contato dos mornos raios de sol. Sentia enorme saudade de ver o orvalho evaporando e os pequeninos córregos que se formavam da neve derretida que descia das montanhas, que juntos desaguavam no rio recém descongelado e uma torrente forte que arrastava tudo quanto encontrava a sua frente, mas, por sua vez, levando a prosperidade às margens onde passava, depositando toda forma de sementes e fragmentos orgânicos, gerando vida e beleza.

E ali ele estava, após longos e quase intermináveis vinte e dois anos tortuosos. A sua leveza de pluma era tanta que poderia flutuar no mais leve impulso de sua vontade. Não era a Primavera que tanto desejava, mas o final de um Verão manso que já cedia à entrada do Outono. O cenário não possuía mais as cores vibrantes de verdes e amarelos, mas se desvanecia em ocres e marrons oxidados. A luz branda dava um aspécto ainda mais sereno àquela paisagem intransfigurável e secular. Seu coração estava tão desejoso de estar novamente em sua terra natal que sentia o vento frio em seu corpo e a textura das gramíneas em seus pés descalsos. Viu um túneo de grandes e onipotentes árvores que pareciam guardar a longa estrada de terra batida. Seguiu sem receios a estradinha e após algum tempo de caminhada, encontrou aquilo que supunha encontrar: um belíssimo solar em mármore branco, cujas duas torres terminavam em gotas do mais reluzente ouro.

Sua respiração falhou e lágrimas brotaram em seus olhos.

Longe por mais de duas décadas, finalmente revia o único lugar que pôde chamar de lar, revia a residência de seus amados avós paternos, com quem conviveu os melhores e verdadeiros anos de sua exitência. Onde nasceu, creceu e... de onde fora arrancado para um destino cruel.

Correu até o solar, transpassando como fosse imaterial os arbustos e outros obstáculos, até chegar frente a grande porta de folha dupla em ouro, ornamentada de riquíssimos detalhes impressos no metal. Apenas estendeu sua mão e a porta se abriu suavemente para uma penumbra que lhe era tão conhecida. Logo seus olhos se acostumaram à mudança de luminosidade e pode divisar o interior do palácio, ainda mais opulento que seu exterior, todo em mármore e ouro. O enorme hall de entrada era ornamentado com longas janelas de vultuoso vitrais, cujos topos terminavam na forma de gota; armaduras douradas faziam a "guarda" entre uma janela e outra, sob belíssimas tapeçarias que retratavam as cenas de resistência e vitória russa sobre o jugo tártaro, no século 13; o chão era em lustroso mármore trabalhado que formava desenhos de arte oriental em diversos tons e tipos da pedra; ao centro, como se convidasse a subir aos níveis elevados, uma escadaria igualmente em mármore e corrimãos e balaústres em ouro. Nicolai não se ateve em qualquer detalhe, a ele parecia tudo como era há vinte e tantos anos atrás. E como uma criança que retorna feliz à casa dos avós, subiu correndo a escadaria na esperança de encontrar algo ainda de seu passado.

Chegando ao segundo nível do solar, deparou-se com o longo corredor que levava aos quartos. Os archotes estavam todos apagados e o corredor estava mergulhado na penumbra progressiva, deixando o seu fim totalmente escuro, incapaz de se divisar qualquer coisa. Nicolai segurou seus impetos de ir de quarto em quarto. Não entendia o porque, mas algo o dizia para ser cauteloso - talvez a emoção de rever seu antigo lar. Mas uma força estranha o guiava para aquele lugar sombreado, em direção à escuridão que se adensava conforme avançava em seus passos. O estranho é que sua vista não se acostumava a nova mudança de luminosidade... o que havia ali era mesmo as trevas e percebeu isso quando olhou um dos archotes e viu que havia chamas acesas, mas sua luminosidade não conseguia quebrar as trevas daquele lugar e iluminavam apenas a si próprios. Olhou os outros archotes, apenas pontos de luz na parede; por algum motivo que ainda não havia percebido, as chamas dos archotes não eram capazes de iluminar o lugar.

A alegria de antes cedeu ao temor de que algo não estava bem. Tomou sua antiga postura altiva e séria. Cautelosamente, pé ante pé, andou para a escuridão densa do corredor, como que sendo guiado para um determinado ponto daquele lugar. Seus sentidos estavam todos aguçados, inclusive os instintos felinos que acabaram por impregnarem-se em sua própria personalidade, após todos esses anos vivendo exclusivamente como um gato. O som não havia nenhum. Era tudo escuro, silêncioso e tétrico como o vácuo e apenas os baques abafados de seus pés sobre uma longa tapeçaria indicavam que algo vivo ali estava. Finalmente chegou ao final do longo e tenebroso corredor, parando frente a uma larga porta que, em tempos idos, dava acesso ao grande salão que era usado pela família para o entretenimento, como jogos e leituras.

De alguma forma pressentia que algo terrível se ocultava atrás daquela porta. Fosse por tola coragem, fosse por tola curiosidade felina ("—...e a curiosidade matou o gato" - Nicolai não deixou de pensar...), o rapaz levou sua mão à maçaneta de ouro trabalhado, fechando com firmesa seus dedos em torno dela. Inspirou fundo e, num rompante, abriu de uma vez a porta.

Surpreso, viu que o ambiente estava calmo e levemente iluminado e tudo parecia em ordem, como sempre fora: prateleiras de livros de uma ponta a outra, de alto a baixo, na parede oposta à porta; a lareira crepitante e os estofados ornados e luxuosos ao canto direito da sala; mesa de jogos e cadeiras e poltronas ao lado esquerdo sob enorme janela de vitral representando o brazão e armas da família, o clã Donskoi...

O que ele esperava encontrar, afinal?

Desorientado com seus próprios pensamentos e intuição inconveniente, Nicolai adentrou até o centro do salão, não entendendo o porque de ter sido atraído para ali e nem porque a desconfiança de que algo horrendo o aguardava.

Foi quando a porta se fechou serenamente as suas costas e somente percebeu ao ouvir o clique da fechadura.

Olhou para a porta e viu que ela, aparentemente, se fechou sozinha. Aparentemente...

Neste instante um mal-estar tomou conta de Nicolai. Sentiu um peso sobre sua cabeça, sobre o primeiro chacra, como fosse uma mão gigante e invisível a pressioná-lo para o chão. Um calafrio percorreu seu corpo, desde a sua coluna vertebral até seus pés. Abraçou-se na inútil tentativa de amenizar aquelas sensações horrorosas. Quis corrrer dali, mas seu corpo não lhe obedecia. Quis gritar qualquer coisa, mas a voz saiu arrastada e quase muda. Quis enxergar melhor e com mais precisão, mas o ambiente mergulhou numa penumbra disforme. Foi então que viu finalmente aquilo que sua intuição lhe advertia: vultos como fossem mantos negros esfarrapados rodopiando nervosos em sua volta, por todo o salão!

As chamas da lareira crepitaram mais forte, elevando suas labaredas que serpenteavam nervosas. Nicolai, sob o peso opressor de fluídos negativos e trevosos que tentavam o envolver por completo, centrou sua atenção àquelas chamas que lhe pareciam dubiamente terríveis e salvadoras. Tentou em vão se arrastar até elas, mas o peso invisível fazia com que seu corpo pesasse inconsebíveis toneladas. Todos os seus sentidos estavam obrigatoriamente voltados para as terríveis sensações que sentia e, mesmo tendo a leve consciência de que aquilo era um sonho - ou melhor dizendo: pesadelo! e daqueles mais tétricos! - não conseguiu escapar de volta ao mundo material onde encontrava-se encarcerado. Então soube, como por instinto, de que aquilo não era meramente um sonho fantasioso criado pelo subconsciente durante parte do sono, e sim uma invasão e ataque mental de ocultos e esquecidos verdugos e adversários que acumulou ao longo da vida milenar de seu espírito de trevas, que somente agora buscava ardentemente elevar-se para a luz redentora.

A força da pressão invisível prostou-o ajoelhado ao chão. Nicolai usava toda a sua força para não sucumbir e ser dominado inteiramente pelas Trevas. Mantinha a custo a fronte erguida, não desviando seus olhos em rasos d'água das labaredas serpenteosas da lareira. Foi então que dois vultos pararam a sua frente, transfigurando-se em duas formas que, embora deformadas como fossem argila derretida, Nicolai não teve muita dificuldade para reconhecer quem eram: seu pai e sua mãe!

Arregalou os olhos e suas lágrimas fluiram abundantemente com o que via. Seus pais pareciam formas lamacentas e havia sangue, muito sangue espalhado por seus corpos deformados. Suas expressões eram de ódio e loucura. E seu pai falou, numa voz gutural, mas cujo timbre era o mesmo de Dmitri Donskoi em idos tempos:

—Filho traiçoeiro e ingrato! Agiu apenas em pro domo sua! Vil, torpe, indígno! Maldito infeliz! Você nos traiu! Traiu aos seu próprios genitores, que lhe deram a vida e tudo que eras!

Nicolai estava aturdido, incrédulo, pasmado. Não conseguia pronunciar nada além de um som arrastado e quase inaudível. Ainda lutava penosamente contra a força invisível que o subjugava. Somente as lágrimas abundantes de dor manifestavam aquilo que seu corpo era impedido de fazer.

Sua atenção foi desviada para a figura de sua mãe, tão deformada quanto a de seu pai. O miserável espírito pôs-se a chorar convulsivamente, em desespero, o que só aumentou o ódio que fluía de Dmitri, que se aproximou de Nicolai, na tentativa de machucá-lo, mas uma outra força invisível, que ele não percebeu, o impediu de se aproximar de todo do garoto.

—Maldito sejas, Pavel, filho promíscuo e ingrato! Por sua covardia e traíção, o Lorde nos mandou impiedosamente para o vale das trevas da morte! Por sua culpa, maldito Pavel!, nossos planos foram destruídos, nossas vidas foram roubadas e fomos jogados neste umbral tétrico de trevas eternas! - Vociferava Dmitri, pai de Nicolai.

—Não... - falou debilmente Nicolai, entre as lágrimas de terríveis dores morais que pareciam atravessar seu peito com uma lança dúbia de fogo e gelo.

Nicolai baixou a fronte, fechando fortemente seus olhos. A dor invisível, sentimental, o estraçalhava por dentro. Tentava uma forma de sair daquele lugar, de despertar, de conjurar uma magia qualquer que o libertasse daquele pesadelo terrível! Precisa de força para isso, mas uma força oposta: uma força de Luz, de fluídos positivos. Mas como conseguir isso?! Ele era um bruxo das Trevas, não conhecia outras armas além das Trevas! E apenas as forças opostas anulam uma a outra!

—Pai! Misericórdia! - Conseguiu espelir entre lágrimas e sufocamento.

Imediatamente o peso sobre sua cabeça cedeu e as sombras - e vultos - começaram a se dispersar. Conseguiu então erguer, ainda aturdido, a fronde e viu que seus pais afastavam-se velozmente, flutuando ao solo, e seu rostos estavam lívidos e temerosos. Foi então que Nicolai sentiu como se um manto quente o envolvesse pelas costas, desoprimindo seu peito e deixando-o gradativamente mais leve, até que braços de luz o erguesse do chão, levando-o ao colo.

Assustado - mas profundamente grato por aquele refrigério e salvamento - olhou para o vulto esbranquiçado que o envolvia maternalmente em seu braços, e encontrou um par de olhos dourados, ternos e tristes, que pareciam ver dentro de sua alma. A entidade abraçou-o fortemente e o garoto encontrou-se com longos, finos e lisíssimos cabelos brancos que escorriam feito seda por seu rosto...

—Avó?!!

Nicolai abriu seus olhos, olhando aturdido para o etéreo que ainda se fazia visível diante de si. Arfou o ar abafado daquela sala sisuda do tribunal, como se tivesse corrido milhas até chegar ali. Seu coração estava descompassado, estressado, e seu corpo suava frio. Levantou-se de súbito, levando as mão à testa, sem saber exatamente o porque daquela aflição. Tentava em vão recordar o que havia sonhado, mas apenas a sensação de Trevas e Luz mantinha-se em sua mente. Lembrou-se amarguradamente de seus pais, numa sensação extremamente dolorosa. Lembrou-se por fim de sua querida avó, a Matriarca Maria Ivanóvna, como fosse o calor do débil sol de inverno.

—Você é pontual, heim russo! Sequer precisei te acordar! - Debochava Davis, parado ao lado do divã onde Nicolai havia dormido.

O animago olhou estranhamente para o advogado, quase como se não o reconhecesse. Davis, que havia percebido a aflição de Nicolai enquanto este dormia, nada disse ou perguntou, mas ficou observando o garoto, que não se manifestou quanto a isso.

Nicolai voltou-se para si mesmo, mergulhado em suas conjecturas. Seja lá o que tinha sonhado - que não lembrava com precisão, mas apenas das sensações horríveis e de alívio no final que sentiu - não era um simples sonho, mas, tinha a certeza intuitiva, de que havia sofrido um ataque mental.

Dor, angústia, decepção, tudo se misturava na incerteza de que se encontrava, e do futuro que o aguardava. Apenas havia-lhe uma certeza:

—Preciso sair dessas Trevas. Preciso sair daqui!
 
Fim do Capítulo 35 - continua...

By Snake Eyes - 2006.

N/A:

pro domo sua - latim, significa "em sua própria causa".

terça-feira, 11 de junho de 2013

Animago Mortis - Capítulo 34 - Julgamento - Recesso e dúvidas.

Capítulo 34 - Julgamento - Recesso e dúvidas.

N/A: Eu já perdi o fio da meada, então deve ter algumas incoerências no percurso. Então, peço-lhe encarecidamente, que se encontrar essas incoerências, me dê um toque a fim de corrigir o erro. Valews! E mil desculpas '

Davis levantou-se decidido, sobressaltando Nicolai que o observava com olhos arregalados, fazendo com que seu cansaço mental e físico cedesse por instantes. Nicolai ainda enxergava Jonathan Davis como uma bomba pronta a explodir e derrubar tudo o que estava a sua alcance, e qualquer ato ou palavra vinda dele lhe parecia o ponto final de tudo.
 
-Sr Meritíssimo, peço recesso no plenário de três horas, para a reposição de energias.

-É um pedido conveniente, Dr Davis. Dr Osborn, aceitas o recesso de três horas?

Osborn olhou de esguelha para Davis não muito satisfeito, ponderou por instantes e voltou sua resposta ao Juiz: -Sim, sr Meritíssimo. Mesmo a contra-gosto devo concordar de que a pausa é necessária no momento.

-Que assim seja. - o Juiz martelou sobre a mesa, retumbando suas ordens seguintes: -A seção entrará em recesso por três horas. Quem quiser pode retirar-se do plenário e retornar após o intervalo.

Enquanto a platéia, que já havia menos da metade de quando se iniciou o julgamento, se movimentava ruidosamente, indo em retirada do local, Nicolai afundou em sua cadeira, levando a mão esquerda ao rosto, massageando os olhos e fronde. Estava esgotado e o recesso apenas lhe faria piorar sua tensão e alongar esse sofrimento de impasses.

-Va'mbora, russo! Ou prefere esperar por três horas a sua sentença nesse lugar de mau gosto?

Nicolai levantou seu olhar para Davis, absolutamente nem um pouco satisfeito com qualquer coisa que viesse daquele bruxo displicente e debochado. Poupou-se de qualquer resposta, não querendo desperdiçar nem uma gota de fôlego com conversa estéril, mesmo que fosse breve. Sentindo-se muito pesado, Nicolai apoiou as mãos sobre os braços da cadeira e levantou-se, arrastando-se para fora daquele lugar. Tinha a certeza de que não poderia respirar um ar puro e fresco, seria levado para outro cômodo de ambiente estagnado, mas comer e beber algo talvez lhe fizesse algum bem ao seu ânimo.

Réu, Júri, Testemunhas, acusação e defesa, todos são mantidos separados em salas apropriadas, por motivos óbvios. Nicolai entrou numa dessas salas, a destinada ao réu e seu defensor. Não notou nada a sua volta, apenas se jogou sobre uma poltrona de estofado fofo, que afundou ao seu peso, jogando em seguida suas costas contra o encosto, deixando sua cabeça descansar, cerrando seus olhos como se sentisse alguma dor mínima. Iria aproveitar todo segundo disponível para esse descanso, tentar esfriar a mente, não pensar em nada.

Davis entrou logo em seguida a Nicolai na sala, e após fechar a porta atrás de si, parou alguns passos depois, encarando Nicolai com ar indagador, até mesmo perplexo. O garoto, após alguns instantes, percebeu o olhar do advogado em sua direção e se deu apenas ao pequeno trabalho de abrir seus olhos cansados e erguer suas sobrancelhas também em tom indagador, porém aborrecido.

-O que foi agora?! - Nicolai perguntava em tom áspero, mas que demonstrava seu cansaço que ele não fazia nenhuma questão de ocultar.

-Eu estou bolado... - Davis respondeu calmamente, prolongando cada sílaba da frase.

-E eu com isso?! - Nicolai replicou aborrecido, mas voltando-se para sua posição de origem na poltrona e retornando a cerrar os olhos, a fim de descansar um pouco.

-O que você tem com isso? - Davis falou num tom sarcástico, deixando escapar uma leve risada arrastada, sentando-se em seguida na poltrona de frente a Nicolai, remexendo na bandeja que se encontrava sobre a mesinha de centro, com bules de chás, xícaras, pratinhos, bolos e alguns sanduíches. -Você me pergunta o que tem com isso?! - Continuou a falar, agora em tom de ceticismo, como se falasse apenas para si mesmo enquanto preparava as xícaras com o chá e os pratos com os sanduíches.

-Eu tenho a absoluta certeza do que ouvi de Dumbledore... o velho não se engana com uma coisa dessas, mas... - Davis levava a boca o sanduíche no mesmo instante em que empurrava um prato para Nicolai, cutucando-o sobre o estômago. O Animago despertou de sua vigília ainda mais aborrecido, encarando Davis como uma criança que é despertada de um sono bom.

-É muito difícil pra você me deixar em paz?!

-Coma! - Ordenou Davis, empurrando o prato com sanduíche e agora uma xícara com chá para cima de Nicolai. -Precisamos repor energias, não sabemos quanto tempo mais poderá demorar esse julgamento.

Mesmo contrariado, Nicolai pegou o que lhe era oferecido e se forçou a comer o sanduíche, mesmo que não tivesse nem fome nem vontade para isso. Além de estar muito cansado para manter qualquer conversa, não lhe agradava nem um pouco fazer isso com Jonathan Davis e sequer lhe dirigia um olhar. Davis recostou-se em sua poltrona, comendo de boca aberta seu sanduíche enquanto ria para si mesmo.

-Quando sairmos daqui, Russo, quero saber qual é dessa história de marca que não aparece... ou será que você mentiu para Dumbledore?

-Não sei de nenhuma história, não menti para Dumbledore e não pretendo ter mais nenhuma conversa com você depois que sairmos desse lugar!

-Ho ho ho! - Zombou Davis; -Você realmente não foi com a minha cara! Mas, bem, não sou um sujeito rancoroso e tenho pouca vergonha na cara. Sei que Dumbledore é um mago muito poderoso, mas não creio que o poder dele seja capaz de anular o poder de um bruxo como Voldemort. Esse lance da marca negra não aparecer.. isso me deixou bolado!

-Há, não me enche! - Resmungou Nicolai, voltando sua atenção exclusivamente para seu chá e seu sanduíche.

Em Hogwarts, Harry andava pelos corredores, rumo a aula de Transfiguração, pensativo, preocupado com a ausência de Hermione, que havia saído do colégio no dia anterior e ainda não havia retornado. Em seu encalço veio Rony, curioso com o desligamento do amigo, até alcançá-lo e se equiparar lado a lado de Harry.
 
-Cada dia que passa você anda mais esquisito, Harry! Qual é dessa vez?

(-...) Ponderou por instantes, com ar aborrecido. -Hermione... - Respondeu secamente.
-Ah, sim... claro. Ela está fora desde ontem. Você acha mesmo que...?

-... que ela foi convocada pelo Ministério da Magia? É claro que sim! Você também viu a carta que ela recebeu, você conhece muito bem aquele padrão de correspondência.

-É claro que conheço! - Rony respondeu como se a simples idéia de que achassem que ele não conhecesse os procedimentos do Ministério lhe fosse ofensivo. -Ouvi rumores de que aquele Animago foi levado pelos homens do Ministério, provavelmente para algum inquérito. Acha que Mione foi convocada por causa dele?

-É muito provável! Aaah! Maldito! Ainda não consigo aceitar todas as coisas que aconteceram desde então! - Harry jogou sua mochila sobre a mesa no fundo da sala, levando as mãos aos cabelos e despenteando-os ainda mais, remexendo-os nervosamente.

-Pois é... coitada da Mione! Acho que agora ela pira o cabeção de vez!

Hermione encontrava-se adormecida, apoiada no braço do sofá onde esperava pela sua hora de depor no Plenário juntamente com o Prof Dumbledore, quando a porta do salão se abriu por um funcionário de terno preto do Tribunal, dando passagem a uma figura altiva, igualmente de terno preto, que se dirigiu sem demoras até o velho mago, que se dignou a levantar seu olhar da revista de moda que ainda lia para o homem que parou a sua frente. Ao ver de quem se tratava, Dumbledore alargou seu sorriso sincero e costumeiro, abaixando em seguida a revista em seu colo.
 
-Chester Bennington! A que devo a honra da presença do ilustríssimo Secretário de Defesa do Ministério da Magia?

As outras poucas testemunhas de defesa que estavam na sala olharam curiosas para o homem sisudo e altivo, talvez epseculando mil e uma coisas. Hermione despertou inocentemente com a expressividade de Dumbledore. Chester Bennington a olhou interessado por alguns instantes, voltando para o Diretor que ainda esperava por sua resposta com expressão animada.

-Sr Dumbledore, peço que me acompanhe por alguns instantes. Houve uma pausa no Plenário de três horas e gostaria de aproveitar esse intervalo para uma conversação com o senhor.

Hermione despertou de vez, e sem pronunciar qualquer letra, ajeitou-se no sofá, olhando indagadoramente para Dumbledore, sem exatamente saber o que queria saber do velho mago, mas tinha a certeza de que não gostaria de ser deixada sozinha naquele lugar desagradável. Como lesse em seus olhos castanhos o seu pequeno temor, com um sorriso paternal Dumbledore tranquiliza a menina:

-Irei trocar umas palavras com o nosso estimado Secretário de Defesa e logo retornarei, não se preocupe, minha criança.

Chester Bennington assentiu satisfeito, cumprimentando silenciosamente Hermione com um leve aceno de cabeça enquanto Dumbledore levantava-se e ambos saiam do salão, deixando todos os presentes curiosos a olharem até que a porta se fechasse. Hermione voltou sua atenção ao seu colo, onde suas mãos descansavam entrelaçadas, dando um suspiro de enfado, cerrando os olhos a olhar para dentro de si mesma. E, como acontecia toda vez que fazia isso ali dentro daquele lugar opressor, sentimentos estranhos se enveredavam em sua mente, algo entre confuso e cansado, e a imagem de Nicolai, humilhado e subjugado como vira quando ele fora levado de Hogwarts, invadia sua visão, causando-lhe um pesar imenso.
-Por que tudo isso está acontecendo?... - indagou-se, pesarosamente.

Dumbledore e Chester Bennington entraram uma pequena sala contígua, com a desagrável decoração isabeletana, sisuda e opressora. Bennington esperou que Diretor entrasse, fechando a porta logo em seguida. Dumbledore mantinha seus braços cruzados as suas costas, esperando pacientemente para saber o que o Secretário de Defesa queria com ele, quando notou uma figura negra sentada com despojo numa das poltronas das sala.
 
-Ah! Prof Snape! - Exclamou com uma incômoda alegria. -Pelo que vejo não se divertiu em seu depoimento.

Snape resmugou aborrecido, levantando-se de ímpeto da poltrona fofa. -Já fiz a minha parte neste circo, Alvo, como o senhor ordenou.. que lhe dessem a verdade que me pedissem. O que mais vocês querem, afinal?

-A minha vontade, meu caro, você sabe muito bem qual é.. de que nada disso estivesse acontecendo, mas... o que me diz, caro Secretário de Defesa?

Chester Bennington olhou de Alvo Dumbledore para um aborrecido Severus Snape, desviando seu olhar para o chão, meneando a cabeça, em negativa.

-Sei que o senhor, Prof Dumbledore, não concorda com essa atitude, mas é necessário...

-...Pegar um bode expiatório para servir de exemplo aos outros, mostrar que o Ministério da Defesa está vigilante e ativo! - Completou Dumbledore, sem complacência.

-Já palarmentamos sobre isso mais de uma vez, Professor. Mas, apenas posso dizer-lhe que sinto muito.

Snape interrompeu, secamente: -Creio que não foi para nos dizer que 'sente muito' que nos chamou até aqui, Bennington...

-Concordo com Severus... - apoio Dumbledore. -O que aconteceu no julgamento que o fez me chamar para uma conversa particular assim tão de imediato, Chester?

-Bem... sobre a marca negra de Donskoi... - Dumbledore e Snape se entreolharam e olharam interessados e receosos para Bennington, que prosseguiu após breve pausa, sentindo o peso da crítica silenciosa dos dois outros homens. O advogado Osborn utilizou a Mosrmordre em Donskoi e... não surgiu sequer uma leve sombra da marca no rapaz...

Snape olhou assombrado para Dumbledore. Como testemunha, ele estava privado de saber como andavam os acontecimentos dentro do Plenário e, obviamente, não tinha nenhum conhecimento sobre a provação de que Nicolai fora submetido, a de mostrar sua marca negra... que não apareceu, não existe?!

Dumbledore, placidamente, responde a Bennington, de queixo erguido, observando o secretário por detras dos óculozinhos de meia lua, com toda a sua naturalidade.

-E por que deveria aparecer a marca negra em Nicolai?

-Oras, Dumbledore! Nicolai é um comensal da morte! Como pode não haver a marca negra?! - Bennington perguntou impacientemente, não conseguindo compreender o que havia acontecido. Chester Bennington era um homem dado a crer em verdades inabaláveis e seu orgulho não lhe permitia admitir estar errado ou crer em equívocos. Snape continuava a olhar assombrado para Dumbledore, intimamente se perguntando a mesma coisa que Bennington, mas, ao contrário do secretário de Defesa, o Mestre de Poções sabia exatamente quais eram os fatos verdadeiros.

Dumbledore, gravemente, repreende seu ex-aluno: -Não é porque você crê em algo que automaticamente este algo se torna a mais cristalina das verdade, Chester! Não sabia, obviamente, que Nicolai havia sido submetido a Morsmordre. Fico mesmo aliviado em saber que o rapaz não é e jamais foi um comensal da morte!

-Mas, Dumbledore! Era mais que evidente que ele era, sim, um comensal! E que... - Bennington foi interrompido por Dumbledore, que parou-o com a mão espalmada à altura de seu rosto, dando por incerrado aqueles questionamentos e dúvidas.

-Chester Bennington, já é mais que hora de parar de julgar sem conhecimentos. Você poderia ter evitado toda essa situação, mas precisava arrumar um pretexto para mostrar à Comunidade Mágica de que o Ministério não está vacilante. Conseguiu o seu pretexto, julgou sem reais conhecimentos. E mesmo diante de uma prova irrefutável, ainda não se dá por satisfeito com o resultado que conseguiu?

-Não é essa questão, Dumbledore! Mas apenas que... - novamente interrompido pelo velho mago:

-Dê-se por satisfeito, Chester! Suponho que o que ocorreu, a prova de inocência do rapaz, venha trazer divisão de opiniões, mas mesmo assim terá o resultado positivo que tanto almeja: a tranquilidade da Comunidade sabendo que o Ministérios da Magia e da Defesa não estão dormindo no ponto!

Dumbledore deu por encerrado a conversação, dando às costas a Chester Bennington e Severus Snape, saindo satisfeito com as informações que havia rapidamente colhido ali, deixando para trás os dois homens atônitos e sem as respostas de queriam. Cofiando a longa barba prateada, o velho mago devaneia com um sorriso satisfeito no rosto.

Fim do Capítulo 34 - continua...
By Snake Eyes - 2006.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Animago Mortis - Capítulo 33 – Julgamento – Testemunha Cega.

Animago Mortis

Capítulo 33 – Julgamento – Testemunha Cega.

O Tribunal permanecia em total silêncio. Mais uma vez o tempo e o espaço haviam desmaterializado. Segundos efêmeros se tornaram eternidade. E o vazio, o nada, tão lugar-comum onde imperava o vácuo, o Éter, era perceptível no ar, quase palpável. Nicolai, estupefato, mantinha-se completamente imóvel em sua cadeira. Já não sentia absolutamente nada. Nenhum pensamento sequer vagava em seu cérebro... se ainda não respirasse e o coração pulsasse, poderia ser dito que o vazio o havia devorado.
David, emudecido, senta-se ao lado de seu cliente, sem olhá-lo sequer de esguelha. Desde agora mantinha-se totalmente concentrado ao interrogatório que viria a seguir. De porte ereto com os braços cruzados sobre a mesa, Jonathan Davis mantinha um ar grave que raras vezes fora apresentado a nós.

Mas a Nicolai isso não mais importava. Já não dava a mínima, para ser exato. Já não mais buscava nos gestos, olhares, expressões, uma pré-resposta. Neste momento, se a ele for imputado à pena a ser cumprida em Azkaban, seria apenas um mero detalhe sem real importância, pois o que ainda lhe restava de uma parca esperança acabava de se consumir no fogo da mais absoluta decepção.

Por breves instantes, Snape dirigiu seus olhos negros frios e amímicos a Nicolai, que não diziam absolutamente nada devido ao total desprovimento de qualquer sentimentalismo. Eram exatamente frios e calculistas como de alguém que apenas observa pelo simples ato de ver, passivo de todos os acontecimentos, indiferente de como se nada ali tivesse qualquer ligação consigo.

—Sr Severus Snape... – O promotor Osborn quebrou o silêncio momentâneo com sua voz devidamente calculada. —É de conhecimento público que o senhor fôra, durante a primeira guerra do mundo mágico, um Comensal da Morte a serviço Daquele-que-não-deve-ser-nomeado... – uma breve pausa de Osborn na esperança do consentimento de Snape que veio através de um resmungo quase inaudível. —...então, em vista deste fato verídico e comprovado, supomos que o senhor tinha plenos conhecimentos das identidades daqueles que compunham o chamado Círculo das Trevas. E também é de conhecimento público que no auge da ascensão Daquele-que-não-deve-ser-nomeado muitos jovens, ainda estudantes em Hogwarts, foram alistados para o Círculo de Comensais da Morte.

Davis levanta-se de sua cadeira, em tom bravio, proclama ao juiz: —Protesto, Meritíssimo! Dr Osborn está imputando condutas à testemunha! O Sr Snape não está aqui para ser julgado!

—Protesto aceito, Dr Davis. Dr Osborn, dê prosseguimento ao interrogatório através de perguntas claras e diretas e não às citações sobre o passado da testemunha, cujo crime já foi julgado e absolvido. Se o senhor prosseguir na exposição de atos passados da testemunha, irei encerrar o plenário e marcar uma nova audiência, concedendo habeas corpus ao réu.

—Sim, Sr Meritíssimo. Peço desculpas pela minha introdução inadequada da testemunha ao Tribunal.

—Desculpas aceitas, Dr Osborn. Retorne a sua função de acordo com o que lhe foi instruído.

Recostada ao peito de Alvo Dumbledore e sobraçada por ele, Hermione havia pegado no sono devido a exaustão das muitas horas de espera que ali se encontrava. Com o braço livre o velho mago segurava próximo ao seu nariz torto a edição do mês de uma revista bruxa de moda e comportamento. Como se milhares de pequenas borboletas borboleteassem dentro de sua cabeça, a menina levantou-se aturdida, despenteada e de mau humor. Olhou estranhamente a sua volta, não reconhecendo imediatamente o ambiente em que se encontrava e levou ainda alguns instantes para que entendesse tudo que estava ali, todos os objetos e pessoas presentes naquela sala de decoração sisuda e opressora.
Levou as mãos aos cabelos rebelados e fechou pesadamente as pálpebras chegando a fazer um vinco entre suas sobrancelhas. No seu típico espírito bondoso, com um sorriso singelo e despretensioso, Dumbledore pousa sua mão sobre a cabeça de Hermione e só lhe fala quando a garota volta de seu devaneio silencioso e olha confusa para o diretor de sua escola.

—A senhorita dormiu profundamente por mais de uma hora, certamente por estar esgotada dessa decoração de mau gosto... me diga, Hermione, teve bons sonhos?

Ainda olhando confusa, tentando assimilar e compreender as palavras de Dumbledore, Hermione piscou algumas vezes em profusão e ajeitou-se no sofá, deixando seus braços esticados com as mãos apioadas sobre os joelhos, mas seus olhos permaneceram perdidos no chão da sala, mas sem enxergá-lo de fato. Ao que parecia, Hermione fazia um grande esforço mental para compreender e tentar responder à pergunta do Professor Dumbledore.

—Eu... eu não.. tenho certeza... lembro de árvores.. muitas delas.. Abetes, se não me engano... era uma montanha, repleta delas... parecia primavera ou verão, por causa da vegetação tão fresca e o céu de azul tão profundo... mas mesmo assim parecia fazer frio... que engraçado... – Hermione, lentamente, sem desviar os olhos do chão, manifesta um sorriso infantil e vira-se para encarar inocentemente Dumbledore que lhe dispensava toda a atenção do mundo numa expressão séria e paternal.

Hermione prosseguiu, meio sorridente, no relato de seu sonho. —Havia um campo aberto, parecia ser o topo de um morro.. e lá tinha uma cabana antiga toda em madeira, mas bem conservada... e fora dela tinha um menininho... apesar de pequeno tinha um jeito... tipo um porte militar e.. segurava sem jeito um violino! E mais sem jeito ainda ele passava o arco sobre as cordas do violino e apesar de parecer que ele estava fazendo tudo errado, o som que saia do instrumento era até harmonioso, embora, acho, não se pudesse chamar aquilo de música... o engraçado é que...

Quando Hermione se calou, Dumbledore, em seu ar paternal, encorajou-a a dar prosseguimento em seu relato. —Conte-me o que viu de mais engraçado em seu sonho? Isso é muito bom, sabe? Eu sou da opinião que os sonhos são para nos divertimos enquanto dormimos, como fosse um cinema interativo e muito pessoal!

Hermione sorriu pela resposta de Dumbledore e voltou a fitar o chão, mas seu sorriso se desvanecia a medida que avançava em seu relato, terminando em quase uma profunda tristeza.

—O engraçado é que... eu tenho certeza de que jamais vi aquele garotinho, mas... é como se eu o conhecesse há muito tempo... foi engraçado sentir ternura por aquele menino estranho, na forma tão obstinada que ele tentava tirar alguma música do instrumento... Mas quando ele parou de tocar repentinamente e voltou-se em minha direção, tudo ficou tão confuso... foi como se o sol sumisse e os Abetes desaparecessem... tudo se tornou escuro até sumir por completo! E não lembro o que sonhei depois... só tenho a impressão de que não sonhei nada ou talvez de ter caído num poço escuro, mas que não tinha paredes nem fundo nem água! Não via mais a luz! Parecia que eu caía no meio do nada, em meio ao vazio! E como não havia nada, então fui caindo sem parar, sem nunca chegar ao fundo! Nossa! Isso foi é um pesadelo!

Vendo o estado depressivo em que Hermione mergulhou, Dumbledore a sobraçou novamente, a fim de passar-lhe algum conforto. A revista estava abandonada sobre o colo do velho mago e, fitando o nada a sua frente, Dumbledore, placidamente sério, tenta reconfortar a garota também com palavras.

—Não foi um pesadelo... embora pareça e muito, mas, creia-me, não foi um pesadelo, minha criança. Não digo que esteja equivocada, mas apenas uma questão de ponto de vista. Para alguém que pensa agora viver no meio de um pesadelo e seu coração está repleto de vazio, não lhe é possível enxergar nada além das trevas do vazio...

—Eu não entendi, professor... – Hermione volta a ficar ereta no sofá, encarando Dumbledore com expressão confusa.

—Ho, ho, ho! – Riu-se Dumbledore, pegando novamente a revista de moda bruxa e abanando um mosquito imaginário entre ele e Hermione. —Divagações de filosofia pobre de um velho gagá que está começando a morrer de fome! Creio já ser hora do chá! Aceitas, senhorita?

Dumbledore agilmente retira de sua manga 'boca-de-sino' sua varinha e num gesto suave feito um maestro a comandar uma orquestra, faz aparecer sobre a mesa de centro um serviço completo de chá que Hermione apenas deu de ombros, ainda impressionada com o sonho que teve, mas tentando não se importar mais com tamanha tolice.

—Aceito... é bom pra passar o tempo.

—Sr Snape.. – diz Dr Osborn. —...tendo conhecimento a respeito do Círculo das Trevas, ao senhor é possível também ter o conhecimento de todos seus 'associados', para assim melhor nos referirmos ao seguidores de Você-sabe-quem?
—Obviamente que apenas o Lorde das Trevas tem o conhecimento de todos seus 'associados', usando-me da sua expressão, Dr Osborn... – Snape respondeu calmamente no seu típico tom letal e sarcástico.

—Correto... – A expressão de Osborn se tornou mais densa por não ter gostado da resposta e do tom de Snape. Já era hora de terminar com o teatrinho e ir direto ao ponto de interesse. —Reformulando a questão, o senhor teria conhecimento de pelo menos alguns associados do Círculo das Trevas?

—Sim, é claro... – A pausa proposital de Snape serviu para atiçar ainda mais a tensão do público que permanecia em completo silêncio. Davis e Nicolai, sentados à mesa, mantinham-se estáticos e atentos ao Mestre de Poções, que já não mantinha mais a expressão fria de quando entrou no tribunal, mas algo de sarcástico que dava a impressão que começava a se divertir com tudo aquilo. —...alguns deles estão em Azkaban, outros estão mortos e outros estão reintegrados à sociedade. Todos que são de meu conhecimento também o é do Ministério da Magia.

—Sim, claro. – Osborn já se mostrava insatisfeito com as respostas de Snape. Mesmo correndo o risco de ter a seção adiada e o réu receber liberdade provisória, seria mais objetivo em suas perguntas. —O senhor e o sr. Donskoi estudaram juntos em Hogwarts?

—Sim.

—Eram amigos?

—Até onde havia o interesse comum, sim.

—Visto que parte dos alunos da Sonserina da turma de 1976, da qual o senhor e o sr Donskoi faziam parte, pertenceram à primeira formação do Círculo das Trevas, como consta nos anais da Secretaria de Segurança do Ministério da Magia, o senhor, Prof Snape, tinha conhecimento que seus colegas eram Comensais da Morte?

—Eu já respondi que sim, Dr Osborn...

—Eu não havia lhe feito essa pergunta antes, Prof Snape.

—Não? Suponho que a pergunta a respeito do meu conhecimento sobre os 'associados' do Lorde das Trevas seja a mesma que esta agora. Quero lembrá-lo que pertenci apenas uma vez ao Círculo das Trevas, Dr Osborn. Eu entendi que a pergunta anterior tenha sido sobre essa época.

Osborn ficou desconcertado com a resposta de Snape.

—Então, o senhor poderia confirmar alguns nomes de ex-colegas, Prof Snape?

—Alguns, sim, todos, não. E na maior parte apenas aqueles mesmos que o próprio Ministério bem sabe.

—Então vamos direto ao assunto. – Snape torceu os lábios ao ouvir isso, já se sentia muito entediado em estar ali, naquele rodeio desnecessário. —O senhor poderia confirmar a participação do sr Pavel Nicolai Donskoi no Círculo das Trevas?

Snape ficou ainda mais sério e demorou em dar sua resposta. Nenhum ruído era feito dentro do tribunal. Nicolai estava com as mãos fechadas uma sobre a outra, o queixo apoiado sobre elas, os cotovelos apoiados sobre a mesa. Seus olhos oblíquos quase se fechavam em fendas pela tensão. Ele sabia que Snape não trairia a confiança que tinha do Ministério para ajudá-lo. Foram amigos, sim, há vinte anos atrás, mas agora é como se fossem apenas meros conhecidos que o longo tempo cuidava para manter esquecidos um do outro.

—Não senhor, Dr Osborn. Tive conhecimento sobre rumores, não do fato.

Nicolai fechou os olhos em pesar, deslizando suas mãos para a testa, como se estivesse a rezar. O fato era que jamais haviam trabalhado juntos dentro do Círculo das Trevas e as máscaras de caveira que eram obrigados a usar salvaguardavam a identidade de qualquer um dos Comensais da Morte. Dentro ou fora do Círculo era terminantemente proibido manter conversações. Somente Voldemort falava e todos os outros obedeciam. O conhecimento vinha por força das ocasiões. Ele próprio jamais se permitiu tocar nesse assunto e jamais permitiu que alguém o fizesse, de tão repugnante lhe era esse fato.

—Rumores? E quais eram esses rumores, Sr Snape?

—Era de meu conhecimento que Dmitri Donskoi, pai de Nicolai Donskoi, viera da Rússia com sua família exclusivamente para servir à causa... os rumores eram que o Sr Donskoi, pai do réu, pretendia presentear o Lorde com seu filho único.

O silêncio mórbido do tribunal foi quebrado pelos murmúrios da platéia, alguns se admirando, outros mostrando indignação em sussurros de revolta contra o fato de Dmitri querer entregar o único filho a Voldemort, outros trocando impressões com o vizinho de cadeira. O Juiz exigiu ordem no tribunal e, aos poucos, os ânimos se acalmaram. Nicolai não podia se dar por aliviado, isso era um luxo que não lhe cabia. Snape não havia mentindo até então, embora estivesse ocultando os fatos, mas a pergunta correta também ainda não havia sido feita.

—Então, de fato, o réu tornou-se um Comensal da Morte, mesmo que tenha sido contra sua vontade?

—Não sei, Dr Osborn. A única vez em que ouvi o nome do réu dentro do Círculo foi na ocasião do rumor que se espalhava. Se houve mesmo a entrega do garoto, eu nunca presenciei. A cerimônia de iniciação era muito restrita e jamais realmente VI Nicolai Donskoi. – Snape, já impaciente, salientou bem cada palavra citada na esperança de que terminasse ali o interrogatório. Havia muito a ser feito em Hogwarts e ele não podia ficar desperdiçando seu tempo com essas bobagens.

Osborn, mais uma vez, mostrou-se insatisfeito com a resposta de Snape, mas já havia se desgastado demais com o interrogatório e talvez já fosse hora de fazer a pausa no plenário.
—Sem mais perguntas à testemunha, sr Meritíssimo.

—Dr Jonathan Davis.. – o juiz chamou em seu tom grave. —É a sua vez de interrogar o réu, apresente-se.

—Sim, senhor, sr Meritíssimo.

Calmamente, Davis levantou-se da mesa e andou até o palco, pondo-se em frente entre o juiz e a testemunha, braços cruzados às costas.

—Sr Snape... a marca negra, a marca tatuada no braço esquerdo de todos que entram para o Círculo das Trevas e que caracteriza o 'associado' como um Comensal da Morte... existe alguma forma de se ocultar essa marca?

—Até onde vão meus conhecimentos, que não são poucos, Dr Davis... não há nenhuma forma.
—E a marca sumiria assim, de hora pra outra?

—Somente com a morte d'Aquele-que-não-pode-ser-nomeado.

—E Aquele-que-não-pode-ser-nomeado está morto?

Snape não pode conter uma breve risadinha sarcástica. —Dr Davis, TODOS sabem que o Lorde ainda vive!

Davis deu seu sorriso de dente lascado, fazendo uma reverência para Snape e em seguida para o Juiz. —Obrigado pelo depoimento, Prof Severus Snape. —Sr Meritíssimo, sem mais perguntas à presente testemunha.

—Sim, Dr Davis, volte a seu lugar. Porteiro, acompanhe o Sr Snape à antecâmara das testemunhas de acusação e traga a próxima testemunha.

O Porteiro do plenário acompanhou Snape até a porta da antecâmara. Nicolai ainda mantinha-se estático, com o rosto apoiado sobre as mãos cruzadas, absorvendo ou tentando absorver tudo que havia acontecido até então. Sua cabeça girava. Já não compreendia o porque de tudo aquilo. Um emaranhado de mentiras, umas sobre as outras. Ele era um Comensal, mas não sabia, sequer imaginava o porquê, a sua marca negra não mais existir; se estivesse apenas oculta, o feitiço Morsmordre a teria tornado nítida, mas não foi o que aconteceu. Snape sendo chamado para ser testemunha de acusação... estava chegando a conclusão de que tudo era mesmo apenas um teatro ridículo para fazer mídia e ele era um bode-expiatório idiota que se deixou cair nessa situação estúpida! Não sabia mais se aliviava da tensão ou não. Snape veio como acusação e não comprovou nenhuma culpa. Ainda havia mais uma testemunha.. ou várias. Novamente, Nicolai baixou o rosto para a mesa, apoiando a testa sobre a mão espalmada. Seus cabelos finos e claros caiam sobre o rosto, ocultando seu semblante de esgotamento físico e mental... Hermione valia todo aquele sacrifício desnecessário?

Nicolai se assustou com o próprio pensamento, tirando-o do estado de vigília a que começava a entrar. Ainda havia em si, em estado latente, as sementes de preconceitos fundados nas tradicionais famílias bruxas. Odiou-se no mesmo instante em que uma vozinha fraca e longínqua lhe falou amaldiçoando Hermione e tratando-a por 'maldita sangue-ruim'. Nervoso, Nicolai jogou suas costas contra o encosto da cadeira onde estava sentado e só então percebeu que Davis lhe falava qualquer coisa.

—É, maluco.. tô sentindo que você já está chegando aos seus limites! Estamos aqui há quase vinte horas, ninguém merece!

Nicolai fitou Davis de forma apática por alguns instantes antes de lhe responder. Questionava a si mesmo. Já não conseguia mais raciocinar com sobriedade e sentiu-se enojado por perceber que ainda nutria estúpidos sentimentos segregatórios e odiou-se por culpar Hermione por seu atual estado.

—Eu mereço... – Falou sem emoção, voltando-se para a frente, olhando cegamente o nada.

Fim do Capítulo 33 – continua...
By Snake Eyes – 2005.

N/A: Pensei em terminar a fic neste capítulo e daí pensei... pra que a pressa? Alonga mais um pouco. Sei que o capítulo ta super curto e super chato, mas como não posto capitulo novo há trocentos anos, vou colocar essezinho chato e curto assim mesmo, só para lembrar à vocês que a fic NÃO foi abandonada... eu é que virei um Zé Pastel mesmo, sorry!
Hábeas Corpus – Latim: 'que tenhas teu corpo'.

Garantia constitucional outorgada em favor de quem sofre ou está na iminência de sofrer coação ou violência na sua liberdade de locomoção por ilegalidade ou abuso de poder.

Santa Tranqueira Magazine