segunda-feira, 27 de maio de 2013

Animago Mortis - Capítulo 32 – Julgamento – Marcas Que Ficam.

Animago Mortis

Capítulo 32 – Julgamento – Marcas Que Ficam.

Algo vibrou sobre o peito de Nicolai... pensou ser seu coração que pulsava dolorosamente, fazendo pressão na caixa torácica. Sua jugular e a veia da têmpora estavam alteradas, pulsando com igual firmeza como ao seu coração. Uma segunda vibração lenta, como uma pulsação que se iniciava, e algo parecia aquecer sobre seu peito, logo abaixo de seu pomo de adão.
 
Uma nuvem esverdeada, quase enegrecida, saía da varinha de Osborn, ao que o bruxo advogado conjurava a Morsmordre, o feitiço que fazia surgir a Marca Negra onde quer que fosse indicado. A névoa esverdeada envolvia Nicolai, que se mantinha firme a todo custo, mesmo crendo veemente que ali chegara definitivamente seu fim.

Uma luz fosca e escura surgiu no chão aos seus pés, formando levemente a imagem de uma caveira com a serpente, como fosse uma sombra tênue, desmanchando-se em seguida como raios retos, escuros e fumegantes que subiam ao céu, fazendo uma pressão de ar que remexeu não apenas os cabelos finos de Nicolai, levantando-os como numa ventania, mas também as vestes de Osborn e Davis, que estavam próximos do réu, apreensivos e muito expectativos com o que viria a acontecer. A expressão de ambos, e também do Juiz, era a mesma, e não dava para adivinhar se eles torciam para que a Marca Negra no antebraço esquerdo de Nicolai aparecesse ou não... apenas esperavam ansiosos por qualquer resultado.
Uma estranha alteração de consciência remeteu Nicolai a um longo passado já distante... tudo parecia tão real que ele não saberia dizer se era apenas uma lembrança ou se vivia aquele momento, verdadeiramente, mas todos os seus sentidos estavam voltados àquela cena, que há muito e muito tempo havia se esquecido...

O ambiente escuro, porém acolhedor, era iluminado apenas pela luz fraca do dia que adentrava pelas pequenas janelas daquela velha sala construída em madeira. A claridade bucólica iluminava graciosamente diversas ferramentas e peças de madeiras espalhadas por sobre uma longa mesa. Acima de sua cabeça, que Nicolai olhava admirado para o teto, pendiam-se delicados violinos que acabavam de ser confeccionados e esperavam seu verniz secar com a brisa fresca que entrava pelas janelinhas.

Com mais que o dobro de seu tamanho, seu avô, o Patriarca Vassili, com um raro sorriso no rosto, levava a mão à cabeça de Nicolai, visivelmente satisfeito com a alegria do garoto que não devia ter mais que dez anos de idade. Ambos, avô e neto, estavam numa oficina de instrumentos clássicos, em Zakopane, nos Montes Tatras, Polônia. Lá encontrava-se o mais famoso Luthier do mundo bruxo, Ignacy jan Pderewski, que fabricava seus violinos, contrabaixos e violoncelos com Abete, uma espécie de árvore mágica muito comum na Europa e que conferia aos instrumentos que eram construídos com sua madeira, sons quase divinos.

O Luthier, um homem idoso, calvo e de grandes óculos ovalados de armação escura e pesada, aproximava-se de Nicolai, com um sorriso humilde, e esticava-lhe o braço esquerdo, medindo-o do ombro ao pulso com uma fita métrica.

Foram apenas efêmeros segundos, mas quando Nicolai abriu seus olhos, deparou-se novamente com o cenário desolador do Tribunal onde estava sendo julgado. Seus braços estavam esticados frente a seu tórax e Osborn e Jonathan Davis o olhavam de uma forma que Nicolai não soube expressar imediatamente. A nuvem esverdeada já havia se dissipado, assim como a sombra da caveira aos seus pés. E não sentia mais a pulsação estranha que sentiu por alguns instantes sobre seu peito.

—Foram-se mais de vinte anos... – falou a mulher, com voz embargada. —Jamais tornamos a rever o nosso único neto... e a última notícia que tínhamos dele é que tinha desaparecido sem deixar rastro...
 
—Nós não temos um neto, Ivanóvna! Ele está morto! Juntamente com o nosso único filho!

—Não diga isso, Vassili! Dumbledore não nos enviaria uma carta com uma mentira como essa! Pavel, nosso único neto e o último membro de nossa dinastia, está vivo! VIVO!

—Não seja tola, Ivana! Pavel deixou de ser nosso neto e membro do nosso clã há mais de vinte anos atrás! O rapaz que porta o nome nada mais tem a ver conosco! NADA!

—Eu não aceito isso que está dizendo, Vânia! Já sofremos demais com tudo isso! E Pavel jamais teve culpa pelo que aconteceu! Merlin nos concedeu a chance de nos rendermos e consertarmos o nosso erro de ter deserdado e renegado nosso próprio neto...

—Ivana.. não me obrigue a me desentender com você! ELES cometeram o erro, não nós! Sofremos desde então com essa desonra, amargurando esta vergonha por todos estes anos! Nem Merlin poderia remunerar-nos por isso! Não será uma infeliz carta ocasional que nos fará titubear de nossa decisão!

—O que isso importa hoje, Vassili! Sofremos tanto com a morte de nosso filho e nosso neto! Deus nos trouxe nosso único neto de volta do mundo dos mortos, está nos dando uma chance, é isso que importa! Nosso sangue ainda prevalecerá! Nossa família se perpetuará! A Dinastia Donskoi não terminará com a nossa morte!

—Por favor, Ivana! Não quero mais ouvir falar nisso! Pavel, assim como nosso filho Dmitri, desonrou nossa família, nossos antepassados! Isso é inconciliável! É preferível que o Clã Donskoi extingue-se do que ele perecer através de um ser indigno! É preferível o fim à desonra!

Ao abrir seus olhos, a percepção que tinha era que aquela realidade, a de seu julgamento, a do tribunal, era algo surreal, como uma lembrança de algo que aconteceu há muito e muito tempo. Saindo, ao que parecia para si lentamente, do estado de torpor que, felizmente, não foi percebido por ninguém além do próprio Nicolai. Então, retornando a essa triste e imediata realidade, o rapaz teme olhar para seu antebraço esquerdo e encontrar ali a maldita marca tatuada por magia, então seus olhos amarelos percorrem apreensivos para o rosto de Jonathan Davis.
 
Com ar grave, Davis fechou pesarosamente seus pequenos olhos negros, respirando profundamente, levando as duas mãos à cintura e num gesto teatral, dá as costas a Nicolai e Osborn. Neste momento, ainda sem a devida coragem de olhar para o próprio braço, tornando-o a descansá-lo ao lado de seu corpo um pouco trêmulo, Nicolai franzil suas sobrancelhas espessas, sentindo ardência em seus olhos, prevendo seu destino iminente, sua ida sem volta para Azkaban e a impossibilidade de rever Hermione, e a total destruição de sua frágil esperança de tornar-se, algum dia, algo além de um infeliz acaso que cruzou o caminho da menina...

Em movimentos cometidos e teatrais, como a imitar, zombando, de seu colega Osborn, Davis proclama seu discurso, voltado para a platéia de bruxos e bruxas ansiosos. Sua voz grave e rouca reverberou pelo silêncio mórbido e incômodo que pairava sobre o grande e escuro anfiteatro;

—Agradeço ao nobre colega Dr Osborn, por nos providenciar uma prova contundente e incontestável... – uma breve pausa, igualmente teatrelha, apenas para aguçar ainda mais a tenção e atenção de Nicolai para si, Davis volta-se para o rapaz, com o seu velho sorrisinho sádico de dente lascado... – ...de que meu cliente, o Sr Pavel Nicolai Donskoi, é inocente da acusação de ser um Comensal da Morte, ser INOCENTE da acusação de ser um seguidor Daquele-que-não-deve-ser-nomeado!

Nicolai sequer ouviu o burburinho que preencheu o Tribunal, pois havia subido ao céu no mesmo instante em que a palavra 'inocente' foi mencionada. Sua criação comedida impediu que seus ímpetos fossem a tona, o que poderia denunciar seu medo seguido do alívio pela verdade que estava oculta... ou não mais existia mesmo essa verdade? Tudo que sentia era a estranha sensação de alegria, de leveza, como se grilhões invisíveis o prendiam e haviam se rompido naquele momento à simples menção da palavra mágica, a palavra que lhe acendia a chama de esperança de que tudo ainda era possível... 'inocente'! Palavra tão singela, porém de cunho magistral...

O rapaz apenas se permitiu encerrar-se por breves instantes dentro de si mesmo, fechando seus olhos e, pela primeira vez desde que entrou naquela grande sala, respirar com alívio, respirar o ar dos inócuos.

O Juiz martela três vezes em sua cátedra, pedindo silêncio e atenção, que foram dispensados imediatamente. Tomando sua pose altiva ao ajeitar-se em sua cátedra, o Juiz volta-se para Osborn, exigindo uma conclusão.

—Dr Osborn, já foram apresentadas ao Tribunal e aos membros do Júri, as três acusações de que o Sr Donskoi que está sendo inquirido. Peço ao senhor que solicite a entrada das testemunhas de acusação e que conclua o seu parecer.

—Sim, senhor, Sr Meritíssimo.

Osborn voltou-se para o Porteiro do Plenário, solicitando-o a entrada de sua primeira testemunha apta a responder em julgamento. Pensando que tudo havia, finalmente, se encerrado, Nicolai gela novamente por dentro, temendo pela identidade dessa 'testemunha' da qual não contava... Quem haveria de ter sido escolhido para testemunhar contra ele! Supunha não ter mais alguém que se lembrasse dele, não teve tempo suficiente para reavivar antigos desafetos desde que despertou da Animago Mortis e muitos dos antigos comensais que o conheciam, estavam mortos ou vegetando em Azkaban... não, não estavam! Haviam ainda dois plenamente aptos a isso: Severus Snape e Lucius Malfoy! Severus era seu amigo, não havia a possibilidade de que ele testemunhasse contra... mas Lucius Malfoy... Nunca foi segredo algum que Nicolai o odiava, e Malfoy sabia muito bem disso e seu sentimento era recíproco! Mas Malfoy era um ex-prisioneiro de Azkaban, condenado por ser um Comensal da Morte e libertado por meios escusos e suspeitáveis... mas o mesmo poder que o mantinha livre e inocente de tal acusação poderia ser o mesmo que o fizesse ser uma testemunha válida.

O bruxo que era o Porteiro do Plenário retornou minutos depois, acompanhado, em seu encalço, de uma figura alta e esguia, de aspecto soturno. Os olhos de Nicolai se arregalaram e se petrificaram pelo choque... ele não conseguia crer no que via!

A testemunha foi encaminhada a uma pequena cátedra ao lado oposto da cátedra do réu, junto ao Juiz, que se acomodou em sua cadeira e, com a fisionomia inexpressiva que encarava friamente o Promotor de Acusação Dr Osborn, o homem mantém-se silenciosamente, apenas esperando que fosse solicitado.

Osborn volta-se para a sua testemunha, com seus antigos modos comedidos. Sua voz é mansa e clara, o que só faz aumentar mais e mais a angústia de Nicolai, que sentia-se miseravelmente derrotado, enganado, traído, e não conseguia desviar seus olhos chocados da cátedra da testemunha.

—Senhores e senhoras membros do Júri, quero apresentá-los minha primeira testemunha de acusação, o Sr Severus Snape, professor renomado da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts e Mestre renomado em Poções, de que tal conhecimento presta auxílios valiosos ao Ministério da Magia e ao Hospital St Mungus. É de conhecimento e comprovação que o Sr Snape é um ex-Comensal da Morte que, numa rara ocasião, recebeu perdão e respaldo do Ministério da Magia há dezesseis anos atrás, tornando-o apto a testemunhar num tribunal e apropriado para ser uma testemunha de acusação neste caso.

Jonathan Davis manifestou-se, parecendo nervoso. Nicolai, que até então não desprendia os olhos incrédulos de Snape, voltou-se para seu Advogado de Defesa e lhe pareceu que Davis, finalmente, foi pego por um golpe da Acusação de que não esperava. Parecia que Jonathan Davis estava tão chocado e incrédulo em ver Severus Snape, protegido de Dumbledore, atuando como a testemunha de acusação. Davis não via Snape sequer necessário como Testemunha de Defesa, mas tê-lo como Acusação era algo que não havia cogitado.

—Peço um aval, Meritíssimo!

—A que aval o senhor se refere, Dr Davis? O senhor tem pleno conhecimento de que não se deve contestar a escolha das Testemunhas.

—Sim, senhor, Sr Meritíssimo! Não contestarei a Testemunha do Dr Osborn. Quero contestar a necessidade de se haver testemunhas após a apresentação da prova cabal imputada ao meu cliente.

—O senhor sabe perfeitamente que a isso é permitido, Dr Davis. A palavra de uma testemunha vale tanto, e em alguns casos até mais, quanto qualquer prova de contundência de um crime. O senhor terá a permissão de interrogar a Testemunha de Acusação e até replicar a questão que for levantada, mas não será permitido revogar a escolha. Esteja ciente disso e não quero interrupções enquanto a testemunha for interrogada.

Aparentemente derrotado, cabisbaixo e sem seu costumeiro ar zombeteiro, Davis calou-se após um sussurro de aprovação obrigatória. —Sim, senhor Meritíssimo. Estou ciente de minhas condições.

Para Nicolai, o Inferno ainda não tinha se apresentado plenamente. Mais uma vez, desejou ter morrido em sua forma animaga naquele maldito sábado em Hogsmeade, a passar por essa situação esdrúxula e de desagradáveis surpresas intermináveis. Já sequer se lembrava que em si não mais existia a Marca Negra, já sequer existia mais a frágil e pálida chama de esperança de rever Hermione, sequer se lembrava que outro lugar além de Azkaban e da morte lhe era possível.

Seus olhos dourados, cujas pupilas negras estavam dilatadas pela tensão e estresse, voltaram ao rosto impassível de seu velho amigo Severus Snape. Por mais que se obrigasse, ainda sentia-se incrédulo quanto ao fato de que ele, Snape, que um dia fora seu melhor amigo e que tanto pareceu lhe apoiar nestes últimos dias, estivesse ali sentado para testemunhar contra si! Não conseguia crer que Dumbledore tenha permitido tal absurdo! Não conseguia crer que Dumbledore estivesse apenas se divertindo as suas custas. Não conseguia crer que a lealdade de Snape ao Ministério fosse de tal tamanho a ponto de entregá-lo em seu julgamento!

Severus Snape não era nada além de um grande dissimulado, sempre ficando ao lado daquele que lhe parecesse mais promissor e vantajoso... e certamente, estar ao lado de Nicolai, que não era absolutamente nada, jamais lhe traria qualquer vantagem.

Nicolai voltou-se a sentar na bancada de frente ao palco, ao lado de Jonathan Davis, que permanecia mudo.

Fim do Capítulo 32 – continua...
By Snake Eyes – 2005.

N/A:
LUTHIER – Fabricante de instrumentos musicais de cordas.
Ignacy jan Pderewski – Pianista polonês que se tornou primeiro ministro da Polônia em 1918, depois de proclamada a República Polonesa em 11 de novembro (não é o caso do personagem aqui apresentado, foi apenas, digamos, uma "homenagem").

terça-feira, 21 de maio de 2013

Animago Mortis - Capítulo 31 – Julgamento – Apresentando Provas.


Animago Mortis - Capítulo 31 – Julgamento – Apresentando Provas.

Um homem idoso que já passara a algum tempo de seus oitenta anos escorava-se no umbral da longa porta que dava acesso aos jardins dos fundos do suntuoso castelo construído em mármore branco repleto de detalhes esculpidos e cujas copas de ouro maciço das torres eram em forma de gotas. Os fios finos e branquíssimos de seu cabelo esvoaçavam ante a leve brisa que soprava naquela tarde de fim de verão, cintilando aos fracos raios do sol poente que trespassavam entre galhos e folhas de pequenos arbustos que circundavam os limites do jardim.
 
Apesar da idade já avançada, o homem ainda mantinha seu porte robusto e de alta estatura. Seus olhos estavam cerrados como se a sentir uma dor aguda, e suas mãos tremiam amassando o pergaminho que segurava. Sua respiração era difícil e parecia dolorosa, e a pouca cor que havia adquirido nos dias do curto verão havia esvaecido de seu rosto.

Uma mulher, também idosa, surgiu à longa porta de ouro maciço esculpido com ideogramas inidentificáveis. Seus longuíssimos cabelos prateados escorriam soltos sobre a seda de sua veste, indo até quase os tornozelos. Preocupada com o longo silêncio do marido, a mulher, quase aflita, coloca-lhe as mãos sobre o ombro, temendo que ele estivesse sofrendo algum mal.

((—Vânia! O que estás sentindo, meu senhor! Por Merlin, digas-me que estás bem!))

O homem, incomodado por estar causando aflição à esposa, recompõe-se, pondo-se ereto e acalmando suas mãos trêmulas. Seus olhos, de um azul translúcido quase branco, são abertos lentamente para fitar a mulher que se sobressaltou ao ver naqueles olhos algo impregnado, algo que ela não via há muitas décadas: confusão.

((—Por Deus, Vânia! O que acontecestes, meu senhor, para que ficastes desta maneira !))

Vânia inspirou profunda e lentamente, cerrando novamente seus olhos, como a buscar dentro de si uma coragem, uma explicação ou mesmo uma prova de que aquilo era mesmo real. Os breves segundos que assim permaneceu ainda mudo, pois estava incapacitado de pronunciar qualquer palavra devido à tensão que instantaneamente secou sua garganta, só aumentaram a aflição de sua esposa. O rápido silêncio que pareceu perpetuar por horas foi finalmente quebrado com um gesto calado, mas que explicaria exatamente o que lhe havia ocorrido.

O homem estendeu o pergaminho à esposa, que manteve seus olhos dourados como o sol de Outono, presos aos olhos do marido, pegando a carta sem olh�-la, tentando buscar as respostas na janela daquela alma que conhecia tão bem. Somente quando o pergaminho estava firmemente entre suas duas mãos, que Maria se dignou a olh�-lo, surpreendendo-se logo nas primeiras linhas escritas numa esmerosa caligrafia gótica.

((—Merlin! Mas é de Alvo Dumbledore...!))

A carta não era curta, mas Maria Ivanóvna leu-a em questão de segundos. Pasmada, dirige ao marido uma expressão que era um misto de aflição e incredulidade. E sentia que seu coração enchia-se de algo que não saberia explicar, por jamais ter sentido tal emoção. Só então, crendo que sua esposa havia encontrado a compreensão do fato ocorrido, Vassili Ivanovich pronuncia suas primeiras desde que recebeu a carta através da bela ave vermelha de dourada de Dumbledore.

((—É isso que está acontecendo, Ivana... Pavel ainda vive!))

Todo o Tribunal estava num silêncio sepulcral. Todos prestavam sua máxima atenção a Nicolai, que permanecia cabisbaixo. Mesmo após tantos anos, mesmo após tantas experiências ruins, tantas experiências diferentes, mesmo após ter adquirido uma nova visão para com o mundo a sua volta, a desonra que sofreu anos atrás, a de ter sido deserdado da Dinastia Donskoi, ainda lhe causava grande vergonha e indignação. A sua formação de moral e honra estavam tão enraizadas em seu âmago que jamais se livraria de tal sentimento, mesmo que por um absurdo e inesperado acaso do destino ele fosse restituído ao seu Clã.
 
Davis, sério, mãos entrelaçadas às costas, lhe dirigia um olhar inquisidor, como se o acusasse e culpasse pelos crimes ali expostos. Osborn apenas aguardava a sua vez, mesmo não compreendendo onde o colega queria chegar, e um tanto quanto contrariado de ver o Defensor agir como a Acusação.. ao menos era o que parecia.

—Esse é o verdadeiro motivo da deserção de seus pais e o do senhor.. o fato de seus pais terem se aliado ao bruxo Que-não-deve-ser-nomeado. A sua história tem fundamentos, uma vez que tal episódio ocorreu entre algumas diversas famílias tradicionais também do Reino Unido, que não aceitavam qualquer tipo de submissão a quem quer que fosse...

—..A história do réu talvez tenha fundamentos, mas não a questão aqui levantada, Dr Davis... – Interpelou Dr Osborn, não concordando com a postura tomada por Jonathan Davis. —Não é compreendido o motivo pelo qual o senhor levantou tal questão, uma vez que a decisão que a família toma com seus membros não é fato a ser julgado nesta ocasião. Poderia, caro colega, explicar-nos onde tal fato, do Sr Donskoi e seus pais terem sido deserdados pelo Patriarca da família, se encaixa com umas das três acusações em que o réu está sendo julgado?

—Com prazer, Dr Osborn... Tal fato aqui levantado apenas nos prova o porque do réu ter sofrido a maldição Animago Mortis proferida por Aquele-que-não-deve-ser-nomeado; isso prova que o réu, o Sr Donskoi, envergonhado da indignação e desonra de ter sido expulso de sua Dinastia, recusou-se a seguir ao Círculo das Trevas, e como o próprio havia dito, 'morte ante a desonra'. Sabendo que o Senhor do Círculo das Trevas é um bruxo cruel que jamais perdoa quem quer que seja, deu-se ao luxo de aprisionar o Sr Donskoi com uma maldição à simplesmente mat�-lo. Logo, para mim e insisto que seja para o Júri também, tal história é uma prova cabal de que o Sr Donskoi jamais se aliou ao Círculo das Trevas, pois não suportaria uma segunda desonra, totalmente aceitável dentro de uma família tradicional e antiga.

—Isso são apenas belas palavras, Dr Davis... – Falou seca e sarcasticamente o advogado de acusação. —...mas não é nenhuma prova cabal de que o réu não é um Comensal da Morte.
Osborn virou-se para o Juiz com quase um sorriso no rosto.

—Meritíssimo! Peço permissão para replicar a afirmativa do Dr Jonathan Davis.. e peço também a apresentação de uma prova concreta de que o réu, Sr Donskoi, não é um seguidor do Círculo das Trevas, um Comensal da Morte!

O silêncio pelos espectadores no Plenário foi quebrado por um burburinho que formou-se após as palavras de Osborn. Na arquibancada do Júri, os jurados cochichavam entre si, nervosos. Todos ali sabiam que havia apenas uma forma de provar que um bruxo era ou não um seguidor de Voldemort: através da marca negra, a tatuagem queimada por magia no antebraço esquerdo de todo Comensal. Mesmo que Voldemort estivesse morto, mesmo que a marca permanecesse oculta por anos a fio, ela sempre estaria ali, pronta a arder assim que seu mestre fizesse-se presente. É por isso que era dito que uma vez Comensal, sempre Comensal... tal sina era impossível de se livrar. Tal sina sempre estaria impressa no corpo, na alma, na moral daquele que se submetesse ao Círculo das Trevas de Voldemort.

Nicolai estava completamente congelado por dentro. Estava trêmulo. Os olhos estavam estáticos, estatelados. Ele não podia crer no que ouvira. Ele não conseguia acreditar que Davis tenha dado armas e argumento para que a Acusação reivindicasse uma prova real e concreta de que ele não era um Comensal da Morte... mas Nicolai ERA, e uma vez sendo, sempre seria. Sua marca negra, queimada em seu antebraço esquerdo há vinte e um anos atrás, não estava visível, como se não mais existisse... e talvez realmente não mais existisse; talvez, ao quebrar a maldição Animago Mortis de Voldemort, ele tenha também conseguido livrar-se de sua escravidão pelo Círculo das Trevas.. porém, ele não tinha a mínima certeza disso.

Sobressaltou-se com as marteladas que o Juiz dava em sua mesa, exigindo ordem e silêncio no Tribunal e concedendo o pedido de Osborn. Ao ouvir isso, uma nuvem negra cobriu os olhos de Nicolai e ele sentiu-se cair num abismo negro, sem fundo, tão negro que a escuridão poderia comprimir e esmagar como fosse a pressão existente na profundidade do Oceano. O abismo em que se encontrava era como o peso de todo o Oceano em volta de seu corpo, de sua alma.

— É consentido o seu direito à réplica, Dr Osborn, assim como é consentida a apresentação da prova real de que o Sr Donskoi é inocente perante a acusação de ser um Comensal da Morte.

—Eu protesto, Meritíssimo! – Intercedeu Davis, parecendo um tanto apreensivo, como se tivesse perdido o controle da situação. —Existe apenas uma prova real de que um bruxo é o não um Comensal da Morte, e tal prova é de certo grau um grande constrangimento ao réu. Peço uma rescisão do julgamento por ora, senhor!

—O seu protesto é inapropriado, Dr Davis, e esse direito não lhe será consentido. O direito à réplica do Dr Osborn será mantida tal qual a apresentação da prova real. Caso o seu cliente sinta-se constrangido ao ser submetido à apresentação da prova perante todo o Tribunal, que o senhor abra um processo contra danos morais em favor do Sr Donskoi, posteriormente. Por ora a réplica será feita e a prova será apresentada, porém ao senhor, Dr Davis, será consentido o direito à tréplica. E tenho dito.

Três marteladas. E ponto final.

Hermione encolheu-se nos braços de Alvo Dumbledore, como se houvesse entrado na saleta de espera uma corrente de ar frio. A menina cerrou seus olhos, com uma súbita sensação de medo e apreensão, diferente do que havia sentido até então. Todas esses sentimentos estranhos, essa sensação de sufocamento, estavam deixando-a enjoada e uma enxaqueca começava a se manifestar. Era como se estivesse desfalecendo, pois não conseguia pensar em mais nada, não conseguia ouvir, não conseguia sentir o exterior. Tudo o que via a sua frente era uma imensidão negra do nada, que a engolia, que a asfixiava.
 
Dumbledore sentiu a aflição de Hermione e apertou-a ainda mais em seu semi-abraço, na tentativa de dar-lhe mais conforto e confiança.

—Agüente firme, criança.. quando menos se espera, tudo estará terminado e voltaremos para Hogwarts o quanto antes...

Neste momento, uma das portas da antecâmara é aberta, dando passagem para um elfo doméstico que empurrava um carrinho de chá maior que ele próprio, segurando com dificuldade na alça do mesmo. Sobre o carrinho havia uma dezena de xícaras de porcelana branca com o brasão do Ministério impresso em dourado, dois bules também em porcelana impressa, um com chá e outro com café e mais duas baixelas com biscoitos de formatos e sabores variados.

O estado estranho e degenerativo em que Hermione sentia-se encontrar não permitiu que sua indignação contra a escravidão dos pobres elfos sequer se manifestasse e a menina não fez qualquer cerimônia e aceitou de prontidão a xícara com chá preto que a pequena criatura lhe servia muito educadamente. Hermione levou a xícara aos lábios e degustou do chá como fosse um néctar paliativo que lhe traria a calma e o conforto que tanto precisava naquele momento.

—Todos aqui presentes têm o conhecimento de que o Comensal da Morte é identificável através da Marca Negra, uma tatuagem queimada no antebraço esquerdo do indivíduo. Por vezes essa tal marca é oculta, invisível, mas isso não quer dizer que ela não exista e, para torn�-la visível, é necessário conjurar um feitiço para tal...
 
Osborn volta-se para Nicolai, sentado à cátedra do réu, tenso e estático, tanto que sequer piscava.

—Sr Donskoi, o senhor possui a Marca Negra? – Questionou secamente.

Não tenho a marca negra, senhor! Não sou um Comensal! – Respondeu Nicolai de forma ríspida, por entre os dentes quase cerrados pela raiva. Agora pouco importava a sua condenação à Azkaban. Antes de ser levado dali ele se encarregaria de matar magistralmente Jonathan Davis diante de todo o Tribunal.. ainda sabia como proferir a Avada Kedavra e nem precisaria utilizar uma varinha para isso!

—Então o senhor não se importaria agora, diante de todos, de mostrar que diz a verdade?

Perdão, mas me recuso. Eu digo a verdade e não mostrarei nenhuma parte de meu corpo para provar isso!

Davis intervém: —Sr Donskoi, da mesma forma que o senhor não pode negar-se a responder ao inquérito feito em pleno Tribunal, o senhor não pode negar-se em apresentar as provas requeridas. Quem cala, consente. Quem se nega a apresentar provas de sua inocência, assume a culpa. O senhor não quer ser enviado à Azkaban apenas por timidez, não é mesmo?
O advogado terminou sua frase com um leve sorriso zombeteiro no rosto, que Nicolai retribui – e respondeu – com um olhar de ódio ferino. A áurea de ódio de surgiu em torno do rapaz era quase palpável e Davis percebeu isso imediatamente e, embora não tenha demonstrado por mais que efêmeros segundos, ele titubeou perante aquela energia que não havia sentido até então, vinda de Nicolai. Se as coisas não saíssem como planejara, manipulando a Acusação, ele certamente seria morto por seu cliente!

—Não queremos condenar injustamente. Todos nós trabalhamos para que a verdade venha à tona. Se o senhor se recusa a apresentar a prova cabal de que é inocente, então o senhor assume a culpa. Por favor, apresente a prova, Sr Donskoi; dispa-se de sua vestimenta superior e deixe peito e braços à mostra. – Em tom complacente, Osborn fala a Nicolai como se falasse com uma criança de dez anos, o que só fez aumentar ainda mais a raiva do garoto, sentindo-se sobrepujado em sua inteligência.

Nicolai começou a desabotoar o balandrau negro que trajava, sem desviar seu olhar de ódio dos dois advogados. O silêncio no Plenário era absoluto e até mesmo o Juiz se inclinava sobre sua mesa a fim de melhor observar a cena.

O Animago sabia que sua marca negra não estava mais ali, mas não tinha qualquer certeza de que ela tivesse desaparecido para todo o sempre. O problema é que ele não contava com a magia que era conjurada para tornar a marca visível, a mesma magia usada para conjurar a marca negra no céu e isso seria usado contra ele. E se ele ainda fosse um escravo das Trevas? Não haveria, então, mais qualquer argumento em sua defesa e sua prisão em Azkaban era mais que certa... mas, então, que fosse! Porém antes ele se encarregaria de eliminar aquele maldito advogado, Jonathan Davis, ali mesmo diante de todos! Maldito Dumbledore! Velho sujo e maquiavélico! Ele que era um grande imbecil de ter acreditado nesses miseráveis!

Terminado de desabotoar o balandrau, Nicolai joga a vestimenta sobre o balcão de sua cátedra, deixando peito e braços à mostra. Enrolado em seu pescoço estava o cordão de couro de dragão com as duas penas vermelhas de bordas douradas da Fênix penduradas ao meio de seu peito. O rapaz, em pé, estende os braços na direção ao advogado de acusação. Realmente, como estava sendo analisado, não havia qualquer sinal ou sombra de que em seu antebraço ou qualquer outra parte do corpo exposto, estivesse ali, alguma vez, a hedionda marca do crânio com a serpente saindo de sua boca.

Repito, Dr Osborn: não sou um comensal da morte! Não tenho a marca negra!

—É isso que está sendo julgado e tentando ser provado, Sr Donskoi!

Osborn sacou a varinha de sua manga e apontou para Nicolai, que sentia-se completamente gelado e em cacos por dentro, mas exteriormente ainda mantinha a sua expressão de ódio, com seu olhos quase cerrados pelo cenho franzido. Tentou controlar sua respiração, que estava descompassada. Era o seu momento final e só uma ironia do destino ou um capricho de Merlin impediriam que sua tragédia pessoal se concretizasse.

Nada era ouvido no Tribunal além do flambar dos archotes, devido ao silêncio que reinava absoluto no local. Parecia até que todos os presentes tinham se tornado estátuas de pedras. Ninguém respirava. Ninguém piscava. Alguns levantavam-se de suas cadeiras, espichando-se em direção ao palco. Jonathan Davis, confiando cegamente nas instruções passadas a ele por Alvo Dumbledore, torcia para que não fosse dessa vez que o velho mago estivesse errado. Mantinha seus braços esticados ao longo do corpo, com os punhos fechados fortemente... se fosse provado que Nicolai é mesmo um Comensal da Morte, a carreira de Davis sofreria um grande impacto e poderia começar a ruir depois desse julgamento. Ele conhecia os riscos e aceitou o caso como um desafio profissional, mas ele era inteligente o suficiente para não ser totalmente otimista.

As veias do braço de Nicolai estavam sobresselentes devido a sua tensão e sua pulsação alterada. A muito custo mantinha seu semblante inalterado, tentando não deixar transparecer seu medo...

Segurando a varinha firmemente em direção ao peito de Nicolai, Osborn conjura o feitiço em alto brado:

MORSMORDRE!

Fim do Capítulo XXXI – Continua...
By Snake Eyes – 2005.

N/A: "Vânia" é o diminutivo do nome 'Vassili' (ao menos foi o que constatei em "A morte de Ivan Ilith", de Leon Tosltoi. No caso, Vassili (ou 'Vânia') era o nome do filho caçula de Ivan.
Para quem não lembra... ((Dois pares de parênteses significam um diálogo em russo. Como não sei escrever em russo, nóis inventa artifícios XD)

Morsmordre: Invoca a Marca das Trevas, símbolo de Voldemort, que é uma caveira com uma cobra saindo de sua boca. Não é dito em nenhuma parte do livro que tal feitiço serve para tornar visível a marca negra em alguém, mas, na falta de uma idéia melhor, usei esta mesmo :P

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Animago Mortis - Capítulo 30 – Julgamento – Sessão Aberta.

Animago Mortis

Capítulo 30 – Julgamento – Sessão Aberta.

Nicolai foi conduzido a uma antecâmara próxima ao tribunal onde aconteceria o seu julgamento. Da mesma forma como ocorreu na primeira vez, o rapaz estava prostrado pelo uso das algemas mágicas, que tiravam dele boa parte de suas forças e seu poder. Mas não apenas isso o reduzia à miséria que sentia se encontrar, era principalmente por ele julgar veemente de que o Diretor Alvo Dumbledore o havia abandonado à própria sorte. Não que o velho Mago lhe devesse qualquer favor ou obrigação, mas ele acreditou mesmo nas suas palavras de apoio.
 
Talvez ele estivesse sendo um grande tolo em dar tanta importância a este fato. Sim, sua vida, sua liberdade estavam em jogo, mas quantas vezes ele passou pela fase que viver e morrer não faziam a menor diferença? Esteve aprisionado dentro de si mesmo por tanto tempo que não seria diferente se fosse aprisionado em Azkaban. Esse pequeno lapso de liberdade, ao romper com a maldição, não poderia contamina-lo com a tolice de esperança. O que deveria deixar bem claro para si mesmo é que para ele não havia qualquer chance de retomar a sua vida com era há muitos e muitos anos, mesmo porque essa vida já havia desaparecido feito névoa ao calor dos primeiros raios de sol da manhã, sem deixar vestígios, sem haver dna. E a maior tolice era, certamente, a de crer que Hermione o veria com bons olhos algum dia...

O advogado Jonathan Davis interrompeu Nicolai, segurando-o pelo ombro, pois o garoto mal percebia para onde havia sido levado. Davis, em tom baixo e autoritário, num meneio de cabeça, chama qualquer um dos dois agentes que acompanharam a ele e ao seu cliente até ali.
—Retire as algemas.

Com toda má vontade do mundo, um dos agentes posicionou-se perante Nicolai, apontando a varinha para os pulsos do rapaz, murmurando o feitiço que fez as algemas esvaecerem até desaparecerem por completo, deixando o réu novamente livre.

—Saiam. – Ordenou Davis, secamente.

Davis ficou observando os agentes se retirarem até que a porta fosse batida, cujo baque seco reverberou pela antecâmara, ficando apenas defensor e réu a sós.

Nicolai olhou de esguelha para o ex-colega de classe, ainda desconfiado e nada satisfeito. Jonathan Davis retribuiu o olhar taciturno de seu cliente com seu sorriso sádico, movimentando-se para postar-se de frente para Nicolai que, apenas, ainda o observava sem nada dizer.

—Ouça bem, russo: pouco me importa o que você pensa e acha de tudo isso que está acontecendo. Não estou nem aí se você tem fé em sair dessa ou não. Estou aqui só pra fazer o meu trabalho, e se meu trabalho foi requisitado, ele será executado da melhor forma possível.

Na breve pausa em que Davis falava a Nicolai num estranho tom sério, o animago desviou seu olhar para um ponto qualquer do chão, dando uma singela risada de desdenho, fazendo com que seu defensor se sentisse entediado ainda mais com a situação. O garoto, porém, mantinha-se mudo, e Davis o olhava como se ele fosse a coisa mais boçal do mundo.

—..também não me importa se você confia ou não em mim... – continuou Davis, como se não houvesse tido nenhuma interrupção. —Faço isso pelo Mestre Dumbledore. Ele acredita em você e isso me é suficiente.

O garoto encara seu defensor, com um sorriso torto nos lábios, e finalmente pronunciando alguma coisa desde que fôra retirado de sua cela.

Qual é a desse discurso, afinal? É alguma tática para eu crer que sairei ileso dessa imensa palhaçada que se forma em meu entorno? Não sou um legilimante, então, 'por favor, Dr Davis', faça a gentileza de dizer logo o que quer me dizer.

O sorriso no rosto redondo de Jonathan Davis se alargou. O homem cruzou os braços sobre o peito e dirigiu um olhar zombeteiro a Nicolai, que se tornava ainda mais insatisfeito com a situação a cada minuto que passava.

—Aah.. a velha arrogância se fez presente. Agora sim você se parece muito mais com aquele russozinho metido à besta de vinte anos atrás. Pois bem, ouça e guarde, e não me faça repetir. – Davis voltou ao seu tom sério, encarando Nicolai com uma firmeza que até então ainda não havia demonstrado.

—O Mestre Dumbledore me contou a sua história, Donskoi. Sei o que você é e onde você andou metido, então preste muita atenção: durante o julgamento, responda as perguntas que lhe forem feitas com toda a sua firmeza; não deixe margens para duplo sentido; responda com a verdade e nada além da verdade, mas, se mentir, leve isso até o fim, sem recuar e sem vacilar um instante. O Ministério está apenas preocupado com a nova 'santa inquisição', não está nem aí para você como pessoa. Você e nada são a mesma coisa. Tudo que eles querem é uma oportunidade de dizer à Comunidade Bruxa que estão fazendo direitinho o trabalho deles e tirando de circulação os bruxos maus.

Imaginei algo parecido... – Falou Nicolai numa voz fugidia. —A eficiência deles em querer me levar imediatamente a um julgamento chega a ser teatreco.

—Realmente.. um termo bastante apropriado a este circo de macacos. Mas entenda uma coisa de vez por todas, Donskoi: O Ministério é um circo de macacos e porcos, sim, porém macacos e porcos com poder suficiente para arruinarem moralmente qualquer um.. e eles nem sequer usam magia para isso. Da mesma forma que o Mestre Dumbledore não é um velhinho gagá e tolo, Cornelius Fudge não é aquele sapo otário que aparenta.

O que você quer dizer com isso? – Perguntou um ainda mais desconfiado Nicolai, cujos olhos oblongos desapareciam sob o cenho franzido.

O sorriso sádico de Davis voltou ao seu rosto e o advogado se deteve por instantes como se a saborear as incertezas de seu réu.

—Preocupe-se única e exclusivamente com sua própria pele, russo. Talvez com um pouco de sorte consigamos uma vidinha meia-boca entre os trouxas para você, 'Nicolai'...

Davis caminhou até uma outra porta, que daria acesso à câmara principal, onde ocorrerá o julgamento. Como o mesmo sorriso de sempre, Jonathan Davis indica gentilmente com a mão esquerda a saída da antecâmara. Nicolai o observa mudo e estático, mas com um olhar que mostrava toda a sua insatisfação e pessimismo em relação ao seu destino final.

A grande câmara principal, onde era constituído o Tribunal deliberativo, a decoração, por assim dizer com boa vontade, era no sisudo estilo do século 16, o "elisabetano", propagado pela Rainha Elizabeth. Apesar da iluminação por archotes presos às paredes e as velas suspensas num grande candelabro no centro do teto da câmara, o ambiente era escuro devido à tonalidade das paredes, chão e móveis, todos em madeira da cor do mogno. Como fosse um anfiteatro, a sala era constituída por um tablado semi-oval, onde, no centro, ficava a cátedra do juiz e ao seu lado direito ficavam as vinte e uma cadeiras do júri. O centro era como um palco, um espaço livre para a transição das pessoas. Ao lado esquerdo da cátedra do juiz ficavam duas cátedras mais baixas destinadas aos réus e testemunhas. Após o dito palco, haviam duas mesas separadas ao espaço de uma, destinadas à acusação e outra à defesa. Atrás de tudo isso estava a bancada de várias fileiras dispostas ao público que quisesse assistir aos julgamentos.
 
Não se podia dizer que o Tribunal estava cheio. Haviam apenas uns poucos curiosos como espectadores, alcoviteiros pelas desgraças alheias. Porém o Juiz, os vinte e um membros do júri e o Promotor já se faziam presentes.

A aflição de Nicolai nos últimos dias dentro daquela cela subterrânea não se comparava à angústia que o invadiu no momento em que pisou no Tribunal. O local, por si só, já parecia comprimir, julgar e penalizar quem ali estivesse, que devesse ou não algo à sociedade. Ao ver todos aqueles rostos estranhos que dispensaram imediata atenção a ele, Nicolai sentiu-se ainda mais sozinho e desamparado, como há muitos anos não se sentia, mesmo antes de Hermione entrar em sua vida. Seu coração pulsou lento e dolorosamente. A garganta tornou-se seca e áspera. Mas, inacreditavelmente, Nicolai ainda sabia como esconder seus sentimentos para o mundo exterior, então seu semblante se mantinha inexpressível.

Conduzido para a mesa da defesa por outros dois agentes do Ministério que o aguardavam dentro do Tribunal, Nicolai sentou-se em sua cadeira, tomando a devida providência de não cruzar o olhar com qualquer bruxo que estava presente naquele momento. Davis sentou-se ao seu lado em seguida. Um burburinho geral tomava conta do recinto, tanto pela presença do réu quanto pela presença do advogado Jonathan Davis que, em seus poucos mais de dez anos de magistrado, fez na Comunidade Bruxa muita fama, conquistando alguns admiradores e ganhando milhares de desafetos.

O juiz ajeitou-se em sua grande e adornada cadeira, batendo com o martelo de madeira três vezes seguidas com rigor contra a sua mesa, exigindo ordem e silêncio dentro do Tribunal.

De imediato todos se calaram e se ajeitaram nos lugares. O Juiz, nitidamente satisfeito, põe-se a falar seu discurso rotineiro, abrindo a sessão do julgamento. Para Nicolai, apenas mais um palavrório fastidioso. Sentia-se como se estivesse num sonho, num estágio letárgico onde as pernas não moviam quando a mente queria andar, a boca não mexia quando se queria falar, o raciocínio não trabalhava quando o ego tentava se sobrepor ao id. Não que ele estivesse ainda prostrado ou sofrendo da ação das algemas mágicas, mas, como se tivesse ocorrido de um instante para o outro, tudo aquilo havia perdido toda a sua importância. Aquele julgamento para Nicolai, naquele momento, havia deixado de ser algo real e o seu desfecho pouco importava... talvez ele acreditasse mesmo que não sairia ileso dali.

Depois de aberta a seção, o Juiz verifica se todos os vinte e um jurados estão presentes no recinto e, logo em seguida, abre uma urna, que fora previamente lacrada com magia, e retira de lá vinte e uma células, cada uma correspondente a um membro do júri, confirmando e deixando pública a identidade de cada um ali. Fechando e lacrando novamente a urna com magia, o Juiz, então, anuncia quais os processos serão, ali, submetidos a julgamento, passando para o Porteiro do Auditório a missão de apregoar as partes – acusação e defesa – e as testemunhas convocadas.

Ainda para Nicolai tudo soava como a um zumbido ininteligível, como se estivesse em meio a uma multidão, onde se ouve tudo e de tudo, mas não se entende absolutamente nada. Mas no momento em que o Porteiro começou a divulgar os nomes das testemunhas, alguns nomes surtiram efeito imediato no rapaz, como um baque gelado que o acertava diretamente no peito, fazendo-o gelar internamente. Toda a sua inanimação desvaneceu-se imediatamente e seu coração tomou um ritmo como se quisesse recuperar algum tempo perdido... mas para ele, naquele momento, era impossível decidir se aquilo era um bom ou mau presságio.

E não houve tempo para decidir-se. O Porteiro do Auditório invoca a presença do réu diante do Juiz e, antes que Davis forçasse com palavras grosseiras, Nicolai levantou-se de sua cadeira, os braços estendidos em punhos fechados ao lado do corpo. Mirou ao alto, para encontrar o rosto do Juiz. Mas um acaso feliz fez com que o semblante de Nicolai parecesse a ele, o Juiz, sereno e humilde, porém isso era devido ao turbilhão de pensamentos que se tumultuavam na mente do rapaz.

Seguindo a norma de conduta, o Juiz então começa o interrogatório com as perguntas básicas, as quais Nicolai responde com naturalidade, exceto à última, em que foi possível, aos mais atentos, sentir na voz do réu a insatisfação de tornar aquilo verídico.

—Pavel Nicolai Donskoi, descendente da Dinastia Donskoi, senhores fidalgos das terras de Lentz, na Rússia Oriental; trinta e sete anos.. – a isso foram ouvidos alguns murmúrios de admiração e outros de incredulidade. — ..meu defensor é.. o Sr Jonathan Davis... – a isso, pronunciado com má vontade, mesmo não ter virado seu rosto ou ousado olhar mesmo que de canto de olho para seu advogado, Nicolai sentiu em sua direção o sorriso sádico e zombeteiro de Davis, mesmo que isso não tenha sido passado exteriormente. Mas há sentimentos que jamais ficam ocultos.

—Como eu consigo me meter nessas situações?
 
Perguntava para si mesma Hermione, sentada num banco estofado, dentro de uma antecâmara, onde também estavam outras pessoas que ela, talvez por nervosismo, não se dignava a olhar sequer de relance, mesmo para o Prof Dumbledore, sentado tranqüilamente ao seu lado oposto da saleta, que rabiscava animado com um lápis um livreto que, possivelmente, se tratava de uma mera revista trouxa de palavras cruzadas.

Hermione sentia-se enfadada naquele lugar. Não havia uma janela para a qual distrair-se olhando para a paisagem de fora; não haviam livros para passar o tempo, apenas algumas velhas revistas e jornais; conversar até gostaria, principalmente para poder aliviar toda a tensão que ia em seu peito, mas não havia em si o mínimo ânimo para fazê-lo. Se fosse possível, faria com que esse momento presente fosse pulado e se tornasse apenas um buraco no tempo... mas isso não era possível, fosse ou não com magia.

A menina, entediada, levanta-se do banco, desamassando a saia e continuando a balançar os braços em seguida, como se quisesse espanar de sua roupa alguma fuligem invisível. Hermione tomou o cuidado de não virar para a direção de nenhuma das outras testemunhas ali presentes, andando para a direção de um canto vazio da saleta, onde havia apenas uma pequena mesa e uma jarra de cristal que ostentava um buquê sem graça, o qual serviu de pretexto para que a menina mantivesse as costas para os outros presentes, fingindo que olhava curiosa para as flores quase murchas e secas que tentavam em vão alegrar o ambiente sisudo e inóspito.

—Se eu soubesse que aquele gato era um animago, teria cobrado uns galeões a mais por ele...
À voz alegre que se ouviu as suas costas, Hermione virou-se num sobressalto, encontrando a mulher que lhe falava com um sorriso até simpático no rosto. Levou alguns instantes ainda para a menina reconhecer de quem se tratava e quando o fez deixou escapar uma exclamação muda, seguindo para um sorriso sem graça que a fez voltar sua atenção para a jarra de flores murchas.

—Eer.. aquilo... f-foi muito inusitado. Ninguém.. nunca percebeu nada.

—E nem mesmo você? Afinal ele conviveu bastante com a senhorinha, não?

Hermione voltou a olhar a mulher por sobre o ombro, meneando negativamente com a cabeça, em movimentos curtos e bruscos. Será possível que teria que passar o resto do ano a ouvir esse tipo de comentário? —N-não, não senhora. Se nem a Profª Minerva ou o Prof Dumbledore foram capazes de perceberem algo, eu menos ainda...

A mulher levou a mão ao ombro da menina, com se quisesse consolá-la. —Eu sei, mocinha. Se um animago não quer ou não pode se mostrar, não há nada que faça como descobrir isso. Crookshanks esteve em minha loja por uns oito ou dez anos e jamais tive a mínima idéia em imaginar tal possibilidade. Quando se lida com criaturas mágicas todo o tempo, certas capacidades nos passam totalmente despercebidas e no máximo que consegui desconfiar era de ele fosse um mestiço de gato comum com amasso.

—É... – Hermione voltou-se para a mesinha, de cabeça baixa, desanimada. —Eu também cheguei a cogitar essa hipótese, quando fui buscar informações sobre ele, mas... bem, que seja... – Aqui a voz de Hermione não foi nada além de um sussurro, dando por encerrado o assunto, que a velha bruxa entendeu perfeitamente.

—É, que seja. Por isso e por outras que a vida é muito interessante.

No tribunal, Nicolai já estava sendo interrogado. Era fastidioso e sua vontade era de permanecer calado, mandando aos infernos tudo e a todos – e, em algumas passagens, foi por muito pouco que não respondeu com um "vá pro inferno!". Mas tinha que manter seu sangue frio e a cabeça completamente lúcida a fim de encurtar o máximo possível aquela seção, se mostrar de boa vontade e que não tinha o que temer e esconder – o que era uma inverdade, mas ali seria a mais cristalina das verdades.
 
—...Então, Sr Donskoi, o senhor afirma que não tinha controle algum sobre o assassinato do comensal que não conseguiram identificar por faltar às Autoridades documentos a respeito e PELO SENHOR tê-lo deixado desfigurado a ponto de ser irreconhecível? – Questionava o Promotor de Acusação, que, apesar da interpretação na fala, mantinha-se sério e com movimentos calculados.

Nicolai o olhava desinteressadamente, porém sempre mantendo firmeza. Ademais, essa não lhe era uma pergunta que o comprometia com a sua moral, já que não havia nenhuma mentira na resposta.

Sim, senhor. Eu não tive nenhum controle humano naquele momento. O que me fez ataca-lo daquela forma foi meu instinto de preservação, sequer havia me dado conta de que não estava mais preso à forma animaga.

—..Mas como já foi dito e provado que todo bruxo animago em sua forma animal tem plena consciência humana, o senhor, embora afirme o contrário, teve não apenas a intenção de matar, mas como também o fez com requintes de crueldade, usando demasiada força para tal... o senhor acabou de afirmar que havia matado o comensal e o negará agora?

Não, não estou negando nada... – Nicolai titubeou, não esperava por uma pergunta dessas. Sentiu um amargo horrível na garganta e a opressão em seu peito só fez aumentar. —...mas.. eu não tinha noção alguma da minha força ou do que realmente estava fazendo! Tudo que queria era que aquele maldito pagasse por tudo que fez contra a minha don.. c-contra a Srta Granger! Tudo que lembro é vê-la desfalecer pelas mãos dele e achar que ele havia a matado! E eu não pude protegê-la! Então precisava fazê-lo pagar por aquilo! – Nicolai não pôde deter sua emoção neste momento, deixando transparecer o seu desespero em lembrar-se daquela cena horrenda. O que esse homem queria afinal? Preferia ele a vida de um miserável comensal à vida de Hermione!

—Então o senhor confirma que matou ao comensal por livre e espontânea vontade, não para defender alguém, pois se cria que a vítima em questão estava morta e não há o porque defender os mortos, mas ainda assim atacou ao homem, o espancando até a morte, praticando a justiça com as próprias mãos, usando força descomunal e requintes de crueldade.

—PROTESTO, MERITÍSSIMO! O caro colega está torcendo os fatos, imputando uma falsa conduta ao meu cliente! Exijo uma réplica.

O Juiz dá uma única batida com o martelo sobre a mesa, falando calmamente logo em seguida:

—Protesto aceito. Faça sua réplica, Dr Davis.

Jonathan Davis avançou para o centro do júri, estando lado a lado com o Promotor. Nicolai o olhava apreensivo, não imaginando o que poderia vir dele, no mesmo instante que sentia-se completamente idiota de ter deixado a emoção domina-lo, mesmo que por alguns instantes.

—O meu cliente sofreu a ação de uma maldição imperdoável por vinte anos, tendo seu corpo e mente envenenados por uma magia negra poderosa, que foi provado por laudos médicos assinados por um expoente da atual medicina bruxa, Dra Papoula Pomfrey. Será que os aqui presentes crêem que após ser obrigado a viver como um animal por duas décadas, um homem conseguiria raciocinar como um homem instantes depois de voltar a sua forma humana? Ainda mais sob imensa pressão, ao ver a iminência da morte de um ente importante para si? Animais não matam por prazer! Matam por alimento ou por defesa, sua ou de seus pares! O nobre colega Osborn afirma que meu cliente, o Sr Donskoi, tinha consciência humana e desejo de vingança quando meu cliente, que está sob juramento mágico, afirma que sequer tinha noção de seu corpo e sua força. Oras, se meu cliente afirma que não tinha noção sequer de seu próprio corpo, isso significa que ele não tinha consciência humana afinal, uma vez que animais não têm raciocínio lógico!

Numa breve pausa, Nicolai sequer piscava, tão centrado estava diante da apresentação de Davis que era, de fato, um tanto quanto expansivo no palco. O garoto não conseguia deixar de pensar que sua vida estaria arruinada pelas mãos daquele lunático e agora ainda mais, não prevendo aonde ele chegaria com aquelas palavras.

—..então, Sr Meritíssimo, cavalheiros e damas do Júri, nobre colega e caros espectadores, meu cliente, o Sr Donskoi, que por vinte anos viveu plenamente como um animal, cometeu um crime grave através de seu instinto de preservação, como ele mesmo afirmou, logo, Sr Juiz Meritíssimo, eu considero inapto este crime ser julgado por este tribunal, uma vez que meu cliente cometeu tal crime sob consciência animal, logo, acato à idéia de que o Sr Donskoi deva ser julgado pelo Tribunal de Criaturas Mágicas do Departamento de Controle e Execução de Criaturas Mágicas!

Um burburinho e exclamações preencheram o ambiente após as palavras de Davis. Nicolai, de olhos arregalados, não conseguia crer no que seus ouvidos escutaram e Osborn, o advogado de acusação, mostrou-se imediatamente indignado com tal proposta estapafúrdia de Jonathan Davis, que, por sua vez, parecia completamente satisfeito com suas palavras e com a reação geral.

Osborn, indignado, treplica:

—Isso é um completo absurdo, Davis! Não podemos julgar um homem através do Departamento de Controle e Execução de Criaturas Mágicas. Mesmo que o bruxo tenha a capacidade da animagia, ainda assim ele é um ser humano! Desde a Convenção de 1811 ficou decretado que bruxos, mesmo os animagos e até mesmo vampiros, lobisomens e megeras são classificados como 'seres', dito assim pelo então Ministro da Magia, Grogan Stump, que 'qualquer criatura que possuísse inteligência suficiente para compreender as leis da comunidade mágica e para compartir com a responsabilidade na preparação de tais leis'... logo, o Sr Donskoi, mesmo sendo um animago, é um 'ser' e como tal deve permanecer em julgamento no Tribunal Bruxo.

—PORÉM, caro Dr Osborn, o meu cliente agiu por instinto animal e matou um homem consciente de ser um animal, algo que ele não é, pois devido ao determinado na Convenção de 1811, como bem lembrou o nobre colega, o Sr Donskoi, bruxo animago, compreende-se na 'categoria de seres'. Oras, então o que temos aqui: um homem assassinado cujo crime foi cometido por um ser inconsciente de sua personalidade, agindo por um instinto que não convém a um ser humano, sua real natureza, mas a um animal. Porém, a consciência é a mola mestra de nossos atos e se ela não existe, os atos perdem seu significado filosófico. Logo temos um crime, uma vítima, entretanto, sem um culpado.

Sem saber exatamente o porque, Hermione sentia-se apreensiva... seria óbvio que isso era devido à situação, mas ela, no fundo, guardava algo que não queria mostrar nem a si mesma. A verdade é que sua apreensão era a mesma de Nicolai e ela estava preocupada com o que se passava após aquela maciça porta de madeira a sua frente.
 
Voltou sua atenção totalmente à porta de madeira escura muito sólida e de adornos trabalhados. O que a preocupava não era no que seria interrogada, nem o que viria a dizer, se prejudicaria ou auxiliaria Pavel... sequer pensava nisso naquele momento, sequer lembrava-se disso há mais de uma hora. Tudo que sentia, além de um estado letárgico, era um vazio em seu coração, como se experimentasse uma profunda solidão, um profundo desamparo.

Ao longe, despreocupadamente, estava Alvo Dumbledore, que já estava com um novo livro de palavras cruzadas em mãos. O velho mago observava discretamente a menina, adivinhando o que ela se negava a aceitar.

Sentado à cadeira do réu, as energias de Nicolai se exauriam rapidamente devido à situação tediosa e enfadonha. Responder às inúmeras perguntas, ouvir argumentos absurdos a respeito de si, sentir toda a atenção de todos naquele plenário sobre ele, sentir o receio e o desejo de que ele fosse condenado e penalizado, misturados a outros sentimentos contraditórios como compaixão, por exemplo... é, passar tantos anos recluso com um animal desenvolveu nele uma percepção incomum que, naquele momento, inconscientemente, amaldiçoava-se por isso. Aquele excesso de sentimentos alheios que se chocavam e se confundiam sobre si, pairando no ar feito um nevoeiro abafado das madrugadas de verão, o estavam deixando ainda mais enjoado. Porém, a todo custo, mantinha-se ainda muito lúcido, a fim de não vacilar em suas respostas que não poderiam falhar de forma alguma e deixar aparente a sua inverdade, principalmente quando tais perguntas esbarravam num assunto que ele gostaria que se tratasse apenas de um terrível pesadelo e não parte de seu passado: Comensal da Morte.
 
—...sendo um bruxo de família tradicional de linhagem nobre e sendo, ainda, um estudante de nível avançado como demonstra em seu currículo escolar, o senhor afirma, simplesmente, que desconhecia a regra do Ministério Geral, estipulada há mais de trezentos anos, de que todos os bruxos animagos devem ser registrados e o não cumprimento de tal obrigação acarreta em descumprimento de uma Lei secular, caracterizando como um crime grave devido à complexidade do caso? – No tom de voz e interpretação de Osborn havia uma medida exata de indignação que não se deixava mostrar como disfarce. Os movimentos lentos e ponderados do Promotor deixavam Nicolai quase sonolento de tão entediado.

—Discordo, Meritíssimo! – Davis levanta-se mais uma vez de sua cátedra, posicionando novamente ao centro do tablado.

O juiz martela mais uma vez sobre sua mesa, concedendo o direito à réplica a Davis. —O senhor tem permissão para expor seu ponto de vista, Dr Davis.

—Protesto, Meritíssimo! Isso é um artifício do Dr Davis para que o réu não responda ao questionamento!

O Juiz tornou a martelar a mesa, desta vez com dois baques mais fortes que o anterior. —O direito de réplica ao Defensor já foi consentida e é irrevogável. Ao senhor será dado o direito de tréplica.

—Obrigado, Meritíssimo. – Davis agradeceu firmando com meneio positivo da cabeça. —É fato verídico tal Lei que obriga os animagos ao registro perante o Ministério Geral dos Bruxos, assim como é obrigatório o registro de vampiros e lobisomens, mas um bruxo torna-se um indivíduo plenamente capaz ao completar exatos dezoitos anos de idade. Apenas quero lembrar ao colega Dr Osborn, que meu cliente era menor de dezoito anos na época, logo um indivíduo legalmente incapacitado para responder por deveres e obrigações que não condiziam com sua idade. E sendo um indivíduo ainda não emancipado e sob tutela legal de seus pais, o Sr Donskoi não poderia, por si só, dar entrada ao seu registro de animago, obrigação e dever cabível apenas aos tutores legais. Portanto, tal questionamento é uma injúria, visto que a culpa não pode recair ao meu cliente e sim aos seus pais que omitiram tal fato e deixaram de regularizar a situação do filho.

—Se a questão aqui é a de se refrescar a memória, então faço o mesmo pelo colega, caro Dr Davis.. – Osborn voltava-se com um tom de cólera e sarcasmo que não combinavam com sua pessoa, mas que divertiam muito a Davis, que respondeu com um singelo sorriso. —No primeiro depoimento do réu, feito ao Excelentíssimo Secretário da Defesa, Chester Bennington, o Sr Donskoi afirmou com veemência de que ocultou de todos, por anos a fio, o fato de ser um animago, inclusive de seus próprios pais, então seus tutores legais. Portanto, o que entendo é que o réu agiu de má fé, possivelmente com planos premeditados em que envolveriam sua animagia. Logo, podemos concluir que tal ocultação de um fato que é de grande orgulho por exaltar ao bruxo uma capacidade incomum, fosse para ser usada da forma mais escusa que assola a Comunidade Bruxa até os dias de hoje: a prática da magia negra e o seguimento ao Que-não-pode-ser-nomeado.

A simples menção que lembra Voldemort fôra o suficiente para que todo o Tribunal se tumultuasse em balbúrdias. Nicolai sentiu-se gelar por dentro, por ver ali exposto o questionamento a que tanto temia: a acusação de pertencer ao Círculo das Trevas e seguir ao Lord Voldemort. Suas mãos suavam geladas; estavam fechadas tão fortemente em punhos que, se ele estivesse menos concentrado no plenário, sentiria suas unhas ferirem as palmas de suas mãos. O momento que tanto temia estava próximo e duvidava que conseguiria encontrar argumentos convincentes de que jamais fora um Comensal. Essa odiosa realidade estava tão impregnada em si que ele duvidava que algum dia conseguiria viver sem a sombra desse passado que tanto o condena. Se esse passado não conseguisse condenar e aprisionar seu corpo, sua mente já o penalizava há muitos e muitos por isso e o faria até o fim de seus dias na Terra.

Nicolai voltou de seus devaneios com sobressalto pelas marteladas que o Juiz dava energeticamente sobre a mesa, exigindo ordem no tribunal. Após alguns instantes todos os espectadores e júri acalmaram seus ânimos, dando espaço para que as partes, ou seja, Promotoria e Defesa, voltassem aos seus questionamentos com o réu e aos seus debates. Nicolai voltou seus olhos para os dois advogados, mas uma nevoa parecia pairar a sua frente, pois, a quem o observava, parecia que o rapaz não via nada diante de si.

Osborn posicionou-se de fronte à cadeira do réu, voltando ao seu inquérito.

—Como acabou de ser dito, o senhor ocultou de todos, inclusive de seus pais, o fato de ter a capacidade da animagia. Isto é ou não um fato?

Nicolai não respondeu de imediato, mas os conselhos de Dumbledore e, ironicamente, de Davis vieram a sua mente com a mesma velocidade de um raio que recorta as densas nuvens numa tempestade. Nunca vacilar. Nunca titubear. Jamais dar margens para duplo sentido. Ser preciso. E se mentir, mentir com franqueza – se é possível tal artimanha - e leva-la, a mentira, até o fim.

Sim, é um fato. Eu escondi de todos que eu havia desenvolvido a animagia.

—E com qual intento o fez, Sr Donskoi? Considerando que tal fato é um caso do qual se orgulhar e não se envergonhar, por que ocultou o fato de ser um animago?

O nevoeiro escuro que pairava virtualmente sobre Nicolai finalmente o envolveu naquele momento. Feito um filme de imagens desbotadas, as cenas de sua vida passavam em constante aceleração, remetendo-o ao real motivo que o fez esconder de todos sua capacidade de usar a animagia. Escondeu para poder usar contra o Império de Voldemort. E usou. E por isso fôra amaldiçoado. Concluiu, com tudo isso acontecendo em lapsos de segundos, que a verdade tomava formas diferentes de acordo com o ângulo que se via. E ele exporia, agora, um desses ângulos.

Meus pais eram Comensais da Morte.. e havia a intenção de transformar-me em um logo que eu me formasse em Hogwarts... julguei que, se descobrissem essa capacidade, iriam querer acelerar esse processo, pois eu acreditava que o Lord Voldemort ficaria muito interessado em ter um animago as suas ordens e pressionasse meus pais a me entregarem o quanto antes.

Apenas o Juiz, Davis e Osborn conseguiram ouvir a resposta de Nicolai até o fim, por estarem mais próximos a ele. Pois, assim que o garoto mencionou a primeira sílaba do nome de Voldemort, um novo burburinho, ainda mais tumultuado que o anterior, tomou conta do recinto. O Juiz martelou dezenas de vezes a mesa, cada vez com mais força que a anterior, até que, minutos depois, os bruxos ali presentes voltassem a sua calmaria. Furioso, o Juiz virou-se para Nicolai, ordenando-o num tom de voz letal, perigosamente.

—Sr Donskoi, está terminantemente proibido de citar o nome Daquele-que-não-deve-ser-nomeado dentro do meu Tribunal. Se desacatar uma única vez a seção será encerrada e o senhor será encarcerado novamente em sua cela por um longo tempo até que seja definida nova data de seu julgamento.

Sim, senhor.. – Nicolai voltou-se para suas mãos fechadas em punhos sobre seu colo, envergonhando-se por sua tolice em se mostrar que não temia a Voldemort, pronunciando seu nome daquela forma. Idiota. Aquilo não era hora e nem lugar para tais bobagens. Precisava se manter centrado naquilo que era a coisa mais importante: lutar por sua liberdade, pois essa era a única forma de se aproximar de Hermione.

Foi a vez de Davis interceder. Tomando a frente de Osborn, postou-se frente a frente com Nicolai que o encarou imediatamente ao perceber que vinha do Defensor algo de ruim, um sarcasmo ou mesmo diabólico. Nicolai viu nos olhos pequenos e negros de Jonathan Davis que ele estava adorando tudo aquilo... Definitivamente, ele não confiava em seu advogado.

—Sr Donskoi, o senhor acaba de afirmar que tinha conhecimento que seus pais eram Comensais da Morte e, principalmente, que tinha o conhecimento que eles planejavam fazer do senhor um seguidor do 'Que-não-pode-ser-nomeado'...

Uma breve pausa, provavelmente para aguçar ainda mais a expectativa de todos os presentes. Nicolai estava congelado por dentro, a respiração difícil e quase dolorosa. O garoto estava a beira do pânico e seus olhos transmitiam isso, embora seu semblante estivesse alterado apenas pelas sobrancelhas cerradas. Davis sorriu seu sorriso sádico, deixando a mostra o dente lascado. Apenas segundos se passaram, mas foram suficientes para deixar todo o plenário num mórbido silêncio.

—...se o senhor tinha a consciência desses fatos, por que não buscou ajuda, Sr Donskoi?

A-ajuda? – Nicolai titubeou com a pergunta, da qual não esperava (que estava se tornando um hábito por ali). Pelo diabo, onde esse retardado do Davis queria chegar! —Ajuda! Onde eu poderia buscar ajuda! Não havia onde encontrar auxílio e nem como fazê-lo! Tudo que eu fizesse levaria meus pais à Azkaban ou a morte pelas mãos do Lorde! Somente uma pessoa poderia tirar meus pais do Círculo das Trevas e garantir a segurança deles, mas... isso era impossível... Nunca houve onde buscar qualquer ajuda...

A voz de Nicolai sumiu num sussurro, porém nitidamente ouvível aos que estavam próximos dele, como Davis, Osborn e o Juiz. O silêncio reinava absoluto no Tribunal, todos com suas atenções voltadas a Nicolai. Até mesmo Osborn e o Juiz do Tribunal estavam na expectativa pelo o que viria e inacreditando de que Jonathan Davis estivesse fazendo a vez da acusação e não da defesa, que era o papel que lhe cabia naquele julgamento. Osborn o observava incrédulo e boquiaberto.

Vendo que Nicolai havia se acalmado, Davis decide voltar ao seu interrogatório.

—QUEM poderia tê-los ajudado, aos seus pais e ao senhor, Sr Donskoi?

Nicolai voltou-se novamente para seu advogado, que havia assumido novamente sua expressão séria de antes. O réu já não parecia mais tão frio e ponderado como antes, de quando havia chegado horas atrás ao Tribunal. Aos que prestavam atenção ao seu rosto, viam em Nicolai algo como desamparo.

Hermione já havia se cansado de andar de um lado para o outro dentro da antecâmara, onde permanecia à espera de seu interrogatório juntamente com outras testemunhas de defesa convocadas por Jonathan Davis através do Ministério da Justiça. Um mal estar a invadiu e a menina sentiu a urgente necessidade de consolo e girando o olhar pela saleta, encontrou o Prof Dumbledore, que descansava as mãos com o livreto em seu colo e dispensava à Hermione um olhar terno e preocupado.
 
Sem se preocupar com convenções e deixando de lado toda e qualquer convicção, Hermione sentou-se ao lado vago do velho mago, que de pronto passou-lhe o braço por sobre o ombro da menina e com a mãos delicadamente posta sobre a cabeça de Hermione, a conduziu até seu ombro, num aconchego paternal. Hermione fechou os olhos ao sentir uma sensação morna de embalo, acalmando-se de imediato.

—Está tudo bem, querida. – Falou Dumbledore num sussurro, com seu típico tom de otimismo. —A decoração dessa sala é horrível e isso cansa a gente..

Hermione riu baixo com o comentário de Dumbledore. Mas sentia saber que ele percebia o que se passava dentro de seu coração, embora ela própria não entendesse o porque dessa súbita sensação de desamparo e angústia...

—O senhor não pode se calar ante uma pergunta feita em pleno Tribunal, Sr Donskoi. – Alertou Davis. —Eu repito a pergunta: QUEM poderia ajudar ao senhor e aos seus pais, Sr Donskoi?
 
Nicolai respirou fundo e segurou por instantes o ar em seus pulmões, como a buscar forças para encarar mais uma vez essa triste e desonrosa verdade.

O Patriarca Vassili Afanassievich Donskoi, pai de meu pai.

—E por que não buscou sua ajuda, Sr Donskoi, uma vez que havia a ligação sangüínea e familiar tão forte, sendo que eram pais, filhos e neto?

Porque... porque o Patriarca nos deserdou da Dinastia Donskoi quando descobriu que meus pais abandonaram a Rússia para se submeteram a um bruxo impuro por uma ambição inexplicável. Nós nos tornamos párias e meu avô sempre acreditou que era preferível a morte à desonra!

Fim do Capítulo XXX – Continua...
By Snake Eyes – 2005.

N/A: Jamais estive num tribunal e menos ainda assisti a um julgamento. Para poder montar toda essa farsa, baseei-me em filmes que contenham tais cenas e, principalmente, no site "Jus Navigandi", sob os textos dissertativos de Marcus Vinícius Amorim de Oliveira, promotor de Justiça no Ceará. Então, para quem sabe como realmente é e para quem faz Direito (e deve tá tendo convulsões com minhas descrições) só tenho a lamentar por mim mesmo por não ter competência de representar melhor um julgamento. Isso que escrevi é uma forma extremamente simplificada da coisa. Só o fiz porque não quis pegar o modelo já apresentando no livro de HP por mais de uma vez e que achei tais julgamentos péssimos, então quis fazer algo um pouco mais elaborado e que não fira gravemente a inteligência de ninguém.

Santa Tranqueira Magazine