quinta-feira, 18 de abril de 2013

Animago Mortis - Capítulo XXVII – Erros, acertos e indecisões.



Animago Mortis
Capítulo XXVII – Erros, acertos e indecisões.

Nicolai larga o livro que lia sobre a cama, levando a mão de súbito ao peito, sentindo uma opressão que já lhe era bastante familiar. Levanta-se e começa a andar de um lado para o outro dentro da cela, nervoso, balançando a cabeça em negativa.

Olhando para as grades de energia que trancavam a sua cela, pensa se realmente são capazes de deter alguém ali dentro e vai até elas para se certificar. A opressão em seu peito incomoda muito, principalmente por saber do que aquilo se trata. Maldizia intimamente pelo maldito sábado, quando tudo aconteceu, quando tudo isso teve início.

Ironicamente, ele era mais livre e útil enquanto apenas Crookshanks...

Estendeu sua mão em direção às grades e há poucos centímetros de encostar-se a elas, filetes de finos raios púrpuros eriçaram-se como fossem um curto circuito contra a mão de Nicolai, causando-lhe uma pequena queimadura com o choque.

O garoto afastou sua mão, mas sua expressão mordaz em nada mudou, como se a dor pela queimadura não tivesse surtido qualquer efeito. Recostou-se à parede, massageando a mão ferida, mirando o nada a sua frente, o cenho franzido. Soltou um muxoxo de raiva, indignado com sua condição e por sua incapacidade de confortar aquela pessoa que lhe é tão importante, e que sofria neste mesmo instante.

A opressão em seu peito, ele bem sabia, era devido a algo que afligia Hermione, que a magoava, a fazia sofrer... e algo aconteceu a ela, naquela hora. Respirou fundo e devagar, cerrando os olhos, a fim de se acalmar. Nada ele poderia fazer estando ali preso... nada!

[[—Por que isso? Como posso estar tão ligado a ela a ponto de sentir suas aflições mesmo estando há quilômetros de distância?...]]

Abriu os olhos e fixou-os sobre seu ferimento que avermelhava e ardia na parte atingida das costas da mão e dedos. O coração ainda estava comprimido e essa maldita angústia não o deixaria em paz tão logo, ao menos até que a própria Hermione já não estivesse mais angustiada.

[[—Como foi possível eu ter me deixado levar tanto assim por essa garota? Que magia afinal é essa que me prende a ela desse jeito?]]

Recostou a cabeça na parede, olhando para o teto branco e sem qualquer atrativo da cela. Um esboço de sorriso formou-se em seu rosto, embora seus olhos transmitissem a tristeza que vinha dentro de si.

[[—Isso é algo que preciso descobrir... e preciso sair daqui para isso!]]

*-*-*-*-*-*

Harry afastou-se de Hermione ao ver seus olhos aflitos vertendo lágrimas... olhava confuso para o rosto enrubescido da amiga. Ele até esperava uma reação de surpresa ou timidez da garota, mas não isso!

Hermione levou as mãos ao rosto, dando dois passos para trás, recostando-se à Figueira, apoiando o seu corpo que sentia-se totalmente fraco, sem energia. Cerrou os olhos com força, tentando conter o pranto e tentando inutilmente se convencer de que aquilo fora apenas um sonho ruim e que tudo sumiria quando voltasse a abrir os olhos.

As lágrimas vertiam furiosamente. As mãos ainda sobre o rosto. O corpo curvado para frente. Os cachos pendiam-se sobre os ombros, cobrindo parcialmente a face ruborizada pelo constrangimento, pela raiva.

Sentia-se violada! Sentia-se um brinquedo, um objeto, uma coisa qualquer que não merece respeito! Como ele pode fazer isso?! Eles são amigos, são como irmãos!

Como ele pode agarrá-la e tocá-la daquela forma como se ela fosse uma qualquer, como fosse uma mulherzinha vulgar e fácil que aceita qualquer coisa?!

Era a isso que ela fora reduzida? A falta de respeito de seus amigos havia chegado a esse nível, a de violá-la dessa forma como se ela fosse indigna, sem vontades, sem direitos?!

Harry deu um passo adiante, cautelosamente, estendendo sua mão ao rosto de Hermione.
—Mione, eu não esper...

Hermione reagiu na hora, furiosa, afastando a mão de Harry de si com um tapa, fazendo com que o garoto ficasse ainda mais assustado e confuso com sua atitude hostil.

—COMO PODE?! O QUE PENSA QUE SOU, HARRY?!!

—Eu.. eu não pretendia que isso... eu só queria que voc...

—AH! NÃO PRETENDIA?! É ISSO QUE EU SOU PARA VOCÊ AGORA?! UMA QUALQUER QUE VOCÊ AGARRA E FAZ O QUE QUISER?!! É NISSO QUE FUI REDUZIDA PARA VOCÊ?!!

—NÃO! Claro que não! Eu só queria te mostrar o quanto gosto de você! Por que você sempre entende tudo errado?!

—Eu entendo tudo errado, Harry?! O que entendo é que você me beijou e me tocou A FORÇA! O QUE ENTENDO É QUE VOCÊ SEQUER ME RESPEITA COMO PESSOA!!

Hermione empurrou com raiva o garoto que ainda tentava se aproximar dela. Raiva, indignação, mágoa se misturavam em seu semblante. Seu rosto e olhos muito ruborizados pelas lágrimas que ainda vertiam. Sentia-se totalmente constrangida e não suportava mais a presença de Harry, precisa sair dali.

A garota tentou sair dali o mais rápido possível, mas Harry a impediu segurando-a pelo braço rudemente. Hermione estremeceu olhando assustada para o garoto por sobre o ombro.

—Não, Hermione! Você não pode ir dessa forma! Não pode ir com esse mal-entendido! Eu fiz isso porque te amo, droga! – Harry exclamava quase numa súplica, sentindo-se totalmente estranho com a sua declaração... uma declaração que lhe parecia falsa.

Hermione desvencilhou-se de Harry, olhando-o com raiva.

—Harry! Me deixe em PAZ!!

Harry ficou estático, sem reação, vendo Hermione correr e desaparecer por entre a vegetação que ornamentava o local. Estava arrasado! Sentia ter cometido um erro irreparável!

—Não acredito.. não acredito que tenha dado tudo errado! Isso não é possível! – falava para si mesmo, incrédulo, num sussurro.

O garoto virou-se para a árvore, socando o tronco, recostando sua testa em seguida, tentando entender o que havia acabado de acontecer... entender a burrice que acabava de cometer. Com a cabeça baixa, suspirava profunda e cansadamente, os olhos e a garganta ardendo...

—Sou eu que sempre entendo tudo errado! Sou eu que sempre cometo burrices como essa! Hermione está certa: eu a julguei como uma qualquer!

A colina recoberta por rododendros estava completamente plácida. Apenas a brisa forte e os pequenos insetos e pássaros quebravam o silêncio reconfortante daquele lugar com suas melodias, cada qual de sua maneira. Algumas flores brancas e púrpuras dos arbustos emprestavam cor e aroma. O tempo estava nublado, mas havia um mormaço aconchegante... apesar de Hermione não ter qualquer espírito no momento para apreciar o que ali estava apenas para ela, já sentia-se como em casa, num lugar que lhe era acolhedor e que lhe protegia.

Afinal, ali era o seu refúgio em Hogwarts. O seu refúgio encantado do Gazebo da Colina. Ali ela estaria segura, sozinha e em paz com seus pensamentos. Ali ela poderia chorar todas as lágrimas que quisesse.

Hermione atravessou correndo, mesmo ofegante pela subida à colina, pela muralha de grandes arbustos e pinheiros que dava acesso ao belvedere, onde ficava o seu Gazebo de pedras. Abriu e passou subitamente pela pesada porta de carvalho, batendo-a logo em seguida e jogando todo o peso de seu corpo contra a porta fechada, recostando-se a ela para ganhar fôlego e se acalmar.

Manteve por longos instantes os olhos fechados e o corpo inclinado pela frente, sorvendo todo o oxigênio que lhe faltava ao organismo, que lhe chegava a doer. Nunca deve ter corrido tanto e tão rápido e nem sequer conseguia acreditar onde encontrou tanta força e disposição para subir essa colina íngreme em passos tão rápidos como acabara de fazer... mas tudo o que tinha em mente era se afastar o mais rápido e o mais longe possível de Harry, tudo o que queria era fugir daquela situação.

Recostou com tanta força a cabeça contra a porta, que chegou doer-lhe com a pancada, que a fez soltar um gemido baixo, cerrando ainda mais forte as pálpebras. Uma estranha ardência nas costas de sua mão direita chamou-lhe a atenção, mas só o que via diante de seus olhos ainda era aquela violação que Harry cometeu contra ela, sua intimidade invadida. Ela estava tão confusa, não conseguindo entender como um beijo poderia causar sentimentos tão desagradáveis como os que ela estava sentindo.

Levou a mão direita sobre os lábios, que parecia ainda ter o gosto de Harry. Fechou os olhos com força para impedir que as lágrimas voltassem a cair, inutilmente. Escorregou pela porta, abraçando as próprias pernas e escondendo o rosto sobre os joelhos.

Ficou ali por muito tempo, como um bichinho acuado e temeroso. Os soluços só cessaram quando estava exausta demais até para chorar.

A tarde chegou e junto a hora da primeira partida do ano de Quadribol. Harry estava com a expressão fechada, furioso. Mas ninguém perceberia a verdade de seu estado a menos que ele contasse. Respondia muito mal a todos com meias palavras ou monossílabos. Nem o entusiasmo de seus amigos, principalmente de Rony, conseguia tirá-lo daquela áurea contrariada.

Se havia algo a que poderia sentir-se feliz era por hoje ser a tão esperada partida de Quadribol, pois assim todos confundiam a sua ira com o nervosismo pelo iminente jogo. Era muito bom poder guardar o seu erro somente para si, pelo menos até ele próprio compreender toda a situação e chegar a alguma conclusão.

Olhou de soslaio para Rony, que conversava animadamente com outros garotos da Grifinória e alguns jogadores do time. Imaginava o que o amigo fará quando souber o que aconteceu entre ele e Hermione, ou melhor, o que ele fez à Hermione! Rony podia estar enfurecido com a amiga por alguns motivos, mas ele jamais toleraria que alguém a molestasse... molestasse?
Harry levou a mão à testa, esfregando-a como se quisesse conter alguma dor. O coração começou a bater descompassado e sentiu-se suar frio... ele havia molestado Hermione! Mesmo que ele não tivesse sido estúpido ou a tocado de forma voluptuosa, ele a molestou por forçá-la a algo que ela não queria, que não estava preparada!

Seu desespero foi bruscamente interrompido com o aparecimento de Gina diante de si. A menina mantinha um sorriso no rosto, mas o seu tom de voz denunciava a sua preocupação...

—O que aconteceu, Harry? Esse nervosismo não é por causa de quadribol. – Não era uma pergunta, era uma afirmação.

Harry ainda fitou por instantes a amiga ruivinha sem pronunciar qualquer palavra. Cogitava a possibilidade de contar-lhe o que havia acontecido pela manhã entre ele e Hermione. E ele realmente precisava de um ombro amigo nesta hora. Precisava de conselhos. Precisava até mesmo de alguém para xingá-lo, pois ele mesmo já não agüentava mais fazer isso por si. E Gina era uma opção muito mais sensata que seu irmão Rony, pois, com certeza, o amigo não lhe pouparia uma surra.

Precisava muito disso, mas não havia mais tempo. Já era a hora de ir para a quadra da escola. Queria desistir do jogo e arrastar Gina para um canto para poder lhe desabafar e era o que faria não fosse por Rony e alguns dos outros jogadores aparecerem naquele momento e lhe arrastarem como a uma turba de carnaval para fora do Salão Comunal da Grifinória. Antes, ainda, tentou apelar para Gina, para, ao menos, deixá-la sobreavisada.

—Mione! É sobre ela! Preciso falar com você!

Por sorte, todos os outros alunos que estavam com Harry o arrastando para fora do Salão estavam entretidos com suas brincadeiras que não perceberam uma palavra sequer de Harry. Mas Gina ouviu claramente, ao menos entendeu claramente o porque da preocupação dele. Ela já desconfiava de algo envolvendo Hermione, afinal, a garota estava desaparecida novamente, nem sequer veio para o café e o almoço.

Gina soltou um suspiro cansado, recuperando novo fôlego e seguindo o restante de alunos em vestes vermelhas que iam todos para o jogo de Quadribol. A ruivinha apenas desejava que Harry esquecesse seja lá o que tenha acontecido e consiga se concentrar no jogo.

No escritório sisudo em tons escuros e neutros, Nicolai, algemado, estava sentado em frente a grande mesa de madeira negra de Bennington. O Secretário de Segurança a sua frente, com as mãos entrelaçadas sobre a mesa, olhava para o garoto quase de forma inquisitiva, mantendo seu ar sério e intocado. Nico, sentindo-se subjugado desde que esteve pela primeira vez diante dos agentes do Ministério, o encarava mordazmente, mas com a cabeça levemente abaixada, o corpo levemente curvado para frente com se carregasse um grande peso sobre os ombros. Ele continua a sentir-se miserável com tudo aquilo e todos dentro daquele lugar lhe soavam antipáticos e arrogantes demais, incluindo o tal Secretário.

—...já lhe foi explicado os seus direitos e o porque de estar aqui, Sr Donskoi. Mas creio que ficará satisfeito em saber que a sua iniciativa de apresentar-se ao Ministério contará pontos a seu favor.

Nicolai sorri sarcasticamente, levantando seus punhos algemados, que repousavam em seu colo, a altura de seus olhos.

—Pontos a favor, é? Que maldita bruxaria é dessa algema que faz me sentir a pessoa mais miserável do mundo? Se for esse o tratamento que é dado aos que colaboram, não gostaria nunca de ser caçado!

—Esse é mais um motivo para ter certeza que tomou a decisão certa, Sr Donskoi. É um réu, logo é culpado até que se prove o contrário.

—Ah, claro, isso é óbvio! Sou culpado até que se prove o contrário... sim, é justo... então eu lhe digo, caro Sr Bennington: eu usarei o meu direito de permanecer calado até o momento do meu julgamento, na presença do meu defensor.

—És muito desconfiado, Sr Donskoi. Apenas ordenei que o trouxesse até aqui para termos uma conversa amistosa.. não estou aqui para investigá-lo.

—E eu acredito em Santa Claus... mas tudo o que eu disser pode e será usado contra mim no tribunal. Eu vi muitos filmes policiais durantes as férias da minha dona! Trouxas ou bruxas, as pessoas funcionam iguais.

Nicolai terminava a frase alargando ainda mais seu sorriso de escárnio. Bennington ficou desconfortável e ajeitou-se na sua cadeira estofada, encostando-se e encarando o garoto com um ar ainda mais sério para não deixar transparecer o seu embaraço pelo desconhecimento a respeito do que Nicolai dizia, que certamente era referente ao mundo trouxa do qual ele não tinha quase nenhum entendimento. Acha por bem acabar logo com aquela conversa e mandá-lo de volta a sua cela, pois tinha a impressão que o rapaz estava tentando mudar o rumo da conversa, tentando manipulá-lo apenas por diversão.

—O senhor tornou-se eloqüente, Sr Donskoi.. pelo que me lembro, o senhor era muito mais reservado e circunspeto. Esses vinte anos lhe fizeram uma grande diferença.

—Não, os últimos quatro anos que fizeram... será que agora posso retornar para a minha cela? E já que estou tendo um tratamento especial, o senhor poderia me arranjar mais alguns livros e revistas?

Bennington conteve-se para não achar graça do rapaz, que se mostrava ser mesmo muito cínico. Mas Dumbledore estava certo em um ponto: há algo de bom nele que o faça merecer a sua liberdade. Assim como prometeu ao seu mestre, o Prof Dumbledore, iria usar de toda a sua influência para ajudar na absolvição de Nicolai Donskoi.

::::

No estádio de Hogwarts, uma maré verde estava em polvorosa nas arquibancadas. Gritos e agitação ensurdeciam a todos que ali estavam. Os alunos desciam correndo para o campo como uma torrente nervosa. Apesar de o jogo não valer praticamente nada, os Sonserinos comemoravam como fosse a uma final.

Por um descuido de Harry, que ainda jogava como apanhador para a Grifinória, Draco, que também continuava a ser o apanhador da Sonserina, apanha o Pomo de Ouro, encerrando a primeira partida do ano em um pouco a mais de vinte minutos de jogo.

Extremamente furioso com tudo, Harry retira-se rapidamente do estádio, arrastando consigo sua vassoura, ignorando os apelos e reclamações dos colegas e pouco se importando com as provocações dos alunos da Sonserina. Sua cabeça estava tão cheia que parecia que ia explodir e adoraria extravasar toda sua raiva e frustração no primeiro que o parasse e provocasse pessoalmente... e ele torcia para isso.

Sabia que Draco não lhe pouparia deboches se o visse arrasado, então fez questão de jogar sua armadilha. Deixou bem claro ao seu inimigo a sua amargura e só aguardava que ele viesse atrás de si para a sua mais que óbvia zombaria gratuita. Mas Harry não estaria só nessa. Rony e sua irmã Gina, Seamus e Dean o acompanharam para fora do estádio, uns querendo saber o que aconteceu para que ele ficasse tão alienado durante o jogo, Rony, que ainda jogava como goleiro, irritado pela indiferença com que Harry se comportava e Gina ia na esperança de encontrar um momento a sós com o garoto para saber exatamente o que se passou entre ele e Hermione para que essa apatia o abatesse.

Fora do estádio, uma outra maré enchia os jardins de Hogwarts, mas desta vez uma maré vermelha que ia desanimada em direção ao castelo como fosse uma comitiva funerária. Cabisbaixos, os Grifinórios engoliam a humilhação de perder o primeiro jogo do ano para a Sonserina. Alguns solidários alunos da Corvinal e Lufa-Lufa ainda acompanhavam o cortejo melancólico. Alguns irritados e esbravejando, mas a maioria estava apática.

Harry seguia seu caminho acompanhando os movimentos de seus pés. Rony, já muito impaciente com a atitude desdenhosa do amigo, segura-o pelo braço rispidamente, fazendo com que Harry o encare com a pior de suas expressões.

—Porra! Qual é Rony! O que você quer, afinal?!

—Eu é que pergunto! O que aconteceu com você, droga?! Você entregou o Pomo de Ouro de bandeja para a Sonserina!

—Realmente... e faço questão de agradecer ao Potterzinho pessoalmente...

Com sua voz monótona e arrastada e um toque ácido de sarcasmo, Draco descia a frente de todos montado em sua vassoura. Outros três colegas de equipe desceram junto de Draco, todos portando sorrisos e expressões de escárnio no rosto. Harry olhou por sobre o ombro o louro arrogante e por muito pouco não deixou que o sorriso formasse em seu rosto. A tola doninha caia na armadilha...

—CAI FORA, MALFOY! Vá comemorar com as sua víboras o joguinho que vocês ganharam! Será o único este ano, tenha certeza!!

—Cai fora você, Weasley pobretão! A conversa é entre eu e o Potterzinho aqui!

Rony partira pra cima de Draco com punhos fechados, mas foi imediatamente impedido por Seamus, Dean e Neville, que o seguravam com certa dificuldade, afinal o ruivo não era nem pequeno e nem fraco. Draco soltou uma calorosa risada que só enfureceu ainda mais Rony, mas seus amigos o mantinham preso a qualquer custo. Harry apenas seguiu a cartilha...

—Não ligue para ele, Ron.. sabe muito bem que ele não merece sequer nossa raiva... – Harry falava com um sorriso estranho, olhando de forma também estranha para Draco.

—Bravo, São Potter! É assim mesmo que se controla seus bichinhos de estimação...

Draco se aproximava perigosamente de Harry, como se quisesse falar-lhe ao ouvido. O garoto permanecia estático e, por ser um pouco mais alto que o louro, apenas o fitava de queixo erguido, esperando pela hora exata de extravasar toda a frustração que sentia.

Com ar blasé e um sorriso torto nos lábios, Draco se aproxima o suficiente de Harry a ponto deste sentir o cheio oleoso de amêndoas que vinha dos cabelos platinados do garoto.

—...a boa educação não me permitiria deixar de agradecer por ter me entregue o Pomo de Ouro. Estava sonhador demais, Potter... será que foi alguma briguinha com a namoradinha sangue-ruim?

Nem por essa Harry esperava. Estava preparado para descontar toda a sua mágoa no seu inimigo, mas não esperava que este lhe desse um motivo tão bom que aumentasse ainda mais o seu ódio. Seu punho direito fechou-se com tal raiva e tal força que Draco sequer teve tempo de perceber o que acontecera até que estivesse no chão com o nariz ensangüentado, trêmulo de tontura.

Tantos os amigos de Harry quanto os outros alunos da Sonserina ficaram pasmados e estupefatos com a atitude repentina e violenta do garoto. Harry subiu seu punho cerrado e acertou Draco com tanta força que o garoto ainda girou antes de atingir o chão. Harry estava possesso!

—MALDITO!! NUNCA MAIS NA SUA VIDA VOCÊ VAI XINGAR HERMIONE! NUNCA MAIS!!!

Harry suspendeu Draco pelo colarinho, jogando-o com força contra o muro do estádio, cravando com raiva seus dedos no ombro e pescoço do louro que não tinha qualquer reação, como que se o ódio que Harry emanava houvesse paralisado não apenas ele, mas todos os outros alunos que observavam a briga boquiabertos de incredulidade e surpresa.

—TUDO ISSO COMEÇOU POR SUA CULPA! Eu tenho certeza que foi você quem mandou aquele comensal violentar Hermione!! Eu juro que você ainda vai pagar muito caro por isso!

Nem mesmo Rony, com a fama de estressado que tinha, estava concordando com aquela atitude de Harry e antes que algo pior acontecesse, tentou impedir o amigo, puxando-o pelo ombro.

Harry empurrou Rony com raiva e olhou-o de uma forma que este estremeceu intimamente. Os olhos verdes de Harry pareciam ter se tornados vermelhos como sangue.

—NÃO SE META, RON! Isto é entre ele e eu! Não ouviu Draco dizer aquela hora?!!

Rony afastou-se de Harry, olhando-o estupefato. Nenhum dos outros alunos se atrevia a separar a briga, nem mesmo os amigos de Draco se manifestavam em sua defesa. A roda de alunos tornava-se maior, pois outros que ainda saiam do estádio pararam para ver o show.

Harry empurrou novamente Draco contra a parede, segurando-o dolorosamente pelos ombros. Os olhos cinzas do garoto tremiam na órbita, enquanto seu nariz ainda sangrava, encharcando seu uniforme de jogo.

—Eu tô cansado de você, seu merda! Se você não tivesse armado naquele maldito sábado, Hermione estaria bem agora! E aquele maldito gato SERIA APENAS UM MALDITO GATO!!
Com toda a sua força, joga Draco ao chão novamente, que esfolaria todo o braço não fosse pelos protetores que ainda trajava. Harry o olhava muito satisfeito, de uma forma sádica.

—Há muito tempo eu queria fazer isso!

Harry chuta com força no ventre de Draco, que cospe uma grande quantidade de saliva misturada com sangue enquanto encolhe-se pela dor, temeroso por mais um golpe.

Dando-se por satisfeito, Harry pega sua vassoura que ficou caída no chão aos pés de seus colegas da Grifinória, todos ainda estupefatos com o que acabavam de presenciar, assim como todos os outros alunos que ali estavam. Olhou demoradamente para o rosto de cada um, como se os intimidasse silenciosamente, até que voltou-se para os Sonserinos, que pareciam encolhidos, não se atrevendo a sequer protestar contra o que viram acontecer a Draco.

Os Sonserinos estavam na direção que Harry faria rumo ao castelo e aproveita para deixar-lhes um recado, na passagem, olhando desafiadoramente para cada um deles:

—Não preciso dizer que perto de Voldemort vocês são peixinhos de aquário, certo? E acho que Draco deveria maneirar na sua comemoração para seu próprio bem, não é?

Todos ali, principalmente os alunos da Sonserina para que tais palavras foram proferidas, encolheram-se diante da menção do nome de Voldemort, e apenas a única garota sonserina do grupo teve a coragem de responder a Harry com um tímido aceno de cabeça, o suficiente para Harry retomar o seu caminho satisfeito, com um sorriso feliz no rosto.

Todos que ali estavam se entreolharam em cumplicidade e voltavam a seus caminhos como se nada de mais tivesse acontecido. Enquanto os colegas de Draco o amparavam, Rony ignorava totalmente os comentários dos amigos, mirando Harry insistentemente com um olhar indigno e preocupado, até ele desaparecer pelo caminho de pedras de acesso ao castelo.

::::

O dia terminara sem mais incidentes. Na Sonserina ainda se comemorava a vitória sobre a Grifinória no primeiro jogo do ano que iniciara o torneio de Quadribol entre as Casas. Enquanto no Salão Comunal da Grifinória muitos alunos comentavam tristes sobre a derrota, outros se entretinham com seus passatempos habituais, mas poucos confidenciavam o que havia acontecido entre Harry e Draco.

Alheia a tudo isso, Hermione tratava de revisar as matérias das aulas passadas solitariamente no dormitório, oculta pela cortina do dossel de sua cama, que a mantinha num confortável silêncio devido ao encantamento que ela pôs semanas atrás.

Ao seu lado estava seu diário, que fora um presente de Natal de sua mãe, portanto era um diário comum, de adornos e figuras formosas de bebês-anjos e florzinhas, mas que Hermione deu-se ao trabalho de enfeitiçá-lo para apenas que ela própria compreendesse o que ali estava escrito. Dentro ela guardava muitas lembrancinhas que correspondiam a determinados dias. Eram bilhetinhos do pai e da mãe, convites e cartõezinhos, ingressos de cinema e shows, folders, papéis de balas e bombons e fotos suas, com a família, de lugares que visitou nas ultimas férias... e de Crookshanks.

Encontrou a única foto que tinha em que estavam apenas ela e Crookshanks, enquanto descansava a mente dos estudos folheando as páginas ilustradas do diário. A fotografia foi feita quase que de surpresa, pegando-os num momento de descontração, como costumavam ser todos os dias das férias. Na foto, uma foto comum de trouxas, portanto inanimada, Hermione ria pela repentina lambida em seu rosto que o gato lhe dera.

A menina pegou a foto presa na página do diário por um minúsculo clip e ajeitou-se no travesseiro encostado à cabeceira da cama. Mesmo com todos os problemas que ela fora envolvida no mundo mágico e a dificuldade de re-adaptação ao mundo trouxa, ela ainda tinha momentos felizes como aquele eternizado naquela fotografia.

Com tantas coisas ruins que aconteceram recentemente, aquilo parecia pertencer à outra vida. Aquela foto parecia ter sido feita há século, quando na verdade ela fora tirada nas suas últimas férias.

Suspirou tristemente. A melancolia e depressão pareciam querer se abater sobre ela. E sentia muita falta daquilo. Sentia saudades de Crookshanks. Há apenas duas semanas atrás ele estava ali mesmo, dormindo enrolado aos pés da cama e agora... ele estava há quilômetros dali, preso, esperando por um julgamento e...

Hermione balançou a cabeça com raiva. Ela estava confundindo novamente as coisas. Crookshanks não existia mais! De fato, jamais existiu. Pegou a foto e a enfiou novamente entre as páginas do diário, fechando-o rudemente e apoiou as mãos, jogando todo o peso de seu corpo sobre elas, como se temesse que as páginas do diário se abrissem e o que estava ali dentro saltasse com vida para fora.

—Pare com isso, Hermione! Você deve tá ficando louca! Tudo isso já acabou! Tudo... – a menina murmurava tristemente para si mesma, enquanto ainda mantinha as mãos, uma sobre a outra, sobre a capa plastificada do diário.

E há quilômetro dali, uma outra pessoa sofria da mesma melancolia e da mesma saudade, que fazia os dias parecerem séculos e que tudo havia se passado há uma eternidade...

Na cela escura, iluminada fracamente pela luz opaca das barras que trancavam a saída, Nicolai mantinha-se ainda acordado, olhando as sombras tênues que se formavam no teto branco, deitado na cama com os braços cruzados atrás da cabeça.

Respirava lentamente, mantendo a todo o custo a sua calma, para que não morresse de tédio e de aflição antes de seu julgamento.

[[—Só mais um dia, apenas isso... um dia de cada vez, uma hora após a outra...]]

Virou-se de lado em direção às grades, ainda mantendo o braço direito sob a cabeça. A fraca luminosidade das grades jogava uma coloração bucólica em seu rosto pálido, parcialmente coberto pelos fios finos e claros do cabelo.

O dia de seu julgamento estava próximo. E sua vida sofreria uma nova reviravolta. Ou seria trancafiado novamente ou teria uma vida novinha em folha.

Era preferível morrer a ser levado para Azkaban. Então só havia uma única saída: ser absolvido a todo custo, nem que para isso fosse a custo de mentiras.

Instintivamente, segurou as penas carmesins e de filetes dourados de seu cordão, fechando-as em seu punho. O olhar perdido entre a luz fraca e as sombras que estavam formadas no chão.

[[—Só mais um dia e logo será segunda-feira... e voltarei para vivermos juntos.. eu juro....]]

Fim do Capítulo XXVII – continua...
By Snake Eye's – 2004

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Animago Mortis - Capítulo XXVI – Um Ato Vale Mais Que Mil Palavras?

Animago Mortis
Capítulo XXVI – Um Ato Vale Mais Que Mil Palavras?
Hermione caminhava pelos corredores vazios do castelo, rumo aos jardins de Hogwarts. Abraçado contra seu peito ia um cachepô de bronze com a miniatura de uma macieira de tronco e galhos artisticamente retorcidos e pequenas bolinhas verdes e vermelhas dos frutos que carregava entre suas minúsculas folhas. A menina estava animada. Seu semblante estava livre da carranca de preocupação que estava lhe sendo tão comum e seus lábios estavam prontos a sorrir se fosse preciso.

Em sua mente, Hermione ainda ruminava partes da longa conversa que teve com McGonagall, conversa esta que a deixou com o coração mais leve... a situação não era assim tão ruim quanto podia parecer. Gostaria de não se importar com isso, mas estaria mentindo para si mesma, estaria tentando se enganar de que não se importava com ele... de que, de uma pequena forma, ele lhe era importante...

O○◦○O

"—...isso é uma acusação que o Ministério está fazendo. E é o Ministério que se encarregará de provar tal acusação. Nós nada sabemos sobre isso. Não há fatos que comprovem que Donskoi é mesmo um Comensal, embora ele venha de uma família ligada às Trevas..."

"—Mas, mas.. isso é injusto! Eles estão acusando-o só por causa de sua família?!"

"—É dito que o melhor é prevenir, e é isso que o Ministério faz hoje, embora muitos de nós condenemos tal atitude por ser segregatória e racial, que pode originar revolta e indignação, além de ser um ato humilhante..."

A garota desviou seu olhar triste do rosto da Professora, fixando-o sobre a xícara em seu colo, não a enxergando de fato. 'Humilhação', isso ecoava em sua mente, era isso que via nos olhos dourados de Donskoi.. os mesmos olhos dourados de Shanks, que tantas vezes lhe transmitiram conforto e carinho.. o mesmo carinho que viu na noite em que se encontraram pela primeira vez. Mas ontem, tudo que viu foi humilhação, desolação... não queria e tentava arduamente tirar isso de seu coração.. mas ela, definitivamente, se importava com ele, lhe queria bem e, mesmo que ele tenha sido verdadeiramente, algum dia, um Comensal da Morte, acreditava que merecesse, ao menos, uma chance, a mesma chance que fora dada a Snape.

"—Crookshanks sempre foi um gatinho muito amoroso, sempre tão bem educado... isso.. isso não poderia ter vindo de alguém com o espírito trevoso... será que poderia?"


Hermione, que falava quase num sussurro, levantou seu olhar triste para a Professora, que a encarava seriamente, mas em seus olhos iam algo terno. Um sorriso se esboçou no rosto de Mcgonagall, que se levantou e foi até à garota, que a olhava com expectativa.

Alcançou o rosto da menina com suas mãos, num ato de carinho maternal, mantendo a atenção de Hermione em si e lhe falava por entre um sorriso leve e sincero.

"—O amor é contagioso, querida. Há almas tão grandiosas que transbordam Luz e que atinge todos aqueles que estão próximos... a Luz corrompe a Treva e esta se transforma. Se hoje há algo de bom naquele rapaz, isso foi obra sua, Hermione..."

O○◦○O
Hermione alcançava o corredor principal que dava acesso ao hall de entrada do castelo. A luz do dia transbordava multicolorida pelos vitrais das longas janelas em arco. Reduziu o ritmo de seus passos, indo em direção onde, há duas noites, havia visto pela última vez Crookshanks... e havia se encontrado pela primeira vez com ele.. com Pavel.

Parou próxima à janela onde esteve com ele, relembrando aqueles breves instantes daquele encontro quase ocasional... ou seria reencontro? Sentia que o conhecia há muito tempo, independente de ele ser, ter sido Crookshanks... ou não? Isso era muito confuso e a todo instante se policiava para não tirar conclusões precipitadas, como aconselhou o Prof Dumbledore.

Mas isso era muito difícil, muito difícil mesmo! Não tirar conclusões. Não pensar no assunto. Não ter expectativas a respeito... mas, o que mais queria, do fundo de seu coração, era que isso jamais tivesse acontecido, queria que tudo tivesse continuado como sempre fora... queria que Crookshanks ainda estivesse ali e fosse meramente um gato, mesmo.

Balançou raivosamente a cabeça em negativa, tentando desmanchar aquelas idéias absurdas. Isso era muito egoísmo e mais uma vez estava pensando apenas em si mesma! Talvez Rony tivesse razão a esse respeito: ela era mesmo uma grande egoísta!

Como não conseguia controlar a fúria de seus pensamentos e de sua mente teimosa que insistia em tirar as malfadadas conclusões precipitadas, o melhor que podia fazer era distrair-se com algo, aproveitar o sábado que ainda estava só começando.

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Harry, já muito aborrecido, levanta-se do gramado onde estava sentado diante do Lago da Lula Gigante sob a proteção de uma imensa figueira centenária. Espanava de si algumas gramas secas e terra que ficaram em sua roupa e já adiantava alguns passos rumo ao castelo quando pára de súbito.

Hermione também parou de sobressalto, não esperava encontrar alguém nessa parte tão isolada do Lago, muito menos pensava em encontrar Harry ali, que parecia ter surgido do nada. Refeita do leve susto, pergunta entre um sorriso de incredulidade... Harry estava se comportando muito estranho ultimamente e talvez devesse mesmo ter uma conversa séria com ele. Mesmo que tenha prometido a si mesma que começaria a seguir seu caminho sozinha e que não perderia mais tempo com seus amigos ingratos, seu lado altruísta sempre falava mais alto em tom de autoridade.

—Harry! Você me assustou! O que faz aqui.. e sozinho? Você está com algum problema, não é?

O garoto apenas riu, depois de também ter recuperado o fôlego perdido com a aparição repentina de Hermione. A atmosfera de aborrecimento que o envolvia se dissipou no mesmo instante e sentiu-se um tolo por deixar que qualquer coisinha o chateie. Demorou, mas ela estava ali, linda, parada há alguns passos de si. E finalmente ambos estavam num lugar neutro, isolado, simplesmente perfeito para resolver de uma vez por todas esse impasse entre ele e Mione.

—Eu não diria o que tenho seja um problema, mas...

A garota se adiantou até a margem do lago, mergulhando o cachepô com o bonsai, enquanto olhava por sobre o ombro para Harry, esperando por uma resposta mais objetiva.

—Como assim? Você tem andado muito esquisito, sabia? Isolado, cheio de meias palavras... tá na cara que isso é algum problema com alguma de suas namoradas.

—Olha só que está falando.. até parece! E o que quer dizer com 'alguma de minhAS namoradAS'? Tá achando que eu sou algum galinha, Mione?

A garota riu do falso tom de indignação de Harry, levantando-se e colocando o seu precioso cachepô entre as raízes sobresselentes da árvore. Pôs-se ereta, as mãos na cintura, encarando divertida o amigo que a olhava com ar preocupado.

—Não quis ofender, Harry... foi só uma pergunta. Agora, me diz, qual o problema: você e Rony estão brigados ou é algo mais sério?

—É algo mais sério...

O tom seco com que Harry a respondeu, deixou Hermione realmente preocupada, fazendo desaparecer toda a áurea de alegria que a acompanhava desde que saíra da sala particular da Profª McGonagall. O garoto deu-lhe às costas, afastando-se dela em alguns passos.

Harry concentrava toda a coragem que tinha para finalmente colocar a limpo essa história, de finalmente poder abrir-se para Hermione. Mas ainda havia algo que o incomodava, talvez a incerteza que ainda sustentava, ou talvez por ser esquisita a idéia de se estar apaixonado pela melhor amiga... ele não poderia estar enganado, poderia? Desde o que aconteceu em Hogsmeade a ela, que ele tem sentido algo diferente em relação à menina... o pior é que ele não sabia traduzir isso com exatidão e havia o medo de estar se enganando...

Mas, e se fosse mesmo um engano? Isso seria desastroso? Não, isso não seria possível, afinal, amar Hermione como mulher não seria nada difícil, muito pelo contrário...

O garoto voltou seu olhar para Hermione que ainda aguardava pacientemente sua resposta. Ele devia estar muito tenso, demonstrando isso em seu semblante, pois a garota ficou ainda mais preocupada.

—Ai, Harry, o que houve de tão grave, garoto? Não vai me dizer que... ai! Você não engravidou alguém, não é?!

Harry quase caiu para trás com a pergunta que Hermione fazia com a expressão mais séria que ele viu até então. Sentiu até um calafrio percorrer sua coluna vertebral com tal suposta possibilidade!

—NÃO! Eu não fiz nada! Nada que me comprometesse, nada de que viesse me arrepender! Pelamordedeus! Eu não engravidei ninguém!

—Ufa! Menos mau! – a garota soltava os braços, aliviando-se da tensão. —Mas algo de grave está acontecendo contigo! Eu o conheço muito bem, Harry... o que há? Você voltou a ter aqueles sonhos novamente? a sua cicatriz tem doído...?

O garoto riu sarcasticamente, que lembrou à Hermione o sorriso desdenhoso de Snape. Se ela o conhecia tão bem assim como dizia, por que ainda não percebeu suas intenções?

—Me conhece bem mesmo, Srta Granger? Até agora você errou todas as suas suposições...

—Oh, perdão Sr Potter, mas devo lembrá-lo que as asseclas da Trelawney são a Parvati e a Lilá, não eu! Se não quer me contar nada, não irei importuná-lo. Eu sei muito bem como isso é desagradável!

—Também não precisa jogar indiretas! O que tá acontecendo não é um problema, mas é algo que precisa ser resolvido.

—Então resolva-o, meu caro... – Hermione se adiantava para pegar seu cachepô e sair dali, para deixar Harry a sós novamente. Ela já tinha problemas demais para suportar e resolver sozinha, não queria ter que agüentar o mau humor de seus amigos.

—O que tenho que resolver é contigo, Mione... – falou no tom mais suave que conseguiu.

A garota estancou no movimento, pondo-se ereta novamente e olhando para Harry com um misto de surpresa e expectativa.

—O quê? Não me lembro de ter algum problema com você, Harry! Poderia ser mais explícito sobre isso de ter o que resolver comigo? – Hermione já demonstrava seus sinais de aborrecimento, xingando-se intimamente por não ter ido direto ao gazebo da colina ao invés de ir até ali, no Lago. A essa altura poderia estar tendo uma conversa mais agradável com Karinska e tentando descobrir mais coisas sobre Donskoi.

—Ser mais explícito? É, acho melhor também, já que não sou bom com palavras...

Harry alcançou Hermione até a figueira, passando seus braços pela garota, prendendo-a entre ele e o tronco da árvore. Hermione olha confusa dos braços de Harry para seu rosto que mantinha um sorriso maroto. A garota estava estática pela surpresa da atitude tão estranha do amigo e não esboçava qualquer reação ou palavra, apenas o olhava com apreensão diretamente em seus olhos verdes-esmeralda.

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Snape estava parado pensativo diante da pequena janela no escritório circular de Dumbledore. Em sua mão esfriava uma xícara ainda cheia com chá preto. O Diretor estava próximo a sua imensa estante-biblioteca, com um livro em mãos sobre Direito Penal, com os novos códigos e Leis do Ministério.

—Isso é muito bom! Pelas próprias regras do Ministério, é proibido por Lei usar a poção Verissitasserun ou o feitiço Veritas no réu.. para isso será necessário mover uma outra ação após o processo original, mas apenas se houver uma nova acusação pelo mesmo crime que o réu foi julgado.

—E mesmo assim não adianta quando é preciso, senão Lucius e McNair não teriam se livrado mais de uma vez da condenação...

—Bem, como disse Bennington, a Lei e suas brechas podem ser interpretadas em favor do réu, mesmo este sendo comprovadamente culpado. Resumindo, a dita "justiça" é isso, meramente interpretações e convencimentos.

—Eu sei que Nicolai não contará os fatos como eles são e essa palhaçada do Ministério é apenas um circo para o povo esquecer do que é realmente sério e necessário ser resolvido, que por acaso aqueles cretinos não fazem, mas...

Snape bebeu do chá esfriado, fazendo uma careta de desgosto. Dumbledore fechava o livro e se dirigia até sua mesa, olhando para o Mestre de Poções por sobre seus óculos de meia-lua, esperando-o completar a sentença.

—Ainda acha que Nicolai fez mal em ter-se entregado ao Ministério, Severus?

—Tenho certeza que sim, Alvo. Depois de vinte anos vivendo como um animal, ele não deve estar apto a raciocinar como deveria. Não devíamos ter permitido isso! Pra começar, devíamos ter feito de tudo para abafar o caso de Hogsmeade.

—Já foi muito conseguirmos ocultar os nomes das vítimas... mas, Severus, não se preocupe mais com isso. Dará tudo certo, eu lhe garanto. E Nicolai fez o certo, acredite. O rapaz quer a vida dele de volta e ele não conseguiria isso vivendo na clandestinidade.

—E eu acredito que sempre há um outro jeito, Alvo...

O Mestre de Poções depositou a xícara com chá pela metade sobre a mesa próxima à lareira, retirando-se do escritório do Diretor. Era visível que estava aborrecido com a situação. Dumbledore fitou-o até vê-lo desaparecer porta afora, balançando a cabeça em negativa, lamentando pela intolerância e incompreensão de Severus. Mas o que ele viu no íntimo de Nicolai o fazia acreditar no rapaz, e acreditar que ele fazia a coisa certa. Ele havia visto nele sua imensa vontade de querer viver novamente, de querer ter uma vida simples e normal...

E agora só resta esperar que ele realmente consiga isso...

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Hermione estava acuada, presa entre a grande figueira e ao corpo de Harry, cujos braços a cercavam. A garota estava começando a ficar nervosa com a situação. Seus olhos serpenteavam pelo rosto do garoto, buscando a compreensão daquele ato através de sua expressão... poderia ser apenas uma brincadeira boba do garoto? Afinal ele estava sorrindo, mas não havia nenhum sinal de malícia ou sarcasmo em seu semblante...

—Harry, que brincadeira é essa agora? Ou é alguma idéia boba de me fazer entender alguma coisa? Se for isso, eu prefiro que você grite como Rony faz...

—Não é brincadeira.. e o que quero que você entenda é isso...

Harry se silenciou com um beijo forçado nos lábios de Hermione, dobrando seus braços e deixando que seu corpo se encostasse ao dela contra a árvore. Temia estar sendo bruto com a garota, mas precisava pôr toda a sua paixão naquele beijo que, tinha certeza, diria muito mais do que conseguiria dizer com suas palavras; palavras estas que já magoaram por demais aquela garota maravilhosa... e ela não merecia isso. Ela merecia ser amada, e isso seria muito fácil.

O garoto abrandou o beijo, mas sem separar seus lábios dos de Hermione. Afastou-a da árvore e a envolveu em seus braços, aconchegando-a contra seu corpo, sentido o calor e perfume floral da menina o envolver por completo. O corpo esbelto e bem torneado da garota parecia lhe ser a metade que faltava, o completando, o excitando. Suas mãos deslizam pelas costas de Hermione, sentindo o calor que emanava através do tecido fino e macio do casaquinho que ela trajava. Suas mãos subiam até encontrar o pescoço nu da menina, liberto de seus cachos que pendiam num coque informal.

Suas mãos envolveram rosto e pescoço de Hermione, enquanto os lábios e língua buscavam uma brecha em sua boca cerrada e tensa, forçando sua invasão, penetrando-a e encontrando o calor e maciez de sua língua, sentido o gosto agridoce de sua saliva, algo como morango e mel...

Não querendo que aquelas sensações e aquele momento tão raro fugisse de si como um sonho bom que foge com o despertar, Harry abraçou-a ainda mais, seu braço forte quase enlaçava por completo toda a cintura fina da menina enquanto sua mão a acariciava pescoço-nuca-cabelos, libertando os cachos perfumados do cárcere em que estavam, fazendo-se de cortina nupcial para aquele beijo tão apaixonado que apenas se findou quando já lhe faltava oxigênio em seus pulmões, afastando seu rosto relutantemente de Hermione, mas ainda mantendo-a aprisionada contra seu corpo, em seus braços.

Ainda sentia o calor que ardia na face de ambos. Arfava com a boca entreaberta no esboço de um sorriso, degustando cada milímetro cúbico do tão precioso oxigênio que fora totalmente consumido naquele breve e quase irreal instante.

Mesmo temendo que tudo não passasse de um sonho que desapareceria assim que abrisse seus olhos, abriu-os lentamente, deleitando-se com cada detalhe daquele rosto tão bonito.

Mas sua expressão extasiada desmanchou-se ao encontrar aqueles olhos cor de mel marejados por lágrimas, parecendo suplicar de uma imensa mágoa contida.

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Fim do Capítulo XXVI – continua...
By Snake Eye's – 2004

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Animago Mortis - Capítulo XXV – Malditas Conclusões

Animago Mortis
Capítulo XXV – Malditas Conclusões

Nicolai estava sentado sobre a cômoda, distraído com o jornal que lia enquanto mordiscava uma vistosa maçã. Estava vestido com o uniforme fornecido pelo Ministério aos detentos, que consistia numa camisa de manga curta e calça, ambas largas e num tom de azul pálido quase cinza.

As barras de energia ofuscaram-se até desaparecerem por completo, dando passagem a um agente carrancudo que Nicolai não se deu ao menor trabalho ou curiosidade de desviar os olhos do jornal para ver o porque daquele sujeito estar ali, até que a voz rouca do homem lhe chama-se à atenção, da qual dispensou muito desdenhosamente.

—Visita para você, Donskoi. E pela segunda vez: saia de cima dessa cômoda!

—Sinto muito senhor, mas lugares baixos demais me dão vertigem... – falava em tom de deboche, sem desgrudar os olhos do jornal e tirando um pedaço da maçã.

—Moleque arrogante! Tá se garantido só porque tá com proteçãozinha! – O agente saiu da cela resmungando para si mesmo, deixando a visita entrar e conjurando as barras de energia, trancando a cela novamente.

—Que piada! Não tenho ninguém para vir me visitar, muito menos num sábado de manhã... quem é você e o que quer?

Só ao terminar a frase que Nicolai se dignou a levantar a vista para olhar a visita que esperava pacientemente por sua atenção. O garoto ficou por alguns instantes estático, ou tentando reconhecer de quem se tratava ou não acreditando que tal pessoa ali estava lhe sorrindo timidamente.

—Não acredito... Remus Lupin??

—É.. ainda é esse o meu nome...

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Hermione estava muito centrada tentando transformar uma maçã num bonsai. O fato de aquilo ser uma lembrança concreta de seu fracasso na aula de Transfiguração do dia anterior, não permitia que se tornasse um exercício fácil, que estava começando a estressá-la. A Profª Minerva a observava com uma expressão indefinida no rosto enquanto estava parada no meio da entrada para o seu living, segurando uma bandeja de prata com diversos pães e doces e um bule também em prata.

A professora dá um suspiro de enfado e se adianta até a mesa do centro, depositando ali a bandeja e indo até onde Hermione tentava transformar a fruta numa árvore em miniatura sobre o armário de prataria.

—Criança, deixe isso pra depois e venha comer um pouco... você está aqui desde cedo, sequer tomou café.

—Desculpe, professora, eu irei fazer esse exercício em outro lugar então, não quero incomodar a senhora. – A menina dirigia um olhar triste à Professora.

—Quem aqui disse que você está incomodando, Hermione? Você pode ficar aqui pelo tempo que quiser. Apenas não a quero esquentando a cabeça com bobagens e deixar de se alimentar! Com a barriga vazia a cabeça não funciona direito, sabia?

A menina nada disse e apenas sorriu para a professora, guardando sua varinha no bolso do casaquinho leve e longo de tricô que vestia por cima de um vestido floral de generoso decote no busto, dando a ela um ar de sensualidade ingênua, principalmente pelos cabelos presos displicentemente num coque.

Sentou-se na poltrona de veludo bege em frente à mesinha de centro. A professora sentou-se no lado oposto ao da menina, ficando em frente à ela. Nada disse enquanto enchia as duas xícaras de porcelana com chá preto e leite, servindo uma das xícaras à Hermione.

A professora pegou sua xícara e recostou-se na poltrona, ajeitando-se para ficar mais confortável. Com uma expressão adocicada, Minerva fitava a garota que servia-se com um dos pãezinhos salgados que trouxera para o desjejum de sua aluna.

—Querida, há muito tempo eu havia lhe dito que se estivesse com problemas e quisesse alguém para conversar, eu estaria a sua disposição para o que pudesse lhe ajudar... esse convite ainda está de pé...

Hermione bebericou do chá e pôs a xícara sobre o pires que segurava sobre o colo, dando um sorriso tímido à professora, afastando uma mecha de cabelos que caia em seu rosto, prendendo-a atrás da orelha.

—Eu sei, professora, e nem imagina o quanto eu agradeço por isso, mas pra mim, só de poder estar aqui, já me alivia muito o peito... a senhora pode parecer austera, mas tem a serenidade de muito poucos...

—Oh, mas eu não pareço austera, eu sou! – Brincava a professora a fim de descontrair o ambiente. Algo perturbava Hermione e precisa deixá-la o mais a vontade possível, para que pudesse relaxar e contar o que estava acontecendo.

—Sim, é, é sim... – Hermione falava entre risos. —...bem, é uma coisa meio chata que eu queria perguntar e que está me incomodando desde ontem... – a menina voltava a ficar séria, olhando a xícara que contornava a borda com o dedo indicador.

—Se é uma dúvida que lhe incomoda, vamos acabar com ela, então. O que quer perguntar, querida?

Hermione voltou a encarar a velha professora. Não havia mais o sorriso infantil no rosto e seus olhos demonstravam algo como súplica.

—É sobre o rapaz Donskoi... por que a senhora e o Prof Dumbledore me esconderam que ele é um Comensal da Morte?

A professora recostou-se ainda mais na poltrona, depositando a xícara sobre o pires que segurava na mão esquerda. A tão típica expressão de austeridade estava de volta a seu rosto e seu olhar fitava Hermione de forma avaliativa, decidindo qual a melhor verdade a ser contada à menina. Mas algo era certo: não poderia preocupá-la ainda mais. Não queria fazê-la sofrer mais que já estava sofrendo com toda essa história. Talvez o melhor fosse sustentar a verdade que Dumbledore criou e, se for a vontade de Merlim, futuramente ela poderia vir a saber de todos os fatos reais pela boca do próprio animago.

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—Eu não acredito que Hermione fez isso de novo!

Reclamava Harry, recostando sua cabeça no tronco da figueira que ficava às margens do Lago, onde estava sentado na esperança de que a garota aparecesse por ali a qualquer momento, depois de tê-la procurado novamente pelos lugares mais óbvios da Escola.

—Está fazendo o que aí escondido sozinho, Harry?

—Curtindo uma enxaqueca... – o que, de fato, era verdade. O garoto permanecia com a cabeça recostada na árvore, com os olhos cerrados para tentar evitar que sua enxaqueca piorasse com a incidência da luz forte que era refletida nas águas da Lagoa.

Gina sentava-se na grama, ao lado de Harry. Cruzava os braços sob as pernas para dar apoio ao corpo no mesmo momento que segurava a sua saia. A menina ruivinha olhava para o garoto com um misto de curiosidade e pena.

—Ela sequer apareceu para o café no Salão Principal, né? Ela deve estar mesmo muito magoada...

Harry abriu os olhos novamente para olhar Gina, mas em sua mente ecoava aquelas palavras: "Ela deve estar mesmo muito magoada..." mágoa... mágoa... mágoa..... foi isso que viu no semblante de Hermione naquela hora em que Rony discutia com ela no hall de acesso às escadas... mágoa e decepção.... principalmente quando Rony falou aquelas demências que ele próprio havia dito sobre a amiga, numa infeliz ocasião há muito tempo.

—Isso é minha culpa... falei o que não devia, a deixei de lado por muito tempo, nunca dei o apoio que ela precisava...

—Você e essa mania de bode expiatório... há uma centena de razão para a Mione estar como está.. não é culpa sua Harry... não toda, pelo menos... – a ruivinha finalizava num sussurro, virando seu rosto para o outro lado, olhando disfarçadamente a paisagem.

—É, talvez eu tenha isso mesmo, complexo de bode expiatório... um bode expiatório prepotente ainda por cima! – Harry recostava novamente a cabeça na figueira e voltava a fechar os olhos, tentado ficar o mais calmo possível para ver se a dor ia embora.

Gina vira-se novamente para Harry, com uma expressão de travessura no rosto sardento, perguntando com um sorriso maroto nos lábios.

—Fiquei sabendo que você tá apaixonado pela Mione... é verdade?

Harry engasga-se com o ar, que o faz tossir e quase deixa os óculos caírem, que ajeita nervosamente no rosto, olhando assustado para a garota que ainda lhe sorria marotamente. O menino joga a cabeça para trás, levando as mãos à testa, em desespero..

—AI-MEU-DEUS!

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Nicolai saltava da cômoda onde estava sentado, andando até Lupin que estava parado fitando-o com expressão divertida, ao contrario de Nicolai, que o olhava com uma crescente desconfiança.

—O que faz aqui? Por acaso você faz parte da promotoria que irá me acusar?

Lupin solta uma risada, deixando Nicolai ainda com mais raiva. Ele poderia estar totalmente desprovido de magia dentro daquela cela, mas ainda tinha sua força física e ainda sabia como lutar, mesmo que tivesse que fazer isso contra um lobisomem.

—Só se for piada, rapaz! O Ministério sequer permite que eu tenha um emprego digno, quanto mais me aceitar para ser qualquer coisa num tribunal. Venho em paz, Sr Donskoi... ou seria melhor dizer 'velho amigo Crookshanks'?

Remus Lupin ainda permanecia com seu sorriso maroto no rosto, passando por Nicolai e puxando uma banqueta que estava embaixo da pequena mesa retangular, colocando-a quase em frente à cama e convidando o garoto a sentar-se também.

—Mesmo após ter lido no Profeta Diário sobre o 'sábado trágico' - que confesso que não liguei o fato às pessoas envolvidas - mesmo ter ouvido isso da boca do próprio Dumbledore.. eu ainda não conseguia acreditar, precisava ver com meus próprios olhos...

—Ah, sim, agora virei atração de circo e logo todos meus antigos conhecidos aparecerão aqui dando uma de São Thomé! Se já viu, por favor, retire-se daqui. Não se deve desperdiçar um sábado dentro de uma cela de prisão que fica no subsolo!

—Ô, calma Donskoi, já disse que vim em paz. Por que toda essa hostilidade? Será que eu lhe neguei algum pedaço de peixe ou pisei sem querer na sua cauda? Se foi isso, peço-lhe, humildemente, desculpas!

Nicolai não pode se conter, soltando uma risada meio abafada e sentando-se na cama, apoiando o cotovelo na perna e enterrando seus dedos nos cabelos, dando-se finalmente por vencido pela presença espirituosa de Remus Lupin.

—Eu quem peço desculpas... estou de péssimo humor e a última coisa que quero é ver um cara bonzinho na frente que eu não tenha uma boa justificativa para espancar! – Falava num tom meio cansado, meio de brincadeira.

—Que bom pra mim que você me acha um cara bonzinho... Bem, voltando ao porque da minha visita, achei por bem vir agradecer-lhe por ter nos ajudado a caçar aquele maldito rato e por ter tentado defender até com a própria vida aquele cachorro cabeça-dura... mesmo que o resultado seja isso hoje, tudo em vão, tudo ter dado tão errado...

Lupin terminava a frase em voz baixa, mirando o chão a seus pés, deixando transparecer toda a tristeza que denunciava o seu cansaço físico e espiritual, mostrando as marcas precoces do tempo em seu rosto, cada vez mais acentuadas. A melancolia do jovem-velho homem acabou de contaminar a Nicolai, que por ora havia esquecido da própria situação, mas fazendo-o se lembrar de todas as coisas péssimas que vinham acontecendo nos últimos anos e fazendo-o enxergar novamente o presságio de um futuro ainda pior caso não conseguissem destruir de vez Voldemort.

O garoto levantou-se sacudindo a cabeça na tola tentativa de espantar aqueles pensamentos. Não era uma questão de se tornar otimista de uma hora para outra, mas era uma questão de manter um pouco ainda de sanidade mental, senão ele seria um banquete e tanto praquelas criaturas horrendas que eram os Dementadores, assim que ele fosse mandado para apodrecer em Askaban.

—A função de um gato é caçar ratos, pelo menos é assim que os humanos pensam... mas aquele rato desgraçado me devia uma... não ajudei aquele cão babaca e o lobo-bobo por filantropia a nenhum de vocês, menos ainda para vingar aquele veado cretino! Foi por mim mesmo, e achei que juntando as forças pelo mesmo objetivo, poderíamos aplicar-lhe um castigo verdadeiramente merecido... grande burrice da minha parte, eu diria. Se eu não tivesse feito aquele maldito pacto, Rabicho estaria morto e aquele monstro não teria ressurgido!

—Infelizmente não posso discordar de você, exceto talvez pelo 'lobo-bobo'... – Lupin dá um breve sorriso que logo se desmancha. —Fomos, sim, muito burros em ter contado com o bom senso e a honra daquele verme, se ele já provou que não possuía nada disso. Isso foi um erro terrível e irreparável que está custando muitas vidas!

Lupin levanta-se da banqueta e põe-se de pé ao lado de Nicolai, que mantinha-se parado com os braços cruzados sobre o peito. Nesse momento o garoto pode sentir a áurea da besta que habita o interior daquele homem de aspecto tão calmo e bondoso.

—O Professor se reuniu conosco na noite de ontem... falou de você... ele está muito otimista a seu respeito, ele simpatizou com você a ponto de confiar cegamente, assim como ele faz com o Seboso... mas NÓS não somos tão otimistas assim, e NÃO confiamos em você, Donskoi... aquele gato viu muita coisa.. soube de muita coisa... nós não deixaremos Crookshanks em paz enquanto não tivermos provas contundentes de qual lado desse inferno ele andará!

Dito isso, Remus aproximou-se das grades e chamou pelo Agente-carcereiro, olhando para Nicolai por sobre os ombros.

—Boa Sorte, Nico! Espero que possamos desempatar aquele duelo que travamos no clube de Hogwarts há vinte e dois anos atrás!

Nicolai nada disse, apenas ficou observando Remus Lupin sair da cela e logo desaparecer pelo corredor afora. Estava a sós novamente. Respirou profundamente, cerrando os olhos, sentindo-se ainda mais exausto de quando chegou ali no fim da tarde de ontem... ainda tinha esse empecilho que não havia cogitado...

Crookshanks teve muito acesso dentro da Ordem da Fênix através de Hermione, que sempre o levava todas as vezes em que era convocada. Ele conhece tudo sobre a Ordem, seu planos, seus espiões, seus militantes... e são exatamente esses militantes que agora são seu mais novo problema, que poderia virar uma grande encrenca... seria pedir demais algo que nem mesmo ele faria: confiar num potencial inimigo.

Jogou-se sentado sobre a cama, apoiando os cotovelos sobre as pernas e escondendo o rosto nas mãos, deslizando-as até se enterrarem em seus cabelos, permanecendo nessa posição por longos instantes.

[[—Depois de tudo que já passei, hoje o que menos me importa é essa guerra... tudo o que quero é retomar minha vida, começar de novo!]]

Falava para si mesmo num murmúrio inaudível. Jogou-se deitado na cama, com as mãos ainda na cabeça. Maldita visita! Era tudo o que precisava: mais uma coisa para se preocupar caso saísse livre dali. Ele queria sim, paz, cuidar de sua vida, esquecer definitivamente o mundo bruxo caso necessário fosse, mas, pelo visto, não permitiriam isso, e muito pior ainda poderia vir... quando Voldemort descobrisse que ele venceu sua maldição... e se ele, por acaso, descobrisse sobre a Ordem da Fênix e viesse a juntar as peças e chegasse até ele...

[[—Que inferno! Muito obrigado pela visita, Remus Lupin! Eu realmente não precisava disso! E ele ainda disse que vinha em paz... HÁ!]]

Fim do Capítulo XXV – continua...
By Snake Eye's – 2004

N/A: Nessa fic eu estou ignorando o fato dos Dementadores terem abandonado Azkaban no 5º Livro. Como não dá para prever o que virá nos próximos livros em relação a essas criaturas, aqui a gente usa aquilo que foi o convencional até o 4º livro metade do 5º – que, no caso, ganha na maioria. Ademais, Azkaban sem os Dementadores não deve ser a mesma coisa... que coisa mais chata!

Bode-expiatório - Pessoa sobre quem se faz recair as culpas alheias ou a quem são imputados todos os reveses.
Faz parte da tradição anual dos judeus (ou seriam os mulçumanos???), durante uma cerimônia, pegar um bode e todos os presentes, simbolicamente, despejarem nele todas as suas culpas e em seguida largam o pobre animal no meio do deserto. E é isso que diz a expressão: quando um ser inocente paga pelos erros dos verdadeiros culpados. Coitado do bode!

Santa Tranqueira Magazine