terça-feira, 26 de março de 2013

Animago Mortis - Capítulo XXIV – Um Dia Perdido

Animago Mortis
Capítulo XXIV – Um Dia Perdido

Dumbledore estava num grande gabinete de decoração sisuda, com brasões, diplomas e condecorações ornamentando as paredes. Diante de si, uma mesa em madeira negra, um homem igualmente sisudo de cavanhaque, em um terno negro muito bem alinhado, falava-lhe em tom amável, apesar da expressão de poucos amigos.

—... e levando-se em conta que o rapaz é filho de ex-comensais da morte, mortos por nossos aurores na primeira guerra contra Aquele-que-não-deve-ser-nomeado, o tribunal também o julgará por esse crime, o de ser um Comensal da Morte..

—Meu caro Secretário de Segurança... o senhor está me dizendo que irão condenar o rapaz apenas por suposições? O Ministério não tem nenhuma prova de que Nicolai Donskoi é realmente um Comensal?

—É o que iremos averiguar e provar, Sr Dumbledore. O senhor sabe que isso é algo que eles não podem esconder mais de nós, afinal eles carregam a marca de seu crime em seu próprio corpo que pode ser facilmente revelada com um feitiço.

—Mas vocês estão se baseando em suposições, apenas porque os pais do garoto eram Comensais? Isso não significa que ele também o seja. É injusto que ele pague pelos erros cometido por seus pais.

—O que queremos fazer é justiça, Sr Dumbledore. O Sr Donskoi não pagará por nenhum crime cometido por seus pais, mas como forma de precaução, ele será acusado, sim, de ser um Comensal da Morte, até que se prove o contrário. É o novo sistema do Ministério da Magia que reza pela cartilha da prevenção... isso tem dado bons resultados.

Dumbledore levanta-se da cadeira acolchoada de couro negro, já se despedindo do Secretário, com seu sorriso típico no rosto.

—Eu até compreendo as novas medidas que vêm sendo adotadas pelo Ministério, embora eu não concorde com muitas delas. Mas é muito estranho acusar um pobre rapaz que esteve sob domínio de uma maldição por vinte anos apenas por suposições, quando muitos Comensais autênticos são postos em liberdade, mesmo quando já fora provado mais de uma vez sua ligação com Voldemort e crimes bárbaros.

—Concordo no aspecto geral com o senhor, Professor. Poder e dinheiro influenciam muito, pois podem contratar os melhores advogados criminais que sabem como interpretar as leis e suas brechas em favor do réu.

Dumbledore estende a mão para despedir-se do Secretário, que já havia também levantado de sua cadeira e posto-se em frente ao Diretor, apertando-lhe a mão oferecida, aproximando-se um pouco mais do velho mago, falando-lhe quase num sussurro.

—E cá entre nós, Professor.. espero que o senhor tenha êxito na defesa de seu aluno. Sei que o senhor não defenderia quem não merecesse.

—Fico realmente feliz em ouvir isso, Bennington.. fico feliz em saber que ainda mantém o mesmo espírito de justiça e honestidade de quando era ainda um aluno de Hogwarts.

—Eu tive um excelente exemplo moral, não é Prof Dumbledore?

Os dois homens apenas sorriram pela cumplicidade. Dumbledore segurava firmemente com as duas mãos a mão de seu ex-aluno enquanto este lhe dava tapinhas no ombro.

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—Pontual, senhorita... mas cheguei a pensar que esqueceria do seu compromisso, afinal, não é comum a senhorita cumprir detenções, não é mesmo?

—Eu não me esqueceria disso nem se quisesse, Prof Snape. – Hermione respondia, desviando seu olhar para qualquer ponto da sala. Era mesmo uma situação extremamente desagradável.

—Vejo que sente-se ousada, Srta Granger... então poderá ter o primeiro dia de sua detenção com algo leve... alguns caldeirões incrustados para limpar sem uso de magia. – Instigava Snape, com um sorriso de escárnio no rosto.

—Como queiras, senhor. – Respondia com visível desdenho, já se aprontando para o serviço e indo em direção aos caldeirões, seguida pelo olhar avaliativo e nada satisfeito do professor.

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Harry andava lentamente e cabisbaixo em direção ao Salão Comunal da Grifinória, totalmente alienado ao que se passava ao seu redor. Juntos iam alguns de seus amigos, como Seamus, Neville, Rony e Dean, que conversavam animadamente entre si.

Gina vinha correndo em direção aos garotos, que mal conseguiu parar a tempo, trombando com Harry que a aparou pelos braços antes que caísse no chão. A menina parecia alegre e apavorada ao mesmo tempo.

—Tá doida, Gina?! Vai salvar alguém da morte, por acaso? – Ralhava em tom autoritário o seu irmão Rony.

Gina ignorou totalmente as palavras e olhar reprovador do irmão e os olhares curiosos dos outros garotos, agarrando Harry pelos braços que ainda a seguravam.

—Harry! Eu a vi! Vi a Mione! Ela está na detenção com Snape a essa hora, mas pude falar com ela! Ela tava um pouco aborrecida pela detenção, mas fora isso, tava tudo legal com ela! Parecia a mesma Mione de sempre.

Harry apenas ficou fitando a amiga ruivinha, sem enxergá-la de fato. Isso o deixava muito aliviado, em saber que Hermione tinha finalmente saído de seu esconderijo em que ficou durante todo o dia. Ela sequer havia aparecido para o almoço ou mesmo o jantar. Estava mais aliviado em saber que ela estava bem, estava "como sempre". No mínimo, uma preocupação a menos, mas havia muitas outras coisas que precisavam ser esclarecidas, serem despreocupadas. Ficaria esperando pelo retorno da amiga ao Salão Comunal a noite inteira se preciso fosse. Precisava, pelo menos, constatar por si próprio se Hermione estava mesmo bem, se estava numa condição aceitável.

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Hermione esmerava-se no seu serviço, conseguindo fazer um bom trabalho de limpeza com aqueles caldeirões velhos e sujos. Talvez para um sangue-puro isso fosse mesmo um serviço terrível, uma verdadeira tortura, mas para ela, que já estava mais que acostumada a ajudar na lavagem da louça e outros serviços domésticos quando ia para casa nas férias, aquilo até que estava servindo como uma terapia ocupacional, fazendo-a se esquecer completamente dos assuntos chatos que rondavam a sua vida nos últimos tempos.

Enquanto raspava o fundo de um pequeno caldeirão com uma espátula de metal, um leve sorriso se formou em seu rosto, deixando-a com uma expressão até mesmo feliz. Snape, que a estava avaliando desde que ela chegou, estranhou a alegria da garota.

—O que há de tão divertido com esse caldeirão, Srta Granger? Não acha que esse é o último, não é? ainda restam mais dois para fazer o serviço. – Snape falava num tom zombeteiro, desviando sua atenção dos pergaminhos que rabiscava sobre sua escrivaninha.

—Hã? Ah, claro que não professor, eu sei disso... é que.. me lembrei da primeira vez que fiz brigadeiro de panela... foi um desastre e eu passei umas duas horas tentando limpar a panela. – Hermione respondia em tom divertido, como se não se desse conta com quem falava, sem desviar sua atenção do caldeirão que continuava a raspar.

—Brigadeiro de panela?

—É, sim! É um doce trouxa, brasileiro, feito de chocolate e leite condensado, e muito bom... não quando sou eu quem faz, lógico... – A voz de Hermione desapareceu quase num sussurro no fim da frase, dizendo aquilo apenas para si mesma, voltando a raspar vigorosamente o caldeirão, ainda com um arzinho divertido.

Snape levanta-se de sua mesa e vai até onde a garota está, ainda a avaliando com o olhar, tentando descobrir algo importante nela, algo que justificasse aquela tolice cometida por Nicolai, a de se entregar ao Ministério quando muito bem poderia ter fugido, desaparecido...

"—Aquela garota, Severus, vale a minha vida.. e a do mundo inteiro..."

O Prof de Poções pára em frente à Hermione com os braços cruzados sobre o peito, a olhando de forma desdenhosa. A menina sente-se incomodada com aquilo, não conseguindo ignorar o fato e encarando com aborrecimento o seu professor.

—Estou fazendo algo errado, professor?

Snape ainda permaneceu em silêncio por alguns instantes, incomodando ainda mais Hermione que começava a pensar em montes de bobagens naquela hora. Jamais soube que Snape pudesse ter a fama de pervertido, ele poderia ser tudo de péssimo e mais um pouco, mas, ao menos, isso ela tinha quase certeza de que ele não era... quase. Se ele tentasse qualquer gracinha, ela não hesitaria em estuporá-lo no mesmo instante. A varinha presa às costas no cós da saia, a mão já preparada para puxá-la caso necessário fosse...

—O que há de tão especial.. de tão importante em você... a ponto de colocarem a própria liberdade tão cara em risco por sua causa...?

Snape falava num sussurro que só era perceptível por causa do silêncio sepulcral que dominava aquela sala de aula na masmorra. O Mestre de Poções permanecia estático, braços cruzados sobre o peito, os olhos semi-cerrados e frios olhando para a garota, tentando buscar a resposta no fundo de seu âmago. Hermione o olhava surpresa, também estática, sem saber o que responder ou como agir. Achou por bem fingir que o ignorava e voltar ao seu divertido serviço de limpeza de caldeirões.

Do que, afinal, o Prof Severus Snape falava... ele claramente a desdenhava, a menosprezava, mas isso não era nenhuma novidade, sempre fora assim desde o primeiro dia de aula em Hogwarts, há sete anos. Mas por que agora essa súbita curiosidade em querer saber o que ela tinha de especial? Oras, tinha, sim, muitas qualidades, assim como também tinha muitos defeitos, mas nada que já tivesse interessado a Snape ou que ele viesse considerar como qualidade, por exemplo... parou de raspar o fundo do caldeirão por instantes, pensando que talvez o professor se referisse a Donskoi... seria isso possível?

"—Hermione... Você é muito importante para mim, jamais duvide disso..."

Hermione ergueu a cabeça novamente, a boca entreaberta esperando pelas palavras saírem dali, mas não encontrando mais o professor Snape diante de si, que já havia voltado a sua escrivaninha e rabiscava muito concentradamente o feixe de pergaminhos de alunos que estava em sua mesa. Olhou de esguelha para ele, voltando-se novamente para si, para seus pensamentos.

Seria possível que o animago tenha se entregado ao Ministério por livre arbítrio? E o que ela teria a ver com essa decisão? Ela era importante para ele, foi o que ele havia lhe dito na noite anterior, naquele encontro tão singelo.. tão surreal... por que Snape lhe dissera isso? Agora estava ainda mais confusa do que momentos antes...

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As horas da noite iam avançando e os alunos, aos poucos, iam se recolhendo para os dormitórios. Harry permanecia sentado sobre a poltrona de veludo carmesim que ficava em frente à lareira, lendo um livro para se distrair e passar o tempo... ao menos fingia que lia.

Na mesa próxima à lareira, Rony e outros garotos disputavam partidas de xadrez bruxo, como costumava ser todas as noites. Alguns outros ainda conversavam sobre a primeira partida de Quadribol do ano, que aconteceria amanhã, e seria o clássico Grifinória versus Sonserina.

Vez ou outra alguns garotos mais novos tiravam Harry de seus pensamentos perguntando e comentando algo sobre o jogo, que ele respondia ora por monossílabos, ora fazendo-se de indiferente. Com uma apatia palpável, logo os meninos pararam de tirá-lo de sua leitura. Até que seria legal passar o tempo falando de Quadribol, certamente ele se esqueceria que o mundo é uma droga que conspira contra ele, mas a preocupação com Hermione era muito maior que o desejo de esquecer isso por uns tempos e, ademais, Angelina, a ainda capitã do time da Grifinória, já havia o enchido o suficiente com isso por umas duas horas no final da tarde, com táticas de jogadas para a partida de amanhã, como se esta fosse a decisiva do campeonato das Casas.

Já era quase meia noite e não restavam mais tantos alunos no Salão. Os últimos a se retirarem foram Seamus, Dean e Rony. Seamus subiu direto ao dormitório masculino enquanto Rony e Dean foram falar com Harry que folheava as últimas páginas do livro que lia.

—Harry, o esquisito do dia... – brincava Rony em tom irônico. —Vai ficar por aí mesmo?

—Vou, sim, Rony... ainda não terminei o livro...

—Ah, sim, claro, o livro... você só está aqui lutando contra o sono porque esse livro é mesmo muito interessante.

—É, sim! Muito interessante! Até te empresto depois, se quiser. – Harry respondia no mesmo tom irônico do amigo, olhando-o por sobre os óculos.

—Isso tudo só por causa de Hermione? Pensa bem, cara: ela não tá nem aí pra tua preocupação, tanto que não deu as caras nem nas refeições... ela precisa ser esnobada pra sentir na pele o que é fazer pouco caso dos amigos.

—Nós já fazemos isso há muito tempo, Ron... eu só quero consertar as coisas agora antes que seja tarde demais, valeu?

—Você tá mesmo afim dela, não é? – Dean perguntava de súbito, apoiado no encosto da poltrona onde Harry estava sentado.

Harry sentiu o coração gelar com aquela pergunta. Ele não estava preparado para isso e menos ainda preparado para assumir definitivamente o que ia em seu coração... se é que estava mesmo certo de seus sentimentos em relação à Hermione. Fechou o livro sobre o colo, mantendo as mãos sobre a capa, olhando o nada no chão a sua frente. Rony apenas estava estático, achando um grande absurdo o que Dean acabava de perguntar. Harry respirou fundo, buscando a coragem dentro de si para externar de vez toda aquela pressão, coragem para assumir o que sentia... era esse o primeiro passo para resolver todo o resto.

—É sim, Dean, é isso mesmo... – respondeu em tom cansado.

Rony arregalou os olhos pela surpresa e soltou uma breve risada, incrédulo.

—Não, peraí! Você tá brincando, não é Harry?

Harry, muito seriamente, encara Rony, cujo sorriso se desmancha numa expressão de desagrado, como se tivesse ouvido a coisa mais absurda da face da Terra.

—Não estou brincando, Rony... é isso mesmo que você ouviu... estou afim sim da Mione...

—M-mas, Harry, é a MIONE! Ela é nossa amiga! Ela é a sua MELHOR AMIGA! É como uma irmã! Isso seria o mesmo que estar apaixonado pela própria irmã! Isso é.. isso é muito broxante!

—Hehehe, não vou discutir isso com você, esse negócio de irmão você entende muito melhor do que eu e, Merlim! Falar que a Hermione é broxante é apelação, né?

—Ah! Não me venha com essa! Você entendeu o que eu quis dizer! Tá legal, ela tá cada vez mais bonita, muito diferente do que ela era, mas é como uma irmã... pô! Nós crescemos juntos, sempre estivemos juntos! Se apaixonar pela melhor amiga... putz! Seria como se eu ficasse.. hã, bem, ficasse afim da Gina! Argh! Que horror! – Rony leva as mãos à cabeça, dramaticamente, jogando o pescoço para trás... ele estava mesmo horrorizado!

Nesse momento, a entrada do Salão é aberta dando passagem para três figuras que chamaram a atenção dos garotos que estavam próximos à lareira. Os três alunos que entravam, conversavam de forma animada. Tratava-se de uma menina e um garoto quintanistas que eram os monitores naquele ano e Hermione, que parecia até muito bem disposta para quem passou todo o dia sumida e que ainda acabou de sair de uma detenção com o intragável Prof Snape.

Quando Dean e Rony perceberam que se tratava de Hermione, trataram logo de retirar para deixar que Harry ficasse a sós com a garota.

—Bem, é isso aí! Tomara que dê certo! – Dean dava dois tapinhas na cabeça de Harry, subindo as escadarias logo em seguida.

—Você tá doido, Harry! Vê se não faz burrada! Eeh.. boa sorte, então. – Rony falava num sussurro, dando um tchauzinho para Harry antes de ir pras escadarias, com o esboço de um sorriso pouco convincente no rosto.

Os dois monitores não se ativeram no Salão, cada um rumando para as escadarias de seus dormitórios. Hermione estranhou Harry estando sozinho no lugar e ainda por cima com um livro na mão. Talvez a febre que ele teve pela manhã tenha voltado.

—Você está bem, Harry? – Perguntou titubeante.

—Eu é que te pergunto isso, Hermione... o que deu em você, afinal?

—Oh... – A garota desviou o olhar de Harry, sentindo-se um pouco embaraçada por sua atitude infantil, de ter se escondido o dia inteiro... atitude esta que lhe fez um grande bem, apesar de tudo.

Harry levantou-se da poltrona, colocando o livro sobre a mesa de centro, aproximando-se de Hermione, que voltou a olhá-lo com expectativa.

—Por que você sumiu o dia inteiro, Mione? Nós ficamos muito preocupados com você, sabia? – Perguntou Harry, também titubeante, mas com certa doçura que deixou a menina ainda mais sem jeito.

—'N-Nós'? A-achei que ninguém se importasse.. ou mesmo que fosse dar... por minha falta... – A menina fazia ar blasé tentando, inutilmente, não demonstrar seu desconcerto.

Harry riu baixo e triste, abaixando sua cabeça e olhando para seus pés, que faziam movimentos curtos no chão, demonstrando todo o nervosismo que ia dentro de si.

—Isso é culpa nossa mesmo... principalmente minha. Eu nunca lhe dei um décimo do apoio que você me deu por todos esses anos...

Os olhos de Hermione se arregalaram ainda mais, olhando para Harry de forma incrédula... ele devia mesmo estar febril de novo!

—Olha, Harry... fico muito feliz em saber que ainda tenho alguma importância para vocês e peço mil perdões por tê-los preocupados com meu sumiço... mas eu precisava fazer isso, precisava ficar sozinha comigo mesma..

—Droga, Mione, eu é que te devo desculpas, você não precisaria disso se pudesse sempre contar com o nosso apoio e...

A menina o interrompe, levando as pontas de seus dedos aos lábios de Harry, fazendo-o se silenciar. O garoto a olhava com grande expectativa, o coração parecendo querer sair pela boca.

—Hoje foi um dia muito infeliz, foi um dia cheio... vamos deixar esse dia acabar de uma vez. Nós dois precisamos descansar muito. Amanhã é outro dia e poderemos discutir isso com a cabeça fresca... agora não é o melhor momento para revermos nossa amizade.

—Já passa da meia-noite, Srta Granger... o dia infeliz já terminou há alguns minutos...

Harry investia num sorriso esperançoso que conseguiu tirar um sorriso de Hermione, que já demonstrava sinais claros de cansaço.

—Espertinho! Mas você entendeu perfeitamente o que eu quis dizer. Eu preciso dormir e você mais ainda.

A garota girou em seus calcanhares e já alcançava os pés da escadaria. Harry ficou sem reação, nervoso demais para tomar a atitude drástica de tomá-la em seus braços e mostrar-lhe o quanto gostava dela... como havia planejado mentalmente toda a tarde... mas pensar é uma coisa e ele sequer levou em consideração que ela poderia ter uma reação como a de agora.

—P-Pôxa, Mione, me dá só uma chance para lhe fal...

—Por favor, Harry... durante o dia conversaremos, ok? E vá direto pra cama senão irei levá-lo para Madame Pomfrey novamente e o proibirei de jogar amanhã à tarde!

—Ah, não, você não faria isso?

—Faria sim, meu querido... não esqueça que eu sou a Chefe dos Monitores, mesquinha e arrogante.

Hermione não deu sequer chance de réplica a Harry, subindo as pressas a escadaria para o dormitório feminino. O garoto ficou parado no mesmo lugar, totalmente estático, boquiaberto e xingando-se mentalmente de tudo que é nome ruim! Virou-se furioso consigo mesmo, metendo o pé com tal força na poltrona que a fez virar e cair de lado, fazendo um baque surdo devido ao estofado.

Joga-se ajoelhado no chão, dando uma seqüência de socos na pobre poltrona caída indefesa que nada tem a ver com a história, apoiando seus cotovelos sobre ela e enterrando com raiva as mãos em seus cabelos negros e rebeldes, como se quisesse arrancá-los. Poucas foram as vezes que teve tanta raiva de si mesmo como agora.

—Burro! Burro! Idiota! Sempre faz tudo errado! Por que deixei chegar a esse ponto?! Hermione agindo na defensiva comigo é o fim!

Harry levanta-se e puxa sua varinha murmurando um feitiço para arrumar toda aquela bagunça. O dia estava mesmo perdido. Fora um dia infeliz como a sua querida havia lhe dito, e não havia mais nada que pudesse ser feito além de tentar descansar e relaxar um pouco a mente. Precisava mesmo dormir. E esperaria pelo novo dia que traria esperanças renovadas.

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 Fim do Capítulo XXIV – continua...
By Snake Eyes – 2004

quinta-feira, 21 de março de 2013

Animago Mortis - Capítulo XXIII – Muito Bem Escondida

Animago Mortis
Capítulo XXIII – Muito Bem Escondida
 
A aula de Transfiguração deu-se por encerrada, Harry foi o primeiro a sair da sala, ignorando os pedidos de espera de Rony e o olhar reprovador da Profª McGonagall, já que o garoto mal esperou que ela terminasse de dar seu último recado para a classe, saindo de imediato.

Como a Professora havia ordenado que Hermione fosse para a enfermaria, foi para lá que Harry rumou como um tiro, decepcionando-se logo que chegou e ouviu da própria Madame Pomfrey que a menina não havia estado ali desde aquela hora da manhã quando ela o acompanhou.

Sentindo o peito oprimido de preocupação com a amiga – e querendo, desesperadamente, esclarecer aquele maldito mal entendido que Rony havia causado – Harry corre a procura de Hermione nos lugares que mais lhe parecem óbvios de encontrá-la. Logo que saiu da enfermaria, rumou direto para a biblioteca, decepcionando-se mais uma vez após procurar por todos os cantos entres as imensas prateleiras de livros e perguntar por ela para alguns poucos alunos que ali estavam, não a encontrando novamente. E o coração cada vez mais apertado.

Subiu correndo as escadarias até o sétimo andar, num só fôlego, indo para o Salão Comunal da Grifinória. Se não fosse pela excelente condição física que ganhou em seus sete anos de Quadribol, certamente seu coração teria explodido, não apenas pelo grande esforço que fazia, as correrias e o subir-descer de escadas, mas também pelo sentimento angustiante que ia em seu peito.

Estava mesmo muito preocupado com a amiga. Nunca ela havia errado nas aulas de Transfiguração e Poções, e esses dois erros aconteceram no mesmo dia, um seguido do outro. Ainda tinha as grosserias que Rony a fez ouvir, injustamente. Toda aquela história envolvendo o animago. A quase tragédia do último sábado. Por mais forte e poderosa que Hermione fosse, nem ela seria capaz de suportar tamanha pressão. Tinha que encontrá-la a todo o custo, mesmo correndo o risco de que sua presença poderia piorar ainda mais a situação... Não, ele não iria piorar nada! Ele iria, sim, tentar consertar, pelo menos, uma pequena parte desse estrago.

Chegando ao Salão Comunal, o encontrou vazio. Todos os alunos a essa hora ou estavam em aula ou em outras atividades fora dali. Naquela hora, o Salão era mesmo um ótimo lugar para ficar a sós com seus pensamentos, sem ninguém para importunar, sem barulho algum para incomodar. Mas Hermione também não estava ali.

Subiu correndo as escadarias que levam aos dormitórios femininos, indo até o quarto que era de Hermione. Tinha tanta certeza que a encontraria ali que um sorriso formou-se em seus lábios. Ao chegar diante da porta do dormitório da amiga, conteve seus ímpetos de entrar subitamente, parando por instantes para recuperar o fôlego e colocar todos os pensamentos em ordem, dando um tempo para que sua pulsação voltasse ao ritmo normal.

Três toques com os nós dos dedos na porta e aguardou instantes para que fosse atendido. Não ouviu nenhum ruído, talvez tivesse batido fraco demais. Mais três toques, desta vez com mais vigor, e nada novamente. Não iria passar todo o resto do dia dando murros na porta até arrebentar seu punho. Girou a maçaneta deixando que a porta se abrisse numa pequena brecha, o suficiente para deixar sua voz entrar e alertar quem ali estivesse.

—Mione?

Não obteve resposta. Já começando a ficar aborrecido com isso, decide entrar de vez no quarto, encontrando-o totalmente desprovido de qualquer alma viva. Todas as camas estavam impecavelmente arrumadas. As cortinas dos dosséis abertas e amarradas em elaborados laços de veludo dourado, como as franjas das cortinas... todas as camas estavam à mostra... todas estavam vazias. Harry andou, ainda um pouco ofegante, até a última cama, que era a de Hermione.

Parou diante da cama coberta por uma colcha em veludo carmesim como o dossel, belamente ornamentada com bordados em linhas douradas, tendo o brasão da Grifinória bordado no centro do acolchoado, assim como todas as outras camas. Ficou alguns instantes olhando o nada sobre a cama, sua mente parecia vazia.

Parecendo que o cansaço começava a fazer efeito, sentou-se na cama, para recuperar as energias e voltar a procurar por Hermione. Olhou para a cabeceira onde estava o volume do travesseiro coberto pela colcha e sobre ele, quase escondida, uma bela e delicada boneca de porcelana, numa esmerada roupinha de dama antiga com bordados feitos a mão e rendas. Do chapeuzinho feito em tela e renda, caíam elaborados e brilhosos cachos castanhos. A face de traços delicados e olhos de vidro em tom castanho lembraram a Harry a própria Hermione.

Pegou a boneca com cuidado e segurou-a em seu colo, lembrando-se que, certa vez, Hermione havia comentado que sua avó costumava fazer esse tipo de trabalho manual, uma obra de arte na sua opinião. Ajeitou os óculos redondos sobre o nariz, a fim de enxergar melhor o que tinha em mãos. A boneca era mesmo um trabalho de muito esmero, desde os detalhes do vestidinho até a pintura suave do rosto. A boneca era mesmo Hermione. A avó a fez com as feições da neta. Não sabia se era uma bobagem da sua mente exausta, mas não pôde afastar a idéia análoga de comparar a própria garota com a boneca: bela e de estrutura forte, aparentemente, já que a porcelana é muito frágil e poderia se quebrar ao menor choque.

Sentiu uma fragrância floral vinda da boneca e aproximou-a de seu rosto para sentir melhor o perfume. Parecia lírio, não sabia ao certo, mas tinha a absoluta certeza de que era o mesmo perfume de Hermione. Instintivamente, abraçou a boneca e cerrou os olhos, deixando que seus pulmões se enchessem com aquele perfume.

Abriu os olhos pouco depois e mirou sobre o criado-mudo que ficava ao lado da cama, chamando sua atenção um porta-retratos de aparência divertida, pois havia uma bonequinha esquelética e cabeçuda o adornando e a armação era em tom de rosa forte com coraçãozinhos displicentes pintados em branco e tons claros de rosa. Sorriu ao constatar que Hermione era, antes de tudo, uma menina igual às outras – pelo menos as outras meninas trouxas.

Alcançou a mão ao porta-retratos para poder enxergar melhor a foto que ali estava. Era uma fotografia comum de trouxas, pois os fotografados estavam estáticos. Reconheceu, na foto, os pais da amiga; a senhora que estava sentada ao lado da menina devia ser a avó que ela tanto adorava e Hermione, com o Crookshanks no colo.

Harry soltou um suspiro de enfado ao ver o gato na foto, lembrando-se de todas as coisas ruins e desagradáveis que aconteceram nos últimos dias, especificadamente na noite anterior. Sentiu a raiva esquentar em seu peito e só então deu-se conta que deveria voltar a procurar Hermione e que deveria sair dali o quanto antes, pois seria extremamente embaraçoso se alguém entrasse naquele dormitório e o visse ali e, ainda por cima, abraçado a uma boneca. Até que ele conseguisse se explicar, já teria sido tachado de depravado, no mínimo, e seria expulso da escola!

Com cuidado, colocou o porta-retratos de volta ao criado-mudo e a boneca de porcelana sobre o travesseiro, ajeitando-a para que Hermione não percebesse que alguém esteve ali mexendo nela.

Pôs-se de pé, levando uma das mãos aos cabelos e a outra em seu quadril, pensando onde mais Hermione poderia estar. Decidiu que iria procurá-la pelos jardins da escola, lembrando-se que ela costumava ficar estudando sobre a sombra da grande figueira que ficava numa das extremidades do lago da Lula Gigante.

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Neville andava contra a maré de alunos que acabavam de sair de suas aulas e rumavam para os jardins da escola. Sua expressão era um misto de desolação, espanto e ansiedade. Procurava por Harry. Precisava encontrar Harry Potter.

Sentiu-se aliviado ao ver a cabeleira vermelha de Rony se sobressaindo na multidão de alunos e muito rápido foi até onde o ruivo estava, certo de que Harry estaria junto. Soltou um muxoxo de irritação.

—Ah, não acredito! O Harry não está sempre junto contigo?! Por que justo agora que preciso falar urgentemente com ele, o cara não tá aí?!

—Qual é Neville? Calma! O que de tão de importante você tem que falar com o Harry? Ele saiu correndo da sala de aula, você não notou?

—Hã, saiu? Não, não notei, acho que tava guardando meu material... mas onde que ele tá?

—Não sei, valeu?! Deve ter ido atrás de Hermione!

—É sobre ela mesmo que quero falar! E você devia vir junto me ajudar a achar o Harry. Não falo o que vi aqui porque tá cheio de gente, mas se for...

—Se é sobre Hermione, não me interessa nem um pouco! – Rony interrompe Neville abruptamente, fazendo gestos expansivos com os braços, de aborrecimento. —Harry deve tá lá pra cima!

Rony se retirou apressadamente em passos pesados. Neville ficou o observando pelos instantes até que desaparecesse na esquina do corredor. Era provável que Harry estivesse no Salão Comunal e era pra lá que ele iria.

Os corredores e escadarias já estavam vazios e quando Neville alcançava em passos lentos o meio da primeira escada, Harry a descia correndo, diminuindo seu ritmo ao avistar o garoto de rosto arredondado.

—HARRY! Preciso muito falar com você! Você não acreditará no que vi! Aquele animago que era o gato da Mione e ele tav...

—CALA A BOCA, NEVILLE! – Numa expressão furiosa, a voz de Harry saiu mais alta e ríspida do que gostaria, que ecoou pelas galerias desertas, chamando a atenção de todos os personagens das centenas de quadros expostos nas paredes e fazendo Neville se encolher na escadaria. Harry olhou pra todos os lados, enrubescido, certificando-se de que não havia ninguém ali para tê-lo ouvido. Inspira profundamente de alívio e encara novamente Neville.

—Desculpe, Neville! Mas não podemos falar sobre esse assunto em qualquer lugar, você sabe disso! Depois você me conta o que viu. Agora preciso encontrar a Mione.

Harry já quase alcançava o final da escada que descia num trote, quando Neville recuperou-se do susto e fez com que ele parasse aos pés da escadaria, olhando-o assustado.

—Mas tem a ver com a Mione também! Ela tava lá na hora que esse anim... quer dizer, bem, você já me entendeu! Podemos ir prum lugar mais seguro então, Sr Potter, para que eu possa contar o que vi.. e ouvi?!

Os garotos entraram na primeira sala de aula deserta que encontraram. O Salão Comunal da Grifinória ainda estava há seis andares dali e Harry sentia que seu coração não agüentaria nem mais alguns minutos com aquela ansiedade. Harry deixou que Neville entrasse para bater a porta as suas costas e apoiar-se nela, como se quisesse impedir que alguém entrasse por ali. Apreensivo, o garoto olhava por sobre os óculos para Neville, enxergando apenas borrões, mas isso não importava nem um pouco, tudo que queria era saber de Hermione e poder voltar logo a procurá-la.

—E aí, Neville? O que você viu que te deixou assim tão transtornado?

Neville se virou para Harry, após uma rápida inspecionada pelo ambiente para se certificar que estavam mesmo a sós. Largou a mochila no chão, aos seus pés, respirando fundo e pondo-se em posição ereta.

—O animago é um Comensal da Morte e teve gente no Ministério que acabou de levá-lo.. e ele estava algemado!

Harry apenas arregalou os olhos.

—Você tem certeza disso que está dizendo Neville? Ele iria ser julgado pelo Ministério, sim, mas por ser um animago ilegal, não por ser um comen...

—Tenho certeza, sim, Harry! – Interrompeu Neville, que parecia aflito. — Tenho certeza absoluta! Foi o próprio homem do Ministério que disse isso, e disse pra Mione, que tava saindo do Castelo naquela hora... o animago é um Comensal da Morte!

Harry parou de respirar subitamente. Ainda boquiaberto e com olhos arregalados, seu coração pulsava com dificuldade. Como Hermione estaria administrando todos esses fatos? Como ela estaria agora que sabia algo extremamente terrível sobre o bruxo que fora seu gato de estimação por quatro anos?!

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Rony estava sentado à beira do lago, sozinho, jogando algumas pedrinhas que quicavam duas ou três vezes na água até mergulharem. Estava com a mesma expressão aborrecida desde que havia discutido com Hermione, após a aula de Snape.

Alguém se aproximava rápido dele pelas costas, roçando a grama ruidosamente, mas que Rony não se deu ao mínimo trabalho de virar-se para ver quem era. Pela forma apressada de andar e arrastar os sapatos, só poderia ser uma pessoa.

—O que você quer, Gina?! – Perguntou de forma muito mal-educada!

—Nooossa, mas que humor, heim!? Então o que me contaram é verdade!

—Há! Como sempre! O serviço de informações de Hogwarts trabalha rápido! – Rony ironizou enquanto arrancava algumas folhas de grama do chão.

—É sim, são bem eficientes. – Gina respondia com banalidade, ignorando o mau humor do irmão e agachando-se ao seu lado. —E aí? Por que você brigou com a Mione?

—Porque ela é uma metida, hipócrita, injusta! A gente defende ela e a Srta Sabe Tudo ainda vem cheia de demagogia pra cima de nós! Não é pra ficar puto não?

—Pois é, seria, se a atual situação que ela está vivendo fosse normal... e se ISSO não tivesse aumentado a detenção dela com o Seboso!

—Credo! Até isso você já sabe?? – Rony parou de arrancar o mato e encarou a irmã com incredulidade.

—Pois é.. o serviço é mesmo muuuito eficiente... e onde a Mione está agora? Também estou sabendo que a Prof McGonagall a dispensou da aula...

—Gina! Eu NÃO sei! NÃO quero saber e quero que SE FODA quem sabe!

—Merlim! Você come com essa boca, Rony?!

Gina levantou-se e saiu apressada, bufando. Depois de encontrar Hermione e conversar com a amiga, pretendia enviar uma coruja aos pais contando todas as grosserias e péssimos modos do irmão, que talvez se consertasse com um belo castigo aplicado pela mãe. Quanto a Rony, soltou um muxoxo de aborrecimento e voltou a arrancar a grama envolta de onde estava sentado.

::::

—Então, Mione, ela...

—Ela ficou muito abatida, Harry... acho que nunca a vi daquela forma tão triste... é como se ela estivesse perdida, sem saber o que fazer.

Harry fechou os olhos, sentindo uma amargura na garganta. Imaginava como a amiga devia estar. E em parte havia um pouco de sua culpa. O Rony não mentiu quando disse a ela aquelas coisas que ele próprio havia dito numa ocasião em que conversava com os outros garotos no dormitório... maldita hora que falou aquelas coisas sem pensar.. sem pensar nos fatos e acontecimentos que estavam levando Hermione a se tornar cada vez mais distante, arrogante até. Ele sim era o egoísta. Ele sim era o arrogante. Sempre se fazendo eternamente de vítima, por ter perdido os pais antes mesmo de entender o que isso significava, por estar sempre envolvido em coisas tramadas por outros, por ter perdido Sirius, a única pessoa no mundo que considerava a sua família... sempre se fazendo de vítima sem se dar conta que outras pessoas estavam sempre envolvidas nas mesmas agruras que ele, muitas vezes por sua própria causa... e Hermione... ela sempre esteve do seu lado, sempre... sempre lhe auxiliando, preocupada consigo, cuidando de seu bem-estar, sendo a voz da razão que sempre lhe faltava, sendo seu super-ego... e como ele retribuía isso?

"—Ah! Mione! Desde que ela se tornou monitora que ela fica com aquele arzinho cheio de importância! Ela tá cada vez mais arrogante! Assim é difícil de aturar, né?!"

Harry socou a porta com as duas mãos fechadas em punho. O barulho reverberou no ambiente fazendo Neville dar um saltinho de susto.

—Obrigado, Neville! E NÃO-CONTE-ISSO-A-NINGUÉM, entendeu?! Senão você dança na minha mão!

Neville apenas concordou com a cabeça, com o esboço sorriso no rosto temeroso. Harry estava com uma expressão péssima! E ainda por cima havia o ameaçado?! O melhor mesmo é ficar quieto!

::::

O garoto queria agilizar logo essa busca por Hermione e correr atrás dela de um lado ao outro naquele lugar gigantesco não era a melhor opção. Correu até o corujal, esbarrando em Gina no caminho.

—Harry! Estou procurando a Mione.. você sabe onde ela está?

—Não sei, também estou procurando por ela faz tempo, até que tive uma idéia... vamos buscar a Edwiges lá no corujal?

Os dois rumaram às pressas até o local onde ficavam os poleiros das corujas, um lugar fétido e sujo como se um elfo da limpeza não passasse por ali há séculos. Ao entrarem, avistaram poleiros que iam até o alto do teto, repletos de vários tipos de corujas, quase todas dormindo após passarem toda à noite caçando ou fazendo entregas de cartas.

Harry chamou por sua coruja branca como a neve, que levou alguns instantes até aparecer e pousar majestosamente no braço estendido do garoto. Roçou sua cabeça em comprimento na testa do dono, que retribui com um sorriso e um afago em seu peitoril.

—Vamos até lá fora, Edwiges.. preciso que você me faça um grande favor.

Gina e Harry com Edwiges pousada em seu ombro foram até um canto mais deserto dos jardins do Castelo, esperando que ninguém os visse e os enchessem de perguntas. A coruja pula novamente para o braço do garoto que lhe passa as instruções.

—Olha, Edwiges, nós queremos muito encontrar a Mione e preciso que você nos guie até onde ela está... poderia fazer isso por nós?

A coruja solta um fraco pio e acena com a cabeça, mirando o céu de azul intenso logo em seguida, vacilante. Em seguida levanta vôo, subindo apenas alguns metros e retornando novamente para o ombro de Harry.

—O que há Edwiges? Pensei que você quisesse nos ajudar! Por favor, nos leve até onde está a Mione?!

Edwiges encara seu dono com um olhar perdido e solta um pio triste, acenando negativamente a cabeça. Harry apenas a olha intrigado, sem entender o comportamento da coruja.

—O que você quer dizer com isso? Você não quer ou não pode procurar pela Mione?

A coruja acena positivamente com a cabeça e continua a olhar para o dono tristemente.

Gina pega no braço de Harry, que se vira para encarar a amiga, que também está com uma expressão triste no rosto.

—Acho que não vai dar, Harry.. talvez a Mione não queira ser achada...

—O que você tá dizendo, Gina?

—Bem, as corujas sempre encontram as pessoas, seja lá onde estiverem, mas se essas pessoas estiverem escondidas com uso de magia... talvez a Mione tenha enfeitiçado o lugar onde está com algum feitiço tipo o fidellius... então não encontraremos por mais que a procuremos.

Harry suspira fundo, cerrando os olhos de enfado.
 
—Droga!

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Fim do Capítulo XXIII – continua...
By Snake Eye's – 2004

terça-feira, 12 de março de 2013

Animago Mortis - Capítulo XXII – Um Dia Da Caça, Outro Do Caçador


Animago Mortis

Capítulo XXII – Um Dia Da Caça, Outro Do Caçador


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 legenda: [[ ...diálogo em russo... ]]
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A noite estava fria e úmida. Era início de Inverno. No ar álgido, vapores saídos de bueiros e lampiões formavam nuvens de umidade cristalizada. Um grupo de três indivíduos de mantos negros e encapuzados avançava para um pequeno prédio de aspecto paupérrimo. Os três avançavam rapidamente, rindo e proferindo ameaças em altos brados e risadas. Uma forma indefinida pelas sombras onde se ocultava os seguia aguçadamente, como um predador que espreita a sua vítima.

Um gato alaranjado e de tamanho desproporcional passa correndo desesperado pelos três, derrubando latões de lixo e assustando os sujeitos que tentavam disfarçar o nervosismo com risadas e palavras grosseiras.

Os três comensais, ainda jovens estudantes, estavam temerosos devido à inexperiência. Estavam os três indo para seu primeiro ataque aos trouxas. O mais alto que estava entre os outros dois, quase caiu de costas com o susto pela bagunça feita pelo gato, despertando o escárnio dos companheiros. Estavam tão entretidos com a própria ladainha que não perceberam o gato tomar a forma humana bem diante deles na penumbra do hall de entrada do prédio.

[[ —Boa Noite, senhores... ]]

Os três pararam de rir ao ouvirem a voz macia a lhes falar algo que não entenderam, mirando para o rapaz que saía das sombras, portando um sorriso frio no rosto e os braços cruzados sob as mangas do manto negro que trajava.

—Ah! É Donskoi, o almofadinha russo! O que faz aqui, maluco? Você não foi designado pra essa missão.

Oras, companheiros.. estava entediado e não encontrei nada melhor para fazer num sábado à noite. – Falou Nicolai, com um forte sotaque.

—Eeeeh! É isso aê! Até que você não é tão mané assim! Vamos detonar uns sangues-ruins, então!

—... e currar umas vagabundas trouxas, claro! Pra isso pelo menos elas servem!

Os três começaram a rir novamente. Nicolai estava com uma expressão de puro ódio no rosto. Sorrateiramente, puxa da manga esquerda sua varinha, apontando para os três comensais.

Pomer ni za khuy sobachy! Padlo! ... AVADA KEDAVRA!!

Os filetes de raios verdes que saíram da varinha de Nicolai acertaram em cheio no peito do mais alto dos comensais, que caiu estatelado e já sem vida aos pés dos outros dois, que olhavam atônitos.

Quando deram-se conta do que acabava de acontecer, viraram-se furiosamente para Nicolai, com as varinhas em punho. O animago desaparata antes que a maldição lançada por ambos o atingisse.

Nicolai aparata às costas dos dois rapazes, que já demonstravam sinais de desespero. Sem pestanejar difere um segundo golpe.

— DIFFENDO!

Um raio branco como relâmpago saía da varinha de Nicolai e acertava diagonalmente no comensal à esquerda. Seu corpo fora cortado como se um fio afiado de espada o tivesse atravessado do ombro até o quadril. Ainda estava vivo quando partes de seu corpo se despencaram até o chão. O último comensal olhou apavorado do companheiro em pedaços no chão a Nicolai, que mantinha-se centrado e com uma expressão de satisfação no rosto. (n/a: isso é excesso de ler 'Blade')

Muito trêmulo, o rapaz aponta a varinha para Nicolai e quase em prantos defere a maldição imperdoável contra ele:

—aa-avada keda-avra..

Nicolai mantinha os braços cruzados olhando cinicamente para o rapaz. Soltou uma calorosa risada que fez o pobre comensal se encolher diante da falha de sua magia.

Seu tolo! Você sequer conseguiria me causar cócegas! Você está completamente transtornado...

—Mi-mise-seável! Por-por que f-fez isso?! T-tra-trai-dor!

Ah, isso não, pequeno coelho! Jamais fui leal, logo não sou um traidor! ... Accio varinha!

A varinha do rapaz apavorado e em soluços voa de sua mão para a mão de Nicolai, que ainda mantém o sorriso afetado no rosto.

Vá embora, coelhinho! Fuja pra bem longe daqui.

Aos tropeços, o garoto sai correndo em desespero, escorregando em poças de lama e voltando a correr novamente, tentando inutilmente salvar sua vida. Nicolai o observa calmamente, dando um tempo de vantagem para sua presa tentar escapar. Caçar caçadores era um jogo divertido.

O garoto, já bastante longe de onde seus companheiros foram mortos, estatela-se no chão com o susto da aparição repentina de Nicolai, que aparatou diante dele, formando um vácuo de ar a sua volta que brandou com força seu manto e seus cabelos, varrendo o chão entorno.

Por Merlim! Como és estúpido! Sequer consegues aparatar, pobre infeliz? – Dizia sério Nicolai, os braços cruzados diante do peito, olhando de queixo erguido o comensal caído e enlameado aos seus pés.

—MALDITO!! – O rapaz, numa súbita bravura, ergue-se do chão e avança em punhos fechados contra Nicolai, que se desvia calmamente com apenas um passo para o lado.

Oh! Um puro-sangue agindo como um bárbaro trouxa? Interessante...

—CANALHA! COVARDE! Vem pro pau no mano a mano, vem! Quero ver se você é alguma coisa sem magia! – Instigava o comensal de expressão ensandecida.

Você pode sair machucado, pequeno coelho... – Desdenhava Nicolai.

—FILHODAPUTA! – O garoto avançava novamente contra Nicolai, que aparou o soco do comensal com o braço acertando nele um soco certeiro no rosto com o punho direito.

O comensal cambaleou para trás segurando a mandíbula que se deslocou com o soco de Nicolai que sequer deu-lhe tempo de entender exatamente o que aconteceu. Numa investida rápida como um felino que agarra sua presa pela jugular, Nicolai dá um mata-leão no rapaz, que tenta em vão livrar seu pescoço do braço forte de seu predador.

[[ —Todos vocês vão pagar pela desonra de meu clã! Eu destruirei Voldemort! ]]

Com um movimento rápido e forte de sua mão direita, Nicolai gira violentamente a cabeça do comensal, quebrando-lhe o pescoço. Afrouxa o braço que estrangulava o rapaz que cai já sem vida aos seus pés como se fosse um boneco feito de trapos.

Nicolai sai calmamente do local, passando por cima do corpo inerte e sem vida caído na lama. Numa rapidez surpreendente, sua forma humana desmancha-se novamente na forma de um grande gato persa. Perto de alguns entulhos escorados na parede de um prédio velho, um par de pequeninos olhos negros o observava muito atentamente, escondido nas pequenas brechas do entulho.

...

Um sujeito gordo e de feição idiota desperta num sobressalto, levando uma mão que parecia ser metálica a testa, enxugando ali o suor que pingava em seu rosto. Levanta-se da poltrona velha e poeirenta em que dormia, pegando sobre outra poltrona um exemplar do Profeta Diário que trazia na capa a reportagem sobre o 'Sábado Trágico em Hogsmeade'.

—Que estranho sonhar com um passado tão distante... nem sequer me lembrava mais disso! Seria esse animago do 'sábado trágico' o russo Donskoi? Ele teria conseguido sobreviver por tanto tempo assim e ainda ter vencido a maldição do Lord?! Se for, ele é realmente muito bom! Seria interessante que o Lord soubesse disso... Nicolai Donskoi, o fedelho traidor que havia desafiado o Mestre...

::::

Depois de quase um dia inteiro de viagem, finalmente Nicolai e Dumbledore, escoltados pelos quatro agentes, chegam ao prédio do Ministério da Magia. Por motivo de segurança, Nicolai só pode desembarcar do carro blindado contra magia, que fora buscá-los na plataforma de King Cross, dentro das dependências do Ministério, no local que era destinado ao tráfego de criminosos que iriam a julgamento.

Nicolai saiu cabisbaixo do carro. Ainda sentia-se miserável. Seus ombros pareciam pesar cada vez mais a cada minuto que passava. Se o mal-estar não fosse tão intenso, pensaria que estava sonhando, de tão surreal que lhe parecia a situação. Num minúsculo espaço de tempo tantas coisas aconteceram simultaneamente, que culminaram em ele estar ali, agora, preste a ser julgado e condenado pelo Ministério da Magia.

Dumbledore, vendo a apatia de Nicolai, passa-lhe o braço pelos ombros do garoto, tentando transmitir-lhe conforto e confiança. Este, então, apenas lhe dirige um olhar triste e tenta retribuir o gesto com o esboço de um sorriso igualmente triste.

—Muito obrigado por tudo, mais uma vez, Professor... mas acho que dessa vez eu não escapo.

—Você é pessimista demais, meu jovem. Há muito mais coisas ao seu favor do que contra. Deixe essa apatia de lado e comece desde já a planejar o que fará quando você sair daqui do Ministério com sua ficha totalmente limpa!

—E o senhor é otimista demais...

—Sou realista... e a realidade me parece muito promissora.

A conversa de ambos foi interrompida pela intromissão brusca do mais velho dos quatro agentes, que agarrava com força o braço do garoto e o conduzia até a seção de custódia do Ministério. Dumbledore foi ao encalço para se certificar em que acomodações Nicolai seria deixado.

Após pegarem o elevador e descerem alguns metros no subsolo, chegaram a um longo corredor repleto de celas cujas barras das grades cintilavam como se fossem de néon. Uma das celas estava aberta e Nicolai foi conduzido até ela. Dentro, as acomodações surpreendiam, pois não eram o que se imagina devido ao tratamento dado pelo Ministério. Havia uma cama estreita bem arrumada encostada na parede oposta à entrada e um tapete aos seus pés; numa outra extremidade havia uma pequena mesa retangular e dois bancos; ainda havia uma cômoda e uma porta que dava acesso ao lavabo. Nada mau para uma cela, afinal.

—Estique os braços. – Falou secamente o agente para Nicolai, que obedeceu a muito contragosto.

— Finite Incantatem al-liğāma. – as algemas desapareceram no mesmo instante em que o agente profere o contra-feitiço e toca grosseiramente sua varinha nas algemas que prendiam os pulsos de Nicolai.

O garoto massageou seus pulsos marcados pelas algemas. Dumbledore checava todo o quarto, avaliando o local.

—Você, RÉU, permanecerá neste quarto até o momento de seu julgamento. Enquanto isso lerá os seus direitos e obrigações que está no pergaminho sobre a cômoda. E deverá vestir-se com o uniforme que está disposto sobre a cama. E para o seu próprio bem, é melhor que seja um bom hospede, garoto.. não precisamos de julgamentos para punir querelados. – Falava o agente em tom de insolência.

Nicolai apenas o olhava de forma desagradável, sem pronunciar qualquer chiado. Estava extremamente exausto para se importar até mesmo com humilhações. Tudo que queria é que todos sumissem o mais rápido possível dali para que ele pudesse ficar a sós com seus pensamentos.

—Bem, se o senhor já terminou com a intimidação contra meu aluno, gostaria que me fizesse a gentileza de me levar até a Secretaria de Segurança. Gostaria de saber mais detalhes sobre o processo contra Nicolai.

—Certamente, senhor. – O agente respondia em tom atravessado.

Dumbledore se aproximou de Nicolai, ficando a sua frente e levando sua mão ao ombro do rapaz, que mirava exaustivamente o chão, apenas levantando o olhar para encarar o Diretor.

—Você estará de volta à Hogwarts antes mesmo de se cansar da decoração monótona dessa cela, meu jovem. Não se preocupe, tudo dará certo, eu garanto.

[[—Está certo, Professor. Agradeço-te a intenção...]] – Nicolai respondeu muito desanimadamente.

Dumbledore apenas respondeu com dois tapinhas no ombro do rapaz. Via que estava exausto e que aquela apatia só desapareceria após um bom descanso, que esperava que o garoto tivesse. Como um pessimista que Nicolai era, só veria luz no fim do túnel quando os fatos se mostrassem favoráveis para si através de ações e não palavras de consolo e esperança.

O velho Diretor se retirou da cela, seguido do agente, que apontou a varinha para a porta e murmurou um feitiço que fez surgirem ali as barras de néon trancando a passagem. Nicolai apenas observava por sobre o ombro, muito desanimadamente. O agente ainda lhe dirigiu um sorriso afetado antes de se retirar.

—Não é da sua conta saber disso, mas uma vez fechada, esta cela se torna impermeável contra magia. Logo, caríssimo réu, nenhum ato desesperado adiantará de nada. Economize energia para o tribunal.

Idi na khuy! Styervo! – Resmungou Nicolai, virando seu rosto, esnobando o agente.

Quando todos se retiraram, Nicolai jogou-se deitado na cama, levando as mãos aos olhos, esfregando-os com vigor, levando as mãos em seguida à cabeça e enterrando seus dedos nos fios finos e claros de seu cabelo. Solta um suspiro de enfado e mira o nada no teto.

Amanhã fará uma semana que tudo aconteceu. Há apenas dois dias despertou novamente para a vida... aconteceram tantas coisas em tão pouco tempo que era até mesmo difícil assimilar e raciocinar direito.

E apenas ELA lhe dava a devida força para enfrentar tudo isso. E a essa altura ela devia estar lhe odiando... mas isso não importava. Mesmo que Hermione o odiasse do fundo de sua alma, isso não apagaria dela o fato de quão pessoa maravilhosa ela era e que, mesmo sem ter a mínima idéia, tanto lhe ensinou sobre a importância das coisas mais simples, o quanto lhe ensinou a respeitar aqueles que estão abaixo de si.

Riu baixo e tristemente. Riu da ironia que o destino lhe pregou. O mesmo amor que lhe libertou estava prestes a lhe fazer novamente prisioneiro. Um amor que jamais conceberia nem em sonhos em sua antiga vida.

[[—...Pavel Nicolai Donskoi.. descendente de reis e príncipes.. neto do grande senhor das terras de Lentz... último varão da dinastia Donskoi... hoje capaz de entregar sua própria via por uma sangue-ruim... inacreditável!]] – Sussurrou para si mesmo, ainda sorrindo tristemente para o teto.

[[—...mas você vale isso e muito mais, Hermione... só desejo, ao menos, que algum dia possamos parar e conversar, como simples amigos... pelo menos...]]

Nicolai virou-se, pondo-se em posição fetal e as mãos juntas sob o travesseiro, cerrando os olhos e dando-se por encerrado esse fastidioso dia.
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Fim do Capítulo XXII – continua...
By Snake Eye's – 2004
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N/A: 
 tradução »» Pomer ni za khuy sobachy! Padlo = Morreu em vão! Cadáver!
Idi na khuy! Styervo! = Vá pro Inferno! Porco!

Feitiços »» Avada Kedavra: Feitiço Imperdoável: Faz com que o oponente morra instantaneamente.

»»Diffendo: Rasga objetos ou os abre com violência.

»»Accio: Convoca objetos.

Golpe »» mata-leão »» golpe de estrangulamento de defesa pessoal (krav magah) usando para apagar o oponente por falta de oxigênio, mas que pode ser levado à morte. Pelas costas do oponente, o golpeador passa o braço pelo pescoço da vítima prendendo a mão em seu outro braço, que pressiona a cabeça do oponente para frente, fazendo com que o oponente tenha uma rápida perda de oxigênio no cérebro.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Animago Mortis - Capítulo XXI – Nada é tão ruim...

Animago Mortis
Capítulo XXI – Nada é tão ruim...

--Shanks! Espera! Acha que tenho quatro patas como você?!

Hermione subia uma colina verdejante recoberta de rododendros que exibiam grandes e belas flores púrpuras e brancas que espalhavam sua fragrância por todo o ambiente. Pedras de vários tamanhos e formas brotavam do chão coberto de gramíneas em floração. O sol morno e a brisa fresca e constante deixavam o lugar extremamente convidativo.

O gato, muito animado, já alcançava o topo do morro e olhava faceiro para a dona, que ainda subia ofegante atrás do felino. Ela o olhava braba e Shanks deu seu miadinho animado. A cauda grossa balançava de um lado para o outro e o gato desapareceu atrás de um grande arbusto de rododendro de flores brancas.

--Ah, gato! Você me paga, Shanks!

A menina finalmente alcançava o topo e passando pelo arbusto, viu que chegava a uma clareia. Um pouco rebaixada, apoiou a mão em seu joelho enquanto a outra ia a sua testa, enxugando o suor pela caminhada. Shanks a olhava muito animado e veio de banda até Hermione, roçando-lhe as pernas. Dali correu até um banco de pedra muito antigo, totalmente escurecido pelos anos e recoberto por musgo. Subiu no encosto do banco, chamando a atenção da menina.

--Eu quero saber onde estou com a cabeça pra andar atrás de um animal... – ainda ofegante e um pouco aborrecida, Hermione vai até o banco de pedra onde Crookshanks encontra-se empoleirado olhando muito atentamente na direção do horizonte.

O leve aborrecimento da garota se dissipou tão imediatamente que parecia jamais ter existido. Seus olhos se arregalaram brilhantes ao alcançarem o que o gato via.

Hermione e Crookshanks estavam no alto de uma colina que parecia reinar absoluta nos terrenos de Hogwarts, mas que, por algum motivo qualquer, permanecia incógnita enquanto nos jardins do castelo.

Daquele lugar podia-se avistar toda a extensão daquelas terras. De um lado a densa Floresta Proibida com suas belas e seculares árvores cujas copas farfalhavam graciosamente no embalo do vento que ali corria. Do outro, o horizonte plano perdia-se até encontrar montanhas azuis ao longe. Nuvens em forma de plumas pincelavam o céu de azul intenso.

A brisa corria com vontade naquele lugar e parecia brincar com os cabelos lanzudos e a roupa folgada da menina. Os pêlos longos e macios de Crookshanks cintilavam com o sol que já descia rumo ao horizonte, espalhando raios dourados pelo ar. O gato deu mais um miadinho faceiro e jogou-se contra o corpo da menina que parecia hipnotizada com a deslumbrante paisagem.

Hermione baixou a visão para Crookshanks que espichava sua cabeça pedante por carinho. A menina levou a mão à cabeça do gato, acariciando-a.

--Retiro tudo o que disse enquanto subíamos a colina... esse lugar é maravilhoso! É incrível como ele fica totalmente oculto visto lá de baixo. Em cinco anos de Hogwarts, nunca imaginei que pudesse ter um lugar como esse por aqui.

A menina pegou o gato no colo que tratou logo de acomodar-se, roçando sua cabeça no queixo de Hermione, que retribuía o carinho do bichano coçando-lhe as costas.

::::

Apoiando a cabeça sobre o vidro da janela da carruagem, o olhar vazio de Nicolai se perdia pela paisagem que passava como um borrão colorido de tinta. Estava prostrado pela situação. Os punhos algemados sobre o colo. Ele parecia mais um boneco inanimado, tão alienado estava. Tudo estava saindo pior do que esperava. Achava que poderia enfrentar e suportar a situação, se não fosse pelo o que aconteceu.

"...então deve saber que o seu ex-gato de estimação é um dos seguidores de Você-sabe-quem, um Comensal da Morte..."

--Prosrat'! – Murmurou para si próprio, fechando os olhos pesadamente. Era pessimista o suficiente para não encontrar boas perspectivas diante de si... mesmo que conseguisse sair dessa e retornar para Hogwarts, suas chances de se aproximar de Hermione estavam reduzidas a quase zero.

A expressão de medo e insegurança nos olhos cor de mel da garota não saia de sua mente... como ele conseguiria contornar essa situação? Como ele poderia fazer Hermione confiar nele dessa forma?

Mais uma vez, preferia ter morrido naquele sábado como Crookshanks.

Dumbledore, sentado a frente do rapaz, fitava-o seriamente. Na carruagem, apenas o ruído das rodas sobre o solo quebrava aquele silêncio entre seus ocupantes.

::::

Hermione abriu os olhos sentindo a face arder. Piscou algumas vezes confusa até sua visão se clarear e focalizar com exatidão o lugar onde estava. Havia muitos arbustos em volta com flores que variavam do branco alvo para o púrpura vivo.

Levantou-se, pondo-se sentada sobre sua capa negra que usou para forrar o gramado onde estava deitada. Sentia partes de seu rosto, braços e pernas ardendo. A saia pregueada subiu levemente em sua coxa, foi quando percebeu que ela havia se bronzeado, afinal, Hermione caiu no sono sob o sol quente. Já devia ser por volta do meio-dia.

Mas a brisa constante que corria no alto daquela colina refrescava o calor do sol. Levantou e espreguiçou-se, andando vagarosamente até o banco antigo de pedra. Observou demoradamente o horizonte, distraindo-se com pequenos insetos e flores que voavam carregados pelo vento.

--Que engraçado.. sonhar com a primeira vez que vim aqui... Foi Shanks que descobriu esse lugar, mas.. será que ele já conhecia aqui desde muito antes?

Sentiu o estômago se contrair e só então percebeu que já deveria ser a hora do almoço. Mas não tinha nem ânimo e nem vontade de ver qualquer pessoa naquele momento. Não queria ver mais ninguém naquele dia... mas a fome começava a incomodar.

Pegou sua capa e sua mochila do chão e rumou em direção a uma muralha de árvores e arbustos, passando por uma falha que sugeria ser uma porta que dava para um outro ambiente parecido com o que ela estava. Era um jardim secreto.

Um caminho feito de pedras planas levava até um belvedere. Ali havia um gazebo, uma cabana de pedras muito parecida com a que Hagrid morava. Plantas seculares subiam agarradas pelas paredes. No telhado feito em telhas de barro, brotavam outras plantas. Em torno da pequena cabana, havia um jardim simples, mas bem cuidado, com flores que o circundava.

Hermione dirigiu-se ao gazebo, caminhando pela pequena trilha de pedras intercaladas por uma grama fina e minúsculas flores silvestres. Chegando a porta de madeira escurecida pelo tempo, girou a maçaneta em argola de ferro fundido, emburrando a pesada porta de cedro.

O gazebo era retangular e estava mobiliado com mesa, bancos, cômoda e uma cama grande de dossel de renda e organza brancas, com uma grossa colcha de linho branco esmerosamente bordado e meia dúzia de travesseiros de mesmo padrão da colcha. Nas duas grandes janelas que se postavam ao lado da porta, havia delicadas cortinas também de renda branca e organza, que permitiam a entrada da luz externa.

Hermione foi até as duas janelas, abrindo-as e deixando entrar a luz e o perfume da vegetação entorno da pequena cabana de pedras.

Extraordinariamente, tudo estava rigorosamente limpo, sem poeiras, sem teias de aranha, sem mofo ou qualquer outra fuligem. Era como se alguém ali morasse, embora aquele gazebo estivesse totalmente desabitado.

Na lareira que encontrava-se na parede oposta à porta de entrada, havia um pote de cerâmica sobre o consolo, que Hermione pegou, destapando-o e pegando uma pitada de um pó fluorescente que ali estava, jogando-o dentro da lareira.

Depois de instantes, uma elfa doméstica saía das chamas verdes que ali se formaram. Ela trajava dois panos de prato branquíssimos que formavam um tipo de vestidinho e um pequeno avental florido, também feito de pano de prato. A pequena elfa sorriu ao ver quem a havia convocado.

--Srta Hermione Granger! Quanto tempo a senhorita não vem até aqui! Karinska estava com saudades! – Falou a elfa, numa voz fina e delicada, muito diferente de como costuma ser a maioria dos elfos.

--Você pode ir me visitar quando quiser lá no Salão Comunal da Grifinória, Karinska.

--Karinska fica muito feliz com o convite da boa senhorita, mas nem sempre Karinska tem tempo disponível. Karinska pede perdão por isso, Srta Hermione Granger.

Hermione se abaixou, levando a mão sobre a cabeça da pequena elfa, que arregalou ainda mais os grandes olhos violetas para a menina. Seu rosto minúsculo se contraiu num sorriso largo.

--Você não precisa se desculpar por isso, Karinska. Eu tenho uma idéia.. poderíamos almoçar juntas aqui, o que acha?

--Karinska ficaria muito feliz, muito feliz mesmo, Srta Hermione Granger!

::::

O Salão Principal aos poucos se enchia com todos os alunos da escola que iam chegando para o almoço, saídos das aulas matutinas. Harry entrava no Salão, procurando por todos os lados possíveis para encontrar Hermione, mesmo sabendo que o único lugar em que ela poderia estar era na mesa da Grifinória.

Seus belos olhos verdes se perderam por instantes na mesa dos professores, arregalados de surpresa, seguido de um pouco de preocupação. A cadeira central onde deveria estar Dumbledore estava desocupada.

O Diretor sempre era o primeiro a chegar e o último a sair do salão na hora das refeições. Exceto nas ocasiões quando Dumbledore se afastou de Hogwarts pelos diversos motivos, ele jamais havia se atrazado para as refeições, menos ainda ter deixado de comparecer... será que havia acontecido algo de grave mais uma vez?

Como se procurasse a resposta pelos rostos dos outros professores, Harry analisou cada um e viu que todos estavam com suas expressões e atitudes normais. Nada havia ali que lhe desse alguma pista. Pelo menos não havia nada também que sustentasse a sua preocupação.

--Tá procurando algo, Harry? A sua cadeira continua no mesmo lugar desde o primeiro ano... – falava um entediado Rony, que passava por Harry naquele momento, tirando-o de suas divagações.

Harry voltou a si e foi para seu habitual lugar na mesa de refeição da Grifinória. Sentou-se ao lado de Rony, sendo que a cadeira do seu lado esquerdo estava vazia... era onde Hermione deveria estar. Ficou por alguns breves segundos fitando o lugar vazio tristemente, quando ouviu alguém chamar a sua atenção.

--Harry! Harry! A Mione não veio, né? – Neville, sentado quase em frente a Harry, chamava o amigo quase num sussurro que mal dava pra ouvir com clareza devido ao burburinho do salão.

Harry nada fez ou respondeu, apenas assentiu com a cabeça. Rony o olhava de esguelha. O ruivo ainda estava irritado com a garota e tomava o cuidado para não se irritar também com Harry, que estavam dispensando uma preocupação com Hermione que ela não merecia.

--Ela... deve estar mesmo muito aborrecida. Tantas coisas ruins acontecendo ao mesmo tempo e ainda aquela maldita detenção com aquele babaca do Snape... – a voz de Harry foi sumindo até seu olhar se perder pela superfície da mesa.

Rony inspirou profundamente, com ar indignado, controlando-se para não xingar Harry por isso. Resolveu expor o outro lado da moeda.

--Qual é Harry.. até parece que você não conhece a Mione. Não é a primeira nem a centésima vez que ela se aborrece e não vem para o almoço! Desencana, cara! Assim você até parece o namoradinho dela!

O garoto olhou com espanto para o amigo, que começava a se servir das iguarias que havia aparecido na mesa há poucos instantes. Sentiu um aperto estranho na garganta com aquela comparação... uma certa tristeza por aquilo não ser verdade. Se eles fossem mesmo namorados, ele não permitiria que Hermione sofresse daquele jeito.

Mas eles eram apenas bons amigos e, talvez, agora nem mais fossem... e como amigo, ele havia magoado aquela menina tão excepcional.. e isso poderia aniquilar todas as expectativas de ser algo a mais, no futuro.

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Hermione ajudou a postar a pequena mesa em madeira maciça que havia na extremidade da cabana. A elfa trouxe porções generosas de refeição, com os pratos que Hermione mais gosta, havia até as torteletes de maçã e o suco de morango ao leite.

A menina comia calmamente, observando a pequena elfa que era muito asseada e de bons modos, muito melhores que a maioria dos alunos com quem dividia a mesa de refeições no Salão Principal. Karinska era mesmo muito diferente, embora fosse uma elfa escrava que recusava-se ser libertada.

Algumas coisas remoíam na cabeça de Hermione. Havia algumas suspeitas que gostaria de confirmar... mas a idéia por si só era quase tão sem cabimento que ela própria não acreditava que poderia ter este tipo de dedução.

--Karinska.. por que você mantém esta cabana e toda a área do belvedere tão bem cuidada assim? Você não mora aqui, não é?

--Não, senhorita. Karinska mora junto com os outros elfos de Hogwarts.

--Então por que você cuida deste lugar?

--Porque meu mestre assim me ordenou, senhorita. O senhor meu mestre falou para manter este lugar sempre limpo e conservado.

--E quem é o seu mestre? Fala do Prof Dumbledore?

--Não, embora o Sr Prof Dumbledore seja também mestre da Karinska... mas Karinska fala de seu outro mestre, o que salvou a vida da Karinska há muitos anos atrás.

--Salvou sua vida? Quem é ele?

--Sim, Karinska estava sendo torturada por alguns alunos da escola e meu mestre interveio. Meu jovem mestre me deu até um nome.. Karinska não tinha nome, era só chamada por 'criatura' ou 'elfo'. Karinska pede perdão, mas ela não sabe o nome do jovem mestre... o meu mestre jamais falou seu nome para Karinska.

--O seu nome.. Karinska.. é russo, não é?

--Karisnka também não sabe, senhorita. Mas Karinska gosta muito do nome dela.

Hermione esboçava um leve sorriso avaliativo para a elfa, enquanto levava à boca a taça com o suco de morango.

--Você poderia me falar sobre o jovem mestre? Como ele é, onde ele está agora?

Os grandes olhos da elfa se marejaram e fitaram amarguradamente Hermione, que se retraiu com a atitude dela. A menina levou a mão ao ombro da pequena elfa, afim de consolá-la.

--Desculpe, Karinska, não queria magoá-la... você não precisa me dizer nada, se não quiser...

--Karinska não está magoada, Srta Hermione Granger. Karinska sente apenas saudade do jovem mestre. Já faz muitos e muitos anos que ela não vê seu mestre.

--Então ele foi embora e a deixou aqui?

--Karinska não sabe. O jovem mestre desapareceu de uma hora pra outra... ele era um aluno da escola. O jovem mestre não poderia abandonar a escola antes de terminar os estudos.

Hermione voltou a sua atenção ao seu prato, remexendo a comida com o garfo. Aquele lugar lhe foi apresentado por Crookshanks e havia a possibilidade de ele saber desse lugar desde sua época de aluno em Hogwarts, quando ainda não tinha sido amaldiçoado por Voldemort.

--Então me fale como ele era...?

--O mestre era muito quieto, reservado.. ele falava muito pouco, tinha um sotaque estranho. Karinska não sabe muito sobre o jovem mestre, ele não falava com Karinska. Apenas ordenou que mantivesse esse lugar sempre bem cuidado.. e falou que Karinska deveria se comportar como um ser racional e não como um animal domesticado.

--Oh! Então ele era uma pessoa que respeitava os elfos...?

--O jovem mestre era muito respeitoso, sim. O jovem mestre tinha muito garbo.. sempre parecia muito superior a todos os outros.

--E... como ele era.. fisicamente?

Não entendia o porque, mas Hermione sentiu seu coração disparar com a iminência da resposta da elfa. Por alguma razão, gostaria que esse tal jovem mestre fosse Donskoi... se ele, na época em que supõe-se que tenha se tornado um comensal, era capaz de respeitar um elfo doméstico, isso poderia significar muitas coisas, principalmente de que o imbecil do agente do Ministério havia mentido sobre Donskoi, apenas para provocá-la gratuitamente.

--Ah, o jovem mestre era muito bonito... – a elfa fez uma cara sonhadora que chegou a ser cômica. Hermione se controlou para não deixar escapar uma risada. --... ele era alto e forte para a idade, tinha olhos puxados cor de ouro e os cabelos pareciam fios de sabugo de milho...

Hermione recostou-se na cadeira, expirando de alívio e deixando escapar as risadinhas que estava contendo. Mas não ria da expressão sonhadora da pequena elfa, ela ria por causa de um grande alivio que sentia dentro do peito, como se um balão de gás tivesse murchado fazendo com que seu coração batesse livremente.

Crookshanks sempre fora muito doce. Essa característica não poderia vir de alguém com a alma tão mergulhada nas trevas.

Como o Prof Dumbledore falou, "as perspectivas se tornam mais otimistas com a mente limpa e rejuvenescida". As coisas não poderiam ser tão ruins como pareciam, não poderiam! Isso seria injusto demais...

E ouvindo seu coração que pulsava aliviado, ela queria, mais que tudo no mundo neste momento, que o pobre rapaz animago tivesse a sua segunda chance. E se o próprio Prof Dumbledore estava ao lado de Donskoi, algo de bom deveria existir nele.

Medo é uma forma de auto-preservação, embora algumas vezes seja infundado. E todos merecem a sua segunda chance...

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 Fim do Capítulo XXI – continua...
By Snake Eye's - 2004
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N/A: "Tradução" »» Prosrat' = Perder. Usado se a coisa está perdida ou o jogo.

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