sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Animago Mortis - Capítulo XX – Verdades Que Ferem

Animago Mortis
Capítulo XX – Verdades Que Ferem

Na sala de Dumbledore, preparavam-se os últimos acertos para a partida de Nicolai.

--Severus, você irá auxiliar Minerva no que for necessário enquanto eu estiver ausente. Mas não se preocupe que estarei retornando até o final do dia. – Instruía Dumbledore.

--Certamente, senhor.

Sentindo-se com se estivesse indo para sua própria execução, e até talvez fosse mesmo, Nicolai, muito desanimadamente, pega sua valise e avança pela saída da sala, sentindo o ar dali de dentro rarefeito. Não que ele quisesse apressar sua partida, mas sentia-se enjoado por estar respirando o mesmo ar que aqueles sujeitos do Ministério.

Havia dado apenas três passos quando um dos agentes o interrompeu com um sorriso que lhe pareceu asqueroso.

--Eu carregarei isso para você, rapaz.

--Oh, muito obrigado, 'senhor', mas não sou nenhuma mocinha. Posso muito bem fazer isso.

--Quer dizer que agora fala a nossa língua, Sr Donskoi?

--Pois é, aprendi nesses quinze minutos da conversinha fiada de vocês.

--Veremos se manterá essa arrogância por mais tempo, garoto! – um outro agente se aproximou e retirou à força a valise das mãos de Nicolai, que apenas dirigiu-lhe um sorrisinho afetado.

--Por que a paranóia? Acha que tem uma serra elétrica ou uma picareta aí dentro?

--Cale-se e me mostre suas mãos!

Enfadado, Nicolai levantou as mãos, mostrando as palmas para o agente que parecia ser o mais estressado do quarteto. Estava com uma das sobrancelhas arqueada e o mesmo sorriso afetado no rosto.

O agente que ordenou que o garoto mostrasse as mãos, puxou sua varinha, apontando-a para os pulsos de Nicolai.

--Al-liğāma!

Raios prateados saíram da varinha envolvendo os pulsos de Nicolai, que se sobressaltou e tentou afastar as mãos sem conseguir. Sentiu algo frio e incômodo apertar-lhe os pulsos. Quando a leve névoa acinzentada se dissipou, em seu lugar ficou um sólido par de algemas de metal. O garoto mirou novamente o agente que tinha um sorriso nojento. Havia uma mistura de ódio e amargura nos olhos dourados de Nicolai.

Dumbledore interveio em tom de indignação. Até mesmo Snape demonstrava sua surpresa e descontentamento com a atitude dos agentes.

--Acha mesmo que é necessário algemar o garoto? Não percebem que ele está disposto a colaborar com o Ministério, afinal é a vida dele que está em jogo.

--São as novas medidas adotadas pela Secretaria de Segurança do Ministério, Sr Dumbledore. Afinal, não queremos nenhum acidente estranho no caminho ou um gato fujão. – O agente que havia algemado Nicolai, termina suas palavras com um largo sorriso de escárnio. Se olhar de ódio matasse, ele e os outros agentes estariam estatelados no chão neste momento apenas com os olhares de Snape e de Nicolai.

Nicolai sentia-se humilhado. Baixou a vista novamente para seus pulsos, olhando com ódio a reluzente algema que os prendia por uma curtíssima corrente. Sentia-se ainda mais fraco do que já estivera desde que despertou na tarde de ontem... certamente aquele maldito artefato anulava seus poderes mágicos.

Desta vez decidira de uma vez por todas a sua estratégia. Jogaria sujo, se necessário, mas preferia morrer a perder para o Ministério. Uma humilhação na vida já bastava, a ter sido submetido às ordens de um bruxo impuro como Voldemort... não aceitaria a humilhação de seres ainda mais inferiores que aquele maldito.

::::

Hermione caminhava lentamente pelos corredores vazios da escola. A essa hora, todos os outros alunos estavam em salas de aulas. Ia remoendo pelo caminho as palavras de Rony, principalmente o que ele falara sobre Harry... aquilo fora realmente um choque.

Aquelas grosserias de Rony era até típico do garoto, sempre revoltado com alguma coisa, com um temperamento muito explosivo, embora jamais admitirá que aquelas palavras também lhe eram algo normal.. não, isso não era. Ele disse com muita convicção que ela era cruel, mesquinha e hipócrita! Ela era hipócrita?! Mesquinha??! Isso só aumentava a sua enxaqueca.

Mas ao se lembrar sobre o que ele falou de Harry, controlou-se para não chorar. Jamais imaginou que até mesmo Harry falava mal dela pelas costas. Ela riu. Realmente era arrogante e presunçosa. Acreditava tão veemente que conhecia muito bem seus amigos que nunca questionou o contrário... não, definitivamente, ela não conhecia seus amigos.

Parou e recostou-se no parapeito das muitas janelas que começavam logo após a curva do corredor. Levou os dedos às têmporas, massageando-as com vigor. Parecia que sua cabeça ia explodir de tanta dor. Deveria ter obedecido de imediato a professora e ido direto à enfermaria ao invés de tentar escapar para os jardins, onde, sabia, teria muito mais tranqüilidade para pensar ou esquecer.

Ouviu passos. Apenas parou momentaneamente sua massagem nas têmporas e abriu com dificuldade os olhos, pois a claridade naquele corredor intensificava ainda mais a dor. Provavelmente era Filch, o zelador, que já havia farejado algum aluno fora de aula, no caso, ela própria. Pouco importava o que ele iria dizer... fora ordem da própria McGonagall de ela estar fora de sala.

Na verdade, qualquer coisa importava muito pouco neste momento. Tudo que queria era que essa maldita dor desaparecesse e junto, se possível, desaparece toda a escola e seus habitantes. Se ela era mesmo uma mesquinha como afirmara Rony com tanta convicção, que seja então! Tudo que importava no momento ela era própria e todo o resto que fosse para o inferno!

Argo Filch apareceu ao virar a esquina do corredor para o corredor principal que dá acesso à porta de entrada do castelo. Com um sorriso sádico no rosto e olhos de um lunático, o velho zelador se deleita ao encontrar um aluno tão especial cabulando aula.

--Ora! Mas que dia agitado está sendo hoje! O que faz a aluna exemplar matar aula e ficar passeando pelo castelo?

Hermione apenas olhou de esguelha para o zelador, dando de ombros. Sua dor de cabeça era bem mais incômoda. Fechou os olhos por instantes e viu um formigamento de luzes por sob as pálpebras, quando ouviu Filch se afastando em direção à entrada quando novos passos incidiam pelo corredor.

Achou melhor tratar de se retirar daquele local. Decerto eram alunos que saiam das aulas, pela hora. A última coisa no mundo que queria agora é ver a cara de um conhecido. Pegou a mochila que havia colocado no chão apoiada em sua perna e levou-a ao ombro. Já saía em direção à porta principal quando ouviu uma voz grave de homem chamar-lhe.

--Hermione.. não deveria estar na aula de Minerva? O que faz aqui a essa hora? – Dumbledore lhe perguntava inocentemente, mas havia preocupação em seu rosto. Não deveria ter ninguém ali naquele momento, muito menos ELA!

A garota olhou por sobre o ombro, com surpresa, e viu um Dumbledore de feições sérias, preocupado. Quando sua vista focalizou as outras pessoas que vinham logo atrás do Diretor e que acabavam de dobrar o corredor, sentiu seu sangue gelar e o coração falhar em uma batida.

Virou-se por completo. A garganta seca. Não queria ter mais esse assunto para se lembrar. Queria esquecer de todo mundo e passar a ser preocupar apenas consigo. Não queria se lembrar dele. Não queria se lembrar daquele encontro ocasional na noite passada e ter perspectivas enganosas. Não queria lembrar que se importava com ele.

Tudo, menos isso.

O perfume singelo pairava no ar e apenas alguém que conhecesse bem aquela fragrância de lírios poderia perceber. Nicolai vinha cabisbaixo pelos corredores, tentando manter-se alienado de todo o resto. Sentia-se miserável. Se for essa a intensão dos homens do Ministério, eles haviam conseguido. Aquelas algemas lhe pareciam uma alusão dos vinte anos que passou trancafiado na forma animaga... uma piada de péssimo gosto.

E agora, aquele perfume... tudo, menos isso.

Parou de súbito às costas de Dumbledore, que mantinha-se rijo, fitando algo a sua frente. Olhou mais adiante na esperança de constatar que era apenas sua imaginação, que não estava sentindo o perfume dela, que ela não estava ali. Não queria que ela estivesse ali. Não queria que ela lhe visse nessas condições. Não queria que as coisas se tornassem ainda piores.

Sua respiração falhou de imediato. O coração idem. Hermione estava ali, naquele corredor, por onde ele irá passar, passar por ela. Ele com aquelas algemas sendo subjugado por aqueles bonecos do Ministério, sendo tratado como um criminoso vil...

Parecia uma eternidade que os olhares confusos de ambos se perderam dentro um do outro. Mas não fora uma eternidade, infelizmente. Comentários maliciosos e murmurados chamaram sua atenção de volta à situação real do momento.

--...gracinha! Na minha época não tinha dessas aqui!

--...e cabulando aula. Deve ser dessas gostosas e fáceis!

--Dumbledore chamou-a de Hermione?

O agente mais velho aproximou-se do velho diretor, apontando para a garota.

--Essa aluna é a tal Hermione Granger?

--Sim, é a Srta Granger.

--Então você é a garota do 'Sábado trágico em Hogsmeade'. Teve muita sorte, menina. Você vem de família não-mágica, não é?

Hermione fitou o homem com um olhar indignado. Quem ele pensava que era para chamar-lhe de 'tal'? E o que interessa a ele a sua origem? A indignação deu lugar à raiva. Pelas vestimentas dos quatro homens, certamente eram agentes do Ministério.

--Por que esse interesse na minha origem? Se o senhor é do Ministério, procure a minha ficha por lá e descubra por si próprio. – A cabeça doía demais para ser educada com um estranho que se mostrou muito desagradável logo de cara.

Nicolai não fez qualquer esforço para conter sua risadinha sarcástica, principalmente quando viu que o sujeito ficou desconcertado com a resposta malcriada de Hermione. Os outros dois agentes se remexeram um pouco nervosos, enquanto o outro se preocupava em conter uma risada. Pelo visto, os agentes não eram assim tão unidos como poderiam dar a impressão de serem.

O homem que havia indagado a menina, olha por sobre o ombro pra Nicolai, ao ouvir sua risada, sentindo o sangue ferver e subir a cabeça com a expressão de deboche do garoto. O que mais detestava no mundo era esses marginais arrogantes e debochados. E para se destruir a arrogância de alguém, basta imputar-lhe humilhações até que entendam qual exatamente é o seu lugar.

Virou-se novamente para Hermione, agora com uma expressão mais branda, porém com um irritante sorriso zombeteiro. Percebeu que Dumbledore se aproximava da menina, passando-lhe o braço pelos ombros dela. Ele era um velho muito esperto e já havia percebido as intenções do agente e procurava uma forma de afastar a menina dali.

Pior que um marginalzinho arrogante e debochado, certamente era um sangue-ruim... e ali estava servido um prato-feito de bandeja.

--A Senhorita estava indo pros jardins, não? Não se incomodaria de ser acompanhada por um velho gagá, sim? – Perguntava Dumbledore, com seu sorriso típico.

--N-não, claro que não, mas é qu...

Dumbledore praticamente arrastava a menina para a direção da grande porta de carvalho da entrada do castelo. Hermione sentia-se um pouco atordoada, a enxaqueca a anuviar-lhe o raciocínio... naquele momento estava preocupada com Nicolai. Ele estava sendo levado pelos homens do Ministério e poderia nunca mais voltar. Sentia que deveria falar-lhe algo... talvez sua porção Crookshanks esperava por isso.

Nicolai sentiu-se aliviado. Dumbledore era mesmo muito perceptivo. Era claro que apenas a visão de Hermione lhe era muito confortante como um bálsamo, mas não queria que ela lhe visse nessas condições. Não queria que ela lhe visse algemado. O medo que viu em seus olhos na noite anterior não saía de sua cabeça... o medo que ela tinha era dele... e ele ainda falara demais, sem poder.

--Se a mocinha vem mesmo de uma família não-mágica, deveria tomar cuidado redobrado com suas amizades no mundo bruxo, senhorita.

Hermione pára perante as palavras do agente e o olha de esguelha, com um misto de curiosidade e aborrecimento. Dumbledore preferia fazê-la sair dali o quanto antes, mas já não havia mais tempo.

--Agradeço a preocupação, senhor, mas eu sei muito bem com quem ando.

--Sabe mesmo? Uma mocinha como você não deveria andar na companhia de bruxos remanescentes das trevas, poderia ser letal para você...

A garota dá um sorriso afetado, a raiva e a dor de cabeça cada vez mais forte. Quanta petulância daquele homem horroroso em se meter em sua vida!

--Meus amigos podem ser todos uns cabeças-ocas, mas nenhum deles são assim tão estúpidos para seguirem pelas trevas.

--Ah, é mesmo? Nenhum deles? E o seu gato de estimação? O que me diz dele?

--Cale a boca, seu imbecil! O que pensa que está fazendo?! – Nicolai sussurra com raiva para o agente, que o olha de lado, com a raiva redobrada.

--Cala a boca? Imbecil? Com quem pensa que está falando, vagabundo?!

Hermione sente um tremor da cabeça aos pés ao ouvir o nome de Crookshanks. Ela não esquecera do que Donskoi falou na noite passada, de ter sido amaldiçoado por Voldemort. E os sonhos em que ela o ajudava a matar Harry vieram à tona em sua mente perturbada.

O agente se virou novamente para a garota, que havia se desvencilhado do braço de Dumbledore e havia se aproximado um pouco mais daquelas pessoas. Nicolai a olhava aturdido, já pressentindo o que poderia vir dali. Por que todas as coisas ruins teimam em acontecer simultaneamente?! Por que diabos Hermione tinha que estar ali, justo nesse momento?!

--Que conversa mais besta é essa? Como agente do Ministério, o senhor está a par de que Donskoi era o Crookshanks... aonde o senhor quer chegar com essa insinuação?

--Oh, você até que é esperta... então deve saber que o seu ex-gato de estimação é um dos seguidores de Você-sabe-quem, um Comensal da Morte... uma mocinha nascida trouxa como você tem que tomar muito cuidado com quem anda.

-- STYERVO! IDI NA KHUY! SVOLOCH'! – Nicolai avançava furiosamente para cima do homem, mas foi facilmente detido pelos outros agentes. As algemas não apenas bloqueavam seus poderes mágicos com também reduzia muito a sua força física.

--Fique calmo! Ele tá fazendo isso pra te provocar, não percebe? – O agente que havia sufocado uma risadinha com a resposta malcriada de Hermione, murmura ao ouvido de Nicolai, que estava desesperado.

Hermione sentiu-se no vácuo. Um turbilhão de imagens e sons rodopiava violentamente em sua cabeça. A enxaqueca parecia atingir seu apogeu. Como uma auto-flagelação, lembrou-se de todos os segredos e pensamentos que havia dividido com Crookshanks. Lembrou-se do sonho da noite passada... o corpo inanimado de Harry jogado sobre uma lama de sangue...

"--É isso sim, Hermione. A idéia é essa, afinal. A Animago Mortis é uma maldição imperdoável, uma grande tortura psicológica. Voldemort não me pouparia disso." Voldemort não o poupara de uma grande tortura... então era isso... Donskoi era um comensal que vacilou com Voldemort...

Então, isso poderia significar uma coisa...

...Ele querer se redimir perante seu mestre... e ela era próxima o suficiente de Harry... o maior objetivo de Voldemort

--...tenha a mais absoluta certeza de que Fudge ficará sabendo desse seu comportamento extremamente anti-ético! E o senhor terá que provar diante do tribunal que sua acusação tem fundamento sólido, pois esteja certo que eu próprio o processarei por calúnia e difamação, no mínimo!

Os devaneios de Hermione foram interrompidos assim que se deu conta do tom autoritário e encolerizado de Dumbledore. Viu como o tal agente parecia encolher diante da voz rígida, porém branda do Diretor.. ela própria sentiu um leve tremor com a áurea de certa ira que parecia emanar dele.

Seus olhos encontraram os de Nicolai, que expressavam uma imensa desolação e angústia... tão diferentes estavam da noite anterior. Seu coração se comprimiu dolorosamente ao sentir o desalento do rapaz... ele estava sozinho, talvez sequer houvesse uma família para acolhê-lo... sozinho, de uma forma que ela jamais esteve...

Balançou com raiva a cabeça, para espantar aquelas idéias. A desolação dele poderia ser muitas coisas. É óbvio que ele estava dessa forma, pois finalmente iria sofrer sua punição pelos crimes que cometeu em nome de Voldemort. Até mesmo Peter Pettigrew pareceu totalmente desolado quando ele foi revelado diante de todos naquela noite dentro da Casa dos Gritos... naquele momento ele se mostrava digno de compaixão, embora fosse um assassino frio e miserável!

Voltou a si novamente ao ter a impressão que Donskoi lhe havia sussurrado um 'perdão' com a voz totalmente desprovida de vivacidade. Olhou para trás e viu que os quatro agentes e o rapaz saiam pela porta indo em direção a uma grande carruagem parada diante da entrada do castelo. Dumbledore ainda permanecia parado ao seu lado, observando os homens saírem.

O Diretor voltou-se para Hermione, que parecia atordoada, confusa. Ele a olhou seriamente por longos segundos, como se a avaliasse. Levou a mão à cabeça da menina, que só então percebeu que o Dumbledore ainda lhe fazia companhia. Olhou-o em seus olhos de azul-água com receio.

--Faça o que Minerva lhe ordenou, querida. Descanse. Descanse muito. Há muitas coisas dentro dessa cabecinha que precisam de tempo para se ajustarem e se clarearem. Por mais tentador que seja, não tire conclusões precipitadas. Nós iremos resolver tudo da melhor forma possível.

Hermione ainda o fitava nos olhos, processando todas as palavras do velho mago. Sentiu-se estranhamente confortada, mas não conseguia sequer esboçar qualquer palavra e havia tanto que queria perguntar...

--Descanse, criança... as perspectivas se tornam mais otimistas com a mente limpa e rejuvenescida.

Dumbledore retirou-se em direção à saída. Ficou vendo-o entrar na carruagem e manteve-se estática naquele lugar até ver o carro partir. Abraçou com força sua mochila, deitando o queixo sobre ela. Manteve os olhos cerrados por instantes e apenas fitou o escuro sob as pálpebras... sua mente havia chegado ao seu limite...

Ela precisa descansar e muito. Precisava de nova energia, forte e revigorada. Havia muita coisa para entender, para assimilar, para aceitar...

Voltou a seu caminho rumo aos jardins do castelo. Lá fora em meio a relva e o sol quente havia um lugar especial que era seu refúgio fora daquele castelo. Um refúgio para libertar um pouco sua mente da pressão e que agora havia muita. Poderia ficar tranqüila naquele lugar, pois sabia que ninguém a perturbaria, pois a única pessoa que sabia de tal refúgio acabava de ser retirada daquele castelo.

E saiu levando consigo um único alívio: o de que não havia ninguém naquele momento para ouvir aquela provocação do agente do Ministério... ao menos era o que pensava.

Escondido atrás de uma das pilastras na esquina do corredor, um garoto encontrava-se agachado, abraçado ao próprio corpo trêmulo.

--...coitada da Hermione! Harry precisa saber disso!

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Fim do Capítulo XIX – continua...
By Snake Eyes – 2004
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N/A: Uau! Recorde! 14 páginas em formatação normal! Enrolar dessa forma num lengalenga desgraçado deve ser dom, não é possível! :-/)

Traduzindo: "al-liğāma" é a palavra árabe de onde se originou a palavra portuguesa "algema".

Traduzindo os palavrões (mas se vc encontrar um russo na rua, NÃO vá testar as palavras nele, valeu?!):
Styervo - suínos, trapaceiro, salafrário
Idi na khuy - Vá para inferno
Svoloch' – bastardo

Ô garoto desbocado!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Animago Mortis - Capítulo XIX – Amigos, amigos. Negócios à parte.

Animago Mortis
Capítulo XIX – Amigos, amigos. Negócios à parte. 

N/A: Haverá alguns diálogos em que Nicolai falará na sua língua pátria, o russo. Então esses diálogos em russo estarão representados por dois pares de colchetes = [[...diálogo...]]. Sei que não é uma idéia original, mas foi o melhor que me ocorreu. Não esperavam que eu escrevesse isso em russo, não é? Bem, só os palavrões, heheh -_-,
Argo Filch, o zelador de Hogwarts, se apressou pelo corredor principal em direção à grande porta de carvalho da entrada do castelo. Do lado de fora havia quatro homens de idades e aparências variadas. Todos trajando ternos e sobretudos escuros, apesar do calor de fim de Verão.

--Bom dia, senhor. Somos agentes especiais do Ministério. Viemos resolver um assunto com o Diretor Dumbledore.

::::

Hermione ia apressada para as escadarias, rumo à próxima aula que seria de Transfiguração. Desviava-se automaticamente dos muitos alunos que também circulavam por ali naquela hora, entrando ou saindo de outras salas. Rony ia a seu encalço, tentando se desculpar pelo o que aconteceu.

--Droga, Mione! Eu já pedi desculpas! Claro que eu não tive a intensão de provocar o Snape para aumentar a sua detenção! Saiu sem querer...

A garota parou abruptamente, ruborizada pela raiva. Em sua mente apenas iam os cálculos de seus dias e horários... seis horas a menos por semana por causa da maldita detenção! Isso é quase todo o seu horário vago para descansar a mente dos estudos!

--Sabe, Rony, é esse o seu mal! – Falava com certa amargura na voz, mas sem se virar para o garoto. --O seu grande problema é falar demais! Há hora certa para a indignação também, sabia?!

--Aaah, por Merlin, Mione! Como acha que eu ia adivinhar que Snape ia fazer essa sacanagem! Aquela detenção dele foi traíra! Fiquei puto com aquilo e reclamei mesmo! Mas fiz isso por você!

--Ah, claro, Rony! Agradeço muito a sua solidariedade! Vou me lembrar disso nas próximas seis semanas!

--Quer saber de algo? Você é muito ingrata, Hermione! Toda vez que me preocupo com você e tento fazer algo em seu benefício, você me vem com essas ceninhas! Ainda não esqueci daquele tapa, ouviu?!

"--Ingrata? Ele disse 'ingrata'?!... Calma, Hermione, não vá explodir, a situação só vai se complicar! Calma, calma..."

Hermione virava-se para Rony que a olhava de forma desafiadora. Ela controlava-se para não perder a linha agora diante de todos... controlava-se para não desabar e chorar, pois é isso que queria: chorar até secar completamente suas lágrimas.

--Você acredita mesmo nisso, não é Rony? De que eu que sou a grande vilã má que desdenho da preocupação dos meus amigos.. sou má por não tolerar a falta de respeito de vocês...?

--É, é isso mesmo, Srta Granger! Você é má, é cruel! E tem se tornado uma mesquinha e hipócrita! Só pensa em si mesma! Se acha muito superior, não é? Tanto que nossas opiniões não importam em nada pra você!

Rony permanecia estático de braços cruzados sobre o peito e queixo erguido. Seus olhos castanhos exprimiam o tamanho desprezo que sentia pela menina naquele momento. Hermione não suportou sustentar as palavras e toda a expressão do ruivo, mas, heroicamente, não permitia sequer que seus olhos se marejassem. Chocada, deixou seu olhar se perder da face endurecida de Rony para o chão de pedras polidas.

--Eu não acredito que você tenha dito isso! Não acredito que você pense realmente assim, Ron...

Hermione levantava seu olhar para frente surpresa e Rony virava-se quase num sobressalto com a voz grave e amarga que surgia as suas costas.

--Qual o teu problema, Ron? Por que magoar a Mione desse jeito? Cara, nem dá pra te reconhecer assim!

--Harry?! Ah, qual é, não vem com essa agora, não! Virou duas-caras também? Até parece que você não tem a mesma opinião!

--NÃO! NÃO ISSO! E VOCÊ SABE MUITO BEM!

--Não? Não foi você quem disse que Mione tinha se tornado ainda mais arrogante depois que virou Monitora no nosso quinto ano? E que já foi mais fácil de conviver com ela?

Definitivamente, o mundo caiu para Hermione. Ela olhava atônita para os dois garotos. Rony mantinha a pose austera e falava calmamente com um Harry que se tornou estupefato com a alcagüetagem do amigo. Seu olhar se perdeu de novo para o piso. Alguns fios de cabelo lhe caíram ao rosto e ela levou a mão para prendê-los atrás da orelha quando começou a rir baixinho.

Levantou sua cabeça e olhou na direção de Rony e Harry, que a olhavam intrigados com a sua risada. Alargou o seu mais belo sorriso para ambos. A face rubra e o brilho extra nos olhos pelas lágrimas que se formaram levemente, mas que ela não permitiu que caíssem.

--Então vocês pensam em mim quando não estou? Falam sobre o que me tornei e sobre o meu comportamento? Ficou feliz em saber, sério! Achei que jamais seria assunto numa conversa de garotos...

Hermione girou em seus calcanhares e alcançou a escadaria correndo rumo à sala de Transfiguração. Desapareceu rapidamente em instantes entre a multidão de alunos que circulavam por ali. Harry e Rony a observaram até que desaparecesse de vista. Ambos estavam com expressão abobada.

--Caraca! Agora a garota endoidou de vez!

Herry meteu uma cotovelada nas costelas de Rony, que se inclinou de lado com a dor.

--Porra, Harry! Pirou também, é?!

--CALA A BOCA, RON!

Harry seguiu o mesmo caminho de Hermione, rumo à aula de Transfiguração. Seus olhos faiscavam e seu sangue fervia nas veias, mas controlava-se furiosamente para não espancar Rony ali naquela hora. Rony, pensava Harry, tinha muita sorte; se fosse qualquer outro, o ruivo já estaria na enfermaria.



-- Arf! Essa sensação de novo!?

Nicolai levava a mão ao peito com uma sensação de choque. Ao sentir a garganta travar com uma súbita angústia, teve a certeza do que se tratava aquela sensação desagradável que parecia congelar seu coração.

--O que houve, Nicolai? Sente-se mal? – perguntava Dumbledore, sentado a sua escrivaninha, desviando seu olhar de um maço de papéis que segurava nas mãos.

--Não, quer dizer... preciso dar uma saída, professor! Preciso ver o que aconteceu com a...

--Outra hora, Nicolai... Prof Dumbledore, esses 'senhores' são do Ministério e estão aqui para você sabe o quê. – Falava entediado com um desdenho visível na voz, entrando no escritório do Diretor acompanhado dos quatro agentes.

--Khu'in'a! Khu'in'a! Khu'in'a! – Nico sussurrava com raiva, socando uma pilastra próxima e virando-se para outro lado. Hermione precisava de acalanto e absolutamente nada ele podia fazer! Maldita Animago Mortis! Continua sendo uma maldição mesmo quando termina!

::::

Hermione ajeitava-se na primeira fila de carteiras, sentando-se justamente em frente à cátedra da Profª McGonagall. Ao menos ali sabia que nenhum de seus ex-grandes amigos ficaria. Estava ofegante pela corrida nas escadarias e principalmente por conter seu pranto, desfrutando agora de uma enjoada e forte dor de cabeça.

Tinha consciência de estar totalmente ruborizada por causa de sua raiva e mágoa, então, tentava a todo custo, esconder-se atrás do livro de Transfiguração que acabava de tirar da mochila. Alguns alunos mais curiosos a fitavam de longe. Lilá e Parvati cochichavam furtivamente sem desviar o olhar da pobre menina.

Ao entrar em sala, o olhar da professora recaiu diretamente sobre Hermione, que estava comportando-se de forma estranha, estava acuada. Observou por breves instantes a menina, tirando algumas conclusões, mas nada disse ou perguntou. Seria melhor resolver algum problema após a aula, com a sala vazia.

Harry entrava logo em seguida, acompanhado de duas outras alunas que chagavam atrasadas. Rony entrou um pouco depois. Seus olhos se desviaram no mesmo instante que avistou Hermione, procurando por um lugar vago no fundo da sala, bem longe da garota.

Harry procurou por uma cadeira vaga próxima à Hermione, mas todas já estavam ocupadas. Ignorando o olhar impaciente da professora que detestava que alunos chegassem depois dela na sala de aula, aproximou-se rapidamente da garota, que não desviou o olhar do livro.

--Mione, precisamos conversar! Não acredite no que o idiota do Rony falou! O problema é que ele anda estressadinho demais!

--Potter! Além de chegar atrasado quer atrasar também a aula? Há uma carteira vazia no fim dessa fileira! Sente-se imediatamente e pegue seu material.

Conhecendo a severidade da professora, Harry obedeceu de imediato. Hermione sequer desviou os olhos do livro ou disse qualquer palavra, mas não conseguiu conter uma risadinha quando o moreno se afastou. Largou o livro sobre a mesa e se recostou na cadeira, levando as mãos à testa, massageando-a por causa da enxaqueca, mas mesmo assim ainda ria baixo... ria para não chorar.

--Hermione, sente-se bem, filha? – Perguntava num sussurro a professora que lhe dirigia um olhar preocupado.

A menina erguia os olhos em direção à professora, dando-lhe um sorriso.

--Estou bem, sim, professora.. não é nada de mais.

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--Suponho que o rapaz seja o tal animago que viemos buscar, certo Sr Dumbledore? – Perguntava um dos agentes com ar blasé, apontando desdenhosamente para Nicolai que permanecia parado de braços cruzados sobre o peito, próximo à escrivaninha do Diretor, que se levantava naquele momento.

[[--Oh, que brilhante dedução! Não é de se espantar que o Ministério inglês seja o que é com bruxos com esse QI!]] – Nicolai falava entre os dentes num tom aborrecido de escárnio. Falou em russo, a sua língua pátria, atraindo olhares reprovadores dos agentes e uma risadinha furtiva de Alvo e Snape.

--O que foi que ele disse? – perguntou um agente mais velho, enojado.

--Oh, desculpe, senhor, eu também não entendi. Nicolai ainda está se adaptando à forma humana e a linguagem é a mais difícil de se reaprender. – Respondia o Diretor, sem conseguir disfarçar o sorriso de deboche.

[[--Ostokhuitel'no! Quer dizer que os nobres agentes do Ministério não sabem russo?! Lamentável! Suponho que precisarei de um interprete... o que acha Severus, de servir de tradutor pros caras?]] – Nicolai se divertia com as caras de perplexidade que os agentes faziam com cada palavra que proferia.

[[--Lamento, garoto, mas não posso me afastar de Hogwarts. Além disso, acho que um comensal auxiliando o outro não lhe ajudaria muito...]] – Snape parecia também se divertir com as caras dos agentes.

--Muito bem, vamos parar com essa conversinha fiada, senhores. Nosso tempo é curto e precisamos resolver logo esse problema. – O mais velho dos quatro agentes já demonstrava toda a sua impaciência com a situação. Aproximou-se arrogantemente de Dumbledore, que continuava a olhá-lo de forma calma e sorridente.

--Concordo. Quanto antes resolvermos isso, mais cedo nosso jovem Donskoi voltará para Hogwarts. Ele ainda tem um ano letivo para completar.

--Não contaria muito com isso, Sr Dumbledore, mas enfim... suponho que Hogwarts representará a defesa do rapaz.. ou teremos que indicar um advogado do próprio Ministério?

--Mais uma vez, supôs certo, senhor. Hogwarts está a favor do rapaz e eu próprio farei sua defesa.

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A aula transcorria normalmente na mesma rotina, assim como era durante os últimos seis anos. Mas as palavras de Rony ainda martelavam dolorosamente na cabeça de Hermione, só fazendo sua enxaqueca aumentar. Tentava se concentrar na aula, mas, assim como na aula de Poções, não conseguia manter a atenção necessária, fazendo com que cometesse um erro bobo pela segunda vez no mesmo dia.

Deveria transformar sua maçã numa macieira em miniatura, num bonsai, e tudo que conseguiu foi fazer a maça apodrecer até virar pó sobre sua mesa. Soltou um gritinho involuntário de frustração, jogando com força sua varinha sobre a mesa.

O gritinho, por mais mínimo que tenha sido, atraiu a atenção de alguns alunos. Enquanto a maioria a olhava com incredulidade, duas garotas deixavam escapar risadinhas debochadas. A professora aproximou-se da mesa de Hermione e olhou preocupada do resto da maçã sobre a mesa para o rosto avermelhado da menina, que tinha os olhos rasos d'água e as sobrancelhas vincadas.

--Hermione, pegue suas coisas e vá para a enfermaria imediatamente. – Hermione sentiu o sangue gelar quando a professora iniciou a frase, pensou que seria mais uma detenção.

--Eu estou bem, professora. Eu não posso perder essa aula, talvez eu não tenha tempo de recuperá-la depois!

--Eu quero que você fique melhor, querida. Pegue suas coisas e vá descansar um pouco.. você está precisando. – McGonagall sussurrava de forma que apenas Hermione podia ouvir.

A menina deu-se por vencida, assentido com a cabeça. Juntou seu material dentro de sua mochila de brim azul e saiu da sala cabisbaixa, atraindo a atenção de todos na sala, formando um burburinho de especulações entre os alunos. Harry sentiu seu estômago se contorcer, dando-lhe uma sensação de náusea. Sabia que isso era parte de sua culpa.


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Fim do Capítulo XIX – continua...
By Snake Eye's - 2004
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N/A: Os cap 19 e 20 são, na verdade, apenas o cap 19. Como esse cap ficou com 14 págs na formatação normal, achei que seria melhor dividi-lo em dois. Se é pra ser algo massante, que pelo menos seja parcelado.
E peço desculpas ao pessoal que já perdeu a paciência com a fic, mas, a minha narrativa é lenta mesmo... sorry!

Traduzindo os palavrões (mas se vc encontrar um russo na rua, NÃO vá testar as palavras nele, valeu?!):
Khu'in'a – expressão de descontentamento quando algo sai errado, tipo o nosso "droga" ou o similar mais pesado, se assim preferir.

Ostokhuitel'no - muito bom, excelente (no sentido de ironia – pelo que eu entendi...)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Animago Mortis - Capítulo XVIII – Presentes & Punições

Animago Mortis
 Capítulo XVIII – Presentes & Punições

Em seu aposento emprestado, Nicolai arrumava-se com as vestimentas arranjadas pela Profª McGonagall. A calça de corte reto e pernas um pouco largas lhe caíram perfeitamente, como se tivessem sido confeccionadas exclusivamente para si. Mas antes de vestir o balandrau, com o peito ainda nu, detém seus olhos em seu antebraço esquerdo, onde deveria estar a marca negra.

Não havia nada ali. Sua pele estava totalmente limpa, sem qualquer mancha que denunciasse que algum dia ali existiu aquela tatuagem horrenda de uma serpente que saía da boca de um crânio... será que ao vencer a maldição, ele não apenas se libertou da Animago Mortis, mas também se libertou de Voldemort?

Ouviu dois toques na porta, ao qual ele permitiu a entrada de quem havia ali batido. Snape adentrava o quarto, encontrando Nicolai com uma expressão séria e preocupada, mas que preferiu ignorar por ora.

--Mandarei servir o café da manhã... tem alguma preferência com o que quer comer? Uma tigela de leite ou um pedaço de peixe cru, talvez? – Snape dirigia um sorrisinho sarcástico ao garoto.

--Ha-há, muito engraçado... – sem ânimo sequer para forçar um sorriso falso, Nicolai virava-se para sua cama, onde repousava a sua vestimenta.

--Preocupado com o Ministério?

--E eu não deveria estar? – respondeu secamente, sem ao menos virar-se para Snape.

--Você não precisa passar por isso, Nico... podemos dar um jeito de você desaparecer.. aqueles tapados jamais descobririam o seu paradeiro...

--Já pensei nisso... o que eu deveria fazer? Me esconder numa mansão podre que nem o Black e acabar sendo morto da mesma forma?

--Você poderia voltar para a Rússia, poderia voltar para Lentz, para sua casa...

--Esqueceu-se que sou um paria, Severus? Meu avô expulsou aos meus pais e a mim da família.. sequer posso usar meu sobrenome dentro do território russo. Acha que a minha família me aceitaria de volta? Se é que ainda existe alguém vivo...

--Existem outros lugares nesse mundo, garoto...

--Não, obrigado.

--Mesmo que você seja absolvido, e até acredito que será, o Ministério não entregará a sua liberdade assim, de bandeja. É muito provável que aqueles crápulas o mantenha preso de alguma forma... acha mesmo que aquela garota vale isso, Nicolai?

--"Aquela garota", Severus, vale a minha vida.. e a do mundo inteiro. Desde que ela esteja bem e eu tiver a mínima chance, todo o resto que se exploda!

Jogando o balandrau por sobre o corpo e encarando mordazmente o velho amigo parado à porta, Nicolai termina de se arrumar e sai do quarto em passos decididos, passando por Snape e dando-lhe um sorrisinho afetado.

--Vamos ao café. E nada de leite. O meu veterinário falou que não se deve dar leite para gato adulto...

....

Após o café, Harry é escoltado por Hermione e Rony até a enfermaria. Apesar de ter se alimentado direito e da alegria de estar novamente bem com sua amiga, o garoto ainda apresentava o cansaço da noite mal dormida.

Chegando na grande sala clara e arejada, com alguns leitos e armários, o trio é recepcionado pela bondosa e calma medibruxa Madame Pomfrey.

Não era sequer necessário dizer o porque estavam ali. Pela experiência da medibruxa, logo ela percebeu o motivo ao ver o aspecto abatido de Harry.

--Sr Potter, não tens dormido bem? Se alimentado direito? Um atleta precisa ter boas horas de repouso e uma boa alimentação reforçada.

--Eu estou bem, senhora.. só não dormi bem essa noite, mas a Hermione insistiu que...

--Que ele está muito indisposto e um pouco febril, sim, Madame Pomfrey. Amanhã é o nosso primeiro jogo de Quadribol do ano e o grande apanhador do século precisa estar cem por cento bem!

Hermione interrompia e completava a frase de Harry com um sorriso alegre no rosto que dirigiu de Madame Pomfrey ao próprio garoto, que sentiu o coração dar uma leve descompassada com aquela expressão tranqüila de sua amiga. Engoliu a seco, mas sentia-se feliz por estar bem de novo com Hermione.

--A Srta Granger está certa, Sr Potter. Mas o seu caso pode ser simplesmente resolvido com um pouco de descanso e alguns fortificantes. Deite-se no leito mais próximo que irei lhe examinar.

Enquanto Madame Pomfrey se retirava para uma saleta anexa deixando o trio a sós na enfermaria, Harry tenta disfarçar seu nervosismo e sua alegria por ver o quanto Hermione se preocupa com ele.

--E eu aqui achando que a senhorita estava preocupa comigo, tudo que interessa é o torneio de Quadribol, Srta Granger? – Brincava Harry falando falsamente bravo, mas com um sorriso no rosto.

E Hermione retruca na mesma moeda: --Oh, não seja ingênuo, Sr Potter. Acha mesmo que eu ficaria preocupa com você por causa de uma febrezinha à toa?

Harry e Hermione se detiveram por breves segundos sorrindo um para o outro, até que Rony chamasse a atenção de ambos com uma observação.

--Vejam... todos os leitos estão descobertos.. não há ninguém aqui na enfermaria. Será que aquele cara já acordou ou levaram ele pra outro lugar?

Hermione sentiu-se gelar completamente por dentro. Ela havia se esquecido desse assunto desde a hora em que desceu pro café da manhã. Harry percebeu o nervosismo da garota pela sua expressão de desalento e seu olhar perdido pelo interior da enfermaria... sentiu-se mal com aquilo e um pontada de remorso por ter vigiado Hermione na noite anterior, e achou melhor fazer-se de desentendido.

--Tá falando de quem, Rony doido? Não tinha ninguém aqui na enfermaria.

--Tá ficando burro, Harry? Tô falando daquele cara, o tal que era o Crookshanks! Ele tava internado aqui desde sábado passado!

--Oh, vejo que estão preocupados com o Sr Donskoi... ele finalmente despertou e teve alta ontem mesmo. Agora ele está com o Prof Dumbledore. – Dizia Madame Pomfrey, que apareceu subitamente na sala, carregando uma bandeja de prata com uma pequena toalha branca, um cálice e uma garrafinha de vidro.

--Ah! Então você deve tá sabendo disso e nem nos contou, não é Mione? – Rony falava bruscamente com a garota, num tom elevado e hostil de voz, que fez a medibruxa dar uma careta de desgosto.

--Sr Weasley! Será preciso lembrá-lo que está em uma enfermaria? Mesmo que não haja pessoas internadas aqui, não deve jamais usar esse tom de voz num ambiente como esse. Agora faça a gentileza de se retirar daqui, agora!

Rony faz uma cara emburrada pela bronca de Madame Pomfrey, mas sai rápido da enfermaria sem pestanejar. Hermione sente-se aliviada por não ter que responder nada ao amigo de imediato, mas deixa sua vista se perder no chão de mármore branco da enfermaria, num ar muito triste.

Harry sente seu coração se comprimir ao ver a desolação novamente na face de Hermione e, sem pensar duas vezes, segura levemente a mão dela que pendia ao lado de seu corpo, chamando a atenção da garota, que o olha com surpresa.

--Está tudo bem, Mione? – Falava manso e sussurrado, com o rosto tão próximo do ouvido de Hermione que ela pode sentir o calor e o perfume de menta do hálito de Harry.

Hermione corou com aquela atitude tão atípica do amigo, desviando seu olhar encabulado para qualquer ponto do chão, gaguejando na resposta.

--E-Está, está.. claro que está tudo bem... eu.. eu s-só não quero falar sobre isso agora, tá legal?

A garota, ainda corada, volta seu olhar para Harry e ambos permanecem naquele silêncio como se um estivesse tentando entender o outro por pouquíssimos efêmeros instantes, até que a medibruxa retorna do leito, onde havia deixado a bandeja sobre a mesinha de cabeceira, e pega o garoto pelo braço, o conduzindo até a maca.

--Deite-se, Sr Potter, que logo irei examiná-lo. E descanse enquanto isso. E a senhorita já pode ir para sua aula; eu cuidarei bem do seu amigo.

--S-sim.. é que, só queria falar uma coisinha a mais com ele...

--Está bem, senhorita. Fique a vontade, mas seja breve.

Hermione aproximou-se do leito onde Harry estava deitado. Instintivamente ela pousa de leve a mão sobre o peito do garoto, que lhe retribui com um sorriso.

--Não se preocupe com Snape, que entregarei sua redação para ele e anotarei tudo sobre a aula de hoje para você. E cuide-se, ouviu?

Antes que Hermione saísse, Harry a segurou pelo braço. Levantou o corpo, apoiando-se sobre o cotovelo esquerdo.

--Escuta.. não deixe Rony te aborrecer com essa história do Donskoi. Não quero que você fique triste com isso.. qualquer coisa, pode contar comigo.

Hermione olhou para Harry de forma cética, apenas concordando com o movimento de positivo da cabeça. A menina girou em seus calcanhares e logo saiu da enfermaria. Harry ficou observando-a até ela desaparecer após a porta de entrada, quando deitou-se novamente na maca, olhando para o nada no teto.

Suspirou fundo a fim de colocar seus sentimentos e pensamentos em ordem. O tempinho que iria passar ali na enfermaria seria perfeito para analisar a si mesmo e aos fatos recentes.

....

--Você demorou! E o Harry, como tá?

--Ele vai ficar bem, só precisa descansar um pouco.

Hermione sequer parou ou olhou para Rony, para lhe responder a pergunta. Andava apressada pelo corredor, rumo às escadarias que os levariam para as masmorras. O garoto, um pouco irritado, a seguia, mas logo se emparelhando com ela.

--E você se tornou uma bela amiga, heim, Srta Granger! Por que não nos contou que o tal animago havia saído da enfermaria? Tá querendo esconder alguma coisa com isso, é?

A menina sentiu o sangue ferver e a raiva subir-lhe a cabeça. Respirou profundamente, controlando seu ímpeto de querer berrar e xingar Rony, lembrando-se da recomendação de Harry.

Parou de súbito, erguendo a cabeça para encarar nos olhos seu amigo esquentadinho, mas pouco se importando em esconder sua raiva pela petulância dele.

--Olhe bem pra minha cara, Rony! Acha que me pareço com alguém que tem tempo ocioso o suficiente para ficar tomando conta da vida dos outros?! O que o faz crer que eu poderia saber algo sobre o animago?!

--Não sei... talvez por ele ser o.. Crookshanks...? – Rony se fazia de indiferente, coçando a nuca com uma mão enquanto a outra descansava em seu quadril, desviando os olhos para o ambiente. Sabia que esse tipo de atitude só deixava Hermione ainda mais irritada.

A garota engoliu a raiva a seco, decidida a não cair no joguinho infantil do amigo. Girou em seus calcanhares e recomeçou o seu caminho ainda mais apressada, deixando Rony plantado admirando a decoração do corredor.

--Gostaria de saber até que nível chega a imaturidade em alguém da nossa idade... assim, talvez, eu poderia saber que você é normal, Rony!

Rony, sem entender o que a garota lhe disse, voltou em seu caminho, tentando alcançá-la nas escadarias.

....

No living da sala particular de Dumbledore, Nicolai estava a sós com Fawkes, que descansava empoleirada no ombro do rapaz, enquanto este mantinha-se em pé diante de uma grande estante de carvalho repleta de livros e alguns objetos estranhos de decoração. Apoiado em seu braço, um grosso livro que folheava sem muito entusiasmo quando o próprio Diretor adentrou a sala.

--Apreciou o desjejum, meu rapaz? – perguntava Dumbledore com seu sorriso alegre de sempre, olhando o garoto por sobre os óculos de meia-lua.

--Sim.. tive menos trabalho com os talheres dessa vez. Estou reaprendendo rápido.. não está sendo tão difícil como imaginei. – Nicolai esboçava um sorriso enquanto olhava para a própria mão direita em que se divertia abrindo-a e fechando em punho e movimentando cada um dos dedos.

--E quanto a você, Fawkes.. será que devo começar a sentir ciúmes? – o diretor perguntava divertido. Como resposta, a ave soltou um leve silvo, roçando a sua cabeça em seguida na testa de Nicolai.

Ao levantar vôo, o garoto inclina-se um pouco pra frente com o impulso forte da fênix. Duas penas se soltam da ave, que caem sobre Nicolai. Dumbledore, com Fawkes agora empoleirada em seu ombro, dá uma risadinha baixa, enquanto o garoto observa as duas penas em sua mão, uma um pouco menor que a outra.

--... será que já está chegando a época do renascimento dela? – o garoto perguntava inocentemente ao Diretor, mostrando-lhe as duas penas vermelhas carmesim e bordas levemente douradas.

Dumbledore aproxima-se do rapaz em poucos passos e, com suas duas mãos de dedos longos e finos, envolve a mão do rapaz que segura as penas. Nicolai apenas o olha com expectativa.

--Não, isso é outra coisa... é um presente de fênix. Mantenha essas penas consigo o tempo inteiro.

O diretor fechou a mão do garoto em punho, reforçando a idéia de que ele mantivesse o 'presente' de Fawkes sempre consigo. Dumbledore retirou-se da sala, deixando Nicolai sozinho com uma expressão confusa, olhando novamente para as penas.

Voltou para o quarto onde pernoitou e pôs-se a procurar algo pelos móveis ali dispostos. Ele não sabia ao certo o que procurar e porque procurava, mas precisava achar algo que pudesse prender as penas para não perdê-las.

Abrindo a primeira gaveta de uma grande cômoda antiga, encontra muitas bugigangas espalhadas e misturadas numa grande desordem. Eram pequenos objetos como moedas antigas, botões, relógio de bolso, óculos sem lentes, miçangas, sementes de varias formas e tamanhos, pedaços de tecidos e muitas jóias como anéis, colares, brincos, pulseiras.

Nicolai riu, pegando um imenso cordão em ouro cheio de penduricalhos adornados com as mais espalhafatosas pedras preciosas. Aquilo era bem a cara do Prof Dumbledore... aqueles anéis grossos com pedras imensas, brincos igualmente grandes...

--Isso parecem jóias cerimoniais...

Ajeitando mais ou menos a bagunça da gaveta que ele conseguiu deixar ainda pior, encontra no fundo escondido por outras milhares de coisinhas, um fio que lhe chamou sua atenção.

Pegando-o, viu que se tratava de um fio de couro de dragão. Tinha a cor de um marrom envelhecido e era da espessura de um barbante. Maleável o suficiente para se fazer pequenos e apertados nós.

Sentou-se na cama e muito sem jeito prendeu as penas pela pequena haste no fio com um nó, apertando-as bem. Se ele nunca foi bom com trabalhos manuais, agora sim poderia dizer que ele era uma lástima com esse tipo de serviço.

Não exigindo muito de si mesmo e dando-se por satisfeito com o seu "artesanato", dá três voltas com o fio em torno de seu pescoço, fechando com um nó na frente, escondendo seu inusitado cordão de penas de fênix e couro de dragão sob a gola alta de sua veste.

A menos que ele fosse decapitado, certamente o seu presente de Fawkes estaria bem seguro de ser perdido ou esquecido dentro dos bolsos.

....

Como de costume, Hermione sentava-se junto com Neville Longbottom, com quem fazia dupla no preparo de poções e ajudava a evitar que ele explodisse as masmorras com todos ali dentro. Preferia mil vezes evitar as trapalhadas desse amigo do que aturar o mau-humor e grosserias daquele amigo esquentadinho. Estava aliviada por ter que passar os cem minutos dos dois tempos de aula de Snape longe de Rony e, com um pouquinho só de sorte, o ruivo se esqueceria por horas do assunto 'Donskoi'.

Mas ficaria mais feliz se ELA própria esquecesse desse assunto por algumas horas. E ficaria extremamente feliz se esquecesse pelo menos durante essa aula, que exigia o máximo de atenção, coisa que ela não estava tendo no preparo da poção do dia.

Uma seqüência de sons que lembravam estopim chamou a atenção de todos na sala de aula. Um vapor escuro e fedido saía do caldeirão fumegante cujo conteúdo apresentava uma cor indecifrável. Neville apavorado, tremendo da cabeça aos pés, afasta-se num pulo do fogareiro enquanto Hermione escondia o rosto nas mãos... ela havia cometido um pequeno engano com a poção.

--Ai, meu pai! Eu quero morrer!

Calmamente, Snape aproxima-se da classe de Hermione e Neville, contendo-se para não deixar transparecer a satisfação de finalmente ver a aluna mais inteligente de Hogwarts cometer um erro, abafando uma gargalhada, mas deixando transparecer seu sorriso cínico.

Neville se encolhe todo quando Snape chega. Hermione destapa o rosto, olhando de esguelha para o professor, que mantém-se calmo, mas com um fio de triunfo em seus olhos.

--Srta Granger.. como a senhorita conseguiu cometer um erro tão tolo como esse? Se a receita pede apenas uma pitada de pó de folhas de mandrágora, como a senhorita conseguiu exceder e MUITO essa quantia?

--E-eu.. eu não sei! Eu nunca errei, nunca! Não sei como...

--N-não, pr-professor! N-não foi Mione.. fui eu, foi minha culpa!

Neville acertava a postura, mas, mesmo ainda trêmulo, encarava Snape. Este apenas olha o garoto pálido de medo com incredulidade por sua atitude. Hermione abaixa as mãos, encarando Neville com a mesma incredulidade.

--Sr Longbottom, acha que sou cego? Que não sou capaz de perceber a mínima nuance de cada um de vocês?

--N-não, não senhor...

--Caso fosse o desastroso Longbottom a cometer tal deslize, a punição seria facilmente aplicada... mas, a grande Srta Sabe-Tudo Granger cometer um erro desses?! Um erro como esse vindo da senhorita é inadmissível.

A aula de poções da Grifinória, assim como era desde o primeiro ano, era feita em conjunta com Sonserina. Ao ouvir tais palavras do professor, metade dos alunos soltaram risadinhas abafadas, exceto por Malfoy, que deixou escapar uma risada mais calorosa, atraindo para si o olhar de ódio e desprezo dos alunos grifinórios.

Hermione sentiu um buraco se abrir sob seus pés, e até gostaria que realmente tivesse aberto, assim desaparecia ali daquela sala. Estava tão pasma que sequer pronunciou qualquer palavra.

--Mas serei benevolente, senhorita, pois sei o motivo que lhe tirou a atenção.

Agora sim que a garota gostaria de ser tragada pela terra. Sentiu seu sangue gelar com a insinuação de Snape. Certamente ele sabia sobre o encontro que teve com Donskoi e, pelo jeito, sabia que era isso que estava lhe tirando a atenção.

--A senhorita poderá escolher a sua punição: cinqüenta pontos a menos para a Grifinória ou detenção. A escolha é sua, Srta Granger. Por favor, decida-se logo!

Todos os alunos fixavam sua atenção à Hermione, especialmente seus colegas de Casa. Por mais solidários que os grifinórios fossem uns com os outros, ninguém ali queria ter menos cinqüenta pontos no campeonato das Casas.

--Isso não é justo.. não é justo que a Grifinória pague por meu erro. Ficarei com a detenção, senhor, certamente.

--Hunf, não esperava menos que isso de você, minha cara.

Snape girou em seus calcanhares, voltando a sua cátedra. Ainda de costas, profere o final de sua sentença à Hermione.

--Srta Granger.. uma detenção semanal durante dois meses. E arrume toda essa bagunça enquanto verifico as poções de seus colegas.

--O quê??! Dois meses? Isso são oito detenções! Oito detenções por causa de uma poção mal feita? Isso é muito! – Rony, embravecido, falava alto, porém, contendo-se para não gritar. Não apenas ele, mas outros grifinórios estavam rubros de raiva com tal injustiça.

Snape virava-se para os alunos, encarando Rony. Apoiou-se na sua mesa, deixando transparecer um largo sorriso de escárnio.

--Não, Sr Weasley.. 'Muito' seriam três meses, então... – voltando seu olhar para Hermione - ...Duas detenções semanais por um mês e meio, Srta Granger. Hoje, realmente me sinto muito filantrópico...

Tudo que Hermione conseguiu fazer foi esboçar uma expressão furiosa para Rony, que a olhava de forma tristonha, como se pedisse perdão com os olhos. Respirou fundo, fechando os olhos e procurando dentro de si mesma a força necessária para enfrentar esse inferno. E como se já não tivesse tempo insuficiente para todas as suas atividades, lhe vem com mais essa: detenção.

Questionava-se de como iria suportar toda essa pressão até o fim do ano, principalmente agora que estava sozinha, mesmo!

Crookshanks iria fazer ainda muito mais falta...

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 Fim do Capítulo XVIII – continua...
By Snake Eye's – 2004
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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Animago Mortis - Capítulo XVII – Pequenos Gestos

Animago Mortis
Capítulo XVII – Pequenos Gestos

Já se passavam das duas da manhã quando Harry chegou ao Salão Comunal da Grifinória. Como era de se esperar, o salão estava completamente deserto de alunos; apenas dois ou três elfos domésticos cuidavam da arrumação do local. Agradeceu intimamente por Dobby, o elfo que o idolatrava, não estar ali neste momento, não queria falar com ninguém, não queria ter que falar nada.


Estava muito exausto por perambular por horas a esmo pelos jardins do castelo. Estava uma noite linda, apesar de tudo, e queria aproveitar o luar intenso e a brisa fresca que corria pela noite. Queria espairecer. Compreender o que acontecia.


Ao entrar em seu dormitório, viu que todos os outros garotos estavam dormindo profundamente, inclusive Rony, que dormia sentado na cama, abraçado às próprias pernas.. é quase certo que o amigo ficou esperando por ele quando percebeu que não estava em sua cama. Pela manhã já via que teria muito a ouvir... e o que ele iria dizer?


Contaria ao amigo sobre o que presenciou entre Hermione e Donskoi? Se ele contasse isso a Rony, em meio dia todo o colégio ficaria sabendo do que aconteceu e, pior, a história aumentaria monstruosamente. Hermione, apesar de tudo, não merecia isso. Além do mais, pelo que ouviu da conversa de ambos, o encontro foi quase casual.


E se contasse isso a Rony, ele teria que se deparar com um certo questionamento: por que ele teria ido escondido atrás de Hermione?


Nem ele sabia a resposta direito. E a mágoa que sentia aumentou furiosamente e a isso também não tinha resposta. Ou melhor, a resposta lhe causava um temor infantil.


Jogou-se de bruços na cama sem sequer trocar de roupa, tirar os sapatos ou retirar os óculos. Estava exausto demais para pensar nisso. E daqui a pouco teria que estar de pé novamente e enfrentar um inquérito de seu amigo esquentadinho. Felizmente, uma desculpa simples seria o suficiente.


*


Um morno e fraco raio de sol adentrava uma pequena janela em arco que iluminava vagamente aquele lugar de decoração um tanto quanto exótica. Despertando, leva as mãos ao rosto, deslizando-as até encontrar seus cabelos, enterrando seus dedos em seus fios finos e lisos. Ao abrir os olhos, depara-se com uma forma grande e avermelhada parada quase sobre sua cabeça, que o fez levantar-se abruptamente com o susto.


Sentado na cama, vira-se para enxergar melhor aquela forma estranha, que tanto lhe chamou a atenção. Era uma grande e majestosa ave de suntuosa plumagem vermelha e dourada, que dormia empoleirada sobre a cabeceira.


_Que incrível! Um Suzaku!


_Aqui no Ocidente nós a chamamos de Fênix... Bom dia, meu rapaz! Espero que tenha dormido bem.


Alvo Dumbledore estava parado na porta de entrada do aposento. Mantinha seu típico sorriso sincero no rosto, observando Nicolai admirado com Fawkes, a fênix de 'estimação' do Diretor.


_Bom dia, professor... apesar de tudo, principalmente por ter dormido sozinho, foi sim uma boa noite de sono.


Fawkes que acabou acordando com o barulho no quarto, estica suas asas, se espreguiçando, e chacoalha todo o corpo, ouriçando suas penas. Por alguns instantes ficou mesmo parecendo uma grande bola de fogo. Com um meio salto, pousa no ombro de Nicolai, esfregando sua cabeça na testa do rapaz.


_Perdão, Fawkes.. agradeço muito a sua companhia, mas o calor e perfume de uma certa menina me fazem muita falta. – Nicolai retribuía o carinho da ave coçando-lhe o topo da cabeça.


_Vejo que Fawkes gostou mesmo de você, Nicolai... isso é muito bom, muito bom... agora poderia fazer a gentileza de vir até o living, a Profª Minerva e Severus o aguardam.


Fawkes alçou vôo, desaparecendo pela porta do aposento. Nicolai levantou-se, espreguiçou-se, vestiu a roupa negra que trajou no dia anterior e arrumou os cabelos com os próprios dedos. Mas algo o intrigava.. aquele 'muito bom' do Prof Dumbledore queria dizer o quê, exatamente? Certamente ele ainda estava sendo avaliado pelo nobre bruxo, é lógico.


Pelo jeito, o Diretor não tinha plena confiança nele e, para ser sincero, nem ele mesmo tinha essa confiança em si. Uma coisa que aprendeu nesses longos anos é jamais dizer que não beberá de tal água.


Mas, enfim, há visitas esperando por ele.


*


Hermione já havia despertado há mais de uma hora, mas não conseguia criar coragem para sair da cama. Embora ainda fosse verão, estava totalmente enrolada em sua grossa colcha com bordados delicados feitos a mão, um presente de sua avó. As cortinas do dossel cobriam completamente a cama. Há algum tempo atrás ela havia enfeitiçado as cortinas para que bloqueassem qualquer barulho, o que lhe garantia maior privacidade e tranqüilidade, uma vez que dividia o dormitório com outras quatro garotas.


Ela ainda remoia o acontecimento da noite anterior, o que lhe ocasionou uma péssima noite de sono. Dormira muito pouco. E o pouco que conseguiu dormir, sonhou justamente com aquele rapaz. Sonhos muito ruins, que preferia ser poupada disso. Já que a sua realidade em nada colaborava, ao menos em sonhos poderia ser aliviada dessa situação.


Mas não era o que acontecia. Desde o ocorrido em Hogsmeade vem tendo esses sonhos que por vezes beiram o pesadelo. Em todos os outros, Crookshanks dava a forma a uma pessoa que ela nunca conseguia ver o rosto com clareza, apenas distinguia os cabelos e o uniforme de Hogwarts. Em todos os sonhos, ela era usada e traída por essa pessoa, mas no sonho dessa noite...


Ela havia sonhado exatamente com o rapaz. Virou-se de bruços, escondendo o rosto no travesseiro, que ardia ruborizado apenas por se lembrar que no sonho havia sido seduzida por ele, deixando-a completamente cega para a verdade. E ela fora usada para que Harry fosse morto! Por deus, ela havia sonhado com a morte de seu melhor amigo! E fora Donskoi que o matou! Matou para Voldemort! E ela o ajudara a fazer isso!


Levantou-se de súbito, pondo-se sentada sobre as pernas. Com as duas mãos fechadas em punho, dá uma seqüência de socos no travesseiro, como se quisesse espantar aqueles sonhos e pensamentos que se formaram em seu inconsciente.


_Droga, droga, droga! Isso é totalmente irracional! Que medo mais estúpido é esse que não me deixa sequer dormir. Ele... ele foi tão gentil.. tão amável... ele não pode ser esse monstro, não pode!


Lembrou-se da conversa. Tirando toda a tensão do momento, foi até.. muito agradável. Ele parecia ser uma boa pessoa. Fora muito gentil, educado... e carinhoso. Nunca fora tratada daquela forma por um garoto.


Afundou novamente o rosto no travesseiro, sentindo as faces quentes mais uma vez. Ele fora tão humilde ao se desculpar e agradecer por Crookshanks... e havia muito carinho em suas últimas palavras, antes da despedida. Aqueles olhos dourados transmitiam muita sinceridade... mas ele também havia dito ter sido amaldiçoado por Voldemort!


E isso lhe remetia ao outro pensamento, ao seu medo irracional que invadia até os seus sonhos, e era exatamente isso que acontecia: ele fazia com que se apaixonasse, a seduzia, e depois a traia com seus segredos ou a humilhava em público...


_...ou fazia com que o ajudasse a matar Harry Potter!


*


Harry conseguiu dormir pouco mais de três horas. Uns sonhos totalmente desconexos, que envolviam o ocorrido na noite anterior, o fizeram despertar totalmente. Desde pouco antes das seis da manhã, estava acordado fazendo hora no deserto Salão Comunal. Como não conseguiu falar com Hermione como havia planejado, talvez fosse uma boa idéia encontrá-la ali, já que ela é sempre a primeira a se levantar.


Mas como tudo estava saindo totalmente às avessas nos últimos tempos, por acaso Hermione ainda não havia descido do dormitório. Ele sabia que ela estava lá. Viu quando ela retornou para o Salão da Grifinória na noite passada. E fez questão de espiar o dormitório antes de descer agora pela manhã. As cortinas de sua cama estavam fechadas, indicando que ela ainda dormia.


E se eles tivessem se encontrado agora pela manhã, o que teria dito a ela, afinal de contas? Que direito ele tinha sobre ela para questioná-la sobre seus assuntos particulares? Sim, apesar de tudo, eles ainda eram amigos, ao menos assim esperava – e desejava – mas isso não lhe outorgava o direito de mandar em sua vida.


E pelo visto, quem precisava mesmo ser questionado era ele próprio. Por que ele estava sentindo aquelas coisas, agindo feito um garoto imaturo e mimado? Olhando um pouco para dentro de si via que não era mágoa que estava sentindo, tampouco raiva, então era... ciúmes?


Mas isso não quer dizer absolutamente nada! Ciúme não significa apenas uma certa e única razão... sente-se ciúmes dos amigos também. E tem quem tenha ciúmes dos pais, dos irmãos e, por Merlin, até de animais e objetos!


Harry socou com força os braços da poltrona onde estava sentado aquecendo-se diante da lareira. Com o impulso, levanta-se e sai apressado do Salão, que começava a encher de alunos que desciam do dormitório para esperarem pela hora do café. Iria para a biblioteca e, como Hermione não estaria lá, o lugar estaria totalmente deserto. Precisava desanuviar seus pensamentos, colocá-los em ordem ou mesmo se distrair com algum livro.


E, ademais, não estava com a mínima paciência para suportar um inquérito que com certeza viria de Ronald Weasley.


*


_Desculpe-me a demora...


_Está tudo bem, Sr Donskoi. Apenas estamos aqui para acertamos alguns detalhes antes de sua partida.


Essas últimas palavras de McGonagall desceram-lhe amargamente pela garganta, engolindo a seco. Não havia como escapar daquilo... ou melhor, havia! Mas isso significava perder todas as suas chances de ter sua vida de volta plenamente. Ele precisava mesmo ficar e encarar a situação da melhor forma, e tentar resolvê-la.


Hermione era a sua única razão para tudo aquilo, para essa sua disposição de enfrentar o Ministério. Se não houvesse ela, Nicolai teria desaparecido daquele lugar há muito tempo. Nunca havia gostado de Hogwarts. Sempre odiou a Inglaterra e seus habitantes. Mas ela lhe mostrou um outro lado de tudo isso.


Por ela enfrentaria qualquer coisa, a começar pelo próprio estúpido Ministério da Magia. E enfrentaria o risco de ser enviado à Azkaban. Mas teria que enfrentá-lo e faria de tudo para ser absolvido. E aí sim poderia recomeçar sua vida e faria questão de começar do zero. Sem trevas. Sem pessoas tomando as piores decisões por si.


Vendo que o garoto ficara abalado com a lembrança de que partiria hoje, Dumbledore aproximou-se dele, passando-lhe o braço por seu ombro, tentando passar alguma confiança.


_Não se preocupe, filho. Estamos todos de acordo e iremos apresentar a sua defesa perante o Ministério. E iremos até o fim, lutando com todas as armas. Se há alguém aqui que mereça uma segunda chance, esse alguém é você!


Nicolai não conseguiu disfarçar seu contentamento com aquelas palavras que iam além da fala. Dumbledore conseguia passar mesmo muita segurança e otimismo com palavras simples e pequenos gestos. Mesmo alguém tão pessimista quanto ele conseguia ter esperanças de algo bom.


_Eu.. eu agradeço muito! Jamais poderei retribuir isso, mas... agradeço muito, mesmo!


_Você já fez muito, garoto! Não deve absolutamente nada, muito pelo contrário...


_Vindo de você, Severus, isso me soa como sarcasmo...


_Severus está certo, Nicolai. Você fez muito pela causa contra as Trevas, embora suas intenções não tenham sido bem essas, mas, com certeza, muitas vidas inocentes foram poupadas.


_Ora vocês dois! Falando dessa forma em tom de despedida, o rapaz vai ficar deprimido novamente, achando que não voltará mais para Hogwarts.


McGonagall alcançava a Nicolai uma valise de viagem em couro aveludado. O garoto apenas olhou curioso da mala de mão para o rosto austero da professora. Pelo que ele se lembrava, a Profª Minerva nunca gostou dele, principalmente por ele pertencer à Sonserina.


_Pegue, não está enfeitiçada. São algumas coisinhas que você precisará para passar alguns dias no Ministério. Você não poderá ficar lá o tempo inteiro com esse pijama, não é mesmo?


_Pijama?! Severus! Você me deu um pijama para usar?!


_Você preferia ficar com aquela camisola curta da enfermaria?


_Isso não será mais problema, rapaz. Aqui está uma veste formal e elegante para usar... – Minerva alcançava ao garoto um cabide onde havia duas peças. _Pode parecer trivialidade, mas uma boa apresentação será fundamental para aqueles... bem, para o Ministério.


Com o cabide em mãos, Nicolai observava a vestimenta, composta de duas peças: uma calça reta, sem detalhes, e um balandrau de mangas compridas e gola alta, que se alargava como um vestido abaixo da cintura e seu comprimento ia até abaixo dos joelhos. Era uma veste sóbria, de corte reto e elegante, sem detalhes, exceto pelos grandes botões forrados pelo mesmo tecido que iam apenas até a altura do abdômen.


"_Mais negro... o que há com esses bruxos ingleses? Para eles tudo é um funeral?!"


Apesar de achar tudo muito estranho, não foi nada difícil esboçar um sorriso em direção à velha professora que o olhava com uma ruga de desconfiança. Ela concordara com a posição de Dumbledore diante do fato, mas tinha suas precauções quanto a isso. Nunca se deve confiar plenamente em um bruxo remanescente das trevas.


_Obrigado, professora... por isso e por aquele dia, em sua sala particular.


Todos, inclusive McGonagall, olharam de forma estranha para o rapaz, que mantinha um sorriso levemente afetado no rosto. Ninguém entendeu o que ele quis dizer com isso, até que a professora lembrou-se do que ele dizia.


_Ah, sim...! Mas não há o que me agradecer por isso, uma vez que não consegui quebrar o encanto, já que, por acaso, não tenho um poder superior a Você-sabe-quem. – Minerva esboçava um ar blasé, e falava em tom de cinismo.


_Isso não importa, professora... o essencial é que a senhora o fez. Se eu tivesse sido amaldiçoado por qualquer outro bruxo, certamente a senhora teria desfeito o feitiço.


_Sim, certamente... mas saiba que não fiz isso por você, mas por Hermione.


_Sei disso também, professora. Só que... eu pertenço a ela, então a senhora fez por mim também...


Nicolai deixava seu belo sorriso aos presentes antes de se retirar para o aposento onde passou a noite, carregando consigo a valise e o cabide com suas novas vestimentas. Dumbledore e Severus pareciam satisfeitos com o comportamento que Nicolai demonstrava a todos. Parecia sempre sincero, não era contraditório, sempre homogêneo. A polidez que apresentava era a mesma de vinte anos atrás, porém, agora, ele se mostrava mais sociável, bem menos acerbo do que um dia fora.


_Agentes do Ministério deverão chegar aqui por volta das dez. Eu acompanharei o rapaz para me certificar qual o tratamento ele terá e quais acomodações lhes darão.


_Acha isso mesmo necessário, Alvo?


_Sim, Minerva, é necessário. Quanto a você, Severus, gostaria que fizesse a gentileza de acompanhar Nicolai no café da manhã, aqui em minha sala mesmo, se não se importa.


_Me importar? Duas refeições seguidas longe daquele burburinho infernal é mais do que eu poderia esperar como um belo presente de sua parte!


*


Quando Rony entrou no Salão Principal, encontrou Harry já sentado no seu mesmo lugar de sempre na mesa da Grifinória. Um pouco furioso, Rony senta-se ruidosamente na cadeira ao lado do amigo, que tinham fortes olheiras e parecia cansado.


_E.. aí?


_Legal.. e você? – Harry respondia de forma desanimada, sem desviar o olhar do prato vazio em sua frente. Ele mantinha os braços cruzados sobre a mesa, quase deitando a cabeça sobre eles e dormindo ali mesmo.


_Palhaço! Não estou te cumprimentando! Quero saber onde esteve a noite toda?! Era mais de meia noite e você não estava no dormitório, e hoje pela manhã você também não estava!


_Ron.. não lembro de ter um compromisso sério com você e acho que é novo demais para ser meu pai. Não tenho que te falar onde passei a noite!


_Tá certo, não tem! Mas você não tem que ficar mentindo também. Pra que falou que ia dormir só pra sair escondido? Foi com a capa de invisibilidade, não?


_Olha, preciso mesmo dizer com todas as palavras? Eu saí para ver uma garota, satisfeito?!


_Isso é mais que óbvio, Potter! Só acho muita criancice da sua parte mentir e sair escondido por causa disso!


Hermione apareceu neste momento no Salão, o que desviou a atenção de um entediado Harry para sua chegada, poupando-lhe, assim, de ter que retrucar a inquisição do amigo.


Para sua surpresa – e ele nem sequer saberia dizer porque ficou surpreso – Hermione não estava feliz e radiante como esperava. Ela vinha séria, com a mesma expressão fria e um pouco aborrecida como lhe era típico nos últimos tempos. A menina aproximou-se dos garotos e antes de sentar-se em seu lugar que ficava de frente para eles, ela notou o semblante abatido de Harry.


_Harry! O que houve?! Você não dormiu direito? Está se sentindo mal? – Com a última pergunta, Hermione leva sua mão à testa do garoto, para experimentar-lhe a temperatura. Ela estava mesmo preocupada. Apesar de toda a amolação que seus amigos lhe causavam, ela detestava ver qualquer um deles mal ou adoentado.


Harry sentiu o coração gelar quando Hermione lhe tocou a testa. A mão dela era muito suave e delicada. E qualquer mal-estar ou aborrecimento que estava sentindo até então, parecia ter se dissipado com aquele toque suave que lhe soou como um carinho.


_N-não, está tudo bem... eu só tive um pouco de.. dificuldade pra dormir hoje.. eh, acho que foi o calor...


_Calor? – Hermione finalmente sentava em sua cadeira e levava a mão à própria testa, para experimentar sua temperatura e poder fazer a comparação. _Sei não, Harry.. você parece meio febril. Deveria ir até a enfermaria antes da nossa primeira aula.


_Boa! Você é um cara de sorte, Harry! Nossa primeira aula é com o nojento do Snape! Essa é uma ótima desculpa para se livrar da presença dele! E são ordens da nossa super-responsável Monitora-chefe!


_Rony! Que absurdo! Não estou falando pra Harry ir pra enfermaria para cabular a aula de Poções! Ele precisa mesmo ir, talvez esteja ficando gripado!


Harry nada disse, apenas continuou fitando Hermione, que desviava seu olhar e atenção para Gina, que acabava de chegar e sentava ao lado da menina. Não sabe ao certo quando isso começou, mas tudo que vinha de Hermione parecia mais intenso, seja só o olhar, um sorriso ou mesmo um leve toque, como o que acabara de receber. Não apenas a mágoa poderia ser mais intensa, mas também a alegria de estar próximo a ela.


Sentindo-se muito mais bem disposto, começava a servir-se das iguarias que apareceram naquele momento na mesa. Como pôde um simples toque e uma pequena demonstração de afeto desanuviar completamente todos os impasses que vinham lhe incomodando desde o dia anterior? Ele realmente não sabia, não nesse momento, mas tinha uma quase certeza de que a resposta era a mesma para aquela mágoa que sentia até pouco tempo atrás.


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 Fim do Capítulo XVII – continua...
By Snake Eyes – 2004
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N/A: A idéia de que eu tinha para as novas vestes de Nicolai era a mesma usada pelo Neo em Matrix Revolution... se eu não consegui passar a idéia com clareza, agora já sabem do que me referia =^.^=

domingo, 3 de fevereiro de 2013

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Animago Mortis - Capítulo XVI – Pela Primeira Vez Com Olhos Humanos

Este capítulo é uma das melhores coisas que já escrevi... espero que apreciem ^^

ẲתּỉΩẳģở ΩợЯŧįﻱ
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Capítulo XVI – Pela Primeira Vez Com Olhos Humanos
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_AHÁ! Xeque-mate! Desista Potter! Você nunca será páreo para o grande campeão nacional de xadrez bruxo! – Vangloriava-se Rony, balançando a rainha lentamente na cara de Harry, que parecia muito entediado.

_Bem.. como você mesmo falou... VOCÊ é o campeão nacional! Pelo menos tenho a honra de perder pro primeirão! – Harry levantava-se, lançando um sorriso forçado para Rony.

Seamus que presenciava o final da partida, dá alguns tapinhas no ombro esquerdo de Harry, troçando com um sorrisinho afetado e alegre.
_Cara, você é tão ruim em xadrez que perderia até pra Hermione, mas como você só joga com o campeão nacional... é uma boa desculpa, não?
A menção do nome de Hermione fez com que Harry fechasse a cara de vez, olhando de esguelha para Seamus que tomava o lugar antes ocupado por ele. Desde o jantar a garota não saia de seus pensamentos enquanto aquele sentimento dúbio flamejava em seu peito.

_Eu tenho melhorado, é sério! Mas Rony sempre se supera na mesma medida, aí fica difícil, né?

Harry se retirava um tanto apressado quando foi interrompido por Rony, já próximo ao pé da escadaria. O garoto virou-se para o amigo, com uma expressão mordaz, esperando que ele não lhe tomasse ainda mais tempo.


_Qual é, Harry? Não vai ficar pra ver Seamus apanhar feio também? – Rony ria em direção ao seu novo oponente.

_É ruim de eu apanhar feio, Weasley! Só não sou campeão porque não gosto de competir, valeu?! – Seamus retrucava numa falsa brabeza.

_Ah, tá legal, Finnigan... você não passaria nem das eliminatórias. E aí Harry, vai ficar ou não?

_Pô, cara, tô cansadão! Vou pro chuveiro e depois vou me esticar na cama. Amanhã a gente se vê, falô?
Harry subia às pressas a escadaria circular que levava aos dormitórios dos garotos. Chegando em seu quarto, bate a porta às suas costas, apoiando-se contra ela. Definitivamente os acontecimentos do dia não saiam de sua cabeça. Não era, nem de longe, a primeira vez que se desentendia com Hermione, mas desta vez o fato o estava incomodando muito. E o pior é que ele próprio não entendia o porquê! E isso vinha inflando dentro de si desde o ocorrido em Hogsmeade.

Ele queria protegê-la e não permitir que nunca mais lhe acontecesse qualquer coisa ruim. Queria embrulhá-la num manto e mantê-la em seus braços como se faz com um bebê recém-nascido, para não deixá-lo sentir medo, solidão, frio ou que se machuque. Sentia uma amarga culpa por tê-la deixado em segundo plano nos últimos tempos. O fato de ela estar deprimida e estressada talvez se devesse a isso. Eram grandes amigos, quase irmãos, e ele estava deixando Hermione sempre pra depois... mas, se ele se preocupava tanto assim com ela, por que aquela mágoa e raiva em seu peito?

Retirou os óculos redondos para massagear os olhos enquanto analisava a si próprio... talvez, o mais certo era que ele sabia o porque daquilo, mas tinha certo pavor de encarar o que estava lhe acontecendo.

Correu até seu baú. Retirou de lá sua capa de invisibilidade. Precisava conversar novamente com Hermione, mas num ambiente um pouco mais neutro para ambos. Ele não conseguiria dormir até resolver esse impasse... ele não ficaria em paz até acertar a situação com a menina. Não podia ficar alimentando aquela raiva irracional e sequer podia conceber a idéia de que ela mantivesse uma raiva permanente de si, se afastando ainda mais dele.
_Seja homem, Harry! Admita que foi você que se afastou de Mione! Agora desfrute da sua covardia em encarar certas coisas! – Disse para si num sussurro, jogando a capa por sobre a cabeça, camuflando-se ao ambiente.

*

_Oh, Merlin! Crookshanks?!

Hermione abria um largo sorriso ao ver seu gatinho de estimação descansando no parapeito da longa janela de vitral. A luz intensa do luar que adentrava o corredor era suficiente para distinguir as formas e até enxergar alguma cor. Quantas e quantas vezes o gato vinha recepcioná-la ali mesmo, naquele corredor, em suas rondas noturnas. Parece que tudo estava mesmo de volta a seu devido lugar. Talvez tudo tenha sido um sonho ruim...
Shanks sentiu sua garganta secar e o coração batia descompassado. Sua cabeça girava. Não era essa reação que esperava de Hermione, embora um lado seu sentia-se no céu por rever aquele sorriso tão caloroso e sincero. Talvez os fatos dos últimos dias tivessem sido um mero delírio pregado por sua mente que devia já está sofrendo algum desequilíbrio... talvez ele jamais tenha conseguido vencer a maldição... talvez Hermione jamais tenha sido ferida e aquele sábado jamais tenha existido... talvez ele finalmente estivesse surtando.
A menina aproximou-se em passos apressados até a janela onde o gato descansava. Mantinha um sorriso extasiante no rosto, totalmente alienada a qualquer fato recente e as suas próprias memórias do ocorrido. Crookshanks a encara um pouco assustado e surpreso, enquanto Hermione leva as duas mãos à cabeça do bichano, acariciando-a com vigor.

_Shanks! Que bom que apareceu! Por onde andou, gatinho? Estava preocupada com você!

Sem que Shanks tivesse a oportunidade de esboçar qualquer atitude, Hermione pega-o no colo abraçando-o como se fosse um bebê, como sempre costumava fazer. A princípio o gato estava um pouco assustado, mas assim que encontrou o pescoço da menina e seus pulmões se encheram com a fragrância de lírios que vinha de seus cabelos, acalmou-se de imediato. Fechou seus olhinhos já marejados pela emoção, enquanto Hermione o embalava, acariciando suas costas.
Tudo estava perfeito. Tudo estava como antes. Nada daquilo havia acontecido...

_Ah, Shanks! Você sumiu por quase uma semana, gato! Papai e mamãe ficariam muito chateados se você não voltasse pra casa comigo nas próximas férias.

Shanks se afastou para poder encarar Hermione. Não, tudo aquilo tinha acontecido mesmo, não era surto ou delírio. Mas será que ela não sabia do que tinha acontecido a ele? Será que Hermione não chegou a saber que ele era um animago? Isso, de certa forma, seria bom demais...

Ainda com uma expressão feliz, Hermione encara o gato devido ao súbito movimento em seu colo. Achou engraçada a forma como Shanks a olhava, parecia que não a estava reconhecendo. Mas ele era o Crookshanks sim, isso ela tinha certeza. Foi quando olhou diretamente nos olhos do gato que finalmente se deu conta da realidade. Havia uma expressão humana nos olhos dele.
Hermione respirou profundamente de forma falha. O frio que surgiu em seu peito parecia tê-la congelado por inteiro. De forma um pouco trêmula, coloca o gato no chão. Levando as duas mãos ao rosto, a menina se afasta de ré de Shanks, até dar-lhe as costas e se apressar até uma das janelas, distante em alguns passos, apoiando-se no batente. "_Oh, meu deus!!"
Sua cabeça girava. Ela perdera completamente a noção da realidade no momento. Isso era muito constrangedor! Não era Crookshanks que estava ali! Ele não existia mais, não existia mais!! Aquele era o rapaz animago! Como ela pôde se prestar a uma situação ridícula e constrangedora como essa?! Como ela foi capaz de esquecer completamente uma coisa que não saia de sua cabeça desde o sábado passado e que vinha pensando durante todo o caminho pelo castelo?!

Shanks respirou fundo enquanto mantinha os olhos fechados procurando dentro de si toda a coragem para enfrentar tal momento. A hora havia finalmente chegado. Hermione apenas havia se esquecido do que aconteceu... ela devia estar sofrendo muita pressão por causa disso... devia estar encarando tudo isso sozinha... havia cheiro de lágrimas em sua pele.

_Perdão... – Hermione dizia num tom um pouco mais alto que um sussurro, ainda apoiada no batente da janela, sem se virar para Crookshanks. Estava se sentindo estúpida. Estava muito envergonhada para encará-lo de imediato.

Coloca-se numa posição ereta, acertando sua postura, mas ainda mantinha suas costas voltadas ao bichano enquanto olhava o corredor sumir dentro da escuridão ao fundo.

_Desculpe.. eu esqueci completamente de que você..... Isso foi ridículo! Eu... Eu não tive a intenção de...
_Não há pelo que se desculpar, Hermione... sei que é uma situação delicada... para nós dois...

Hermione vira-se abruptamente, levando novamente as mãos ao rosto, tentando conter alguma possível exclamativa. Seus olhos estavam arregalados pela surpresa. Seu coração havia disparado ainda mais ao ouvir aquela voz grave e macia que lhe falava de forma baixa e pausada.

No lugar de Crookshanks havia um rapaz alto e robusto trajando roupas negras. Entre a luz e a sombra não era possível distinguir muita coisa de si, mas ele parecia tão sem jeito quanto ela estava se sentindo.
Tentando se acalmar, Nicolai levava a mão aos cabelos, enterrando seus dedos nos fios. De repente as formas distorcidas do exterior do castelo vistas pelo vitral lhe pareceu muito mais interessantes do que continuar a encarar Hermione. Ele que sempre teve um temperamento frio acabou deixando que a ansiedade em querer revê-la tomasse conta de si e tal atitude tola poderia ter posto definitivamente tudo a perder. Preferia uma cruciatus a fazer Hermione passar por uma situação como a de agora... e ele acabava de fazer exatamente isso!

_Eu que lhe devo desculpas... fui incauto, eu queria tanto lhe falar, lhe agradecer e... me desculpe...

Reunindo toda a coragem que lhe conferia o direito de pertencer à Grifinória, Hermione aproxima-se cautelosamente de Nicolai, que apenas a observa de forma tensa. É provável que em nenhum momento de sua vida sua mente tenha ficado tão liberta de qualquer pensamento. Tudo que queria era aproximar-se daquela pessoa pela qual tinha a íntima impressão de que a conhecia há muitos anos... não o fato de ele ter sido Crookshanks, mas como se já tivesse estado em algum momento com essa pessoa, como se fosse um velho amigo que há muito tempo não via.

Hermione estancou o movimento em pouco mais de um metro de distância do rapaz... seja lá o que seu subconsciente tenha imaginado a respeito do animago, definitivamente não era nada do que ele aparentava. Ele era muito jovem, quase um garoto. Os olhos eram os mesmos de Shanks, a mesma expressão que viu por diversas vezes, a mesma expressão humana de tensão ou angústia... as íris claras, pareciam douradas, a mesma cor dos olhos do gato. Os cabelos claros e finos que caiam levemente sobre o rosto...
Mais uma vez a respiração de Hermione falhou.

*

Harry descia correndo as escadarias do castelo, pouco se importando com o barulho que fazia com seus sapatos contra o piso de pedra. No atual estado em que Hermione se encontrava, era muito provável que ela fosse lhe dar alguma detenção e até descontar pontos da própria Casa, por ele estar fora do Salão Comunal em horário indevido. Mas qualquer coisa valeria o sacrifício. Precisava tirar esse peso dos ombros. Necessitava ficar bem novamente com a menina. E não podia deixar isso para amanhã. Ele tinha que ser adulto o suficiente para encarar a situação de frente, de cabeça erguida, sem relutar. Eles eram grandes amigos há sete anos. Não podia deixar essa amizade se apagar aos poucos e cada dia que passasse sem resolver as questões pendentes poderia ser irreversível.
Ele não apenas estava perdendo tempo saindo com outras garotas desprovidas de qualquer conteúdo, tentando se enganar de que uma ou outra o interessava, quando poderia estar perdendo também a mais perfeita que um cara como ele poderia querer e que era a sua melhor amiga... e talvez pudesse, algum dia, ser mais...

Droga! Que diabos ele estava pensando afinal?!
Sem perceber, Harry já havia alcançado o corredor principal. Um pouco ofegante pela corrida, caminhava em direção ao saguão de entrada, se auto-excomungando por sua confusão mental em relação à Hermione. Ele devia ser um grande idiota por estar misturando coisas sem sentido algum. De alguma forma, o ocorrido em Hogsmeade o deixou mesmo muito transtornado e estava inventando coisas que realmente não existiam, nem de sua parte e menos ainda da parte dela.
Ao longe, mesmo com a pouca luminosidade, consegue perceber um vulto parado próximo aos vitrais. Começa a andar cautelosamente, evitando fazer qualquer ruído mais audível. O silêncio quase mórbido do local não colaborava muito e mesmo com a capa de invisibilidade ele poderia ser percebido. Teve a súbita e idéia brilhante de enfeitiçar sua capa com um feitiço silenciador. O sorriso que se formou em seu rosto involuntariamente diante da aparente grande idéia desapareceu lentamente ao chegar mais próximo do vulto.

Quando viu de quem se tratava e que não estava sozinha, instintivamente Harry procurou a sombra densa de uma pilastra próxima, para poder observar melhor e se manter o mais incógnito possível.

Era Hermione que estava ali. E em sua companhia, afastado apenas alguns poucos passos de si, um rapaz alto, de cabelos louros...
"_Donskoi?!!"

Harry levou a mão à própria boca para impedir que soltasse aquilo que deveria ficar apenas em sua mente. Uma raiva repentina surgiu queimando em seu peito e sua vontade era gritar e esmurrar o tal Donskoi. Fechou as mãos em punho, mordendo o nó dos dedos da mão direita a fim de conter essa raiva irracional que havia surgido do nada.
Como ele poderia estar sendo tão imbecil a ponto de sentir coisas totalmente sem nexo? Quando foi que ele desenvolveu tal antipatia por uma pessoa que vira apenas uma vez e que jamais trocou qualquer palavra... alguém que talvez nem soubesse que ele existia?

Pior: como ele poderia sentir raiva do cara que, de certa forma, ajudou a salvar a vida da sua melhor amiga? Será que, intimamente, ele preferia que ela não tivesse sido salva?
Harry chacoalhou com raiva a cabeça, a fim de espantar aqueles pensamentos absurdos dali! Que idéia mais sem propósito pensar em coisas tão sem sentido. Os balaços que tem levado nos jogos de Quadribol talvez estejam começando a surtir efeito nele.

Fixou novamente seu olhar nos dois personagens e apurou bem os ouvidos para tentar escutar algo do que falavam.

"_Quando foi que esse cara saiu da enfermaria? Se Hermione já sabia, por que está se encontrando as escondidas com ele?! E por que ela teria que se encontrar com ele?! Maldição! Nada faz sentido?!"

*
Distantes em alguns passos, mas próximos o suficiente para perceberem a feição de um e de outro, o olhar de ambos mantinha-se preso diante de si quase como um transe. A tensão era tanta que parecia que o mundo tinha parado, parecia não haver mais qualquer brisa, qualquer ruído, tempo ou espaço.
Uma lembrança que julgava não possuir veio como um raio a sua mente ao ver aquele rapaz parado diante de si. E essa lembrança a remeteu novamente ao sábado passado em Hogsmeade, horas antes de ser atacada...
Como isso foi capaz de acontecer ela não sabia, mas ela conhecia essa pessoa diante de si, já esteve em sua presença... o rapaz diante de si é o mesmo que apareceu como uma imagem em sua mente, quando Crookshanks a confortava do incidente com Malfoy, na plataforma. Naquele sábado, em Hogsmeade, quando chorava sob uma árvore e Shanks veio até ela...

O que sentiu naquele momento foi a sensação nítida e palpável de alguém a abraçando e a beijando, e a imagem daquele garoto que se formou em sua mente... os mesmos cabelos, o mesmo porte físico... e logo em seguida, quando apenas encarou Shanks... era o mesmo rosto.

Aquele momento fora assim tão intenso que conseguira perceber sua essência?!

Hermione ficou ainda mais desconcertada, mas manteve-se firme, não deixando transparecer mais do que já demonstrou. Uma reação pela surpresa é aceitável, mas não poderia demonstrar o medo que começava a se intensificar naquele momento. Era medo, sim, mesmo sem saber exatamente o porquê.

Quanto à Nicolai, ele apenas a observava, seu rosto estava inexpressivo, mas por dentro ia a tensão que o momento exigia. Agora a menina estava agindo como ele havia suposto que agiria, mas não estava gostado do que via em seus olhos... parecia medo?

Estar tensa e ansiosa era até normal, mas por que ela teria medo dele? Fechou os olhos por breves instantes para raciocinar melhor... provavelmente ela já sabia tudo ao seu respeito, é quase certo que os professores já conversaram com ela sobre isso.

Ele sendo um puro-sangue, comensal da morte e ela, uma nascida em família não-mágica... talvez ela o enxergasse como um Malfoy, embora ela não tivesse qualquer medo daquele moleque, mas ela conhecia Draco, bem ou mal era um colega... quanto a ele...
"_Eu sou totalmente estranho a ela..."
Virou-se para a janela, apoiando as duas mãos no parapeito. Antes de qualquer coisa precisava desviar o olhar da menina, deixar de intimidá-la com isso e, mesmo a muito contragosto, teria que ser breve. Poderia – e queria – falar um milhão de coisas, por si passaria toda a noite e mais um pouco conversando com Hermione, mas, obviamente, isso não era nem possível e nem prudente.

Harry quase mordia a pilastra de tensão. Aquele silêncio sepulcral parecia eterno. Ele queria e precisava ver até onde ia a "conversa" daqueles dois. Se o cara fizesse qualquer gracinha contra Hermione, ele já estaria preparado até pra lançar um imperdoável naquele infeliz! Mas enquanto isso precisava se agüentar firme, pois tinha certeza que a amiga não o perdoaria em nenhuma hipótese a sua intromissão, principalmente quando ele nem sequer deveria estar ali.

Nicolai respirou fundo, controlando seus impulsos. O perfume de Hermione parecia dançar entorno de si, o envolvendo. E precisava resolver isso rápido antes que perdesse a cabeça e cometesse uma grave tolice. Queria tê-la em seus braços, senti-la pela primeira vez com aquele corpo, retribuir todo o carinho que recebeu dela nos últimos quatro anos... mas isso sim era totalmente impossível neste momento.

_ Estarei partindo amanhã e queria lhe agradecer... e me despedir... – com a voz quase falha, Nicolai finalmente conseguiu quebrar aquele silêncio que durava já alguns minutos. Mesmo com toda a tensão, estava feliz por, finalmente, poder falar com Hermione... o seu maior desejo enquanto Crookshanks.

_Pa-partir? – Hermione sentiu seu peito se comprimir com aquilo... ele iria embora de Hogwarts? Por Merlin! Será que ele seria levado mesmo para Azkaban?!

Nicolai virou o rosto em direção a menina. O tom de voz dela demonstrava alguma preocupação e isso o deixou, de certa forma, feliz. Não conseguiu disfarçar o sorriso ao lhe responder.
_Tenho que dar algumas explicações ao Ministério, mas isso não importa! Eu só quero agradecer por esses quatro anos em que cuidou de Shanks.. e por tê-lo tirado daquela loja de animais horrorosa! Foram quase dez anos lá.

Ele lhe agradecendo? Pensara coisas tão ruins a respeito da situação que sequer cogitou a possibilidade de Shanks.. ou Donskoi, que seja, ser uma pessoa gentil e bondosa a ponto de agradecer por algo que ela tenha feito sem a mínima noção da realidade... não, não era verdade, havia falado sobre isso hoje mesmo com Gina, no fim da tarde lá no lago... mas apenas havia dito para confortar a menina, ela própria não se convenceria disso.

Mas... isso remete a outro fato: ele tinha realmente plena consciência enquanto Crookshanks. Então esta pessoa a sua frente sabe sobre seus segredos, a conhece intimamente! Isso fez com que Hermione congelasse novamente, fazendo desaparecer de imediato a frágil chama de algum otimismo que havia surgido instantes atrás.

_Então.. você tinha plena consciência de tudo, não é mesmo? Você era uma mente humana presa no corpo de um animal?

O tom de voz de Hermione saiu mais seco e mordaz do que ela gostaria. Nicolai se sobressaltou com aquele tom e sabia o que poderia vir depois daquilo... precisava desfazer rapidamente qualquer mal entendido, ou melhor, não poderia deixá-la ter uma má interpretação sobre isso. Então, será que era esse o motivo do medo que viu em seus olhos?

_É isso sim, Hermione. A idéia é essa, afinal. A Animago Mortis é uma maldição imperdoável, uma grande tortura psicológica. Voldemort não me pouparia disso.

Voldemort? Ele disse Voldemort?! Então fora ele que o amaldiçoara?! McGonagall, Dumbledore ou mesmo Snape não mencionara qualquer coisa a respeito... e ela, justo ELA, fora burra o suficiente pra não perguntar quem fizera isso a ele! Tudo bem, decerto nem mesmo eles sabiam. Mas isso só poderia significar uma coisa...

Hermione afasta-se do garoto, dando-lhe as costas. Sua garganta estava seca e seu coração pulsava de forma demorada e forte, lhe doendo o peito. Uma raiva subia a cabeça igualmente com uma conclusão que não gostaria de ter e menos ainda gostaria que fosse verdade! Se ele fora amaldiçoado por Voldemort, só havia duas possibilidades: ou ele era um comensal que vacilou em algo ou ele havia se recusado a seguir as trevas... neste caso, por que ele não fora simplesmente morto? Havia algo muito maior por trás disso, com certeza! E ele era um sonserino, logo um puro-sangue e, provavelmente, vindo de uma família das trevas!?

Nicolai fechou a mão em punho, socando a própria testa. Fora imbecil o suficiente para falar exatamente o que não devia ter dito. Certamente que ela não sabia muito sobre si, Dumbledore jamais teria dito à Hermione de que ele fora um seguidor de Voldemort. Mas agora ela iria associá-lo a isso. Maldição! Não é o momento para se dizer nada a respeito de sua vida, isso só poderia ser feito futuramente, quando ela não tivesse mais quaisquer receios sobre si! Mas agora ele quase acabou de estragar tudo e sequer tinham começado qualquer coisa.

Ao lado da pilastra, Harry agachava-se, segurando as próprias pernas, para impedir a si mesmo de partir pra cima do tal Donskoi. A raiva transformava-se em ódio, pois, pra ele ter sido amaldiçoado por Voldemort, devia ser um dos seus malditos comensais, como foram quase todos os sonserinos da época em que ele estudou em Hogwarts! Deve ter dado algum mole e seu mestre quis brincar com ele. Com a varinha em punho, Harry estava totalmente pronto para qualquer coisa que poderia vir dali.

_Ouça, Hermione... não dê qualquer importância a isso, isso realmente não importa, não mais.. – a menina olhava para Nicolai por sobre os ombros, mas havia um fio de raiva em seus olhos. O rapaz apenas engoliu a seco, precisava finalizar aquilo antes que terminasse em desastre total. Quando ele voltasse do Ministério e SE voltasse, ele teria tempo de sobra para consertar as coisas.

_Amanhã serei levado para o Ministério sob custódia e talvez eu não retorne... só quero que saiba que estou muito agradecido por tudo que fez por mim e.. peço desculpas por todo o transtorno que Shanks lhe causou...
Hermione virava-se, encarando Nicolai de forma um tanto surpresa. O animago era muito decidido e de pulso firme, sabia como contornar uma situação... muito diferente de todos os seus colegas, incluindo aí Rony e Harry.

_Tudo bem, boa sorte, então... – a menina falava secamente, estendendo sua mão direita para cumprimentar o rapaz. Nicolai olhava surpreso, embora aquela frieza e desdenho da menina o machucasse.
Com certa relutância, Nicolai aproxima-se da menina em alguns passos, estendendo também a sua mão direita, aceitando o cumprimento. O calor que vinha da mão de Hermione pareceu preencher de ar quente seu interior. Ao contrário dela, suas mãos estavam muito frias.

Seus olhos estavam fixos em suas mãos entrelaçadas. Aquele momento que parecia apenas um sonho era mesmo real. Um momento totalmente inconcebível até poucos dias atrás. Algo tão singelo, mas tão especial para si. Uma sensação de calor e aconchego enchia seu coração. Um leve sorriso formou em seu rosto e levou sua outra mão à mão de Hermione, envolvendo-a com delicadeza.

Levanta seu olhar ao rosto da menina, que o olhava com curiosidade. Seu rosto estava suave sob a luz leitosa e levemente colorida pelos vitrais, que lhe conferia um brilho extra aos olhos e cabelos encacheados que caiam sobre os ombros. Ela respirava pela boca entreaberta, os lábios e faces muito coradas devido ao momento... ela realmente era muito mais linda vista através de olhos humanos.
Ainda segurando a mão da menina entre as suas, Nicolai levou a pequena e delicada mão de Hermione sobre seu peito, a encarando com doçura. Esta podia ser sua única vez... talvez jamais voltasse a vê-la e nunca mais partilharia daquele momento tão precioso para si.

_Hermione... mesmo eu estando preso no corpo de um gato, esses quatro anos foram os melhores de minha vida.. de toda ela. Você é muito importante para mim, jamais duvide disso...
Nicolai levou a mão de Hermione até os lábios, beijando-a com muita suavidade. Manteve os olhos fechados para sorver cada instante daquele momento ainda mais precioso. A menina o olhava com surpresa e incredulidade, e sua respiração se tornou ofegante.

Muito relutante, Nicolai solta a mão de Hermione, que permanece estática, sem forças para pronunciar qualquer palavra, a respiração ainda alterada. Com um olhar que transmitia muito carinho, o rapaz despede-se:

_Adeus...

Passando por Hermione, em direção às escadarias, desaparece na escuridão adentro no fim do corredor. A menina, um pouco trêmula, apóia-se na janela esperando que sua respiração se normalize. Olhando para a mão direita, sem conseguir pôr os pensamentos em ordem, esboça um sorriso.

Esquecer. Refletir. Colocar idéias em ordem. Decidir quais atitudes iria tomar. Tentar reencontrar-se. Tentar voltar a ser como antes era... ao menos era essa a sua intensão, e agora... Que conclusão tirar daquilo?
Afinal, foi um dia e tanto. Um dia muito diferente.

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Fim do Capítulo XVI – continua...
By Snake Eyes – 2004
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