segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Animago Mortis - Capítulo 43 – Julgamento – Asserção.

Capítulo 43 – Julgamento – Asserção.

Uma fumaceira multicor e um bufão abafado fizeram chamar a atenção de todos os alunos reunidos dentro do laboratório nas masmorras. Grifinória e Sonserina, como de praxe, assistiam juntas a aula de Poções, mas quando se percebeu quem havia causado tal baderna, a perplexidade substituiu o escárnio típico dos Sonserinos, que observavam estupefatos, assim como os Grifinórios, para o causador de tal erro fedorento com uma poção, ou melhor dizendo, a causadora...
—Serei sincero: estou muito preocupado com você, Srta Granger... penso em enviá-la à Pomfrei para lhe fazer uma avaliação psicológica ao invés de acrescentar mais doze horas à sua anterior detenção, que, por acaso, foi determinada pelo mesmo motivo.
O tom sarcástico do Professor Snape se contrastava com a mansuetude das palavras por ele ditas à Hermione. Mesmo isso não foi possível trazer a zombaria de volta aos Sonserinos, que pareciam tão preocupados quantos os colegas de classe, afinal, ver a melhor aluna de Hogwarts dos últimos vinte anos, e a melhor aluna de Poções, errar grotescamente por duas vezes quase consecutivas, era um caso quase de vida-e-morte, pra deixar qualquer um preocupado.
—Ouch! Merlim! Nem eu teria errado essa fórmula deste jeito, Mione! Você não está bem, nada bem!
—Neville! Seu trasgo! Não torne as coisas ainda piores! – Bravejou Harry, puxando Neville grosseiramente pelo braço, afastando-o de Hermione, que olhava estática para o caldeirão ainda fumegante.
Harry conteve-se de segurar nos braços de Hermione, que estavam esticados ao longo do corpo, demonstrando que a aluna estava tão ou ainda mais perplexa com o novo erro cometido na aula de Poções. O rapaz deixou as mãos paradas no ar, contidas, mas falou à garota num tom doce, porém reservado.
—Mione... está tudo bem contigo, não está? Se quiser, podemos levá-la à Madame Pomfrei e...
—Eu-estou-completamente-bem! – Finalmente Hermione se manifestou, mas num tom impaciente, tanto com ela própria quanto com todos que ali estavam. —Será que eu sequer tenho o direito de me distrair e exagerar na dose de um elemento?! Será que não posso, de vez em quando, agir estupidamente como o resto de vocês?!
—Hermione.. não é isso, é...
Como o laboratório de estudos estava em total silêncio, todos puderam ouvir o desabafo nervoso de Hermione, e de perplexos, passaram a indignados, até mesmo os colegas da Grifinória. Hermione poderia ser a melhor aluna dos últimos anos, mas isso não significava que todo o resto fosse um bando de estúpidos... ou sim?
Snape aproveitou a deixa para fazer o que ele queria mesmo fazer... não poderia permitir que a intragável sabe-tudo saísse de Hogwarts ilesa, sem ter sofrido detenções ou advertências. E sabia que um acréscimo a sua atual detenção – que ela havia cumprido apenas duas vezes – a deixaria de péssimo ânimo.
—Vê-se que a senhorita está mesmo muito bem, psicologicamente, Granger... por mim, está livre de fazer uma visita à Pomfrei, mais sua atual detenção sofrerá um acréscimo de mais doze horas, compreendido?
—Aaah! Dane-se! – Hermione sussurrou baixo, mas duvidava muito que Snape não tivesse ouvido. Apontou sua varinha para o caldeirão que não parava de cuspir fumaça, e com um simples aceno toda a desordem desapareceu.
A garota não esperou por ordem alguma, nem se incomodou de dar qualquer satisfação para quem quer que fosse, apenas pegou sua mochila, jogou-a no ombro, e saiu em passos apressados daquele laboratório sombrio. A perplexidade voltou a tomar conta da turma, uns até teorizavam que talvez aquela não fosse mesmo Hermione Granger, mas uma impostora que estava fazendo uso da poção Polissuco.
E se for mesmo uma impostora, o que terá acontecido à Hermione verdadeira?
Oh, céus! Ela foi seqüestrada!
Ou, talvez, apenas abduzida...

Dizer que Nicolai estava desanimado equivalia a contar uma piada... ele era o desânimo, a falta de fé em pessoa! Em contraste a ele, estava Jonathan Davis, que até sustentava o esboço de sorriso em seu rosto arredondado.
Davis levantou-se de sua cátedra e postou-se em meio ao palco, frente ao Juiz, após a chamada deste. O advogado de Nicolai deveria conduzir as perguntas às testemunhas de defesa, e um choque, um desnorteamento, tomou conta de todos os presentes no Plenário, inclusive ao próprio Juiz. Apesar de Davis ter mais de dez anos de magistrado, ele continuava sendo imprevisível em suas decisões e ações; literalmente ele tomava resoluções exclusivas para cada caso que dirigia. Apesar de ser muito questionado e criticado a esse respeito, ninguém ousava afirmar o contrário, de que ele era muito bom naquilo que fazia, muitas poucas vezes perdendo um caso e, nessas vezes, não havia outra saída que não fosse mesmo a condenação do réu.
—Apresente a primeira testemunha a depor em favor do réu, Dr Davis... – Mandou o Juiz.
—Sr Meritíssimo, tomei a liberdade de dispensar todas as testemunhas de defesa, de acordo com a emenda do Código Criminal que trata das testemunhas, que podem ser dispensadas do labor a que foram intimadas, caso se constate que sua atuação seria desnecessária ou, em salvo conduto, que tal atuação fosse desvirtuar o processo.
—Merlim! O que John pretende? – Osborn sussurrou para si mesmo, também perplexo. Conhecia o colega de longa data e já havia atuado algumas outras vezes, tanto contra como a favor, mas até o presente momento ainda não havia entendido o seu estilo... se é que ele tinha um.
O Juiz ficou emudecido por instantes, talvez pensando não ter ouvido direito, tanto que reforçou a pergunta: —Dr Davis, não há nenhuma testemunha a depor? O senhor dispensou a todas? Até mesmo a Alvo Dumbledore?! – O Juiz terminou sua pergunta num sussurro, onde apenas Davis foi capaz de ouvir. O velho magistrado apoiava-se sobre sua bancada, olhando incrédulo para o bruxo metaleiro a sua frente.
—Sim, senhor, Sr Meritíssimo. Não haverá testemunhas de defesa para prestar depoimento.
—Bem.. então... – o Juiz se ajustou na cátedra, limpando a garganta e pronunciando em voz alta: —Com o cancelamento dos depoimentos que seriam dados pelas testemunhas do réu Pavel Nicolai Donskoi, iniciaremos os debates que serão proferidos pelas partes envolvidas no caso, a começar pela acusação, representada pelo Promotor Oz Osborn, seguida pela defesa, representada pelo Advogado Jonathan Davis. Dentro de quinze minutos, as partes deverão se apresentar diante do júri e defender suas asserções.

—E então, John, como está o nosso estimado réu? – Falava mansamente Dumbledore, sentado confortavelmente na poltrona de couro negro na sala das testemunhas. Pernas cruzadas, tamborilando uns dedos nos outros, o mago olhava por sobre os óculos de meia lua para a figura soturna de Jonathan Davis, parado em pé a sua frente, mãos na cintura e expressão indefinida, porém estava tranqüilo.
—Cético e pessimista como ele é, me surpreendo de que ainda não tenha tentado se enforcar... temos um belo lustre na nossa sala que serviria muito bem a esse propósito.
—Ora, não seja moleque John, nunca diga coisas assim, nem de brincadeira. Tenho certeza de que na situação dele, depois de tudo que passou, eu mesmo não agiria muito diferente.. é difícil se ter fé nessa circunstância.
—Isso sem contar que ele não confia nada em mim... certamente me acha um louco varrido.
—Hahahah! E isso é alguma novidade, meu garoto? Nicolai não é o primeiro e nem será o seu último cliente que acha que se meteu numa roubada tendo você como defensor.
—Nicolai é um caso inusitado, mas não é um caso difícil.. já peguei situações realmente complexas. E se tivéssemos o senhor depondo em favor dele, seria tão fácil ganhar esse caso que não teria a mínima graça e o pobre do Oz ficaria ainda mais frustrado!
—Eu sei que você sabe bem o que faz, filho, mas não gostaria que fizesse de seus casos jogos ou brincadeiras.
—Oras, Professor... a coisa sempre dá certo, na maioria das vezes, não dá? A diferença agora é que há a questão da mídia e o Ministério que quer se fazer em cima do ocorrido. No fim, tudo dará certo, eu garanto ao senhor! Embora.. eu ainda não entenda algumas coisas...
—Você está certo, Jonathan, não devo interferir no seu estilo... quanto às coisas que você ainda não entende e suponho quais sejam, depois de tudo se arranjar a nosso favor – e os ancestrais Merlins da Bretanha assim o permitam! – você será esclarecido naquilo que quiser, pois merecerá.
—E quanto ao senhor, Professor... irá assistir a audiência ou ficará aqui mesmo?
—Estarei na platéia, já que não poderei estar na cadeira da testemunha. Conforme envelhecemos ficamos mais sentimentais e me compadeço da situação de Nicolai, e espero que minha presença lhe seja reconfortante e ele saiba que não foi abandonado ou traído com uma jogatina.
—... e mesmo porque, Professor, se Nicolai for absolvido, entrará um outro processo a ser feito em relação à liberdade dele, pois, pela experiência que tenho, não creio que o cara saia totalmente isento de qualquer obrigação, saia com liberdade plena.
—A isso estaremos preparados. Agora apenas nos resta torcer para que o júri acate sua asserção, meu caro Jonathan...

O Patriarca Vassili sempre esteve certo... eu fico completamente idiota quando estou ansioso! Huhuhu! Ele se envergonharia terrivelmente de mim se me visse nesses atos subumanos de desespero! Onde foi parar a minha razão, afinal?
Nicolai se auto-censurava, enquanto esperava pelo retorno de seu advogado na sala destinada ao réu. Estava recostado na parede ao lado do serviço do chá, que deixou intocado desta vez. Gostaria muito que houvesse ali uma janela da qual pudesse ver algo que não fosse aquela sala sisuda que em tudo lembrava aquele desagradável Tribunal. Mesmo que sua vida e sua visão de mundo tivessem melhorado e muito nos últimos quatro anos em que conviveu com Hermione, neste momento ele gostaria – e muito – de ter a mesma visão fechada que tinha antes de ter a menina em sua vida, pois pelo menos neste momento a opressão que sentia seria menos intensa e sequer se preocuparia com o que havia a sua volta. Mas agora, com esse "novo Nicolai", ele queria respirar ar fresco, sentir o vento, ver a claridade natural do dia, e que o ajudaria muito a enfrentar tal situação.
Vanka! É isso que me tornei, um vanka! Como posso ter enfraquecido tanto?! Vergonhoso, vergonhoso... – Nicolai se desencostava e andava em direção à porta, meneando em negativo a cabeça, desaprovando e censurando a si próprio, por ter deixado a ponderação de lado, cedendo lugar a atos irracionais, demonstrando sentimentos que sequer deveria ter.
É, Nico, encare os fatos e aceite, deixando para depois a resolução do que vier. Já passou por situações realmente terríveis e sobreviveu, por que agora está cedendo ao desespero?! Como a Matriarca sempre me dizia: ... Na bezptichyu i zhopa sol/ove'y... "Qualquer porto é bom numa tempestade..."
Neste momento, Davis adentra a sala, convocando seu cliente para voltar ao plenário. Nicolai dá um raro sorriso, algo de quem aceita com resignação seu destino, sussurrando para si próprio aquilo que lhe parecia, neste instante, uma oração, e que, inconscientemente, lhe remetia à lembrança de sua querida avó, a Matriarca Maria Ivanóvna, que sempre lhe deu apoio e conselhos, dando-lhe força e coragem – e graças a isso suportou por tantos anos o castigo da Animago Mortis.
— Na bezptichyu i zhopa ove'y...

Todos já haviam tomado seus lugares no Plenário, que acabava de receber mais espectadores na platéia, pois na "Rádio Corredor" já havia corrido a notícia de que o Caso Donskoi teria finalmente um desfecho, pois os dois advogados, Defesa e Acusação, iriam apresentar suas asserções a respeito de tudo que foi ali exposto e finalmente teria o Julgamento e a Condenação... ou Absolvição.
—Nesta terceira parte do processo de Pavel Nicolai Donskoi, a Defesa e a Acusação deverão expor aos membros do júri suas asserções colhidas durante os depoimentos do réu e das testemunhas de acusação, lembrando, porém, que foi da parte da própria Defesa que as testemunhas que deporiam em favor do réu foram dispensadas. Conforme o estipulado pelo Código de Conduta, a primeira apresentação é feita pela parte da Acusação, representada aqui pelo Promotor Oz Osborn.
O Juiz, após a reabertura da seção, senta-se em sua cátedra, e Osborn apresenta-se ao centro do palco, cumprimentando em respeito ao Juiz e logo em seguida aos membros do júri, aos quais apresentará a sua asserção.
—Senhoras e senhores membros do júri, após vinte e cinco horas corridas do processo, chegamos finalmente ao momento derradeiro onde nos será elucidado esse caso e, conforme o julgamento dos senhores, a justiça será feita.
—Pavel Nicolai Donskoi chegou à Inglaterra há mais de vinte anos atrás, trazido por seus pais da chamada Rússia Oriental, na época, então, pertencente à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, que passava por crises internas e que servia de bom pano de fundo para justificar a saída do país... porém, os planos do casal Donskoi eram totalmente diferentes; o casal Donskoi veio em atendimento à convocação 'Daquele-que-não-deve-ser-nomeado', que buscava desesperadamente por aliados a sua causa.
—O réu, que à época contava com apenas dezesseis anos, foi matriculado na Escola de Magia e Bruxaria Hogwarts, não despertando qualquer suspeita em relação ao envolvimento dos pais com o Círculo das Trevas. Com o filho levando uma vida normal para um adolescente bruxo de sua idade, isso também servia como pano de fundo para ocultar os intentos obscuros. O réu confessou que seus pais, então Comensais da Morte, tinham a intensão de oferecê-lo ao Círculo das Trevas, porém, como o próprio réu afirmou e JUROU, o fato jamais foi consumado. E, segundo o próprio Sr Nicolai Donskoi, o fato de ter sofrido uma maldição proibida pelo próprio Senhor do Círculo das Trevas, foi apenas uma mera retaliação por algum erro cometido por seus pais... erro este que o réu não soube explicar ou apontar.
—E, segundo o depoimento da ex-Auror Bhagata Caborje, que participou das buscas na ocasião do desaparecimento do réu, em vinte quatro de dezembro de mil novecentos e setenta e sete, a afirmativa do réu ganha peso, porém não desvenda o verdadeiro motivo por ter sido amaldiçoado. Como quer que tenha sido, o fato é que o réu, Pavel Nicolai Donskoi permaneceu desaparecido por longas duas décadas, reaparecendo de forma inusitada num acontecimento desagradável.
—E é nesse acontecimento desagradável, a que foi intitulado "Sábado trágico em Hogsmeade", que o réu, segundo ele, adquiriu força de vontade necessária para se libertar da maldição Animago Mortis, proferida por 'O-que-não-pode-ser-nomeado'. Sim! Graças a isso, uma menina foi salva de ser morta por um Comensal da Morte, porém, por outro lado, o sujeito foi morto de forma cruel e desumana, embora o réu afirme que não tinha a vontade humana, pois agiu por instinto animal, mesmo não sendo. Temos aqui, senhores, uma recíproca:
—O réu, com suspeição de pertencer ao Círculo das Trevas, ocultou sua animagia inclusive pelos meses em que esteve em Hogwarts; desaparecido misteriosamente por mais de vinte anos, reaparece num episódio horrendo e cruel, onde um homem foi morto barbaramente, mesmo que este homem seja reconhecidamente um Comensal da Morte e a justificativa para o crime praticado pelo réu tenha sido de salvar a vida de uma pessoa de bem, no caso da jovem bruxa aluna de Hogwarts, Hermione Granger. Os meios jamais deverão justificar os fins, quando estes se apresentam de forma a ferir a dignidade humana, pois que o assassinato jamais deva ser justificado e ainda menos justificado os meios cruéis e desumanos em que tal ato hediondo é executado.
—Peço então, aos senhores e senhoras membros do Júri, que dentro de suas concepções de Justiça, julguem se é possível que um homem possa permanecer junto às pessoas de bem de nossa sociedade, não tendo o devido equilíbrio emocional – pois quem comete um assassinato não pode ser considerado equilibrado – e, num momento de ira ou de perturbação venha a cometer outros atos impensados e impulsivos, justificando-se com isso que a forma animaga o turva os sentidos e raciocínio...
—Considerem também que o passado familiar do réu pode ainda interferir em sua conduta futura, pois que o homem também é um produto do meio em que vive e sendo que o réu, nos anos em que se forma a personalidade humana, passou em companhia e influência dos pais que eram Comensais da Morte. Considerem o fato do réu ter passado a maior parte de sua vida na forma animaga, tendo os seus sentidos humanos entorpecidos e corrompidos pelo instinto selvagem do animal, o mesmo instinto em que o réu se justifica pelo cruel assassínio de um homem, há algumas semanas atrás.
—É confiável devolver à sociedade um homem cujo passado recente pesa um ato repulsivo? É confiável devolver à sociedade um homem de passado incerto, que teve os sentimentos mais nobres de um ser humano turvados pelo instinto animal que se arraigou através da animagia coagida por uma maldição?
—Que a sabedoria dos antigos Merlins de nossa Grã Bretanha se faça presente na decisão acertada dos membros honrados deste Júri, e que a Justiça seja feita dentro dos padrões mais nobres e dignos de nossa sociedade. Aqui se encerra a minha asserção, senhores! Muito obrigado!
Osborn encareceu seu agradecimento com um aceno leve de cabeça e voltou em seguida a sua cátedra. Davis foi convocado, como havia sido anteriormente seu colega, e postou-se ao centro do palco, para a sua asserção, que representava, além da justa defesa de Nicolai, o momento derradeiro do processo de acusação e defesa. Tal idéia não passou despercebida pelo animago, que dirigiu um olhar significativo para seu advogado, que Davis, por frações de segundos, percebeu e retribuiu com uma expressão fria, porém com ar confiante.
—Senhoras e senhores membros do Júri, é com satisfação que venho até vós passar a limpo todo este processo cansativo do caso Donskoi. Temos aqui fatos irrefutáveis que nem a mais pérfida hipocrisia seria capaz de fechar os olhos, pois concordamos, todos nós, que um homicídio é sempre hediondo, mesmo que este tenha sido praticado em legítima defesa própria ou do próximo.
—E foi em legítima defesa própria e de seu próximo que meu cliente, o sr Donskoi, matou um Comensal da Morte, anônimo, sem registros, fato que torna o infeliz sujeito ainda mais obscuro para a sociedade, fato que mostra o quão deveria ser perigoso. O infeliz covarde teve a hediondez de atacar uma menina de dezessete anos, indefesa, despreparada, que apenas aproveitava um sábado ensolarado para passear por Hogsmeade, no tradicional passeio que Hogwarts faz com seus alunos mensalmente ao nosso pacato vilarejo. Penso o que teria sido de Hermione Granger, que todos conhecem, não por esse fato desagradável, mas por seus talentos bem desenvolvidos e por ser a amiga mais próxima do ícone Harry Potter, um menino que foi herói antes mesmo de saber o que era o mundo e que proporcionou a todos nós, quatorze anos de tranqüilidade, sem ofensivas e ameaças por parte do Círculo das Trevas! Penso o que teria sido dessa moça brilhante se não fosse pela intervenção de meu cliente, que impediu que uma verdadeira tragédia tivesse acontecido. E digo-vos, senhores, com toda a certeza que minha longa experiência neste meio de mentes pervertidas pelo crime e ambição, que a morte teria sido pouca coisa comparada ao que o anônimo Comensal da Morte teria feito àquela pobre menina, sozinha e indefesa num local isolado como as margens do córrego de Hogsmeade, onde tudo ocorreu.
—Sim, meu cliente cometeu um homicídio e no auge da horrenda situação, onde acreditava que a jovem Hermione Granger estava morta por estrangulamento – pois, como sabem, a moça foi espancada e estrangulada pelo Comensal – ele usou de demasiada força, uma força que ele não poderia controlar estando inconsciente de si mesmo, inconsciente que havia rompido com uma maldição que o dominava há vinte anos. Não podemos culpar um ser inconsciente de seus atos, pois tudo que o sr Donskoi queria é que o homem pagasse o mal cometido contra uma pessoa de bem, uma pessoa brilhante e de futuro promissor que é Hermione Granger, a melhor amiga de Harry Potter, o nosso pequeno salvador e logo implacável inimigo 'Daquele-que-não-se-nomeia' e daqueles que o seguem pela turva senda das Trevas!
—E penso, também, senhores, que se meu cliente, em algum momento de sua vida houvesse tido qualquer envolvimento com o Círculo das Trevas, ele nunca que teria se voltado contra os seguidores e teria, mesmo que em sua forma animaga, tentado algo contra o fabuloso Harry Potter, pois, como sabemos, o réu, enquanto na forma animaga do gato de estimação de Hermione Granger, tinha acesso irrestrito ao círculo dos bons de Hogwarts.
—E é algo de extrema injustiça imputar uma conduta a alguém apenas por osmose: dizer que meu cliente, o sr Donskoi, pode ter ou vir a ter inclinações para o crime e para o Círculo das Trevas pelo fato dos pais terem seguido o 'Inomeável', é revitimar o réu: primeiro pelo intento que os pais tinham de entregá-lo como um presente ao senhor das trevas, intenção esta confirmada pelo renomado Mestre de Poções Severus Snape, em seu depoimento na primeira parte desta seção, intenção contra a qual meu cliente lutou como pode, escondendo, inclusive, a sua animagia, para que o processo de sua entrega não fosse adiantado devido a vantagem a mais oferecida e que, provavelmente, foi a causa de sua maldição; e meu cliente é vitimizado pela segunda vez ao acusá-lo de ser um Comensal apenas porque seus pais o eram... pensamento este pueril e injusto.
—O único crime realmente cometido por meu cliente é exatamente este: o homicídio, embora por legítima defesa própria e de Hermione Granger, a quem conseguiu proteger e salvar da morte trágica, mesmo que por meio escuso e cruel. Mas... lembremos que todo e qualquer réu que aqui depõe, antes jura sob magia responder a verdade e nada além da verdade, e.. Pavel Nicolai Donskoi afirmou, mais de uma vez, que não tinha consciência de sua condição humana no momento do crime perpetrado por ele. Ao ver o ente querido abatido, os instintos que se impregnaram pelos longos anos de cárcere carnal por uma maldição imperdoável e obscura se afloraram ao seu apogeu e o pobre amaldiçoado fez o que pensou ser a única coisa que realmente poderia fazer: fazer com que o Comensal pagasse com a própria vida a vida inocente tirada por ele mesmo, momentos antes.
—E será que devemos condenar Pavel Nicolai por ocultar sua animagia? Como o próprio réu afirmou em plenário, ele não tinha outra opção além de contar consigo próprio. Seus pais eram criminosos, Comensais da Morte à serviço do 'Inomeável'. Como filho, deve-se honrar pai e mãe, por mais errados que estes estejam; não poderia buscar ajuda de Alvo Dumbledore ou mesmo do Ministério, pois isso acarretaria pronta delação e prisão de seus pais; não podia recorrer ao único que poderia ajudá-lo, seu avô, pai de seu pai, que, por motivos que cabem a ele e sua cultura, deserdou e rompeu definitivamente os laços com o filho e sua família. O que mais um garoto de dezesseis anos poderia fazer? Apenas esconder-se, então...
—Foi provado dentro deste plenário que o réu não tem ou teve qualquer vínculo com o Círculo das Trevas, ficou provado em prova evidente e contundente que o réu não é e nunca foi um Comensal da Morte, pois que através da aplicação da Morsmordre, feita perante todos que aqui estavam, não surgiu nenhuma evidência que provasse o contrário. Pavel Nicolai Donskoi é completamente inocente nesta acusação.
—Portanto, senhores, não vejo onde poderíamos condenar o réu à pena de ser enviado à Azkaban, visto que seus crimes nada foram além de erros e equívocos: uns causados pela inexperiência e desorientação de um adolescente despatriado e vivendo uma séria crise familiar, outra de um ser humano entorpecido por uma maldição trevosa que o agrilhoava ao corpo de um animal por longas duas décadas... ponderemos, senhores, dentro de nossos conceitos mais justos e nobres e vejamos se o réu já não foi suficientemente penalizado por deslizes cometidos e se o réu não merece uma chance de se tornar uma pessoa de bem, como já provou ter tal propensão, ao contrair pesado débito ao salvar a vida de uma jovem promissora que, certamente!, fará muito ainda pelo Mundo Bruxo... muito obrigado!
Nicolai estava estupefato com a atuação de seu desprezado advogado de defesa. Achou convincente as palavras anteriores do promotor Osborn, mas ouvir e ver Davis atuando lhe remetia a um 'quê' que não sabia especificar... estava atordoado e não sabia dizer se pelas palavras misericordiosas do advogado ou por um magnetismo que parecia vibrar dele, no momento da asserção... talvez fosse essa a manifestação daquilo que ele havia dito, que Alvo Dumbledore havia lhe dito ser sua magia: Einfühlung e Persuasione – Empatia e persuasão.
E no mesmo instante em que se lembrava da figura onipotente de Dumbledore, eis que uma mão longa e fina pousa suavemente em seu ombro, quebrando-lhe o certo encanto em que parecia estar. Olhando por sobre o ombro, Nicolai avista a figura bondosa do Diretor de Hogwarts, sorrindo-lhe docemente e lhe transmitindo confiança e alegria através daqueles olhos azuis-água que transpiravam uma sabedoria anciã.
—Tudo dará certo, meu filho! Confie em seu destino...
Nicolai abriu a boca para responder algo, mas não foi capaz de externar sua voz. Neste mesmo instante, o Juiz encerrava a seção, estipulando um intervalo de uma hora para que os membros do Júri se recolhessem na sala precisa a eles e chegassem ao consenso de absolver ou condenar Pavel Nicolai Donskoi.
Uma atmosfera de ansiosa expectativa pairava no ambiente, tornando o ar dali quase que eletrizado. Nicolai sentiu o gelo emotivo o invadindo em seu âmago e soube, então, estar verdadeiramente diante de um momento derradeiro, mas também sentia-se aliviado por saber que toda aquela pressão já havia terminado. O que viesse depois, sua absolvição ou condenação, seria apenas um fato a ser comemorado ou enfrentado de cabeça erguida, mas não mais a terrível pressão psicológica enfrentada dentro do Tribunal.
Enfim, o fim havia chegado. Bem ou mal, algo dali sairia e não haveria mais a indefinição de sua situação, pois algo se resolveria a seu favor ou contra.

Fim do Capítulo 43 - continua.
By Snake Eyes - 2007.

N/A: Bem, usei novamente alguns termos em russo, porém não posso afirmar com exatidão que estão completamente corretos, mas, de qualquer forma, aí vai a tradução:
Na bezptichyu i zhopa sol/ove'y - Qualquer porto é bom numa tempestade. – Neste caso, há a dúvida quanto aos termos 'sol' e 'ove'y', que estão separados por uma barra. Ou são termos distintos, e devem ser escolhidos de acordo com a circunstância da frase ou a barra é algum tipo de acentuação usada no idioma. É um mico usar algo sem saber, então peço que, se alguém souber, pode reclamar.
Vanka (van'ku) – é o nome dado ao personagem idiota de histórias que se passam em aldeias.

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