segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Animago Mortis - Capítulo 41 – Especulações

Capítulo 41 – Especulações

No alto de uma colina verdejante, recoberta de rododendros que exibiam grandes e belas flores púrpuras e brancas (arbustos que conhecemos como azálea), há a pequena cabana de pedras, naturalmente decorada com as plantas que cresciam em suas paredes e telhado. Em torno da cabana, o cuidado belvedere exibia um jardim simples, mas confortante.
Essa cabana – um antigo gazebo transformado em uma confortável quitinete – estava protegida pelo feitiço Fidelius e Hermione só conseguiu descobri-la por intermédio de Crookshanks... agora ela sabia o porque daquela cabana jamais ter sido avistada dos terrenos de Hogwarts: Nicolai a havia enfeitiçado e se tornado o próprio Fiel do Segredo, em sua época. As evidências gritavam essa hipótese, já que o feitiço foi-lhe revelado por Shanks... depois era somente ligar os pontos.

Ali era o ponto de fuga principal de Hermione, fora do castelo de Hogwarts. Quando queria ficar sozinha consigo mesma e não queria ser importunada por qualquer um, é ali, literalmente, que ela se escondia. Para ela, um verdadeiro presente de Crookshanks, que a ajudou a suportar com mais paciência e resignação as tensões e pressões sofridas ao longo dos últimos anos, principalmente quando se tornou monitora em seu quinto ano, repetindo o cargo no sexto e, nesse sétimo, finalmente recebendo a importante tarefa de gerenciar os outros alunos-monitores, sendo Chefe dos Monitores.

Apenas Karinska, a elfa-doméstica que cuida da cabana e belvedere em consideração a um antigo mentor já há muito desaparecido de Hogwarts – e que Hermione tem a certeza de ser tratar de Nicolai – tem acesso irrestrito ao local, por motivos óbvios. E é a única a ser convidada a fazer companhia à Hermione, enquanto ela está na cabana.

Hermione girou a grande maçaneta em forma de argola e adentrou a cabana rústica. O cheiro ambiente trazia o perfume de madeira, plantas e limpeza. Tudo era impecavelmente limpo e arrumado. A luz do dia entra filtrada pelas cortinas de organdi sobre as duas janelas da cabana, quando estas estão abertas.

Logo que se entra na cabana é recepcionado pela pequena lareira de frente à porta, mas de tamanho ideal para aquecer o pequeno espaço e dar passagem a um elfo-doméstico através do pó-de-flu, cujo pote estava sempre à mão no consolo. Uma porta oculta ao lado dava acesso a um cômodo menor usado como casa de banho. Mais próximo à entrada estava uma pequena mesa retangular com suas banquetas. Ao fundo do cômodo, estava uma peça de destoava de todo o resto: uma grande cama com dossel recoberto de organdi e rendas brancas, que caiam suavemente até o chão de tábua corrida. A cama de casal ficava em frente à segunda janela e sob esta uma cômoda de belos entalhes que combinavam com os entalhes na madeira dos postes do dossel e da cabeceira da cama. Apenas um jarro de porcelana com rosas brancas e amarelas – que parecem terem sido enfeitiçadas para jamais murcharem, pois estavam sempre frescas e perfumadas – estava sobre o móvel. Fora isso, não havia enfeites inúteis ou qualquer outro adorno. A graça vinha por conta da própria cabana que era revestida de madeira por dentro e da paisagem vista das grandes janelas abertas.

Hermione não pode deixar de sorrir com o ar bucólico de fazia parte daquele lugar. A luz matinal transpassava as frestas das janelas. A garota foi até elas e as abriu, e a luz e o vento se derramaram dentro da cabana. Aquilo era um local de paz, um refúgio para tranqüilizar e edificar a mente e espírito.

Foram apenas duas semanas, mas quantas coisas aconteceram num espaço tão curto de tempo! Quando estava em Hogwarts, às vezes tinha a impressão que o tempo ali corria diferente, é como se os dias fossem mais longos e as horas mais duradouras, devido a grande torrente de acontecimentos que costumam desabar um sobre o outro... podia-se passar meses sem que houvesse uma mudança insignificante qualquer na rotina, mas de hora pra outra uma sucessão de acontecimentos atropelavam você se estivesse desprevenido.

Muitas coisas estranhas e mesmo bizarras já presenciou nesses poucos mais de seis anos no Mundo Bruxo e era muito difícil emparelhar todas para ver qual superava... mas descobrir que Crookshanks era um bruxo animago foi a mais inesperada, devido à proximidade consigo própria.

O rato Perebas de Rony foi uma surpresa extremamente desagradável, um verdadeiro fato insólito e bizarro, mas será que poderia se dizer o mesmo de Crookshanks? Rezava que não...
E com quais propósitos o Animago transformou o antigo gazebo numa casa perfeitamente habitável? Ela busca a reclusão para poder dar vazão e forma a seus próprios pensamentos, faz dessa reclusão uma busca de si própria, para entender seus conflitos e ouvir sua voz interior.

Será que Nicolai tinha esse propósito quando se "apossou" do velho gazebo?

Deitou-se sobre a grande cama, agarrando-se a um dos muitos travesseiros e assumindo a posição fetal, deixando vagar seu olhar para a paisagem de folhas e céu da janela. Os caracóis de seus cabelos se espalharam pela colcha de linho e esmerosos bordados, fazendo o contraste de alvo e escuro.

Há muitas coisas que gostaria de saber, mas, antes de tudo, gostaria de saber como tudo isso terminará...


—Harry! Por onde você se meteu?! – Em direção ao Harry, ainda nos jardins da Escola, vinham Rony e sua irmã, afoitos, parecendo seriamente preocupados, o que fazia o moreno torcer o rosto em desaprovação. Essa mania de sempre ter alguém em seu encalço já havia enchido há muito tempo!
—Estava na margem do Lago... por quê? – Questionou um Harry que se fazia de indiferente, com ar blasé.

—E Mione? – Gina sempre metendo o nariz sardento onde não é chamada, pensou um aborrecido Harry Potter.

—Ela também estava... mas, ela saiu antes de mim e não pude ver qual direção ela tomou, por causa desse monte de mato espalhado pelo terreno... – Harry se fazia de sonso, assim ele evitava mais perguntas inconvenientes. —Por acaso vocês não a viram?

—Não, não a vimos... – afirmou um desconfiado Rony Weasley. —Ela parece querer nos evitar... e você também, Harry Potter! Convivo contigo há sete anos, sei muito bem quando finge indiferença, querendo sair pela tangente, mas não vai conseguir desta vez não...

Harry abaixou levemente a cabeça, olhando enviesado para Rony, por sobre seus óculos redondos. Por que diabos ele sempre tinha que dar satisfações?! Por que simplesmente esse povo não o deixa em paz e não cuida da própria vida?!

—Estive com Hermione e não consegui conversar com ela nem por cinco minutos! Se vocês querem saber algo dela, como foi nesse maldito julgamento, então que vocês a encontrem e perguntem diretamente a ela! Eu vou voltar pra aula!

Harry tornou seu caminho, passando por entre Gina e Rony, quando o amigo segurou fortemente em seu braço, obrigando-o a encará-lo. Rony, apesar da atitude um tanto quanto bruta, falou mansamente:

—Harry, eu sei que algo não vai bem entre você e Mione, que alguma coisa aconteceu entre vocês e que terminou em desastre. Sou amigo de vocês dois e os conheço o suficiente para saber quando as coisas não andam certo...

O moreno ponderou ante as palavras de Rony, acalmando-se por fim.

—É.. você tem razão, Ron... eu cometi uma estupidez sem precedentes com a Mione...

—Imaginei algo do tipo...

—Mas.. não acho que eu tenha sido de todo culpado nesta história! Desde.. desde aquele maldito sábado em Hogsmeade que as coisas saíram totalmente do eixo! Aquilo jamais deveria ter acontecido!

—Então foi por isso que você esmurrou o Malfoy?! – Perguntou uma assustada Gina Weasley, ante a própria conclusão.

Harry titubeou na resposta, mas cedeu por fim: —Sim, foi por isso sim! Foi Malfoy quem armou aquela cilada sórdida! E acabou desta forma que vemos agora! Se não nos bastasse todos os problemas que temos que encarar, surge mais um potencial inimigo do qual devemos também estar vigilantes!

O rapaz sentiu um estranho alívio ao externar seus receios. Aquilo já estava lhe causando um peso incômodo.

—É verdade! – Concordou Rony, apoiado silenciosamente por sua irmã, que apenas meneou a cabeça em afirmação. —Principalmente ele sendo um Comensal, como Neville ouviu dos tais agentes do Ministério!

—Mas.. não devemos nos alarmar quanto a isso! – Gina tentou pôr panos quentes, a fim de suavizar a conversa que já começava a estressar. —Se o Animago é mesmo um Comensal, ele sequer sairá do Ministério, ou melhor!, ele irá de lá direto pra Azkaban! Papai falou que o Ministério agora não está dando mais mole mesmo!

Harry meneou lentamente sua cabeça, discordando do que Gina acabava de dizer. Os dois irmãos ficaram mudos, apenas olhando o semblante soturno e estressado do amigo, esperando pela "bomba" que ele tinha pra informar.

—Não.. não segundo Hermione...

—Como assim? – Os irmãos perguntaram em uníssono.

—Hermione disse que aplicaram a Morsmordre em Donskoi e não apareceu nenhuma Marca Negra nele! E isso provou que ele NÃO É um Comensal da Morte!

Gina abriu um grande sorriso, soltando um gritinho baixo e agudo, batendo as mãos em aprovação. Rony apenas ensaiou um sorriso desconfiado, mas sentia-se aliviado com tal notícia, falando a Harry em tom otimista:

—Ora, isso é ótimo, não é? Uma preocupação a menos para nós e principalmente para a Mione! Com certeza agora ela vai deixar de estar tão estressadinha!

—É? Preocupação a menos? Tem certeza?

—Pô, eu acho que é... qual o problema afinal, Harry? Você está esquisito desde que espancou o Malfoy! Você anda.. eh... fumando alguma coisa, afinal?

—Às vezes você é patético, sabe Rony? – O ruivo ia protestar, mas Harry o cortou antes que saísse qualquer palavra da boca entreaberta do amigo. —Não, não estou fumando nada! E nem bebendo, só pra garantir! Mas, estou sim, esquisito, como acabou de falar... ainda não aceito o que aconteceu naquele sábado e, até que me provem o contrario, aquele maldito Animago é, sim!, uma ameaça, sendo ele Comensal ou não! Se você não se lembra, Rony, Crookshanks não gostava de nós! E de alguma forma, ele conhecia Pettigrew, e conhecia a forma animaga daquele sujo!

Um silêncio aterrador caiu sobre o trio, que se calou e se recolheu, analisando as palavras de Harry. Mais uma vez, Gina quis quebrar o gelo com panos quentes, tentando dar uma perspectiva otimista ao assunto.

—Você se esquece, Harry, que Crookshanks sempre perseguiu o Perebas, isto é, o Pettigrew como Animago! E esquece também que foi Crookshanks que ajudou o Sirius e até defendeu a vida dele diante de vocês dois! Os fatos valem, suposições, não, Harry! A sua preocupação, para mim, é outra! – Gina desafiou, por fim.

Harry a dirigiu um olhar mau, engolindo a seco as palavras da ruivinha. Afinal, ela tinha razão... então, porque diabos aquela implicância contra o Animago?!

—Acho que você tem razão, Gina, mas em parte... Crookshanks tinha todos os conhecimentos, mas NINGUÉM o conhecia! E eu tenho cer-te-za de que Sirius teria dito qualquer coisa sobre o gato! Não só Sirius, mas também Lupin!

Novamente os irmãos se calaram ante Harry.

—Desculpe, pessoal, mas até que eu tenha certeza absoluta de que esse tal Donskoi não é uma ameaça, não irei olhá-lo com bons olhos! E se ele for absolvido, é muito provável que ele retorne para Hogwarts, afinal, para onde ele iria, não é mesmo?

Harry retomou seu caminho, deixando dois amigos para trás com uma imensa interrogação sobre suas cabeças.


Desde o dia em que Draco levou a surra de Harry, o louro-aguado vem se reservando. A surra, obviamente, não apenas o machucou fisicamente, mas, principalmente, moralmente, tanto que sua auto-estima sofreu um imenso abalo, fazendo-o pensar e concluir que fora mesmo uma enorme estupidez a cilada que armou para a Granger. A carta que estava prestes a receber de seu pai, Lucius Malfoy, viria para reforçar a certeza da estupidez que cometera, mas também traria uma nova perspectiva, um novo horizonte ainda não imaginado.
Já era noite quando uma enorme coruja negra bicava energeticamente a estreita janela no topo da parede, no dormitório que Draco dividia com outros quatro colegas. O garoto estava sentado em sua cama, enxugando os cabelos platinados, pois acabava de sair do banho. Estava pensativo, alheio, mas a insistência da coruja fê-lo despertar de seu devaneio. Com um muxoxo de tédio, Draco aponta sua varinha para a janela, fazendo com que o basculante se abra e a grande coruja passe espremida por ele.

Era um dos magníficos exemplares criados no viveiro da mansão Malfoy. Em sua pata direita, que a ave esticava para Draco, um rolinho de pergaminho estava preso por uma fita, que o garoto logo se apossou. A coruja ficou ao seu lado a espera de uma resposta a ser enviada.
Draco desenrolou o pergaminho e leu em segundos, apreensivo:


"Meu filho, eu preferia não ter conhecimento de suas atitudes extremamente infantis e imprudentes! Não era sequer necessário me perguntar se agiu correto, pois deveria saber muito bem a resposta: Não! Você só não agiu certo como também correu um enorme risco desnecessário! Se quer algum dia ser mais do que é hoje, é bom que aprenda a lei da cautela, aprendendo a raciocinar e considerar todos os pontos de uma ação! Você errou terrivelmente em contratar um peão para ajustar suas desavençazinhas escolares! Eu já o alertei disso uma vez. Este será meu segundo e último alerta: se mais uma vez você quiser resolver suas pendengas usando os contatos de fora, eu mesmo o arrancarei de Hogwarts e o levarei para ser punido por você sabe quem! Planos realmente sérios e grandiosos não podem sofrer abalos por coisas insignificantes como essa que você aprontou! Graças a Merlin o nosso senhor não associou um fato ao outro... nisso você teve sorte, garoto, porque o peão foi tirado do tabuleiro por um acontecimento totalmente inesperado!
E é sobre esse acontecimento inesperado que quero que você investigue mais a fundo, obtendo toda e qualquer informação que conseguir a respeito.

É claro que todos nós soubemos do ocorrido em Hogsmeade e do aparecimento de um bruxo animago que estava preso a uma maldição. Confesso que eu – e nossos amigos – estamos pasmos com o nome que nos forneceu, Draco. Pavel Nicolai Donskoi foi um dos nossos, foi, digamos, meu colega de classe na minha época de Hogwarts, do 5° até metade do 7° ano, quando ele e mais dois colegas desapareceram misteriosamente. Estou pasmo porque jamais soube, sequer desconfiei, que o russo era um animago. Sua mãe quem se lembrou do nosso 'amigo'; para mim, a lembrança que eu tinha dele estava morta juntamente com ele.

É uma situação inusitada e até mesmo esdrúxula, eu diria. Não tenho muito a dizer sobre o Animago, mas tenho certeza que há um dedo do nosso senhor nessa história e talvez ele fique interessado nessa informação.

Já sabe: se conseguir mais informações sobre o caso, me envie uma carta imediatamente. Por ora, apenas tenho a lhe dizer para ter muita cautela, caso o velho colega retorne à Hogwarts e SE retornar, pois creio que ele não escapará do julgamento, é certo que seja enviado pra Azkaban. Poderemos lamentar por perder um possível aliado, mas é mais confortável que ele vá para a prisão e toda essa história seja morta e enterrada de uma vez!

E, filho, tenha sabedoria! Seja racional e prudente! Não poderei interceder em seu favor caso você venha, por estupidez e criancice, pôr em risco os planos maiores!

Agradeça a Merlin pela sorte que tem.

Sua mãe lhe manda um beijo e manda também que tenha juízo. Obedeça-a!

Seu pai."


Draco suspirou falha e lentamente. Sofrer ameaça do próprio pai não era fácil de assimilar, mas, miseravelmente, Lucius tinha razão! Somente por causa de uma desavença com a sangue-ruim, ele poderia ter posto os planos do pai em xeque.
Foi mesmo uma sorte que o Comensal que ele contratou tenha morrido... e morreu pelas mãos daquele Animago!

Seu coração disparou e sentiu suar frio. Quem era afinal de contas esse Animago?

Nem seu pai sabia muito que pudesse lhe dizer. Mas saber que ele era um Comensal da Morte, era algo esdrúxulo, inusitado, como bem disse seu pai!

—O gato vira-latas da Granger é um animago, que por sua vez foi um Comensal da Morte que sofreu uma maldição provavelmente do Lorde! Isso é mesmo inacreditável!

Um possível aliado ou mais um estorvo aos planos do Lorde?

Somente o tempo poderia dizer e mostrar. Por ora, pensar demais nisso é sofrer desnecessariamente por antecipação. Ademais, é provável que o Animago, sendo mesmo um Comensal da Morte, vá direto para apodrecer em Azkaban.

—O gato havia me desafiado! – Draco lembrou-se aterrorizado. —Se ele é mesmo um antigo colega de papai, é claro que ele sabe quem eu sou e quem é meu pai! E ainda assim o gato havia me demonstrado várias vezes que me detestava!

Draco levantou-se de sua cama nervoso, e começou a andar de um lado para outro, até que resolveu pegar uma caneta tinteiro e escrever um rápido bilhete no verso da própria carta que recebeu de seu pai, tranqüilizando-o sobre suas futuras atitudes e confirmando que manteria-o informado sobre o caso do ex-colega.

A coruja levantou vôo e saiu pela noite afora, deixando um Draco Malfoy confuso na incerteza de um futuro que se reescrevia.

—Acalme-se, Draco! – Murmurou de si para si mesmo. —O cara vai pra Azkaban e você não terá que se preocupar com um novo oponente...

—Embora que... sendo ele um dos antigos colegas de papai, seria um fabuloso aliado...


Fim do Capítulo 41 - continua.
By Snake Eye's - 2007.

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