sexta-feira, 19 de julho de 2013

Animago Mortis - Capítulo 39 – Manhã Dorida

Animago Mortis - Capítulo 39 – Manhã Dorida

Quanto tempo já havia se passado?
 
Mais de sessenta anos... há muito tempo deixara de comemorar essa data... há muito tempo... há mais de vinte anos...

Jamais assumiu isso para quem quer que fosse, nem para seu reflexo no espelho, mas sabia que esse sentimento existia no fundo de seu âmago.

Quando seu filho tomou a pior decisão de sua vida, quando se foi, levando dali a esposa e o neto adorado, quando eles se foram sob as piores condições possíveis – sendo sua uma parcela de culpa nisso – algo de sua alma foi junto e morreu pelo caminho... não apenas a sua alma fora destroçada, mas também a dela, a Luz de sua existência.

Pois bem, mas de sessenta anos já haviam se passado e ela ainda era um enigma para ele... ainda não era capaz de conhecer seus pensamentos com pequenos gestos e olhares, com apenas o descompassar da respiração, como ela fazia com ele. Ela o conhecia profundamente, lhe dava as respostas sem que ele chegasse às perguntas; sempre estava por perto e oferecia o colo de seu consolo sem ele sequer demonstrar que precisava disso. Mesmo após sessenta longos anos de convívio intenso, sem terem se separado por um tempo mais longo do que poucos dias, ele ainda não a compreendia e ainda se encantava...

Ela estava lá nos jardins, parcialmente deitada naquela grande rocha recoberta de musgos e liquens; os longos cabelos lisos e prateados e o longo vestido sedoso e claro escorriam pela rocha e vegetação como fosse uma pequena cascata. Os cedros e abetos ao entorno formavam uma barreira contra a luz direta do sol que já se tornava cada vez mais tímido aquela época em que transcendia o outono. O vento manso fazia as folhas das árvores bailarem lentamente e o cedro despejava sobre ela, e tudo a sua volta, suas folhas penadas e as grandes flores alvas. Dela sempre emanou uma suave luz dourada que ele nunca soube dizer se realmente vinha dela ou vinha de seu próprio fascínio que sempre tivera por ela.

A criação machista que teve, os ensinamentos desde tenra idade de que ele era superior e inatingível, jamais surtiram qualquer efeito sobre ela, jamais foi capaz de usar isso contra ela... talvez por amá-la demais, jamais teve a ousadia de sobrepujá-la... mas a verdade ele sabia, embora não confessasse abertamente: ela lhe era superior, muito superior, embora jamais tivesse se posto acima dele em qualquer situação ou por qualquer motivo... talvez jamais isso fora necessário...

Aproximou-se calma e lentamente, não queria estragar aquele momento, aquela "pintura". No alto de seus quase oitenta anos, ainda sentia-se um menino ante ela, pois a superioridade natural dela o remetia a um humilde servo e que lhe devia todo o respeito do mundo.

Seus olhos dourados perdiam-se vagos pelas folhas irrequietas das árvores, trazendo brilhos difusos que modificavam constantemente as sombras e a luz. Somente depois de alguns instantes que ela percebeu que seu marido ali estava, e voltou lentamente seus olhos para ele, esperando por suas palavras.

Vassili entendeu aquele olhar como um consentimento e encontrou um lugar na rocha para sentar-se ao seu lado, não tão confortavelmente como Ivanóvna, mas o suficiente para desfrutar daquele momento ao lado dela. Ele gostaria de ser capaz de encontrar as respostas que queria somente olhando para os olhos dela, como ela fazia com ele, naturalmente, sem sequer usar de qualquer artifício ou magia para isso... mas ele, realmente, não tinha esse dom.

—Estás distante hoje, Ivana, já não estavas no solar quando saí para vistoriar os serviços dos campônios e checar nossas terras...

Ivanóvna ainda manteve seu olhar vago por alguns minutos, até achar por bem compartilhar aquilo que vinha já algum tempo se questionando.

—Ainda hoje me intriga o fato de seus pais terem escolhido a mim para a sua esposa...

Vassili estreitou os olhos e forçou as sobrancelhas, pensando se havia entendido ou não o que Ivanóvna acabava de lhe falar. Arqueou o corpo mais para frente, para encarar a esposa.

—Que conversa é essa, Ivana??

—Minha família não era tão rica e nem tão... tradicional quanto a Donskoi, e mesmo assim seus pais me escolheram...

—Tradicional que dizes é pertencente às Trevas... – Divagou Vassili, mais para si mesmo do que para Ivanóvna. —Mas não entendo onde queres chegar, Ivana.. não achas que já é muito tarde para esse tipo de questionamento existencial? – Embora a estranheza da conversa, Vassili não pode deixar de sorrir, afinal, divagações filosóficas eram bem comuns à esposa e, quase sempre, ele não entendia de pronto onde ela queria chegar.

—Eu queria equilibrar a educação de nosso filho, não queria que ele seguisse um caminho sem conhecer e ter outras opções... penso que se eu tivesse a mesma tradição que você, nosso filho teria sido forte o suficiente e não teria se deixado seduzir por... eu falhei quanto a Dmitri... – Ivanóvna terminou suas palavras com a voz embargada e os olhos marejados.

Vassili ficou pasmado por instantes, não acreditava no que ouvia.

—Ivana! A senhora ainda jogas a culpa em ti pelo erro cometido por Dmitri?! Isso é ilógico, é inaceitável!

—Somente o senhor deverias ter sido o responsável pela educação de Dmitri, Vânia! Ele teria recebido a educação tradicional do Clã Donskoi e não teria sucumbido a nenhuma tentação ilusória.

—Maria Ivanóvna! Isso é irracional! Tu não podes te culpar pela decisão estúpida e errada de um homem de quase quarenta anos! Dmitri era um homem formado, maduro, responsável, já não era uma criança há muito tempo! Ele fez uma escolha, uma péssima escolha! Ele tinha suas opções e tinha, principalmente, os nossos conselhos! Fizemos tudo que era possível para que ele enxergasse o erro que estava cometendo. Ele era um ser humano consciente e inteligente, não poderíamos ferir seu livre-arbítrio com a coação de magia negra, pois era a outra opção que tínhamos além dos diálogos e dos conselhos, que não foram poucos, principalmente da senhora!

Maria Ivanóvna debruçou-se sobre si mesma, apoiando seus braços sobre as pernas, deixando novamente o olhar vago e marejado descansando pelas folhas secas e flores brancas que se espalhavam pelo chão de seixos e gramíneas. Silenciou-se por algum tempo, até que a angústia da impaciência de seu marido fez trazê-la de volta à conversa:

—Por que isso agora, Ivana? Isso tem a ver com aquela maldita carta de Dumbledore?

A mulher voltou seu olhar para o marido, que estava incrédulo e aguardava uma resposta. A resposta veio, mas não era a esperada.

—Essa noite aconteceu algo... não tenho plena certeza sobre o que ocorreu, mas a intuição que tenho disso é que o que aconteceu foi mais que um sonho...

Vassili respondeu com um silêncio inquiridor. Maria Ivanóvna prosseguiu.

—Foi tão real e tão detalhado... eu senti uma força a me chamar, a me puxar para fora de mim mesma, para fora de meu corpo... andei o corredor do segundo pavimento.. estava horrivelmente opressor, com uma escuridão densa... fui até o salão de atividades, mesmo que a sensação que ele me causava de pavor me fizesse querer fugir dali, correr, voltar para a proteção de meu corpo e despertar daquele sonho horrível... as sensações eram muito nítidas.. materiais, eu diria...

A mulher não se conteve, não suportou manter-se sentada. Levantou-se nervosa e caminhou até ao grande cedro que estava a sua frente, apoiando-se nele e tentando se acalmar observando a paisagem pré-outonal que já cobria a natureza em volta.

Vassili não suportou a tensão e também se levantou, indo até a sua esposa, levando a mão ao ombro esquerdo dela, como se quisesse passar-lhe a coragem que lhe faltava para terminar o relato de seu sonho estranho. Inanóvna entendeu o recado.

—Dentro do salão a atmosfera estava carregada, terrivelmente trevosa, o ar estava pungente... e vi, horrorizada, vultos negros, esfarrapados, pútridos, como fossem dementadores! Eles rodopiavam pelo salão como fossem um enxame e no meio daquela tormenta negra, eu os vi, meu Deus! Eu os vi!

Ivanóvna finalmente caiu em prantos, sendo imediatamente amparada por Vassili, que a envolveu em seus braços, querendo ampará-la e protegê-la. Sabia que não se tratava de um delírio de sua esposa.. sabia também que não se tratava apenas de um sonho infeliz... mas queria saber o restante do que ela presenciou.

—Quem a senhora viste, Ivana?

Ivanóvna tentou novamente se acalmar e controlou seu pranto. Só então pode dar prosseguimento ao seu relato, mas sem sair da segurança dos braços do marido.

—Nosso filho, Dmitri.. e nossa nora, Nikita... Santo Deus, eles estavam irreconhecíveis, mas por alguma razão sabia que eram eles! Eles estavam medonhos, enlameados, ensangüentados, emanavam uma energia terrível! Dmitri esbravejava e Nikita chorava convulsivamente! O horror foi ainda maior quando entendi o que ele dizia! Dmitri amaldiçoava o próprio filho! Ele estava amaldiçoando o nosso neto, Pavel! Foi então que percebi uma energia diferente, uma força frágil, desesperada, que buscava socorro, então vi, prostrado diante de nosso filho, encoberto por um espectro negro.. era Pavel! Pavel, nosso neto!

—E como nos tempos em que ele era só um pouco mais que um bebê.. quando ele corria debilmente por essa estrada de seixos e caía... tudo que eu queria naquele momento era pegá-lo no colo e consolar a sua dor.. que era muita, muita, eu podia sentir!

—Quando eu o envolvi em meus braços, tudo desapareceu, aquela atmosfera trevosa desapareceu e então, acordei.. acordei ainda sentindo o nosso neto em meus braços, sentindo ainda a dor dele...

Ivanóvna voltou a chorar, escondendo seu rosto no ombro do marido, que a apertou ainda mais contra si. Não era hora de criticar, de maldizer, de opinar. Apenas ficaram ambos ali, entre os cedros e abetos, entre as pedras e a vegetação rasteira, ora iluminados pelos raios de sol que venciam os obstáculos das copas das árvores, ora encobertos pela sombra que essas produziam ao balançar do vento constante.

Hermione fez um rápido desjejum e fugiu para os jardins de Hogwarts, indo instintivamente para as margens do Lago da Lula Gigante, refugiar-se entre as grandes raízes sobresselentes da imensa figueira que parecia se debruçar sobre as águas.
 
Sentou-se sobre a raiz e ficou ali divagando seu olhar pelo espelho d'água, ora plácido, ora tremeluzente com uma brisa mais forte. Folhas oxidadas pelo tempo já começavam a navegar sem rumo pelo Lago e a floresta na margem oposta começava a perder seu verde vibrante, cedendo lugar para os ocres e amarelos que começavam a salpicar as árvores de densas folhagens.

Queria espairecer. Queria respirar. Queria se sentir livre e leve. Não queria carregar por mais tempo aquela opressão que sentiu dentro daquele salão sisudo do Tribunal. E divagando, percebia a simplicidade do mundo e da vida. Tudo na natureza parecia transcorrer normalmente, sem subversão, sem revolta.. tudo parecia obedecer à risca os planos de um Pai Maior, sem contestar, sem inventar problemas... e acabou percebendo que tudo parecia ser sempre feliz, sempre resignado, e apenas o ser humano causava todos os tumultos, porque não aceitava simplesmente ser feliz como havia sido criado.

Tudo é muito simples. As pessoas que complicavam. Tudo parecia feliz com aquilo que lhe fora planejado. Somente as pessoas não aceitavam a felicidade simples.

Ouviu passos cautelosos sobre a grama. Era horário de aulas, então não poderia ter muitas pessoas ali que pudessem estar vagando a essa hora. Pensou que poderia ser Alvo Dumbledore ou mesmo Hagrid, por isso olhou alegremente por sobre o ombro.

Sentiu o peito gelar quando suas perspectivas se mostraram frustradas. Não era nem Dumbledore e nem Hagrid que ali vinha, mas um Harry cauteloso, de expressão tensa.

Instintivamente Hermione se levanta, em defensiva. A última vez que uma situação como essa envolvendo ela e Harry aconteceu, foi aquele beijo forçado, nesse mesmo lugar, há alguns dias antes. A lembrança da sensação desagradável de violação a fez tomar uma posição sobressaltada e defensiva. Harry percebeu.

—Não.. não se preocupe, Mione... Eu.. eu não estou aqui para faltar novamente com o respeito com você... jamais, jamais voltarei a fazer isso novamente, prometo! Eu só queria saber como está. Eu estava... nós estávamos muito preocupados com você..

Hermione abaixou a cabeça, um pouco envergonhada. —Está certo, está tudo bem...

—Você.. você foi convocada pelo Ministério... como foi por lá? O que aconteceu, afinal?

A garota tornou a encarar Harry, ponderando se devia lhe contar alguma coisa ou não. O forte sentimento de amizade que nutria pelo garoto falou mais alto e achou por bem que ele deveria saber de algumas coisas, uma compensação pela preocupação que ele teve por ela.
—Fui intimada pelo Ministério para depor a favor de.. Donskoi... apenas isso.

—Imaginei que fosse... Neville viu quando.. Donskoi foi levado na semana passada por homens do Ministério... – Harry falou com certa cautela, tinha medo de alguma reação explosiva da amiga.

—O quê?! Como Neville viu isso?!

—Sim... sabe como é aqui em Hogwarts... nunca nada é tão sigiloso.

Hermione voltou seu olhar para o Lago, estava furiosa. Como é possível que nada possa se passar despercebido por seus colegas? Sempre há alguém por perto vigiando, tomando conta da vida dos outros, da sua vida! Volta-se ainda com raiva para Harry, precisava saber até onde foi essa história.

—E o que mais Neville lhe disse?

Harry pareceu desconsertado com a pergunta. Titubeou, não queria responder, mas já era tarde demais, já havia falado demais e Hermione não deixaria isso passar em branco. Ela tiraria a verdade dele de uma forma ou de outra.

—Neville ouviu quando os agentes mencionaram que o tal Donskoi é um Comensal da Morte... mas viu também que Dumbledore o defendeu e ainda ameaçou um processo contra o abuso dos agentes.

Hermione ficou quase possessa. Mas abriu um sorrisinho cínico, zombeteiro. A essa altura metade de Hogwarts deveria saber desse boato, muitos deviam estar se regozijando, como Harry parecia estar, então era um prazer enorme fazer os boateiros, os intrometidos, quebrarem a cara com a verdade.

—Fiquem então sabendo que aquilo não passou de uma provocação idiota de um agente idiota e preconceituoso. Donskoi foi submetido a Morsmordre e se ele fosse mesmo um Comensal da Morte, a Marca Negra teria aparecido em seu corpo, diante de todos! A Marca NÃO apareceu! Ele NÃO É um Comensal da Morte!

Hermione saiu apressada e bufando do lugar, deixando um Harry desconsertado, sem saber o que fazer. Não queria ter mais nenhum atrito com Hermione, mas pelo jeito o rancor da garota pelo que ele fez a ela, ainda estava muito vivo em sua memória. Mais uma vez ele ficou mal com a amiga e tudo que ele queria era apenas conversar com ela, como sempre fizera.

Mas o mundo havia mudado, as coisas haviam mudado, ele havia mudado! Hermione já estava longe e ele apenas reforçou um pouco mais o rancor da menina, lamentavelmente.

Fim do Capítulo 39 - continua.
By Snake Eye's - 2007.

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