terça-feira, 9 de julho de 2013

Animago Mortis - Capítulo 38 – Pessimismo não ganha causa


Capítulo 38 – Pessimismo não ganha causa...

Hermione desperta numa manhã ensolarada e com poucas nuvens, onde um tímido sol ensaia seus últimos raios quentes de verão que se finda. Dentro do quarto, sob o dossel escarlate que caracteriza as camas dos dormitórios da Grifinória, algo peludo e de focinho gelado cutuca o rosto da garota, que gostaria de poder dormir por mais umas dez horas. Mas a coisinha peluda é insistente e continua a cutucar seu rosto, virando-se e esfregando as costas em sua boca e nariz, fazendo-a ter alergias. Por tão grande insistência, Hermione não tem outra opção do que acordar, nem que seja pra repreender esse bicho abusado. 
 
—Shanks! Seu chato! Você quer me sufocar com esse monte de pêlos, é isso?! – Hermione fingia um aborrecimento, pois o único ser que não a aborrecia neste mundo era seu gato de estimação Crookshanks.

Sem abrir os olhos, Hermione afasta o gato delicadamente com a mão esquerda, mas ao se deparar com um corpinho tão pequeno é que desperta de uma vez, piscando em profusão, sem entender nada de imediato.

Seus olhos encontram uma pequena bola de pêlos, um pouco maior que sua mão, branca e fofa feito algodão doce, e olhinhos azuis cristalinos e felizes. Hermione sorri pela visão – afinal é impossível não sorrir ao ver um gatinho – mas a melancolia toma conta de si ao ser remetida à realidade onde não mais existe seu leal companheiro, Crookshanks.

—Bom dia, bela adormecida! Como passou suas últimas doze horas? – Perguntava uma sorridente Gina Weasley, mas em sua voz pairava um tom cauteloso.

Hermione olhou cegamente para a ruivinha por alguns instantes – sabe-se lá o que passando em sua cabeça – e responde com um meio sorriso e um fio de tristeza.

—Oh.. olá Gina, bom dia pra você também! Quer dizer que estou dormindo há doze horas?

—Sim, mais ou menos... – Gina responde, sentando-se na cama, ao lado da amiga. O filhote pula em seu colo no mesmo instante e começa a ronronar. —Ontem, mal você chegou e já foi pra cama... estava tão exausta que dormiu e me deixou falando sozinha aqui...

—Merlin.. foi mesmo?! – Hermione levou a mão aos lábios, desviando seu olhar para um ponto qualquer de sua cama desarrumada. —Eu mal me lembro de algo... mal me lembro de ter chegado à Hogwarts... poderia jurar que isso já faz dias e não que foi ontem à noite...

—É... você estava mesmo muito esgotada... estava até envelhecida! Parecia até uma velha de 25 anos! Todos nós ficamos muito preocupados com você, foi um custo conter meu irmão e o Harry para que não viessem perturbá-la com todas as perguntas que eles queriam fazer... mas, vou deixar você se arrumar e irei tranqüilizá-los quanto ao seu estado... Já passou a hora do café, mas vai querer descer pra tomar o desjejum no salão ou vai querer tomar aqui mesmo?

—Já passou a hora do café? Mas.. mas.. e as aulas?! Santo Deus! Já estou perdendo mais aulas, de novo?! Mas isso não pode ser! – Hermione levanta-se da cama exasperada, jogando sua colcha para os pés. Gina a contém, tentando tranqüilizá-la, e não deixando que ela se levante tão abruptadamente.

—Calma, Mione! Calma! A Professora Minerva a dispensou das aulas por hoje e me pediu para avisar que ela mesma reporá as matérias que você perdeu nesses últimos três dias, contando com hoje, claro!

—Mas não estou doente e nem nada que justifique matar mais um dia de aula!

—Também foram ordens de Dumbledore... você quer contestar ele também?

Hermione acalmou-se, sentando novamente em sua cama, deixando Gina satisfeita. A menina sorriu, afastando-se da cama com o gato agarrado em seu ombro e que olhava curioso para Hermione.

—Relaxa, se arruma com calma, vá tomar seu café com cal-ma, vai dar umas voltas, , mais tarde, se você achar que tá cem por cento, você vai pras aulas... ok?

A moça olhou marotamente para Gina e não deixou de pensar como as coisas podem mudar de uma hora para outra... Gina lhe dando conselhos para se cuidar?

—Está bem, Gina, já que são ordens de Minerva e Dumbledore...

Gina sorriu satisfeita, girando em seus calcanhares e saindo quase saltitante do dormitório de Hermione, que se entregou novamente à melancolia assim que a ruiva fechou a porta as suas costas.

Ela estava ali bem, de volta a Hogwarts. Mas, e quanto a Pavel? Será que ele havia se recuperado do mal súbito que o acometeu horas antes?

As barras luminosas da cela se desvaneceram até desaparecerem completamente, dando entrada a dois homens trajados de ternos negros e muito bem alinhados. O sarcasmo e as risadas debochadas os acompanhavam. 
 
—E aí, o que daremos para o prisioneiro? Pedaços de peixe cru com uma tigela de leite? Ou será que ele prefere apenas ração seca?

—Talvez um rato de esgoto fosse mais apropriado para esse filho de comensal imundo!

Ambos caíram na gargalhada ante o trocadilho. Crookshanks, enrolado em torno de si mesmo sobre a cama estreita da cela, apenas levantou o olhar para observar; a sua prostração era tanta que sequer se permitia aborrecer com essas cenas ridículas.

—Ora, vejam só! Somente aquele idiota do Jonathan Davis para conseguir um hábeas corpus para que o réu possa usar de sua animagia! Isso não existe, cara!

Parado atrás do dois agentes e com um semblante de poucos amigos, encontrava-se o advogado de defesa de Nicolai, Jonathan Davis, que pronunciou sua presença com uma voz fria e letal: —Fico mesmo comovido com a parte que me toca, agentes... Deixem o desjejum do Sr Donskoi na mesa e saiam imediatamente. Tenho assuntos a tratar com meu cliente.

Os dois agentes gelaram e, figurativamente, abaixaram as orelhas e enfiaram os rabos entre as pernas. Deixaram a bandeja com o café da manhã de Nicolai sobre a mesa do canto e se retiraram apressadamente, sem olhar para Davis, que suspirou profundamente de enfado que tais criaturas ridículas o causavam.

Como eram as normas, Davis foi trancafiado dentro da cela juntamente com seu cliente. As barras de energia luminosa voltaram a trancar a entrada, emitindo um incômodo e baixo zunido.

Davis parou em frente a Crookshanks, olhando-o com desdenhoso lamento.

—Como é que é, Russo? Pretende ficar nessa forma até quando?

Crookshanks não respondeu, obviamente, apenas ergueu mais uma vez seus olhos, agora opacos e sem vivacidade, para Davis, que não demonstrava sinais de paciência.

—Isso é mesmo inusitado! Um gato em estado depressivo! Você precisa se alimentar, se reerguer e lutar! Cara, você tem o estrito apoio do Mestre Dumbledore! O que mais você quer?!

Sem mais nenhuma paciência, Davis saca sua varinha de dentro de sua casaca, apontando para Crookshanks, que finalmente manifestou alguma reação, ao ficar acuado com a atitude brusca do bruxo maluco a sua frente.

—Eu não tô aqui pra ser babá de ninguém, menos ainda pra ficar monologando com um animal! HOMORFO!

Um jato de cinza luminoso saiu da varinha de Davis, atingindo Crookshanks diretamente no peito e na cabeça. Uma pressão de ar se formou no local e uma névoa acinzentada tomou conta do gato, e de dentro do círculo de fumaça surge Nicolai amargo e rancoroso, porém calado; trajava o uniforme de detento do Ministério, camisa de mangas curtas e calças largas, de um pálido azul acinzentado.

—Melhor assim, não acha? Crueldade contra animais é covardia, mas contra um ser humano até que me dá prazer de vez em quando...

Nicolai olhou cansado e irritado para Davis, bufando em seguida e levantando-se da cama. Os ombros caídos e olhar baixo denunciavam flagrantemente seu abatimento emocional.

É muito difícil deixar os outros em paz?! A nova audiência será daqui a dois dias...

—Como você é arrogante e ingrato! Estou aqui na melhor das boas intenções para saber seu estado de saúde e você me recebe com pedradas? Vou acabar dando razão aos agentes pela forma como eles o tratam, Donskoi.

Estou mesmo muito comovido com sua atitude... – Escarneceu Nicolai, sentando-se na cadeira em frente à mesa e olhando com desdenho para o parco café da manhã.

—Se você me conhecesse, realmente estaria comovido, Russo. Já te falei uma vez: não estou nem aí para você! Eu apenas sirvo a Dumbledore e fim de papo! E ele me ordenou que eu cuidasse de você... compreendeu ?

Nicolai olhou de soslaio por sobre o ombro, deixando-se vencer novamente pelo cansaço e voltando para seu desanimador desjejum. Davis puxou a segunda cadeira e sentou-se encostado à parede, falando com Nicolai sem se voltar para ele.

—Apesar de tudo você é um cara de sorte, Russo! E precisa aprender a ver o lado bom das coisas...

Sei, um cara de sorte... – Nicolai respondeu desanimado, tentando engolir um pedaço de pão sem gosto juntamente com uma golada de chá preto e leite. Ainda com a boca cheia foi numerando nos dedos a sua "sorte":

Desde que cheguei neste país quente feito o Inferno, sofri inúmeras humilhações: Fui amaldiçoado por Voldemort há vinte anos atrás; quase fui morto diversas vezes; passei o diabo vivendo como um animal vadio; fui vendido como mercadoria; não consegui acabar com Pettigrew; sofri dores horríveis com o fim da maldição; mal me recuperei e fui mandado pra julgamento; estou neste maldito lugar e ainda, por fim, descubro que meus pais foram mortos barbaramente e certamente há minha culpa nisso! – Nicolai elevou tanto a voz ao longo de sua descrição que encerrou sua narrativa com quase um grito, silenciando-se logo em seguida e olhando cegamente para dentro de sua xícara de chá.

Davis, com a cadeira cambaleante e recostada à parede, braços cruzados sobre o peito e um olhar inquiridor de esguelha para Nicolai, também permaneceu por algum tempo em silêncio, como se formulasse uma resposta adequada ao Animago. O advogado não era sentimentalista, mas ver um bruxo que algum dia teve tudo nas mãos e perspectivas de um futuro promissor e agora estava reduzido a um farrapo humano, era de causar piedade mesmo.

—Mas ainda afirmo que é um cara de sorte, Nicolai... se você tivesse visto o que vi daquela menina, seu ânimo seria outro agora...

Nicolai estancou com a xícara a meio caminho da boca, voltando-se para Davis, desta vez olhando-o diretamente, como poucas vezes chegou a fazer.

Do que você está falando?

—Hahah! O que estou falando? Eu sei o que digo, Russo! Veja só como já se animou a uma mera sugestão!

O sarcasmo animado de Davis irritou Nicolai, que se odiou por instantes por dar atenção aquele doido varrido. Voltou para sua xícara de chá com leite, resmungando:

Você é completamente pirado, New Orleans! É melhor você ficar quieto e parar de me encher!

—Mau-humorado! Mas eu sou um sujeito legal e vou te contar assim mesmo! – Davis deixou que a cadeira se sustentasse com os quatro pés no chão e debruçou-se sobre si mesmo, apoiando as mãos em seus joelhos. O sorriso zombeteiro de dente lascado se fazia presente.

—Falo de Hermione Granger, a sua testemunha de defesa e... dona também, pelo que sei... – Nicolai parou novamente para prestar atenção a Davis, mas sem se voltar para ele desta vez. —Mesmo depois de tudo que ela passou – e imagino que não tenha sido nada fácil – mesmo ela não lhe conhecendo de verdade, ela lhe tem uma grande estima, Russo! Ela simplesmente ficou abalada quando contei que você tinha sofrido um mal súbito no Tribunal...

Nicolai não reagiu nem respondeu nada de pronto, como se digerisse o que Davis acabava de contar. Por fim, soltou um leve suspiro cansado, baixando sua xícara para a mesa e deixando vagar seu olhar pela borda.

Hermione é... muito altruísta.. extremamente altruísta, eu diria... ela se preocupa com tudo e com todos, é típico dela... – Falou num tom desesperançado.

—Dumbledore me falou que uma de suas principais características era o pessimismo... caramba!

Desgostoso, Davis levanta-se da cadeira e ajeita as suas roupas. Um sorrisinho enigmático pairava em seu semblante que o deixava com um aspecto de lunático.

—Tomo como meus os chavões da velha Caborje: quando digo que sei é porque sei, quando digo que vejo é porque vejo...

Nicolai simplesmente não dava a mínima para o que o advogado lhe dizia; ele já havia se condicionado a não relevar absolutamente nada que viesse daquele bruxo maluco, e esse seu desdenho por ele acabava sendo automático, para seu azar.

Davis despede-se de Nicolai, falando a ele em tom incisivo:

—Russo, águas passadas não rolam moinhos.. vai ficar aí se prostrando por algo que já aconteceu há décadas, se martirizando com culpas que talvez nem existam? Esqueça o passado, já foi! Olhe para seu presente, encare o seu 'agora' e tome uma decisão, faça a sua escolha! O futuro ainda será construído e o que vi é que há algo pelo qual você ainda pode lutar pela sua liberdade – e não digo apenas da sua liberdade física e civil, falo principalmente da sua liberdade emocional! Você se libertou fisicamente de uma maldição, mas pelo visto ela ainda atua em seu cérebro! Há algo para que lutar e há alguém para quem voltar, pode ter certeza disso!

—Nicolai, o pessimismo nunca ganhou uma audiência e jamais absolveu ninguém... ao contrario, ele derrota e encarcera.

—Não seja burro e acorda pra vida! Você perdeu vinte anos, mas ainda tem outros cem anos pela frente.. e pelo que percebi, será muito bem acompanhado se VOCÊ fizer por onde.

—Depois de amanhã nos veremos novamente, no Tribunal...

Davis saiu da cela sem olhar para trás, então não viu um Nicolai boquiaberto e atônito, pasmado com o sermão que acabava de ingerir.

Fim do Capítulo 38 - continua.
By Snake Eyes - 2007.

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