terça-feira, 25 de junho de 2013

Animago Mortis - Capítulo 36 - Julgamento - Bhagata Caborje

Capítulo 36 - Julgamento - Bhagata Caborje

A arquibancada do júri começava a se encher novamente, assim como uma pequeníssima parte da platéia, composta mais por jornalistas e jovens estudantes de Direito, que encontravam nesses julgamentos ótimas oportunidades para observarem na prática aquilo que aprendiam na teoria das aulas. O Plenário, após intervalo de três horas, voltava à vida ruidosamente em arrastar de sapatos e cadeiras sobre o assoalho de madeira escura. Os demais espectadores, formados por curiosos, alcoviteiros e ociosos, se foram para suas casas, esgotados pelas longas horas de julgamento. Com isso, os fluídos do ambiente - já carregado por si só - ficou menos estagnado, pois ali agora só restavam verdadeiros interessados na causa, seja para colaborar no desfecho - positivo ou negativo para o réu, não importa. - seja para aprender mais sobre as Leis Bruxas e suas aplicações. Os curiosos de antes poderiam ter suas curiosidades satisfeitas quando os jornalistas publicassem as matérias referentes ao julgamento do bruxo que foi amaldiçoado através da animagia por vinte anos.
Já eram altas horas da noite. Lá fora, na madrugada fresca, a Lua já rumava para desaparecer no horizonte. Aqui dentro, quando todos já em seus postos e a ordem voltava ao recinto, o réu entrou com seu defensor no mesmo momento que a acusação, e ambos dispuseram-se em seus anteriores lugares, esperando respeitosamente o retorno do Juíz, que entrou e sentou em sua cátedra instantes depois.

—A seção está reiniciada. Dr Osborn e Dr Davis apresentem-se diante do Tribunal.

Como ordenado, os dois advogados apresentaram-se diante do Juíz, ao centro do palco. Após breve resumo dos fatos anteriores acontecidos dentro do Plenário na primeira parte da seção pelo Auditor, Osborn recebe o direito de chamar ao Plenário sua segunda testemunha de acusação. O Porteiro que apenas aguardava a ordem, retirou-se imediatamente pela porta de acesso ao corredor, retornando minutos depois acompanhado de uma senhora franzina e pouco curvada para frente, que andava com certa dificuldade, em passos lentos, apoiando-se numa bengala. O silêncio reinava absoluto ali, todos apenas acompanhavam com o olhar para a velha bruxa que, lentamente, postava-se sentada na cátedra de testemunha, ao lado da cátedra alta do Juíz.

Nicolai, que estava totalmente desperto e alerta, embora ainda com uma ruim sensação ocasionada pelo sono perturbado que teve, arregalou seus olhos diante da diminuta anciã que ocupava a cadeira de testemunha e, por breves instantes, seus olhares se cruzaram. Embora ela estivesse ali para servir-lhe de acusação, Nicolai sentiu uma certa doçura contida naqueles olhos já apagados pela idade avançada. O rapaz lembrou-se ligeiramente de quem ela era, embora não fizesse a mínima idéia de seu nome. Estava tão feliz naquele dia de passeio à Hogsmeade que não deu devida atenção a essa figura que agora se apresentava a ele pela segunda vez após duas décadas. Era a mesma velhinha gentil que falara com Hermione naquele sábado trágico. E Nicolai, agora, lembrava-se dela, de muitos anos atrás... por que, diabos, ela fora convocada para ser testemunha de acusação em seu julgamento?!

Distraído com sua pequena descoberta, Nicolai não ouvia o início da apresentação da testemunha. Este agora era mais um fato esdrúxulo que ele não sabia o que esperar. O que há com esse pessoal, afinal de contas? Primeiro chamam Snape para depor contra ele; agora essa velha que parece ter perdido a lucidez séculos atrás. Se é para ser um julgamento teatrético, que ao menos não fosse ridículo. Quem seria sua próxima testemunha após ela? Lucius Malfoy?

—Bhagata Caborje, 125 anos, sim-senhor! Eu já era uma respeitável Auror quando Grindelwald brincava de grifo de pau com a vassoura voadora de sua mãe! - E a velhinha desatou a gargalhar esganiçada, até ser interrompida por um acesso de tosse e asma.

Os ombros de Nicolai caíram com a patética cena. Davis arqueou as sobrancelhas, torcendo o rosto de desagrado. Osborn, encabulado, dá uma rápida olhada para Davis, como se pedisse desculpas, e este retribui o olhar com um silencioso "—fazer o quê?!"

Um assistente aproximou-se da velhinha, para ver se ela estava bem - seria algo teatral demais se ela viesse a falecer naquele momento - providenciando de imediato um copo d'água que foi bebido inteiro em dois goles. Dada por satisfeita e retomando seu fôlego normal, a velhinha aprumou-se na cátedra e tomou ares de séria importância, cruzando as mãos sobre a pequena bancada a sua frente.

—Desculpe-me, senhores! Meus pulmões não são mais os mesmos de antes...

—Tenho certeza que sim... - Osborn sussurrou imperceptivelmente para si mesmo, antes de inciar seu inquérito. Deu dois passos adiante em direção à Bhagata Caborje: mãos cruzadas às costas, cabeça inclinada para baixo para ocultar sua expressão de desalento pela má escolha da testemunha... afinal, o que ele poderia fazer, se as boas testemunhas que acreditava serem, eram Comensais da Morte, logo devedores da Lei Bruxa, impossibilitados de servirem de testemunha para acusarem um réu sem antecedentes registrados?

—Bhagata Caborje, a senhora, como acabou de falar, foi Auror do Ministério da Magia, em época que o Ministério da Defesa era ainda um Departamento do primeiro... por quanto tempo a senhora atuou nessa carreira?

—Por gloriosos 83 anos, 5 meses e 20 dias! - Falou a velhinha, toda orgulhosa, arrancando espasmos de admiração - positiva e negativa - da platéia presente. Bhagata Caborje esperou pacientemente que todos se esfriassem os ânimos, voltando ao recinto um olhar perscrutador e um sorrisinho sarcástico que se deformava em seu rosto enrugado com sulcos profundos e pregas salientes. —Ah, mas sei o que estão todos vocês pensando!

—Temos certeza de que sim, Sra Bhagata Caborje. - Osborn interrompeu, impacientado. —E de acordo com a sua informação, a senhora então estava ainda atuante durante a primeira ascenção Daquele-que-não-deve-ser-nomeado?

Bhagata sentiu-se ofendida com a interrupção do molecote de cabelo lambido e dirigiu a ele um olhar rancoroso, que logo se abrandou. -—Se o senhorinho me permitir, contarei uma bela história até chegar a esse outro senhorinho prepotente aí, cujo nome é Tom Marvolo Ridlle, e não esse apelido ridículo que inventaram para encobrir um outro apelido ainda mais ridículo!

Os presentes instintivamente se encolheram ao ouvirem a audácia da decrépta velhinha, temendo que ela pronunciasse o nome proibido - Lorde Voldemort. O Juiz lançou a ela um olhar ameaçador de censura. Davis deu seu sorrizinho zombeteiro e por pouco Nicolai não faz o mesmo, mas contentou-se em apenas erguer as grossas e arqueadas sobrancelhas... aquilo ali era mesmo um circo!

—Perdão, Sra Caborje, mas não é exatamente sobre 'esse senhor' que gostaríamos de saber, mas sobre aqueles que o seguiram há vinte anos atrás. - Respondeu o já impaciente promotor.

—Sim, sim, chegaremos lá! - Abanando desdenhosamente a mão destra para Osborn, a velhinha respondia com um sorriso no rosto enrugado.

—Por favor, senhora, isso é para agora! Gostaríamos de saber o seu conhecimento sobre a família Donskoi: Dmitri e sua esposa Nikita Donskoi, que foram Comensais da Morte e tombaram ainda durante a primeira guerra.

Jonathan Davis soltou um muxoxo de impaciência, chamando para si a atenção de Nicolai, murmurando de forma que apenas o garoto pudesse ouvir: —Eu não acredito que Osborn ainda esteja batendo nessa tecla em tentar te acusar através dos teus pais!? - Davis virou-se para Nicolai, com um sorriso incrédulo e sarcástico no rosto. —Eu não consigo é acreditar que esse cara estudou na mesma faculdade de direito que eu estudei!!

Nicolai torceu o rosto em descontentamento, voltando sua atenção ao palco, replicando em resposta: —Eu que não vejo diferença alguma entre vocês!

Davis lançou um olhar mau para seu cliente, mas preferiu manter-se calado e voltar sua atenção novamente ao inquérito.

—Jovens! Por que tanta pressa pra tudo?! - Resmungou a velha Bhagata, aborrecida. —Sim, sim, lembro-me alguma coisa sobre esses dois jovens tolos, lembro-me de ter escrito o relatório de baixas do campo inimigo na Primeira Guerra. Pra que quer saber deles, garoto? Deixe que os mortos enterrem seus mortos!

—Só que os mortos, embora estejam mortos e enterrados, também podem nos ajudar a elucidar muitas dúvidas... portanto o que queríamos que a senhora afirmasse é se Pavel Nicolai Donskoi, filho de Dmitri e Nikita Donskoi, também foi um seguidor do Círculo das Trevas? Talvez a senhora lembre-se de algo a respeito.

Bhagata debruçou-se na bancada de sua cátedra e olhou profundamente para Nicolai, que sentiu gelar e derretar por dentro. A velhinha parecia decrépta e demente, mas seu olhar afiado parecia perscrutar dentro de sua alma, tentando buscar respostas e conhecimentos. Seria ela uma legilimante? Seu olhar era o mesmo que já presenciou outras vezes em outras personagens, como o de seu próprio avô, Vassili Afanassievich, e até mesmo de Voldemort e Dumbledore. Vassili Afanassievich ensinou tudo o que Nicolai sabe quanto às artes obscuras, inclusive Oclumância, o que lhe salvou em muitas situações pretéritas, na época da Primeira Guerra...

A Oclumância, por se tratar de uma arte obscura, usada para trancar a mente, logo era uma magia interna, era a única defesa de que Nicolai dispunha dentro daquele tribunal. Mas, embora o olhar de Bhagata fosse afiado como uma adaga, era apenas aparentemente, pois Nicolai não sentia nada de diferente em si, como aquele fio invisível penetrando em sua cabeça pela glândula pineal, como era o costume de acontecer quando se sofria a legilimência. O garoto relaxou de sua tensão, deixando-se escorregar ligeiramente em sua cátedra, encarando confiante a velhinha carcomida.

Pois, o que Bhagata Caborje fazia era tentar enxergar com alguma exatidão o rosto de Nicolai, uma vez que se recusava a usar seus óculos de grau, teria que fazer esforço de alguma parte para substituir o esforço de se usar tal incômodo acessório. E, sim! Ela lembrava-se do garoto! Recostou-se novamente a sua cátedra, com um sorriso e expressão confiantes que fez Nicolai ficar preocupado...

—Sim, sim! Eu me lembro do garoto!

O público presente ovacionou ante a resposta firme de Bhagata. Nicolai e Jonathan Davis remexeram-se incomodados em suas cátedras. Osborn soltou um sorriso de satisfação, embora ele, intimamente, não desse muito crédito a qualquer coisa que a velha dizia.

—Então, Sra Caborje, a senhora afirma ter conhecimento de Pavel Nicolai Donskoi, o réu aqui presente? - Perguntou, feliz da vida, Osborn, apontando para um preocupado e aborrecido Nicolai.

—Conhecimento? Sim, sim! Mas é claro que sim! Posso hoje me esquecer em que dia da semana estamos, mas minha memória das minhas atividades no passado, na minha gloriosa época no Departamento dos Aurores, sendo uma gloriosa 'Inominável'... ah, sim, sim! Dessa maravilhosa época me lembro cristalinamente!

Mais uma vez, naquele julgamento, o mundo desabou para Nicolai! Nada é tão oculto que não haja sequer uma alma que não saiba! Sua atividade no Círculo das Trevas talvez não tenha passado tão despercebido assim. Então, por quê, não havia nenhum indício de sua passagem pelos arquivos do Ministério?

Hermione andava de um lado para outro. As demais testemunhas que ocupavam o mesmo recinto que ela, dormiam em suas poltronas, ou estavam ausentes, como Alvo Dumbledore. A garota estava aborrecida, com o corpo dolorido, impaciente, a cabeça zunindo. Que espécie de tratamento estúpido era esse que o Ministério da Defesa dava às testemunhas?! Nem o réu merecia tal tratamento! Como pode pessoas serem arrancadas de suas vidinhas diárias para estarem ali obrigadas, sendo oferecidas a elas um péssimo tratamento, sendo obrigadas a esperarem por horas a fio por um depoimento que parecia nunca chegar?!
—Pobre Pavel! Se é assim tão ruim para as testemunhas, imagine como será para o próprio julgado?! - Resmungava para si mesma, enquanto andava estressada de um canto ao outro do recinto.

A porta se abriu, dando passagem para um sério Alvo Dumbledore, que fitou por instantes Hermione, seguindo seu caminho logo depois, parando na direção da garota, quando esta retornava de seu trajeto em linha reta no salão. Hermione parou frente ao velho mago, levando as mãos à cintura e o encarando impacientemente. Dumbledore a encarou de volta, com pena.

—Estou exausta, professor! Não agüento mais ficar aqui dentro, não agüento mais essa situação! Até quando vai isso?! Por que, simplesmente, não marcam o tempo certo para cada caso?!

—Lamento muito que esteja passando por isso, Hermione. Há muitas deficiência nas ações do Ministério e esse tratamento a que estamos sendo submetidos é um desses defeitos! Peço-lhe mais um pouco de paciência. Tente relaxar corpo e mente. Sente-se e mentalize algo de que gosta: um lugar, uma atividade, uma pessoa... isso lhe ajudará a manter a calma e a lucidez.

Hermione continuou a encarar Dumbledore, ponderando e aceitando, por fim, os conselhos do sábio mago. Meneou positivamente a cabeça e sentou-se novamente no sofá onde antes estava, recostando-se e tentando relaxar, fechando seus olhos e controlando sua respiração... mas a angústia do 'não saber nada' a impedia de relaxar completamente. Reabriu seus olhos e encontrou Dumbledore, que a observava atento, como se estudando suas ações. A verdade é que ele sabia o que tanto a incomodava e somente aguardava a oportunidade de ela se manifestar por livre e espontânea vontade.

O orgulho que ficasse à parte.

—Professor... o senhor... o senhor soube de algo referente a... Donskoi? - Hermione perguntou, enfim.

—Sim, eu soube algo que, tenho certeza, será um alívio para você tanto quanto foi para mim...
Hermione desencostou do sofá, apoiando seus braços sobre seu colo e olhando afinado para Dumbledore, com sua curiosidade e expectativa a flor da pele: —O quê? O que aconteceu a Donskoi, professor, para dizer que foi um alívio??

Dumbledore deu seu suave e sincero sorriso, respondendo muito satisfeito à pergunta de Hermione: —O nosso caro Nicolai foi submetido, em plenário, a apresentação de uma prova, uma prova aplicada a todos os suspeitos a Comensais da Morte.. Nicolai foi submetido a 'morsmordre' e... se ele fosse mesmo um Comensal da Morte, como se suspeitava, a marca negra estaria visível ante o feitiço de invocação... coisa que não aconteceu!

Hermione alargou seu belo sorriso, tendo seus olhos brilhantes de satisfação: —Então, quer dizer...?

—...que nosso caro Pavel Nicolai Donskoi NÃO É um Comensal da Morte! - Mentiu Dumbledore, uma vez de que ele era conhecedor da "verdadeira verdade". Mas, para Dumbledore, o que valia era a intenção e não apenas o fato isolado.

A garota jogou-se contra o encosto do sofá, sorrindo feliz de satisfação. Um grande peso havia desaparecido de seu coração, deixando de oprimir seu peito. Instintivamente, fechou seus olhos e agradeceu em oração o ocorrido. Ela sempre soube que aquele que fora Crookshanks jamais poderia ser algo voltado para a perversidade. O rapaz animago já tinha sofrido demais e por muito tempo, já havia sido castigado o suficiente em passando vinte anos trancafiado num corpo animal por uma magia, não era necessário que ele viesse a sofrer ainda mais sendo mandado à Azkaban por crimes que talvez tivesse cometido há tantos anos atrás... e mesmo que tivesse cometido tamanhas faltas, ele merecia a chance de regeneração, pois ainda poderia oferecer muita coisa boa à Comunidade Bruxa e ser enviado para morrer lentamente em Azkaban não traria as possíveis vítimas de volta e nem consertaria o passado tão errado - e nem consertaria a ele próprio.

Eram erros por erros.

Mas, agora, com essa certeza, ela poderia relaxar e descansar. E, assim, poderia oferecer seu melhor em defesa ao pobre garoto.

Fim do Capítulo 36 - continua.
By Snake Eye's - 2006.

N/A:
Bhagata (do hindu) e Caborje (africano) são apenas palavras que significam bruxaria. No Brasil ambas palavras são usadas no populismo em lugares diversos, para a mesma finalidade: outros nomes para bruxaria.
Servolo ou Marvolo, qual dos dois é mesmo o da versão brasileira??!
Nikita (finalmente a mãe de Nicolai ganha um nome!) é uma homenagem à doce gatinha da doce Pat Kovacs, que faleceu em outubro passado. Embora 'Nikita' seja um nome masculino, fica sendo pela homenagem mesmo. E a personalidade da mãe de Nico (que não devia ser boa coisa já que era uma comensal da morte) é irrelevante quanto à homenagem.
"Deixe que os mortos enterrem seus mortos" - frase de Jesus Cristo escrita no Evangelho.

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