segunda-feira, 17 de junho de 2013

Animago Mortis - Capítulo 35 - Julgamento - Recesso & Pesados Elos

Mesmo que sua aparência e a impressão que causava às pessoas fizessem dele um sádico e lunático, no fundo Jonathan Davis era um ser humano ponderado e compreensível. Olhou por algum tempo, observando Nicolai em seu atual estado: completamente diferente do rapaz orgulhoso e frio de vinte anos atrás, que envergava a muito contra-gosto o uniforme de Hogwarts. A face era a mesma. O porte físico também. Embora ainda mantesse a altivez, muita coisa mudou. A terrível provação a que fora submetido durante vinte anos através da maldição Animago Mortis esmantelou seu orgulho e trepidez como se um trator ouvesse passado sobre ele inúmeras vezes. Esse Nicolai Donskoi a sua frente estava mais para um farrapo humano, uma criatura de dar pena, que um altivo bruxo das Trevas. E ele era, sim!, digno de compaixão.

Achou melhor parar de imaginar as tormentas a que o velho garoto passou nas últimas duas décadas e voltar ao seu trabalho, pois, ao contrário de seu cliente, ele não poderia ter o luxo de tirar uma soneca e descançar até à reabertura da seção.

Nicolai estava mesmo acabado, esgotado. Mesmo depois de ter terminado seu sanduiche e seu chá, não se animou sequer a depositar o prato e a xícara sobre a mesa de centro a sua frente, preferindo mantê-las sobre seu colo. Davis torceu o rosto numa lamentação silenciosa, pegou prato e xícara, colocando sobre a mesinha; em seguida segurou com firmeza Nicolai pelo braço, levantando-o e encaminhando-o até um divã no fundo da sala. O animago estava tão prostrado que sequer relutou ou teve a mínima resistência.

—Você precisa estar bem e lúcido, russo! Procure pôr todo o seu esforço em descansar completamente em duas horas, quando irei acordá-lo e voltaremos ao Plenário.

Não era necessário a sugestão ou mesmo uma segunda ordem. Nicolai desabou ao divã e adormeceu instantaneamente, completamente fustigado por todos os acontecimentos das últimas horas. Um momento de repouso não era somente para poupar o corpo e recompor sua energia, era principalmente para manter a lucidez da mente e buscar lenitivos para seu espírito esgotado.

Dizem que basta uma pequena brecha, uma pequena invigilância do corpo para que o Espírito se veja momentaneamente liberto do cárcere carnal. Quanto mais debilitado o corpo, mais frouxo acha o Espírito os laços que o prendem, daí que este pode sair em busca de alívio e conhecimento, visitar entes e lugares queridos, inundar-se no lago sereno de reforços fluídicos para conseguir as forças necessárias para continuar sua caminhada terrena, com a coragem e vontade necessárias.

Infelizmente, o inverso também acontece.

O mau não existe, é apenas a ausência do bem. E quando estamos em estradas turvas e trevosas, nosso caminho se torna perigoso.

Nicolai adormeceu instantaneamente logo que Davis praticamente o jogou no divã. Certamente já estava em estado de vigília desde que terminou seu parco lanche. O seu grande desejo oculto no abismo de seu coração, nas últimas horas, era poder retornar à Lentz, sua cidade natal situada na parte oriental da grandiosa Rússia. Desejava retornar à Lentz em princípios de floradas primaveris, e respirar novamente aquele ar puro e frio, de vento fresco que vinha da Sibéria. Para ele não havia lugar mais belo, pois era ali que seu coração havia sido plantado. O céu de primavera, de azul profundo, e a neve restante, que resistia aos primeiros dias ensolarados, cintilava qual estrelas fulgidias sobre galhos e folhas de pequenos arbustos; o musgo úmido sobre troncos de velhas árvores e pedras desprendia um perfume suave e refrescante ao contato dos mornos raios de sol. Sentia enorme saudade de ver o orvalho evaporando e os pequeninos córregos que se formavam da neve derretida que descia das montanhas, que juntos desaguavam no rio recém descongelado e uma torrente forte que arrastava tudo quanto encontrava a sua frente, mas, por sua vez, levando a prosperidade às margens onde passava, depositando toda forma de sementes e fragmentos orgânicos, gerando vida e beleza.

E ali ele estava, após longos e quase intermináveis vinte e dois anos tortuosos. A sua leveza de pluma era tanta que poderia flutuar no mais leve impulso de sua vontade. Não era a Primavera que tanto desejava, mas o final de um Verão manso que já cedia à entrada do Outono. O cenário não possuía mais as cores vibrantes de verdes e amarelos, mas se desvanecia em ocres e marrons oxidados. A luz branda dava um aspécto ainda mais sereno àquela paisagem intransfigurável e secular. Seu coração estava tão desejoso de estar novamente em sua terra natal que sentia o vento frio em seu corpo e a textura das gramíneas em seus pés descalsos. Viu um túneo de grandes e onipotentes árvores que pareciam guardar a longa estrada de terra batida. Seguiu sem receios a estradinha e após algum tempo de caminhada, encontrou aquilo que supunha encontrar: um belíssimo solar em mármore branco, cujas duas torres terminavam em gotas do mais reluzente ouro.

Sua respiração falhou e lágrimas brotaram em seus olhos.

Longe por mais de duas décadas, finalmente revia o único lugar que pôde chamar de lar, revia a residência de seus amados avós paternos, com quem conviveu os melhores e verdadeiros anos de sua exitência. Onde nasceu, creceu e... de onde fora arrancado para um destino cruel.

Correu até o solar, transpassando como fosse imaterial os arbustos e outros obstáculos, até chegar frente a grande porta de folha dupla em ouro, ornamentada de riquíssimos detalhes impressos no metal. Apenas estendeu sua mão e a porta se abriu suavemente para uma penumbra que lhe era tão conhecida. Logo seus olhos se acostumaram à mudança de luminosidade e pode divisar o interior do palácio, ainda mais opulento que seu exterior, todo em mármore e ouro. O enorme hall de entrada era ornamentado com longas janelas de vultuoso vitrais, cujos topos terminavam na forma de gota; armaduras douradas faziam a "guarda" entre uma janela e outra, sob belíssimas tapeçarias que retratavam as cenas de resistência e vitória russa sobre o jugo tártaro, no século 13; o chão era em lustroso mármore trabalhado que formava desenhos de arte oriental em diversos tons e tipos da pedra; ao centro, como se convidasse a subir aos níveis elevados, uma escadaria igualmente em mármore e corrimãos e balaústres em ouro. Nicolai não se ateve em qualquer detalhe, a ele parecia tudo como era há vinte e tantos anos atrás. E como uma criança que retorna feliz à casa dos avós, subiu correndo a escadaria na esperança de encontrar algo ainda de seu passado.

Chegando ao segundo nível do solar, deparou-se com o longo corredor que levava aos quartos. Os archotes estavam todos apagados e o corredor estava mergulhado na penumbra progressiva, deixando o seu fim totalmente escuro, incapaz de se divisar qualquer coisa. Nicolai segurou seus impetos de ir de quarto em quarto. Não entendia o porque, mas algo o dizia para ser cauteloso - talvez a emoção de rever seu antigo lar. Mas uma força estranha o guiava para aquele lugar sombreado, em direção à escuridão que se adensava conforme avançava em seus passos. O estranho é que sua vista não se acostumava a nova mudança de luminosidade... o que havia ali era mesmo as trevas e percebeu isso quando olhou um dos archotes e viu que havia chamas acesas, mas sua luminosidade não conseguia quebrar as trevas daquele lugar e iluminavam apenas a si próprios. Olhou os outros archotes, apenas pontos de luz na parede; por algum motivo que ainda não havia percebido, as chamas dos archotes não eram capazes de iluminar o lugar.

A alegria de antes cedeu ao temor de que algo não estava bem. Tomou sua antiga postura altiva e séria. Cautelosamente, pé ante pé, andou para a escuridão densa do corredor, como que sendo guiado para um determinado ponto daquele lugar. Seus sentidos estavam todos aguçados, inclusive os instintos felinos que acabaram por impregnarem-se em sua própria personalidade, após todos esses anos vivendo exclusivamente como um gato. O som não havia nenhum. Era tudo escuro, silêncioso e tétrico como o vácuo e apenas os baques abafados de seus pés sobre uma longa tapeçaria indicavam que algo vivo ali estava. Finalmente chegou ao final do longo e tenebroso corredor, parando frente a uma larga porta que, em tempos idos, dava acesso ao grande salão que era usado pela família para o entretenimento, como jogos e leituras.

De alguma forma pressentia que algo terrível se ocultava atrás daquela porta. Fosse por tola coragem, fosse por tola curiosidade felina ("—...e a curiosidade matou o gato" - Nicolai não deixou de pensar...), o rapaz levou sua mão à maçaneta de ouro trabalhado, fechando com firmesa seus dedos em torno dela. Inspirou fundo e, num rompante, abriu de uma vez a porta.

Surpreso, viu que o ambiente estava calmo e levemente iluminado e tudo parecia em ordem, como sempre fora: prateleiras de livros de uma ponta a outra, de alto a baixo, na parede oposta à porta; a lareira crepitante e os estofados ornados e luxuosos ao canto direito da sala; mesa de jogos e cadeiras e poltronas ao lado esquerdo sob enorme janela de vitral representando o brazão e armas da família, o clã Donskoi...

O que ele esperava encontrar, afinal?

Desorientado com seus próprios pensamentos e intuição inconveniente, Nicolai adentrou até o centro do salão, não entendendo o porque de ter sido atraído para ali e nem porque a desconfiança de que algo horrendo o aguardava.

Foi quando a porta se fechou serenamente as suas costas e somente percebeu ao ouvir o clique da fechadura.

Olhou para a porta e viu que ela, aparentemente, se fechou sozinha. Aparentemente...

Neste instante um mal-estar tomou conta de Nicolai. Sentiu um peso sobre sua cabeça, sobre o primeiro chacra, como fosse uma mão gigante e invisível a pressioná-lo para o chão. Um calafrio percorreu seu corpo, desde a sua coluna vertebral até seus pés. Abraçou-se na inútil tentativa de amenizar aquelas sensações horrorosas. Quis corrrer dali, mas seu corpo não lhe obedecia. Quis gritar qualquer coisa, mas a voz saiu arrastada e quase muda. Quis enxergar melhor e com mais precisão, mas o ambiente mergulhou numa penumbra disforme. Foi então que viu finalmente aquilo que sua intuição lhe advertia: vultos como fossem mantos negros esfarrapados rodopiando nervosos em sua volta, por todo o salão!

As chamas da lareira crepitaram mais forte, elevando suas labaredas que serpenteavam nervosas. Nicolai, sob o peso opressor de fluídos negativos e trevosos que tentavam o envolver por completo, centrou sua atenção àquelas chamas que lhe pareciam dubiamente terríveis e salvadoras. Tentou em vão se arrastar até elas, mas o peso invisível fazia com que seu corpo pesasse inconsebíveis toneladas. Todos os seus sentidos estavam obrigatoriamente voltados para as terríveis sensações que sentia e, mesmo tendo a leve consciência de que aquilo era um sonho - ou melhor dizendo: pesadelo! e daqueles mais tétricos! - não conseguiu escapar de volta ao mundo material onde encontrava-se encarcerado. Então soube, como por instinto, de que aquilo não era meramente um sonho fantasioso criado pelo subconsciente durante parte do sono, e sim uma invasão e ataque mental de ocultos e esquecidos verdugos e adversários que acumulou ao longo da vida milenar de seu espírito de trevas, que somente agora buscava ardentemente elevar-se para a luz redentora.

A força da pressão invisível prostou-o ajoelhado ao chão. Nicolai usava toda a sua força para não sucumbir e ser dominado inteiramente pelas Trevas. Mantinha a custo a fronte erguida, não desviando seus olhos em rasos d'água das labaredas serpenteosas da lareira. Foi então que dois vultos pararam a sua frente, transfigurando-se em duas formas que, embora deformadas como fossem argila derretida, Nicolai não teve muita dificuldade para reconhecer quem eram: seu pai e sua mãe!

Arregalou os olhos e suas lágrimas fluiram abundantemente com o que via. Seus pais pareciam formas lamacentas e havia sangue, muito sangue espalhado por seus corpos deformados. Suas expressões eram de ódio e loucura. E seu pai falou, numa voz gutural, mas cujo timbre era o mesmo de Dmitri Donskoi em idos tempos:

—Filho traiçoeiro e ingrato! Agiu apenas em pro domo sua! Vil, torpe, indígno! Maldito infeliz! Você nos traiu! Traiu aos seu próprios genitores, que lhe deram a vida e tudo que eras!

Nicolai estava aturdido, incrédulo, pasmado. Não conseguia pronunciar nada além de um som arrastado e quase inaudível. Ainda lutava penosamente contra a força invisível que o subjugava. Somente as lágrimas abundantes de dor manifestavam aquilo que seu corpo era impedido de fazer.

Sua atenção foi desviada para a figura de sua mãe, tão deformada quanto a de seu pai. O miserável espírito pôs-se a chorar convulsivamente, em desespero, o que só aumentou o ódio que fluía de Dmitri, que se aproximou de Nicolai, na tentativa de machucá-lo, mas uma outra força invisível, que ele não percebeu, o impediu de se aproximar de todo do garoto.

—Maldito sejas, Pavel, filho promíscuo e ingrato! Por sua covardia e traíção, o Lorde nos mandou impiedosamente para o vale das trevas da morte! Por sua culpa, maldito Pavel!, nossos planos foram destruídos, nossas vidas foram roubadas e fomos jogados neste umbral tétrico de trevas eternas! - Vociferava Dmitri, pai de Nicolai.

—Não... - falou debilmente Nicolai, entre as lágrimas de terríveis dores morais que pareciam atravessar seu peito com uma lança dúbia de fogo e gelo.

Nicolai baixou a fronte, fechando fortemente seus olhos. A dor invisível, sentimental, o estraçalhava por dentro. Tentava uma forma de sair daquele lugar, de despertar, de conjurar uma magia qualquer que o libertasse daquele pesadelo terrível! Precisa de força para isso, mas uma força oposta: uma força de Luz, de fluídos positivos. Mas como conseguir isso?! Ele era um bruxo das Trevas, não conhecia outras armas além das Trevas! E apenas as forças opostas anulam uma a outra!

—Pai! Misericórdia! - Conseguiu espelir entre lágrimas e sufocamento.

Imediatamente o peso sobre sua cabeça cedeu e as sombras - e vultos - começaram a se dispersar. Conseguiu então erguer, ainda aturdido, a fronde e viu que seus pais afastavam-se velozmente, flutuando ao solo, e seu rostos estavam lívidos e temerosos. Foi então que Nicolai sentiu como se um manto quente o envolvesse pelas costas, desoprimindo seu peito e deixando-o gradativamente mais leve, até que braços de luz o erguesse do chão, levando-o ao colo.

Assustado - mas profundamente grato por aquele refrigério e salvamento - olhou para o vulto esbranquiçado que o envolvia maternalmente em seu braços, e encontrou um par de olhos dourados, ternos e tristes, que pareciam ver dentro de sua alma. A entidade abraçou-o fortemente e o garoto encontrou-se com longos, finos e lisíssimos cabelos brancos que escorriam feito seda por seu rosto...

—Avó?!!

Nicolai abriu seus olhos, olhando aturdido para o etéreo que ainda se fazia visível diante de si. Arfou o ar abafado daquela sala sisuda do tribunal, como se tivesse corrido milhas até chegar ali. Seu coração estava descompassado, estressado, e seu corpo suava frio. Levantou-se de súbito, levando as mão à testa, sem saber exatamente o porque daquela aflição. Tentava em vão recordar o que havia sonhado, mas apenas a sensação de Trevas e Luz mantinha-se em sua mente. Lembrou-se amarguradamente de seus pais, numa sensação extremamente dolorosa. Lembrou-se por fim de sua querida avó, a Matriarca Maria Ivanóvna, como fosse o calor do débil sol de inverno.

—Você é pontual, heim russo! Sequer precisei te acordar! - Debochava Davis, parado ao lado do divã onde Nicolai havia dormido.

O animago olhou estranhamente para o advogado, quase como se não o reconhecesse. Davis, que havia percebido a aflição de Nicolai enquanto este dormia, nada disse ou perguntou, mas ficou observando o garoto, que não se manifestou quanto a isso.

Nicolai voltou-se para si mesmo, mergulhado em suas conjecturas. Seja lá o que tinha sonhado - que não lembrava com precisão, mas apenas das sensações horríveis e de alívio no final que sentiu - não era um simples sonho, mas, tinha a certeza intuitiva, de que havia sofrido um ataque mental.

Dor, angústia, decepção, tudo se misturava na incerteza de que se encontrava, e do futuro que o aguardava. Apenas havia-lhe uma certeza:

—Preciso sair dessas Trevas. Preciso sair daqui!
 
Fim do Capítulo 35 - continua...

By Snake Eyes - 2006.

N/A:

pro domo sua - latim, significa "em sua própria causa".

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