segunda-feira, 27 de maio de 2013

Animago Mortis - Capítulo 32 – Julgamento – Marcas Que Ficam.

Animago Mortis

Capítulo 32 – Julgamento – Marcas Que Ficam.

Algo vibrou sobre o peito de Nicolai... pensou ser seu coração que pulsava dolorosamente, fazendo pressão na caixa torácica. Sua jugular e a veia da têmpora estavam alteradas, pulsando com igual firmeza como ao seu coração. Uma segunda vibração lenta, como uma pulsação que se iniciava, e algo parecia aquecer sobre seu peito, logo abaixo de seu pomo de adão.
 
Uma nuvem esverdeada, quase enegrecida, saía da varinha de Osborn, ao que o bruxo advogado conjurava a Morsmordre, o feitiço que fazia surgir a Marca Negra onde quer que fosse indicado. A névoa esverdeada envolvia Nicolai, que se mantinha firme a todo custo, mesmo crendo veemente que ali chegara definitivamente seu fim.

Uma luz fosca e escura surgiu no chão aos seus pés, formando levemente a imagem de uma caveira com a serpente, como fosse uma sombra tênue, desmanchando-se em seguida como raios retos, escuros e fumegantes que subiam ao céu, fazendo uma pressão de ar que remexeu não apenas os cabelos finos de Nicolai, levantando-os como numa ventania, mas também as vestes de Osborn e Davis, que estavam próximos do réu, apreensivos e muito expectativos com o que viria a acontecer. A expressão de ambos, e também do Juiz, era a mesma, e não dava para adivinhar se eles torciam para que a Marca Negra no antebraço esquerdo de Nicolai aparecesse ou não... apenas esperavam ansiosos por qualquer resultado.
Uma estranha alteração de consciência remeteu Nicolai a um longo passado já distante... tudo parecia tão real que ele não saberia dizer se era apenas uma lembrança ou se vivia aquele momento, verdadeiramente, mas todos os seus sentidos estavam voltados àquela cena, que há muito e muito tempo havia se esquecido...

O ambiente escuro, porém acolhedor, era iluminado apenas pela luz fraca do dia que adentrava pelas pequenas janelas daquela velha sala construída em madeira. A claridade bucólica iluminava graciosamente diversas ferramentas e peças de madeiras espalhadas por sobre uma longa mesa. Acima de sua cabeça, que Nicolai olhava admirado para o teto, pendiam-se delicados violinos que acabavam de ser confeccionados e esperavam seu verniz secar com a brisa fresca que entrava pelas janelinhas.

Com mais que o dobro de seu tamanho, seu avô, o Patriarca Vassili, com um raro sorriso no rosto, levava a mão à cabeça de Nicolai, visivelmente satisfeito com a alegria do garoto que não devia ter mais que dez anos de idade. Ambos, avô e neto, estavam numa oficina de instrumentos clássicos, em Zakopane, nos Montes Tatras, Polônia. Lá encontrava-se o mais famoso Luthier do mundo bruxo, Ignacy jan Pderewski, que fabricava seus violinos, contrabaixos e violoncelos com Abete, uma espécie de árvore mágica muito comum na Europa e que conferia aos instrumentos que eram construídos com sua madeira, sons quase divinos.

O Luthier, um homem idoso, calvo e de grandes óculos ovalados de armação escura e pesada, aproximava-se de Nicolai, com um sorriso humilde, e esticava-lhe o braço esquerdo, medindo-o do ombro ao pulso com uma fita métrica.

Foram apenas efêmeros segundos, mas quando Nicolai abriu seus olhos, deparou-se novamente com o cenário desolador do Tribunal onde estava sendo julgado. Seus braços estavam esticados frente a seu tórax e Osborn e Jonathan Davis o olhavam de uma forma que Nicolai não soube expressar imediatamente. A nuvem esverdeada já havia se dissipado, assim como a sombra da caveira aos seus pés. E não sentia mais a pulsação estranha que sentiu por alguns instantes sobre seu peito.

—Foram-se mais de vinte anos... – falou a mulher, com voz embargada. —Jamais tornamos a rever o nosso único neto... e a última notícia que tínhamos dele é que tinha desaparecido sem deixar rastro...
 
—Nós não temos um neto, Ivanóvna! Ele está morto! Juntamente com o nosso único filho!

—Não diga isso, Vassili! Dumbledore não nos enviaria uma carta com uma mentira como essa! Pavel, nosso único neto e o último membro de nossa dinastia, está vivo! VIVO!

—Não seja tola, Ivana! Pavel deixou de ser nosso neto e membro do nosso clã há mais de vinte anos atrás! O rapaz que porta o nome nada mais tem a ver conosco! NADA!

—Eu não aceito isso que está dizendo, Vânia! Já sofremos demais com tudo isso! E Pavel jamais teve culpa pelo que aconteceu! Merlin nos concedeu a chance de nos rendermos e consertarmos o nosso erro de ter deserdado e renegado nosso próprio neto...

—Ivana.. não me obrigue a me desentender com você! ELES cometeram o erro, não nós! Sofremos desde então com essa desonra, amargurando esta vergonha por todos estes anos! Nem Merlin poderia remunerar-nos por isso! Não será uma infeliz carta ocasional que nos fará titubear de nossa decisão!

—O que isso importa hoje, Vassili! Sofremos tanto com a morte de nosso filho e nosso neto! Deus nos trouxe nosso único neto de volta do mundo dos mortos, está nos dando uma chance, é isso que importa! Nosso sangue ainda prevalecerá! Nossa família se perpetuará! A Dinastia Donskoi não terminará com a nossa morte!

—Por favor, Ivana! Não quero mais ouvir falar nisso! Pavel, assim como nosso filho Dmitri, desonrou nossa família, nossos antepassados! Isso é inconciliável! É preferível que o Clã Donskoi extingue-se do que ele perecer através de um ser indigno! É preferível o fim à desonra!

Ao abrir seus olhos, a percepção que tinha era que aquela realidade, a de seu julgamento, a do tribunal, era algo surreal, como uma lembrança de algo que aconteceu há muito e muito tempo. Saindo, ao que parecia para si lentamente, do estado de torpor que, felizmente, não foi percebido por ninguém além do próprio Nicolai. Então, retornando a essa triste e imediata realidade, o rapaz teme olhar para seu antebraço esquerdo e encontrar ali a maldita marca tatuada por magia, então seus olhos amarelos percorrem apreensivos para o rosto de Jonathan Davis.
 
Com ar grave, Davis fechou pesarosamente seus pequenos olhos negros, respirando profundamente, levando as duas mãos à cintura e num gesto teatral, dá as costas a Nicolai e Osborn. Neste momento, ainda sem a devida coragem de olhar para o próprio braço, tornando-o a descansá-lo ao lado de seu corpo um pouco trêmulo, Nicolai franzil suas sobrancelhas espessas, sentindo ardência em seus olhos, prevendo seu destino iminente, sua ida sem volta para Azkaban e a impossibilidade de rever Hermione, e a total destruição de sua frágil esperança de tornar-se, algum dia, algo além de um infeliz acaso que cruzou o caminho da menina...

Em movimentos cometidos e teatrais, como a imitar, zombando, de seu colega Osborn, Davis proclama seu discurso, voltado para a platéia de bruxos e bruxas ansiosos. Sua voz grave e rouca reverberou pelo silêncio mórbido e incômodo que pairava sobre o grande e escuro anfiteatro;

—Agradeço ao nobre colega Dr Osborn, por nos providenciar uma prova contundente e incontestável... – uma breve pausa, igualmente teatrelha, apenas para aguçar ainda mais a tenção e atenção de Nicolai para si, Davis volta-se para o rapaz, com o seu velho sorrisinho sádico de dente lascado... – ...de que meu cliente, o Sr Pavel Nicolai Donskoi, é inocente da acusação de ser um Comensal da Morte, ser INOCENTE da acusação de ser um seguidor Daquele-que-não-deve-ser-nomeado!

Nicolai sequer ouviu o burburinho que preencheu o Tribunal, pois havia subido ao céu no mesmo instante em que a palavra 'inocente' foi mencionada. Sua criação comedida impediu que seus ímpetos fossem a tona, o que poderia denunciar seu medo seguido do alívio pela verdade que estava oculta... ou não mais existia mesmo essa verdade? Tudo que sentia era a estranha sensação de alegria, de leveza, como se grilhões invisíveis o prendiam e haviam se rompido naquele momento à simples menção da palavra mágica, a palavra que lhe acendia a chama de esperança de que tudo ainda era possível... 'inocente'! Palavra tão singela, porém de cunho magistral...

O rapaz apenas se permitiu encerrar-se por breves instantes dentro de si mesmo, fechando seus olhos e, pela primeira vez desde que entrou naquela grande sala, respirar com alívio, respirar o ar dos inócuos.

O Juiz martela três vezes em sua cátedra, pedindo silêncio e atenção, que foram dispensados imediatamente. Tomando sua pose altiva ao ajeitar-se em sua cátedra, o Juiz volta-se para Osborn, exigindo uma conclusão.

—Dr Osborn, já foram apresentadas ao Tribunal e aos membros do Júri, as três acusações de que o Sr Donskoi que está sendo inquirido. Peço ao senhor que solicite a entrada das testemunhas de acusação e que conclua o seu parecer.

—Sim, senhor, Sr Meritíssimo.

Osborn voltou-se para o Porteiro do Plenário, solicitando-o a entrada de sua primeira testemunha apta a responder em julgamento. Pensando que tudo havia, finalmente, se encerrado, Nicolai gela novamente por dentro, temendo pela identidade dessa 'testemunha' da qual não contava... Quem haveria de ter sido escolhido para testemunhar contra ele! Supunha não ter mais alguém que se lembrasse dele, não teve tempo suficiente para reavivar antigos desafetos desde que despertou da Animago Mortis e muitos dos antigos comensais que o conheciam, estavam mortos ou vegetando em Azkaban... não, não estavam! Haviam ainda dois plenamente aptos a isso: Severus Snape e Lucius Malfoy! Severus era seu amigo, não havia a possibilidade de que ele testemunhasse contra... mas Lucius Malfoy... Nunca foi segredo algum que Nicolai o odiava, e Malfoy sabia muito bem disso e seu sentimento era recíproco! Mas Malfoy era um ex-prisioneiro de Azkaban, condenado por ser um Comensal da Morte e libertado por meios escusos e suspeitáveis... mas o mesmo poder que o mantinha livre e inocente de tal acusação poderia ser o mesmo que o fizesse ser uma testemunha válida.

O bruxo que era o Porteiro do Plenário retornou minutos depois, acompanhado, em seu encalço, de uma figura alta e esguia, de aspecto soturno. Os olhos de Nicolai se arregalaram e se petrificaram pelo choque... ele não conseguia crer no que via!

A testemunha foi encaminhada a uma pequena cátedra ao lado oposto da cátedra do réu, junto ao Juiz, que se acomodou em sua cadeira e, com a fisionomia inexpressiva que encarava friamente o Promotor de Acusação Dr Osborn, o homem mantém-se silenciosamente, apenas esperando que fosse solicitado.

Osborn volta-se para a sua testemunha, com seus antigos modos comedidos. Sua voz é mansa e clara, o que só faz aumentar mais e mais a angústia de Nicolai, que sentia-se miseravelmente derrotado, enganado, traído, e não conseguia desviar seus olhos chocados da cátedra da testemunha.

—Senhores e senhoras membros do Júri, quero apresentá-los minha primeira testemunha de acusação, o Sr Severus Snape, professor renomado da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts e Mestre renomado em Poções, de que tal conhecimento presta auxílios valiosos ao Ministério da Magia e ao Hospital St Mungus. É de conhecimento e comprovação que o Sr Snape é um ex-Comensal da Morte que, numa rara ocasião, recebeu perdão e respaldo do Ministério da Magia há dezesseis anos atrás, tornando-o apto a testemunhar num tribunal e apropriado para ser uma testemunha de acusação neste caso.

Jonathan Davis manifestou-se, parecendo nervoso. Nicolai, que até então não desprendia os olhos incrédulos de Snape, voltou-se para seu Advogado de Defesa e lhe pareceu que Davis, finalmente, foi pego por um golpe da Acusação de que não esperava. Parecia que Jonathan Davis estava tão chocado e incrédulo em ver Severus Snape, protegido de Dumbledore, atuando como a testemunha de acusação. Davis não via Snape sequer necessário como Testemunha de Defesa, mas tê-lo como Acusação era algo que não havia cogitado.

—Peço um aval, Meritíssimo!

—A que aval o senhor se refere, Dr Davis? O senhor tem pleno conhecimento de que não se deve contestar a escolha das Testemunhas.

—Sim, senhor, Sr Meritíssimo! Não contestarei a Testemunha do Dr Osborn. Quero contestar a necessidade de se haver testemunhas após a apresentação da prova cabal imputada ao meu cliente.

—O senhor sabe perfeitamente que a isso é permitido, Dr Davis. A palavra de uma testemunha vale tanto, e em alguns casos até mais, quanto qualquer prova de contundência de um crime. O senhor terá a permissão de interrogar a Testemunha de Acusação e até replicar a questão que for levantada, mas não será permitido revogar a escolha. Esteja ciente disso e não quero interrupções enquanto a testemunha for interrogada.

Aparentemente derrotado, cabisbaixo e sem seu costumeiro ar zombeteiro, Davis calou-se após um sussurro de aprovação obrigatória. —Sim, senhor Meritíssimo. Estou ciente de minhas condições.

Para Nicolai, o Inferno ainda não tinha se apresentado plenamente. Mais uma vez, desejou ter morrido em sua forma animaga naquele maldito sábado em Hogsmeade, a passar por essa situação esdrúxula e de desagradáveis surpresas intermináveis. Já sequer se lembrava que em si não mais existia a Marca Negra, já sequer existia mais a frágil e pálida chama de esperança de rever Hermione, sequer se lembrava que outro lugar além de Azkaban e da morte lhe era possível.

Seus olhos dourados, cujas pupilas negras estavam dilatadas pela tensão e estresse, voltaram ao rosto impassível de seu velho amigo Severus Snape. Por mais que se obrigasse, ainda sentia-se incrédulo quanto ao fato de que ele, Snape, que um dia fora seu melhor amigo e que tanto pareceu lhe apoiar nestes últimos dias, estivesse ali sentado para testemunhar contra si! Não conseguia crer que Dumbledore tenha permitido tal absurdo! Não conseguia crer que Dumbledore estivesse apenas se divertindo as suas custas. Não conseguia crer que a lealdade de Snape ao Ministério fosse de tal tamanho a ponto de entregá-lo em seu julgamento!

Severus Snape não era nada além de um grande dissimulado, sempre ficando ao lado daquele que lhe parecesse mais promissor e vantajoso... e certamente, estar ao lado de Nicolai, que não era absolutamente nada, jamais lhe traria qualquer vantagem.

Nicolai voltou-se a sentar na bancada de frente ao palco, ao lado de Jonathan Davis, que permanecia mudo.

Fim do Capítulo 32 – continua...
By Snake Eyes – 2005.

N/A:
LUTHIER – Fabricante de instrumentos musicais de cordas.
Ignacy jan Pderewski – Pianista polonês que se tornou primeiro ministro da Polônia em 1918, depois de proclamada a República Polonesa em 11 de novembro (não é o caso do personagem aqui apresentado, foi apenas, digamos, uma "homenagem").

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