terça-feira, 21 de maio de 2013

Animago Mortis - Capítulo 31 – Julgamento – Apresentando Provas.


Animago Mortis - Capítulo 31 – Julgamento – Apresentando Provas.

Um homem idoso que já passara a algum tempo de seus oitenta anos escorava-se no umbral da longa porta que dava acesso aos jardins dos fundos do suntuoso castelo construído em mármore branco repleto de detalhes esculpidos e cujas copas de ouro maciço das torres eram em forma de gotas. Os fios finos e branquíssimos de seu cabelo esvoaçavam ante a leve brisa que soprava naquela tarde de fim de verão, cintilando aos fracos raios do sol poente que trespassavam entre galhos e folhas de pequenos arbustos que circundavam os limites do jardim.
 
Apesar da idade já avançada, o homem ainda mantinha seu porte robusto e de alta estatura. Seus olhos estavam cerrados como se a sentir uma dor aguda, e suas mãos tremiam amassando o pergaminho que segurava. Sua respiração era difícil e parecia dolorosa, e a pouca cor que havia adquirido nos dias do curto verão havia esvaecido de seu rosto.

Uma mulher, também idosa, surgiu à longa porta de ouro maciço esculpido com ideogramas inidentificáveis. Seus longuíssimos cabelos prateados escorriam soltos sobre a seda de sua veste, indo até quase os tornozelos. Preocupada com o longo silêncio do marido, a mulher, quase aflita, coloca-lhe as mãos sobre o ombro, temendo que ele estivesse sofrendo algum mal.

((—Vânia! O que estás sentindo, meu senhor! Por Merlin, digas-me que estás bem!))

O homem, incomodado por estar causando aflição à esposa, recompõe-se, pondo-se ereto e acalmando suas mãos trêmulas. Seus olhos, de um azul translúcido quase branco, são abertos lentamente para fitar a mulher que se sobressaltou ao ver naqueles olhos algo impregnado, algo que ela não via há muitas décadas: confusão.

((—Por Deus, Vânia! O que acontecestes, meu senhor, para que ficastes desta maneira !))

Vânia inspirou profunda e lentamente, cerrando novamente seus olhos, como a buscar dentro de si uma coragem, uma explicação ou mesmo uma prova de que aquilo era mesmo real. Os breves segundos que assim permaneceu ainda mudo, pois estava incapacitado de pronunciar qualquer palavra devido à tensão que instantaneamente secou sua garganta, só aumentaram a aflição de sua esposa. O rápido silêncio que pareceu perpetuar por horas foi finalmente quebrado com um gesto calado, mas que explicaria exatamente o que lhe havia ocorrido.

O homem estendeu o pergaminho à esposa, que manteve seus olhos dourados como o sol de Outono, presos aos olhos do marido, pegando a carta sem olh�-la, tentando buscar as respostas na janela daquela alma que conhecia tão bem. Somente quando o pergaminho estava firmemente entre suas duas mãos, que Maria se dignou a olh�-lo, surpreendendo-se logo nas primeiras linhas escritas numa esmerosa caligrafia gótica.

((—Merlin! Mas é de Alvo Dumbledore...!))

A carta não era curta, mas Maria Ivanóvna leu-a em questão de segundos. Pasmada, dirige ao marido uma expressão que era um misto de aflição e incredulidade. E sentia que seu coração enchia-se de algo que não saberia explicar, por jamais ter sentido tal emoção. Só então, crendo que sua esposa havia encontrado a compreensão do fato ocorrido, Vassili Ivanovich pronuncia suas primeiras desde que recebeu a carta através da bela ave vermelha de dourada de Dumbledore.

((—É isso que está acontecendo, Ivana... Pavel ainda vive!))

Todo o Tribunal estava num silêncio sepulcral. Todos prestavam sua máxima atenção a Nicolai, que permanecia cabisbaixo. Mesmo após tantos anos, mesmo após tantas experiências ruins, tantas experiências diferentes, mesmo após ter adquirido uma nova visão para com o mundo a sua volta, a desonra que sofreu anos atrás, a de ter sido deserdado da Dinastia Donskoi, ainda lhe causava grande vergonha e indignação. A sua formação de moral e honra estavam tão enraizadas em seu âmago que jamais se livraria de tal sentimento, mesmo que por um absurdo e inesperado acaso do destino ele fosse restituído ao seu Clã.
 
Davis, sério, mãos entrelaçadas às costas, lhe dirigia um olhar inquisidor, como se o acusasse e culpasse pelos crimes ali expostos. Osborn apenas aguardava a sua vez, mesmo não compreendendo onde o colega queria chegar, e um tanto quanto contrariado de ver o Defensor agir como a Acusação.. ao menos era o que parecia.

—Esse é o verdadeiro motivo da deserção de seus pais e o do senhor.. o fato de seus pais terem se aliado ao bruxo Que-não-deve-ser-nomeado. A sua história tem fundamentos, uma vez que tal episódio ocorreu entre algumas diversas famílias tradicionais também do Reino Unido, que não aceitavam qualquer tipo de submissão a quem quer que fosse...

—..A história do réu talvez tenha fundamentos, mas não a questão aqui levantada, Dr Davis... – Interpelou Dr Osborn, não concordando com a postura tomada por Jonathan Davis. —Não é compreendido o motivo pelo qual o senhor levantou tal questão, uma vez que a decisão que a família toma com seus membros não é fato a ser julgado nesta ocasião. Poderia, caro colega, explicar-nos onde tal fato, do Sr Donskoi e seus pais terem sido deserdados pelo Patriarca da família, se encaixa com umas das três acusações em que o réu está sendo julgado?

—Com prazer, Dr Osborn... Tal fato aqui levantado apenas nos prova o porque do réu ter sofrido a maldição Animago Mortis proferida por Aquele-que-não-deve-ser-nomeado; isso prova que o réu, o Sr Donskoi, envergonhado da indignação e desonra de ter sido expulso de sua Dinastia, recusou-se a seguir ao Círculo das Trevas, e como o próprio havia dito, 'morte ante a desonra'. Sabendo que o Senhor do Círculo das Trevas é um bruxo cruel que jamais perdoa quem quer que seja, deu-se ao luxo de aprisionar o Sr Donskoi com uma maldição à simplesmente mat�-lo. Logo, para mim e insisto que seja para o Júri também, tal história é uma prova cabal de que o Sr Donskoi jamais se aliou ao Círculo das Trevas, pois não suportaria uma segunda desonra, totalmente aceitável dentro de uma família tradicional e antiga.

—Isso são apenas belas palavras, Dr Davis... – Falou seca e sarcasticamente o advogado de acusação. —...mas não é nenhuma prova cabal de que o réu não é um Comensal da Morte.
Osborn virou-se para o Juiz com quase um sorriso no rosto.

—Meritíssimo! Peço permissão para replicar a afirmativa do Dr Jonathan Davis.. e peço também a apresentação de uma prova concreta de que o réu, Sr Donskoi, não é um seguidor do Círculo das Trevas, um Comensal da Morte!

O silêncio pelos espectadores no Plenário foi quebrado por um burburinho que formou-se após as palavras de Osborn. Na arquibancada do Júri, os jurados cochichavam entre si, nervosos. Todos ali sabiam que havia apenas uma forma de provar que um bruxo era ou não um seguidor de Voldemort: através da marca negra, a tatuagem queimada por magia no antebraço esquerdo de todo Comensal. Mesmo que Voldemort estivesse morto, mesmo que a marca permanecesse oculta por anos a fio, ela sempre estaria ali, pronta a arder assim que seu mestre fizesse-se presente. É por isso que era dito que uma vez Comensal, sempre Comensal... tal sina era impossível de se livrar. Tal sina sempre estaria impressa no corpo, na alma, na moral daquele que se submetesse ao Círculo das Trevas de Voldemort.

Nicolai estava completamente congelado por dentro. Estava trêmulo. Os olhos estavam estáticos, estatelados. Ele não podia crer no que ouvira. Ele não conseguia acreditar que Davis tenha dado armas e argumento para que a Acusação reivindicasse uma prova real e concreta de que ele não era um Comensal da Morte... mas Nicolai ERA, e uma vez sendo, sempre seria. Sua marca negra, queimada em seu antebraço esquerdo há vinte e um anos atrás, não estava visível, como se não mais existisse... e talvez realmente não mais existisse; talvez, ao quebrar a maldição Animago Mortis de Voldemort, ele tenha também conseguido livrar-se de sua escravidão pelo Círculo das Trevas.. porém, ele não tinha a mínima certeza disso.

Sobressaltou-se com as marteladas que o Juiz dava em sua mesa, exigindo ordem e silêncio no Tribunal e concedendo o pedido de Osborn. Ao ouvir isso, uma nuvem negra cobriu os olhos de Nicolai e ele sentiu-se cair num abismo negro, sem fundo, tão negro que a escuridão poderia comprimir e esmagar como fosse a pressão existente na profundidade do Oceano. O abismo em que se encontrava era como o peso de todo o Oceano em volta de seu corpo, de sua alma.

— É consentido o seu direito à réplica, Dr Osborn, assim como é consentida a apresentação da prova real de que o Sr Donskoi é inocente perante a acusação de ser um Comensal da Morte.

—Eu protesto, Meritíssimo! – Intercedeu Davis, parecendo um tanto apreensivo, como se tivesse perdido o controle da situação. —Existe apenas uma prova real de que um bruxo é o não um Comensal da Morte, e tal prova é de certo grau um grande constrangimento ao réu. Peço uma rescisão do julgamento por ora, senhor!

—O seu protesto é inapropriado, Dr Davis, e esse direito não lhe será consentido. O direito à réplica do Dr Osborn será mantida tal qual a apresentação da prova real. Caso o seu cliente sinta-se constrangido ao ser submetido à apresentação da prova perante todo o Tribunal, que o senhor abra um processo contra danos morais em favor do Sr Donskoi, posteriormente. Por ora a réplica será feita e a prova será apresentada, porém ao senhor, Dr Davis, será consentido o direito à tréplica. E tenho dito.

Três marteladas. E ponto final.

Hermione encolheu-se nos braços de Alvo Dumbledore, como se houvesse entrado na saleta de espera uma corrente de ar frio. A menina cerrou seus olhos, com uma súbita sensação de medo e apreensão, diferente do que havia sentido até então. Todas esses sentimentos estranhos, essa sensação de sufocamento, estavam deixando-a enjoada e uma enxaqueca começava a se manifestar. Era como se estivesse desfalecendo, pois não conseguia pensar em mais nada, não conseguia ouvir, não conseguia sentir o exterior. Tudo o que via a sua frente era uma imensidão negra do nada, que a engolia, que a asfixiava.
 
Dumbledore sentiu a aflição de Hermione e apertou-a ainda mais em seu semi-abraço, na tentativa de dar-lhe mais conforto e confiança.

—Agüente firme, criança.. quando menos se espera, tudo estará terminado e voltaremos para Hogwarts o quanto antes...

Neste momento, uma das portas da antecâmara é aberta, dando passagem para um elfo doméstico que empurrava um carrinho de chá maior que ele próprio, segurando com dificuldade na alça do mesmo. Sobre o carrinho havia uma dezena de xícaras de porcelana branca com o brasão do Ministério impresso em dourado, dois bules também em porcelana impressa, um com chá e outro com café e mais duas baixelas com biscoitos de formatos e sabores variados.

O estado estranho e degenerativo em que Hermione sentia-se encontrar não permitiu que sua indignação contra a escravidão dos pobres elfos sequer se manifestasse e a menina não fez qualquer cerimônia e aceitou de prontidão a xícara com chá preto que a pequena criatura lhe servia muito educadamente. Hermione levou a xícara aos lábios e degustou do chá como fosse um néctar paliativo que lhe traria a calma e o conforto que tanto precisava naquele momento.

—Todos aqui presentes têm o conhecimento de que o Comensal da Morte é identificável através da Marca Negra, uma tatuagem queimada no antebraço esquerdo do indivíduo. Por vezes essa tal marca é oculta, invisível, mas isso não quer dizer que ela não exista e, para torn�-la visível, é necessário conjurar um feitiço para tal...
 
Osborn volta-se para Nicolai, sentado à cátedra do réu, tenso e estático, tanto que sequer piscava.

—Sr Donskoi, o senhor possui a Marca Negra? – Questionou secamente.

Não tenho a marca negra, senhor! Não sou um Comensal! – Respondeu Nicolai de forma ríspida, por entre os dentes quase cerrados pela raiva. Agora pouco importava a sua condenação à Azkaban. Antes de ser levado dali ele se encarregaria de matar magistralmente Jonathan Davis diante de todo o Tribunal.. ainda sabia como proferir a Avada Kedavra e nem precisaria utilizar uma varinha para isso!

—Então o senhor não se importaria agora, diante de todos, de mostrar que diz a verdade?

Perdão, mas me recuso. Eu digo a verdade e não mostrarei nenhuma parte de meu corpo para provar isso!

Davis intervém: —Sr Donskoi, da mesma forma que o senhor não pode negar-se a responder ao inquérito feito em pleno Tribunal, o senhor não pode negar-se em apresentar as provas requeridas. Quem cala, consente. Quem se nega a apresentar provas de sua inocência, assume a culpa. O senhor não quer ser enviado à Azkaban apenas por timidez, não é mesmo?
O advogado terminou sua frase com um leve sorriso zombeteiro no rosto, que Nicolai retribui – e respondeu – com um olhar de ódio ferino. A áurea de ódio de surgiu em torno do rapaz era quase palpável e Davis percebeu isso imediatamente e, embora não tenha demonstrado por mais que efêmeros segundos, ele titubeou perante aquela energia que não havia sentido até então, vinda de Nicolai. Se as coisas não saíssem como planejara, manipulando a Acusação, ele certamente seria morto por seu cliente!

—Não queremos condenar injustamente. Todos nós trabalhamos para que a verdade venha à tona. Se o senhor se recusa a apresentar a prova cabal de que é inocente, então o senhor assume a culpa. Por favor, apresente a prova, Sr Donskoi; dispa-se de sua vestimenta superior e deixe peito e braços à mostra. – Em tom complacente, Osborn fala a Nicolai como se falasse com uma criança de dez anos, o que só fez aumentar ainda mais a raiva do garoto, sentindo-se sobrepujado em sua inteligência.

Nicolai começou a desabotoar o balandrau negro que trajava, sem desviar seu olhar de ódio dos dois advogados. O silêncio no Plenário era absoluto e até mesmo o Juiz se inclinava sobre sua mesa a fim de melhor observar a cena.

O Animago sabia que sua marca negra não estava mais ali, mas não tinha qualquer certeza de que ela tivesse desaparecido para todo o sempre. O problema é que ele não contava com a magia que era conjurada para tornar a marca visível, a mesma magia usada para conjurar a marca negra no céu e isso seria usado contra ele. E se ele ainda fosse um escravo das Trevas? Não haveria, então, mais qualquer argumento em sua defesa e sua prisão em Azkaban era mais que certa... mas, então, que fosse! Porém antes ele se encarregaria de eliminar aquele maldito advogado, Jonathan Davis, ali mesmo diante de todos! Maldito Dumbledore! Velho sujo e maquiavélico! Ele que era um grande imbecil de ter acreditado nesses miseráveis!

Terminado de desabotoar o balandrau, Nicolai joga a vestimenta sobre o balcão de sua cátedra, deixando peito e braços à mostra. Enrolado em seu pescoço estava o cordão de couro de dragão com as duas penas vermelhas de bordas douradas da Fênix penduradas ao meio de seu peito. O rapaz, em pé, estende os braços na direção ao advogado de acusação. Realmente, como estava sendo analisado, não havia qualquer sinal ou sombra de que em seu antebraço ou qualquer outra parte do corpo exposto, estivesse ali, alguma vez, a hedionda marca do crânio com a serpente saindo de sua boca.

Repito, Dr Osborn: não sou um comensal da morte! Não tenho a marca negra!

—É isso que está sendo julgado e tentando ser provado, Sr Donskoi!

Osborn sacou a varinha de sua manga e apontou para Nicolai, que sentia-se completamente gelado e em cacos por dentro, mas exteriormente ainda mantinha a sua expressão de ódio, com seu olhos quase cerrados pelo cenho franzido. Tentou controlar sua respiração, que estava descompassada. Era o seu momento final e só uma ironia do destino ou um capricho de Merlin impediriam que sua tragédia pessoal se concretizasse.

Nada era ouvido no Tribunal além do flambar dos archotes, devido ao silêncio que reinava absoluto no local. Parecia até que todos os presentes tinham se tornado estátuas de pedras. Ninguém respirava. Ninguém piscava. Alguns levantavam-se de suas cadeiras, espichando-se em direção ao palco. Jonathan Davis, confiando cegamente nas instruções passadas a ele por Alvo Dumbledore, torcia para que não fosse dessa vez que o velho mago estivesse errado. Mantinha seus braços esticados ao longo do corpo, com os punhos fechados fortemente... se fosse provado que Nicolai é mesmo um Comensal da Morte, a carreira de Davis sofreria um grande impacto e poderia começar a ruir depois desse julgamento. Ele conhecia os riscos e aceitou o caso como um desafio profissional, mas ele era inteligente o suficiente para não ser totalmente otimista.

As veias do braço de Nicolai estavam sobresselentes devido a sua tensão e sua pulsação alterada. A muito custo mantinha seu semblante inalterado, tentando não deixar transparecer seu medo...

Segurando a varinha firmemente em direção ao peito de Nicolai, Osborn conjura o feitiço em alto brado:

MORSMORDRE!

Fim do Capítulo XXXI – Continua...
By Snake Eyes – 2005.

N/A: "Vânia" é o diminutivo do nome 'Vassili' (ao menos foi o que constatei em "A morte de Ivan Ilith", de Leon Tosltoi. No caso, Vassili (ou 'Vânia') era o nome do filho caçula de Ivan.
Para quem não lembra... ((Dois pares de parênteses significam um diálogo em russo. Como não sei escrever em russo, nóis inventa artifícios XD)

Morsmordre: Invoca a Marca das Trevas, símbolo de Voldemort, que é uma caveira com uma cobra saindo de sua boca. Não é dito em nenhuma parte do livro que tal feitiço serve para tornar visível a marca negra em alguém, mas, na falta de uma idéia melhor, usei esta mesmo :P

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