quinta-feira, 2 de maio de 2013

Animago Mortis - Capítulo 28 – Início do Fim.

Animago Mortis

((...dois pares de parenteses será para indicar o diálogo em russo... ah, tb usarei o itálico, para dar mais diferenciação.))

Capítulo 28 – Início do Fim.

Domingo à tarde.

Enquanto todo o resto da escola aproveitava o dia ensolarado e fresco pelos jardins de Hogwarts, Hermione rabiscava metros de pergaminho solitariamente na imensa biblioteca vazia. Sobre a mesa, aos seus dois lados, duas pilhas de livro a escondiam do resto do grande salão. Com a cabeça quase deitada sobre o tampo, a menina mantinha-se totalmente concentrada em seus estudos.

Os estudos eram a sua forma de superar-se aos demais e também a sua forma de desligar-se do mundo. E neste momento, em que tantas coisas ruins estavam acontecendo, ela bem precisava e muito se desligar de tudo, para tentar manter ainda alguma sanidade mental.

E estava tão concentrada no que lia e anotava, que sequer percebeu que naquele momento a porta da biblioteca se abria e dava passagem a uma figura que carregava cuidadosamente algo em suas mãos. Somente quando os passos cautelosos se aproximaram dela é que percebeu que não estava mais sozinha naquela biblioteca, mas, ignorando a sua curiosidade, não se dignou a sequer levantar o olhar para ver quem se aproximava de sua mesa.

O rapaz parou frente à mesa e só então Hermione levantou lentamente seus olhos do pergaminho, vendo em primeiro lugar mãos fortes que seguravam um cachepô de bronze com um bonsai. Sentiu um calafrio interior e, um tanto receosa, subiu seus olhos até encontrar o rosto sério e abatido de Harry, que a olhava de forma aflita e triste.

Ambos permaneceram, por segundos indeterminados, perdidos dentro dos olhos tristes um do outro. Nada disseram. O mal-estar era quase palpável. Quando essa situação silenciosa e difícil parecia já insustentável, Harry esticou seus braços, depositando o cachepô na mesa. Hermione apenas acompanhava com o olhar os movimentos do rapaz.

—Acho que isso é importante para você... – voltando à posição ereta, Harry falava baixo e sem entusiasmo, apontando para o cachepô.

Hermione nada respondia. Apenas continuava a olhar para o bonsai, relembrando de tudo que havia acontecido até então. Fechou os olhos e respirou profundamente, apertando as mãos uma contra a outra, que descansavam sobre seu colo, embaixo da mesa. Quando pensou em pronunciar qualquer coisa apenas para quebrar aquele silêncio incômodo, Harry o fez antes, chamando sua atenção.

—Eu... o que fiz.. eu pensei muito sobre isso... e sei que é imperdoável...

A menina o mirou nos olhos que mantinha perdidos sobre a mesa. Suas expectativas eram tantas que mal se permitiam respirar. Harry estava muito constrangido, as faces enrubescidas e seus olhos verdes-esmeralda pareciam brilhar mais que o habitual.

Harry aproxima-se até se encostar na mesa, segurando fortemente a borda do tampo, levantando seu olhar para encarar Hermione. Seu coração se comprimiu ainda mais quando viu em seu rosto a expressão de mágoa e o olhar triste da menina, que o olhava intensamente, aguardando o que mais ele tinha a dizer.

—A-agora eu.. tenho a consciência de que agi errado.. muito errado. Eu sou um grande idiota, eu sei disso, mas... Mione, não era assim que deveria ter acontecido... – o garoto deixou o olhar cair novamente para o tampo da mesa, para seus dedos que já estavam esbranquiçados de tanto que apertava a borda.

—É claro que aquilo foi um erro! Aquilo foi péssimo! Você tem idéia de como eu me senti, Harry? – Hermione falava com a voz embargada num misto de mágoa e indignação que fez o coração de Harry se comprimir ainda mais, que levantou seu olhar em direção a ela num súbito.

—...eu apenas imagino... mas não foi proposital, eu não queria te magoar, juro! Eu gosto demais de você para lhe querer qualquer mal!

Ouvir aquilo, naquele tom de suplica como Harry falava aquelas palavras, pareceu ter abrandado a raiva que continha em seu peito. Por alguns instantes ficou ainda observando a expressão triste e desnorteada do garoto. Inspirou fundo...

—Eu acredito no que está dizendo, mas...

Por breves instantes a esperança inflou dentro do peito de Harry, olhando com muita expectativa para a garota. Um sorriso quase imperceptível se formou em seu rosto.

—... sinto muito, Harry, mas... eu sempre gostei muito de você, mas não da forma como espera, eu suponho... – Hermione desvia seu olhar para a pilha de livros do seu lado esquerdo. A situação era muito desagradável e ela queria que Harry fosse embora dali o mais rápido possível.

Tornaram-se grandes amigos ao longo do tempo em que passaram juntos, mas qualquer outra coisa além dessa grande amizade era algo inconcebível para si... ela simplesmente não conseguia assimilar a idéia de uma possível paixão por qualquer um de seus amigos.

Harry, engolindo sua mágoa a seco, ainda tenta, desesperadamente, consertar um pouco de sua grande burrice.

—... ao menos, Mione, continuaremos sendo amigos... como antes, não é?

Hermione mirou subitamente para o rosto esperançoso de Harry, mas sua expressão era ainda de tristeza. Lentamente, balançou a cabeça em negativa, que fez o garoto perder toda e qualquer esperança.

—Não sei, Harry, não sei... eu preciso de um tempo... isto não está sendo nada fácil para mim. A nossa amizade já vem se declinando há muito tempo.. há muito tempo já não é mais como antigamente... e ainda, depois do que aconteceu ontem...

A garota baixou sua cabeça enquanto Harry experimentava um gelo amargo em sua garganta. Deu dois passos para trás, afastando-se da mesa. Cabeça e ombros baixos, amargava o resultado desastroso de sua investida infantil e estúpida.

—Você tem razão.. como sempre... eu só espero que um dia... você me desculpe por isso...

Harry girou em seus calcanhares e saiu apressado da Biblioteca, pois não sabia por quantos segundos mais suportaria engolir suas lágrimas. Hermione o acompanhou com o olhar até ver a porta bater após a passagem do rapaz. Respirou lenta e profundamente e pegou sua pena e tornou aos seus escritos de onde havia parado. Não havia mais o que fazer e nem dizer, tudo que poderia e deveria fazer agora é esquecer absolutamente de tudo e se dedicar de corpo e alma aos seus estudos, pois ali sabia ser sua fuga e seu porto seguro. Prometera a si mesma que não deixaria mais se abater por nada e precisava, com todas as suas forças, honrar essa promessa para si mesma.

E nada deveria ser mais importante que seus estudos.. e seu futuro.

Segunda-feira, quatro e vinte e sete da manhã. Nas primeiras horas do dia, Nicolai lutava com todas as suas forças contra a ansiedade que tentava dominá-lo... ou já estaria dominado por ela? Havia dormindo muito pouco, apenas umas duas ou três horas e sempre era despertado por pesadelos onde era trancafiado em lugares minúsculos em que havia falta de espaço até para o ar ou tinha a alma sugada de si! Por Merlin, por vezes até sentia o odor pútrido dos Dementadores!

Diziam que quem nasce em países frios, tinha o temperamento igualmente frio, não se abalando facilmente com qualquer coisa que seja. Ele era um russo de Lentz, um estado próximo da Sibéria. Já havia enfrentado invernos rigorosos de cinqüenta graus negativos. Toda a sua educação, desde a infância até aos seus anos de estudo e internato em Drumstrang primaram pela frieza dos atos e pensamentos lógicos e ponderados, e não se deixar levar por impulsos ou sentimentalismos... E era por um impulso, por sentimentalismo que ali estava. E estava ansioso, tanto que não conseguia dormir.

((—...nem dormir, nem pensar em algo que preste! Todos esses anos como um animal deve ter me deixado retardado!))

Num salto, postou-se sentado sobre a cômoda alta, com as pernas dobradas, tendo os joelhos à altura do queixo, deixando os braços esticados descansando sobre eles. Precisava se acalmar. Estava sendo completamente irracional com esse nervosismo infantil. Estava apenas há três dias ali e não havia sido tão terrível assim, além de ter passado o tempo inteiro trancado junto ao ócio.

Falava como se três dias trancafiado numa jaula subterrânea e longe de sua Hermione fosse pouca coisa ou fosse algo facilmente suportável... não era, nem em sonhos. Foram três dias que se arrastaram como séculos!

Levou a mão direita à testa, deslizando seus dedos até se enterrarem em seus cabelos. Soltou uma breve risada baixa, sentindo-se no limiar da insanidade.

((—Por que essa dependência de Hermione, de ter que estar com ela? Será que ela me fez beber o vinho ervoso da Rainha Isolda? Nesse caso, se completar uma semana longe dela, certamente morrerei...))

Fechou o punho direito e acertou a própria testa, a fim de colocar razão em sua cabeça. O que ele precisava fazer era se relaxar, voltar a dormir e recuperar as forças e o juízo para enfrentar o julgamento do Ministério que se daria dentro de algumas horas.

((—O Patriarca Vassili Afanassievich estava certo: eu fico idiota quando estou ansioso!))

Enrolada em seu manto escuro de lã, Hermione apreciava o nascer do dia com o olhar perdido para a Floresta Proibida. Seus grandes cachos sedosos caiam libertos por sobre seus ombros e a eterna brisa que corria naquela colina brincava de embaraçá-los.

Pela primeira vez Hermione passou a noite naquele Gazebo, que havia se tornado ainda mais importante para si nos últimos tempos. Agora desfrutava de algo que, mesmo tendo diversas oportunidades, jamais fizera: ver o clarear do dia, no momento raro onde treva e luz se misturavam, até que a treva se corrompe e se ilumina.

Sempre trancafiada em lugares fechados, especificadamente na Biblioteca, nunca teve a mais remota idéia de apreciar algo tão belo e tão singelo, mas tão gratuito e ao alcance de todos. O espetáculo diário onde o céu se desmanchava em degrades de negros, azuis, vermelhos e amarelos. Nuvens suaves como plumas pincelavam o céu por sobre o manto de verde intenso da mata. Uma única estrela ainda insistia em mostrar o seu brilho, enquanto esta, pouco a pouco, se esmaecia pelos raios mornos e alaranjados do sol que surgia.

E esses mesmos raios de luz pálida se derramavam pela relva, como se arrastasse um imenso cobertor de sombras, iluminando cada folha, cada ser, cada pedra, cada grama. As gotas do orvalho que derretia brilhavam como diamantes, faiscando raios de luz intensa. Pássaros gorjeavam com uma alegria ímpar, totalmente alheios às complicações do mundo, apenas felizes por mais um dia, vivendo plenamente o seu presente e nada mais.

Quando o sol já aquecia alto e o orvalho das plantas já havia se evaporado, Hermione fez seu trajeto para o castelo. Pelo caminho, apenas os sons da natureza e seus passos roçando a gramínea ainda molhada pelo sereno da noite quebravam aquele silêncio plácido. Apesar de tudo, sentia-se muito mais leve. Aquele lugar no alto da colina tinha esse poder de confortar sua alma. E sentia-se, assim, irracionalmente feliz. E sua mente devidamente descansada e revigorada lhe permitia um estado de otimismo, onde acreditava que tudo poderia dar certo e o que aconteceu de ruim pertence ao passado que não retorna.

Isso é um pensamento tolo e irracional, sabia bem disso... mas funciona.

Mesmo atrasada, Hermione chega ao Salão Principal para o desjejum. Alguns alunos, principalmente da Grifinória, pararam por instantes para observar a menina que chegava com sua típica seriedade, porém, dava-se para notar que ela não sustentava aquele semblante carregado. As suas colegas de quarto que, obviamente, notaram que ela não havia passado a noite no dormitório, pararam com a conversa e a olhavam muito atentamente, num misto de curiosidade e malícia, pois certamente especulavam 'aonde' Hermione deveria ter passado a noite.

Seus amigos habituais, como Ron, Gina, Neville e Dean também se silenciaram ao vê-la entrar no Salão cheio, com o desjejum já posto à mesa. Harry a olhava de esguelha.. ainda amargava o resultado de sua tolice.

Hermione, sempre muito perceptiva, havia notado os olhares em si assim que adentrou o Salão, mas seu estado tranqüilo não seria abalado tão facilmente e nada se importou com isso. Por ela, que especulassem o que quisessem, que falassem mal de si, que inventassem o que fosse, pois nada daquilo, assim como decidiu de uma vez por todas, tinha qualquer relevância para sua vida no presente e futuro. E neste exato momento e desde que despertou, apenas um pensamento povoava sua mente.

Antes de sentar-se em seu lugar costumeiro na mesa da Grifinória, seus olhos correram a mesa dos professores, encontrando-se com os olhos azuis-água do Professor Dumbledore, que esboçava um sorriso otimista e transmitia uma áurea que lhe confortava e lhe acalmava ainda mais. Os resquícios de seus medos e receios desaparecem por completo naquela hora e agora tinha a absoluta certeza que tudo daria certo neste dia.

Acreditando do fundo de sua alma que todos merecem a sua segunda chance e que cada problema deve ser resolvido individualmente, cada qual a seu tempo, tranqüilamente dirigiu-se ao seu lugar junto a seus amigos, recebendo olhares curiosos, indagadores e alguns até mesmo contentes por revê-la.

Tomou seu desjejum calmamente. Tratou a todos da mesma forma habitual, não se alardeando com absolutamente nada. Sabia que alguns ali sentiam-se mal em sua presença – no caso, Harry – que outros tinham idéias maliciosas a seu respeito – estas, Lilá e Pavarti - e questionavam-se aonde e com quem ela passara a noite, entre outras especulações e infâmias... mas a muralha que construiu entorno de si não permitiria que essas coisinhas insignificantes quebrassem mais uma vez a sua serenidade.

Fim do Capítulo 28 – continua...
By Snake Eyes – 2004

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