quinta-feira, 18 de abril de 2013

Animago Mortis - Capítulo XXVII – Erros, acertos e indecisões.



Animago Mortis
Capítulo XXVII – Erros, acertos e indecisões.

Nicolai larga o livro que lia sobre a cama, levando a mão de súbito ao peito, sentindo uma opressão que já lhe era bastante familiar. Levanta-se e começa a andar de um lado para o outro dentro da cela, nervoso, balançando a cabeça em negativa.

Olhando para as grades de energia que trancavam a sua cela, pensa se realmente são capazes de deter alguém ali dentro e vai até elas para se certificar. A opressão em seu peito incomoda muito, principalmente por saber do que aquilo se trata. Maldizia intimamente pelo maldito sábado, quando tudo aconteceu, quando tudo isso teve início.

Ironicamente, ele era mais livre e útil enquanto apenas Crookshanks...

Estendeu sua mão em direção às grades e há poucos centímetros de encostar-se a elas, filetes de finos raios púrpuros eriçaram-se como fossem um curto circuito contra a mão de Nicolai, causando-lhe uma pequena queimadura com o choque.

O garoto afastou sua mão, mas sua expressão mordaz em nada mudou, como se a dor pela queimadura não tivesse surtido qualquer efeito. Recostou-se à parede, massageando a mão ferida, mirando o nada a sua frente, o cenho franzido. Soltou um muxoxo de raiva, indignado com sua condição e por sua incapacidade de confortar aquela pessoa que lhe é tão importante, e que sofria neste mesmo instante.

A opressão em seu peito, ele bem sabia, era devido a algo que afligia Hermione, que a magoava, a fazia sofrer... e algo aconteceu a ela, naquela hora. Respirou fundo e devagar, cerrando os olhos, a fim de se acalmar. Nada ele poderia fazer estando ali preso... nada!

[[—Por que isso? Como posso estar tão ligado a ela a ponto de sentir suas aflições mesmo estando há quilômetros de distância?...]]

Abriu os olhos e fixou-os sobre seu ferimento que avermelhava e ardia na parte atingida das costas da mão e dedos. O coração ainda estava comprimido e essa maldita angústia não o deixaria em paz tão logo, ao menos até que a própria Hermione já não estivesse mais angustiada.

[[—Como foi possível eu ter me deixado levar tanto assim por essa garota? Que magia afinal é essa que me prende a ela desse jeito?]]

Recostou a cabeça na parede, olhando para o teto branco e sem qualquer atrativo da cela. Um esboço de sorriso formou-se em seu rosto, embora seus olhos transmitissem a tristeza que vinha dentro de si.

[[—Isso é algo que preciso descobrir... e preciso sair daqui para isso!]]

*-*-*-*-*-*

Harry afastou-se de Hermione ao ver seus olhos aflitos vertendo lágrimas... olhava confuso para o rosto enrubescido da amiga. Ele até esperava uma reação de surpresa ou timidez da garota, mas não isso!

Hermione levou as mãos ao rosto, dando dois passos para trás, recostando-se à Figueira, apoiando o seu corpo que sentia-se totalmente fraco, sem energia. Cerrou os olhos com força, tentando conter o pranto e tentando inutilmente se convencer de que aquilo fora apenas um sonho ruim e que tudo sumiria quando voltasse a abrir os olhos.

As lágrimas vertiam furiosamente. As mãos ainda sobre o rosto. O corpo curvado para frente. Os cachos pendiam-se sobre os ombros, cobrindo parcialmente a face ruborizada pelo constrangimento, pela raiva.

Sentia-se violada! Sentia-se um brinquedo, um objeto, uma coisa qualquer que não merece respeito! Como ele pode fazer isso?! Eles são amigos, são como irmãos!

Como ele pode agarrá-la e tocá-la daquela forma como se ela fosse uma qualquer, como fosse uma mulherzinha vulgar e fácil que aceita qualquer coisa?!

Era a isso que ela fora reduzida? A falta de respeito de seus amigos havia chegado a esse nível, a de violá-la dessa forma como se ela fosse indigna, sem vontades, sem direitos?!

Harry deu um passo adiante, cautelosamente, estendendo sua mão ao rosto de Hermione.
—Mione, eu não esper...

Hermione reagiu na hora, furiosa, afastando a mão de Harry de si com um tapa, fazendo com que o garoto ficasse ainda mais assustado e confuso com sua atitude hostil.

—COMO PODE?! O QUE PENSA QUE SOU, HARRY?!!

—Eu.. eu não pretendia que isso... eu só queria que voc...

—AH! NÃO PRETENDIA?! É ISSO QUE EU SOU PARA VOCÊ AGORA?! UMA QUALQUER QUE VOCÊ AGARRA E FAZ O QUE QUISER?!! É NISSO QUE FUI REDUZIDA PARA VOCÊ?!!

—NÃO! Claro que não! Eu só queria te mostrar o quanto gosto de você! Por que você sempre entende tudo errado?!

—Eu entendo tudo errado, Harry?! O que entendo é que você me beijou e me tocou A FORÇA! O QUE ENTENDO É QUE VOCÊ SEQUER ME RESPEITA COMO PESSOA!!

Hermione empurrou com raiva o garoto que ainda tentava se aproximar dela. Raiva, indignação, mágoa se misturavam em seu semblante. Seu rosto e olhos muito ruborizados pelas lágrimas que ainda vertiam. Sentia-se totalmente constrangida e não suportava mais a presença de Harry, precisa sair dali.

A garota tentou sair dali o mais rápido possível, mas Harry a impediu segurando-a pelo braço rudemente. Hermione estremeceu olhando assustada para o garoto por sobre o ombro.

—Não, Hermione! Você não pode ir dessa forma! Não pode ir com esse mal-entendido! Eu fiz isso porque te amo, droga! – Harry exclamava quase numa súplica, sentindo-se totalmente estranho com a sua declaração... uma declaração que lhe parecia falsa.

Hermione desvencilhou-se de Harry, olhando-o com raiva.

—Harry! Me deixe em PAZ!!

Harry ficou estático, sem reação, vendo Hermione correr e desaparecer por entre a vegetação que ornamentava o local. Estava arrasado! Sentia ter cometido um erro irreparável!

—Não acredito.. não acredito que tenha dado tudo errado! Isso não é possível! – falava para si mesmo, incrédulo, num sussurro.

O garoto virou-se para a árvore, socando o tronco, recostando sua testa em seguida, tentando entender o que havia acabado de acontecer... entender a burrice que acabava de cometer. Com a cabeça baixa, suspirava profunda e cansadamente, os olhos e a garganta ardendo...

—Sou eu que sempre entendo tudo errado! Sou eu que sempre cometo burrices como essa! Hermione está certa: eu a julguei como uma qualquer!

A colina recoberta por rododendros estava completamente plácida. Apenas a brisa forte e os pequenos insetos e pássaros quebravam o silêncio reconfortante daquele lugar com suas melodias, cada qual de sua maneira. Algumas flores brancas e púrpuras dos arbustos emprestavam cor e aroma. O tempo estava nublado, mas havia um mormaço aconchegante... apesar de Hermione não ter qualquer espírito no momento para apreciar o que ali estava apenas para ela, já sentia-se como em casa, num lugar que lhe era acolhedor e que lhe protegia.

Afinal, ali era o seu refúgio em Hogwarts. O seu refúgio encantado do Gazebo da Colina. Ali ela estaria segura, sozinha e em paz com seus pensamentos. Ali ela poderia chorar todas as lágrimas que quisesse.

Hermione atravessou correndo, mesmo ofegante pela subida à colina, pela muralha de grandes arbustos e pinheiros que dava acesso ao belvedere, onde ficava o seu Gazebo de pedras. Abriu e passou subitamente pela pesada porta de carvalho, batendo-a logo em seguida e jogando todo o peso de seu corpo contra a porta fechada, recostando-se a ela para ganhar fôlego e se acalmar.

Manteve por longos instantes os olhos fechados e o corpo inclinado pela frente, sorvendo todo o oxigênio que lhe faltava ao organismo, que lhe chegava a doer. Nunca deve ter corrido tanto e tão rápido e nem sequer conseguia acreditar onde encontrou tanta força e disposição para subir essa colina íngreme em passos tão rápidos como acabara de fazer... mas tudo o que tinha em mente era se afastar o mais rápido e o mais longe possível de Harry, tudo o que queria era fugir daquela situação.

Recostou com tanta força a cabeça contra a porta, que chegou doer-lhe com a pancada, que a fez soltar um gemido baixo, cerrando ainda mais forte as pálpebras. Uma estranha ardência nas costas de sua mão direita chamou-lhe a atenção, mas só o que via diante de seus olhos ainda era aquela violação que Harry cometeu contra ela, sua intimidade invadida. Ela estava tão confusa, não conseguindo entender como um beijo poderia causar sentimentos tão desagradáveis como os que ela estava sentindo.

Levou a mão direita sobre os lábios, que parecia ainda ter o gosto de Harry. Fechou os olhos com força para impedir que as lágrimas voltassem a cair, inutilmente. Escorregou pela porta, abraçando as próprias pernas e escondendo o rosto sobre os joelhos.

Ficou ali por muito tempo, como um bichinho acuado e temeroso. Os soluços só cessaram quando estava exausta demais até para chorar.

A tarde chegou e junto a hora da primeira partida do ano de Quadribol. Harry estava com a expressão fechada, furioso. Mas ninguém perceberia a verdade de seu estado a menos que ele contasse. Respondia muito mal a todos com meias palavras ou monossílabos. Nem o entusiasmo de seus amigos, principalmente de Rony, conseguia tirá-lo daquela áurea contrariada.

Se havia algo a que poderia sentir-se feliz era por hoje ser a tão esperada partida de Quadribol, pois assim todos confundiam a sua ira com o nervosismo pelo iminente jogo. Era muito bom poder guardar o seu erro somente para si, pelo menos até ele próprio compreender toda a situação e chegar a alguma conclusão.

Olhou de soslaio para Rony, que conversava animadamente com outros garotos da Grifinória e alguns jogadores do time. Imaginava o que o amigo fará quando souber o que aconteceu entre ele e Hermione, ou melhor, o que ele fez à Hermione! Rony podia estar enfurecido com a amiga por alguns motivos, mas ele jamais toleraria que alguém a molestasse... molestasse?
Harry levou a mão à testa, esfregando-a como se quisesse conter alguma dor. O coração começou a bater descompassado e sentiu-se suar frio... ele havia molestado Hermione! Mesmo que ele não tivesse sido estúpido ou a tocado de forma voluptuosa, ele a molestou por forçá-la a algo que ela não queria, que não estava preparada!

Seu desespero foi bruscamente interrompido com o aparecimento de Gina diante de si. A menina mantinha um sorriso no rosto, mas o seu tom de voz denunciava a sua preocupação...

—O que aconteceu, Harry? Esse nervosismo não é por causa de quadribol. – Não era uma pergunta, era uma afirmação.

Harry ainda fitou por instantes a amiga ruivinha sem pronunciar qualquer palavra. Cogitava a possibilidade de contar-lhe o que havia acontecido pela manhã entre ele e Hermione. E ele realmente precisava de um ombro amigo nesta hora. Precisava de conselhos. Precisava até mesmo de alguém para xingá-lo, pois ele mesmo já não agüentava mais fazer isso por si. E Gina era uma opção muito mais sensata que seu irmão Rony, pois, com certeza, o amigo não lhe pouparia uma surra.

Precisava muito disso, mas não havia mais tempo. Já era a hora de ir para a quadra da escola. Queria desistir do jogo e arrastar Gina para um canto para poder lhe desabafar e era o que faria não fosse por Rony e alguns dos outros jogadores aparecerem naquele momento e lhe arrastarem como a uma turba de carnaval para fora do Salão Comunal da Grifinória. Antes, ainda, tentou apelar para Gina, para, ao menos, deixá-la sobreavisada.

—Mione! É sobre ela! Preciso falar com você!

Por sorte, todos os outros alunos que estavam com Harry o arrastando para fora do Salão estavam entretidos com suas brincadeiras que não perceberam uma palavra sequer de Harry. Mas Gina ouviu claramente, ao menos entendeu claramente o porque da preocupação dele. Ela já desconfiava de algo envolvendo Hermione, afinal, a garota estava desaparecida novamente, nem sequer veio para o café e o almoço.

Gina soltou um suspiro cansado, recuperando novo fôlego e seguindo o restante de alunos em vestes vermelhas que iam todos para o jogo de Quadribol. A ruivinha apenas desejava que Harry esquecesse seja lá o que tenha acontecido e consiga se concentrar no jogo.

No escritório sisudo em tons escuros e neutros, Nicolai, algemado, estava sentado em frente a grande mesa de madeira negra de Bennington. O Secretário de Segurança a sua frente, com as mãos entrelaçadas sobre a mesa, olhava para o garoto quase de forma inquisitiva, mantendo seu ar sério e intocado. Nico, sentindo-se subjugado desde que esteve pela primeira vez diante dos agentes do Ministério, o encarava mordazmente, mas com a cabeça levemente abaixada, o corpo levemente curvado para frente com se carregasse um grande peso sobre os ombros. Ele continua a sentir-se miserável com tudo aquilo e todos dentro daquele lugar lhe soavam antipáticos e arrogantes demais, incluindo o tal Secretário.

—...já lhe foi explicado os seus direitos e o porque de estar aqui, Sr Donskoi. Mas creio que ficará satisfeito em saber que a sua iniciativa de apresentar-se ao Ministério contará pontos a seu favor.

Nicolai sorri sarcasticamente, levantando seus punhos algemados, que repousavam em seu colo, a altura de seus olhos.

—Pontos a favor, é? Que maldita bruxaria é dessa algema que faz me sentir a pessoa mais miserável do mundo? Se for esse o tratamento que é dado aos que colaboram, não gostaria nunca de ser caçado!

—Esse é mais um motivo para ter certeza que tomou a decisão certa, Sr Donskoi. É um réu, logo é culpado até que se prove o contrário.

—Ah, claro, isso é óbvio! Sou culpado até que se prove o contrário... sim, é justo... então eu lhe digo, caro Sr Bennington: eu usarei o meu direito de permanecer calado até o momento do meu julgamento, na presença do meu defensor.

—És muito desconfiado, Sr Donskoi. Apenas ordenei que o trouxesse até aqui para termos uma conversa amistosa.. não estou aqui para investigá-lo.

—E eu acredito em Santa Claus... mas tudo o que eu disser pode e será usado contra mim no tribunal. Eu vi muitos filmes policiais durantes as férias da minha dona! Trouxas ou bruxas, as pessoas funcionam iguais.

Nicolai terminava a frase alargando ainda mais seu sorriso de escárnio. Bennington ficou desconfortável e ajeitou-se na sua cadeira estofada, encostando-se e encarando o garoto com um ar ainda mais sério para não deixar transparecer o seu embaraço pelo desconhecimento a respeito do que Nicolai dizia, que certamente era referente ao mundo trouxa do qual ele não tinha quase nenhum entendimento. Acha por bem acabar logo com aquela conversa e mandá-lo de volta a sua cela, pois tinha a impressão que o rapaz estava tentando mudar o rumo da conversa, tentando manipulá-lo apenas por diversão.

—O senhor tornou-se eloqüente, Sr Donskoi.. pelo que me lembro, o senhor era muito mais reservado e circunspeto. Esses vinte anos lhe fizeram uma grande diferença.

—Não, os últimos quatro anos que fizeram... será que agora posso retornar para a minha cela? E já que estou tendo um tratamento especial, o senhor poderia me arranjar mais alguns livros e revistas?

Bennington conteve-se para não achar graça do rapaz, que se mostrava ser mesmo muito cínico. Mas Dumbledore estava certo em um ponto: há algo de bom nele que o faça merecer a sua liberdade. Assim como prometeu ao seu mestre, o Prof Dumbledore, iria usar de toda a sua influência para ajudar na absolvição de Nicolai Donskoi.

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No estádio de Hogwarts, uma maré verde estava em polvorosa nas arquibancadas. Gritos e agitação ensurdeciam a todos que ali estavam. Os alunos desciam correndo para o campo como uma torrente nervosa. Apesar de o jogo não valer praticamente nada, os Sonserinos comemoravam como fosse a uma final.

Por um descuido de Harry, que ainda jogava como apanhador para a Grifinória, Draco, que também continuava a ser o apanhador da Sonserina, apanha o Pomo de Ouro, encerrando a primeira partida do ano em um pouco a mais de vinte minutos de jogo.

Extremamente furioso com tudo, Harry retira-se rapidamente do estádio, arrastando consigo sua vassoura, ignorando os apelos e reclamações dos colegas e pouco se importando com as provocações dos alunos da Sonserina. Sua cabeça estava tão cheia que parecia que ia explodir e adoraria extravasar toda sua raiva e frustração no primeiro que o parasse e provocasse pessoalmente... e ele torcia para isso.

Sabia que Draco não lhe pouparia deboches se o visse arrasado, então fez questão de jogar sua armadilha. Deixou bem claro ao seu inimigo a sua amargura e só aguardava que ele viesse atrás de si para a sua mais que óbvia zombaria gratuita. Mas Harry não estaria só nessa. Rony e sua irmã Gina, Seamus e Dean o acompanharam para fora do estádio, uns querendo saber o que aconteceu para que ele ficasse tão alienado durante o jogo, Rony, que ainda jogava como goleiro, irritado pela indiferença com que Harry se comportava e Gina ia na esperança de encontrar um momento a sós com o garoto para saber exatamente o que se passou entre ele e Hermione para que essa apatia o abatesse.

Fora do estádio, uma outra maré enchia os jardins de Hogwarts, mas desta vez uma maré vermelha que ia desanimada em direção ao castelo como fosse uma comitiva funerária. Cabisbaixos, os Grifinórios engoliam a humilhação de perder o primeiro jogo do ano para a Sonserina. Alguns solidários alunos da Corvinal e Lufa-Lufa ainda acompanhavam o cortejo melancólico. Alguns irritados e esbravejando, mas a maioria estava apática.

Harry seguia seu caminho acompanhando os movimentos de seus pés. Rony, já muito impaciente com a atitude desdenhosa do amigo, segura-o pelo braço rispidamente, fazendo com que Harry o encare com a pior de suas expressões.

—Porra! Qual é Rony! O que você quer, afinal?!

—Eu é que pergunto! O que aconteceu com você, droga?! Você entregou o Pomo de Ouro de bandeja para a Sonserina!

—Realmente... e faço questão de agradecer ao Potterzinho pessoalmente...

Com sua voz monótona e arrastada e um toque ácido de sarcasmo, Draco descia a frente de todos montado em sua vassoura. Outros três colegas de equipe desceram junto de Draco, todos portando sorrisos e expressões de escárnio no rosto. Harry olhou por sobre o ombro o louro arrogante e por muito pouco não deixou que o sorriso formasse em seu rosto. A tola doninha caia na armadilha...

—CAI FORA, MALFOY! Vá comemorar com as sua víboras o joguinho que vocês ganharam! Será o único este ano, tenha certeza!!

—Cai fora você, Weasley pobretão! A conversa é entre eu e o Potterzinho aqui!

Rony partira pra cima de Draco com punhos fechados, mas foi imediatamente impedido por Seamus, Dean e Neville, que o seguravam com certa dificuldade, afinal o ruivo não era nem pequeno e nem fraco. Draco soltou uma calorosa risada que só enfureceu ainda mais Rony, mas seus amigos o mantinham preso a qualquer custo. Harry apenas seguiu a cartilha...

—Não ligue para ele, Ron.. sabe muito bem que ele não merece sequer nossa raiva... – Harry falava com um sorriso estranho, olhando de forma também estranha para Draco.

—Bravo, São Potter! É assim mesmo que se controla seus bichinhos de estimação...

Draco se aproximava perigosamente de Harry, como se quisesse falar-lhe ao ouvido. O garoto permanecia estático e, por ser um pouco mais alto que o louro, apenas o fitava de queixo erguido, esperando pela hora exata de extravasar toda a frustração que sentia.

Com ar blasé e um sorriso torto nos lábios, Draco se aproxima o suficiente de Harry a ponto deste sentir o cheio oleoso de amêndoas que vinha dos cabelos platinados do garoto.

—...a boa educação não me permitiria deixar de agradecer por ter me entregue o Pomo de Ouro. Estava sonhador demais, Potter... será que foi alguma briguinha com a namoradinha sangue-ruim?

Nem por essa Harry esperava. Estava preparado para descontar toda a sua mágoa no seu inimigo, mas não esperava que este lhe desse um motivo tão bom que aumentasse ainda mais o seu ódio. Seu punho direito fechou-se com tal raiva e tal força que Draco sequer teve tempo de perceber o que acontecera até que estivesse no chão com o nariz ensangüentado, trêmulo de tontura.

Tantos os amigos de Harry quanto os outros alunos da Sonserina ficaram pasmados e estupefatos com a atitude repentina e violenta do garoto. Harry subiu seu punho cerrado e acertou Draco com tanta força que o garoto ainda girou antes de atingir o chão. Harry estava possesso!

—MALDITO!! NUNCA MAIS NA SUA VIDA VOCÊ VAI XINGAR HERMIONE! NUNCA MAIS!!!

Harry suspendeu Draco pelo colarinho, jogando-o com força contra o muro do estádio, cravando com raiva seus dedos no ombro e pescoço do louro que não tinha qualquer reação, como que se o ódio que Harry emanava houvesse paralisado não apenas ele, mas todos os outros alunos que observavam a briga boquiabertos de incredulidade e surpresa.

—TUDO ISSO COMEÇOU POR SUA CULPA! Eu tenho certeza que foi você quem mandou aquele comensal violentar Hermione!! Eu juro que você ainda vai pagar muito caro por isso!

Nem mesmo Rony, com a fama de estressado que tinha, estava concordando com aquela atitude de Harry e antes que algo pior acontecesse, tentou impedir o amigo, puxando-o pelo ombro.

Harry empurrou Rony com raiva e olhou-o de uma forma que este estremeceu intimamente. Os olhos verdes de Harry pareciam ter se tornados vermelhos como sangue.

—NÃO SE META, RON! Isto é entre ele e eu! Não ouviu Draco dizer aquela hora?!!

Rony afastou-se de Harry, olhando-o estupefato. Nenhum dos outros alunos se atrevia a separar a briga, nem mesmo os amigos de Draco se manifestavam em sua defesa. A roda de alunos tornava-se maior, pois outros que ainda saiam do estádio pararam para ver o show.

Harry empurrou novamente Draco contra a parede, segurando-o dolorosamente pelos ombros. Os olhos cinzas do garoto tremiam na órbita, enquanto seu nariz ainda sangrava, encharcando seu uniforme de jogo.

—Eu tô cansado de você, seu merda! Se você não tivesse armado naquele maldito sábado, Hermione estaria bem agora! E aquele maldito gato SERIA APENAS UM MALDITO GATO!!
Com toda a sua força, joga Draco ao chão novamente, que esfolaria todo o braço não fosse pelos protetores que ainda trajava. Harry o olhava muito satisfeito, de uma forma sádica.

—Há muito tempo eu queria fazer isso!

Harry chuta com força no ventre de Draco, que cospe uma grande quantidade de saliva misturada com sangue enquanto encolhe-se pela dor, temeroso por mais um golpe.

Dando-se por satisfeito, Harry pega sua vassoura que ficou caída no chão aos pés de seus colegas da Grifinória, todos ainda estupefatos com o que acabavam de presenciar, assim como todos os outros alunos que ali estavam. Olhou demoradamente para o rosto de cada um, como se os intimidasse silenciosamente, até que voltou-se para os Sonserinos, que pareciam encolhidos, não se atrevendo a sequer protestar contra o que viram acontecer a Draco.

Os Sonserinos estavam na direção que Harry faria rumo ao castelo e aproveita para deixar-lhes um recado, na passagem, olhando desafiadoramente para cada um deles:

—Não preciso dizer que perto de Voldemort vocês são peixinhos de aquário, certo? E acho que Draco deveria maneirar na sua comemoração para seu próprio bem, não é?

Todos ali, principalmente os alunos da Sonserina para que tais palavras foram proferidas, encolheram-se diante da menção do nome de Voldemort, e apenas a única garota sonserina do grupo teve a coragem de responder a Harry com um tímido aceno de cabeça, o suficiente para Harry retomar o seu caminho satisfeito, com um sorriso feliz no rosto.

Todos que ali estavam se entreolharam em cumplicidade e voltavam a seus caminhos como se nada de mais tivesse acontecido. Enquanto os colegas de Draco o amparavam, Rony ignorava totalmente os comentários dos amigos, mirando Harry insistentemente com um olhar indigno e preocupado, até ele desaparecer pelo caminho de pedras de acesso ao castelo.

::::

O dia terminara sem mais incidentes. Na Sonserina ainda se comemorava a vitória sobre a Grifinória no primeiro jogo do ano que iniciara o torneio de Quadribol entre as Casas. Enquanto no Salão Comunal da Grifinória muitos alunos comentavam tristes sobre a derrota, outros se entretinham com seus passatempos habituais, mas poucos confidenciavam o que havia acontecido entre Harry e Draco.

Alheia a tudo isso, Hermione tratava de revisar as matérias das aulas passadas solitariamente no dormitório, oculta pela cortina do dossel de sua cama, que a mantinha num confortável silêncio devido ao encantamento que ela pôs semanas atrás.

Ao seu lado estava seu diário, que fora um presente de Natal de sua mãe, portanto era um diário comum, de adornos e figuras formosas de bebês-anjos e florzinhas, mas que Hermione deu-se ao trabalho de enfeitiçá-lo para apenas que ela própria compreendesse o que ali estava escrito. Dentro ela guardava muitas lembrancinhas que correspondiam a determinados dias. Eram bilhetinhos do pai e da mãe, convites e cartõezinhos, ingressos de cinema e shows, folders, papéis de balas e bombons e fotos suas, com a família, de lugares que visitou nas ultimas férias... e de Crookshanks.

Encontrou a única foto que tinha em que estavam apenas ela e Crookshanks, enquanto descansava a mente dos estudos folheando as páginas ilustradas do diário. A fotografia foi feita quase que de surpresa, pegando-os num momento de descontração, como costumavam ser todos os dias das férias. Na foto, uma foto comum de trouxas, portanto inanimada, Hermione ria pela repentina lambida em seu rosto que o gato lhe dera.

A menina pegou a foto presa na página do diário por um minúsculo clip e ajeitou-se no travesseiro encostado à cabeceira da cama. Mesmo com todos os problemas que ela fora envolvida no mundo mágico e a dificuldade de re-adaptação ao mundo trouxa, ela ainda tinha momentos felizes como aquele eternizado naquela fotografia.

Com tantas coisas ruins que aconteceram recentemente, aquilo parecia pertencer à outra vida. Aquela foto parecia ter sido feita há século, quando na verdade ela fora tirada nas suas últimas férias.

Suspirou tristemente. A melancolia e depressão pareciam querer se abater sobre ela. E sentia muita falta daquilo. Sentia saudades de Crookshanks. Há apenas duas semanas atrás ele estava ali mesmo, dormindo enrolado aos pés da cama e agora... ele estava há quilômetros dali, preso, esperando por um julgamento e...

Hermione balançou a cabeça com raiva. Ela estava confundindo novamente as coisas. Crookshanks não existia mais! De fato, jamais existiu. Pegou a foto e a enfiou novamente entre as páginas do diário, fechando-o rudemente e apoiou as mãos, jogando todo o peso de seu corpo sobre elas, como se temesse que as páginas do diário se abrissem e o que estava ali dentro saltasse com vida para fora.

—Pare com isso, Hermione! Você deve tá ficando louca! Tudo isso já acabou! Tudo... – a menina murmurava tristemente para si mesma, enquanto ainda mantinha as mãos, uma sobre a outra, sobre a capa plastificada do diário.

E há quilômetro dali, uma outra pessoa sofria da mesma melancolia e da mesma saudade, que fazia os dias parecerem séculos e que tudo havia se passado há uma eternidade...

Na cela escura, iluminada fracamente pela luz opaca das barras que trancavam a saída, Nicolai mantinha-se ainda acordado, olhando as sombras tênues que se formavam no teto branco, deitado na cama com os braços cruzados atrás da cabeça.

Respirava lentamente, mantendo a todo o custo a sua calma, para que não morresse de tédio e de aflição antes de seu julgamento.

[[—Só mais um dia, apenas isso... um dia de cada vez, uma hora após a outra...]]

Virou-se de lado em direção às grades, ainda mantendo o braço direito sob a cabeça. A fraca luminosidade das grades jogava uma coloração bucólica em seu rosto pálido, parcialmente coberto pelos fios finos e claros do cabelo.

O dia de seu julgamento estava próximo. E sua vida sofreria uma nova reviravolta. Ou seria trancafiado novamente ou teria uma vida novinha em folha.

Era preferível morrer a ser levado para Azkaban. Então só havia uma única saída: ser absolvido a todo custo, nem que para isso fosse a custo de mentiras.

Instintivamente, segurou as penas carmesins e de filetes dourados de seu cordão, fechando-as em seu punho. O olhar perdido entre a luz fraca e as sombras que estavam formadas no chão.

[[—Só mais um dia e logo será segunda-feira... e voltarei para vivermos juntos.. eu juro....]]

Fim do Capítulo XXVII – continua...
By Snake Eye's – 2004

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