quarta-feira, 10 de abril de 2013

Animago Mortis - Capítulo XXVI – Um Ato Vale Mais Que Mil Palavras?

Animago Mortis
Capítulo XXVI – Um Ato Vale Mais Que Mil Palavras?
Hermione caminhava pelos corredores vazios do castelo, rumo aos jardins de Hogwarts. Abraçado contra seu peito ia um cachepô de bronze com a miniatura de uma macieira de tronco e galhos artisticamente retorcidos e pequenas bolinhas verdes e vermelhas dos frutos que carregava entre suas minúsculas folhas. A menina estava animada. Seu semblante estava livre da carranca de preocupação que estava lhe sendo tão comum e seus lábios estavam prontos a sorrir se fosse preciso.

Em sua mente, Hermione ainda ruminava partes da longa conversa que teve com McGonagall, conversa esta que a deixou com o coração mais leve... a situação não era assim tão ruim quanto podia parecer. Gostaria de não se importar com isso, mas estaria mentindo para si mesma, estaria tentando se enganar de que não se importava com ele... de que, de uma pequena forma, ele lhe era importante...

O○◦○O

"—...isso é uma acusação que o Ministério está fazendo. E é o Ministério que se encarregará de provar tal acusação. Nós nada sabemos sobre isso. Não há fatos que comprovem que Donskoi é mesmo um Comensal, embora ele venha de uma família ligada às Trevas..."

"—Mas, mas.. isso é injusto! Eles estão acusando-o só por causa de sua família?!"

"—É dito que o melhor é prevenir, e é isso que o Ministério faz hoje, embora muitos de nós condenemos tal atitude por ser segregatória e racial, que pode originar revolta e indignação, além de ser um ato humilhante..."

A garota desviou seu olhar triste do rosto da Professora, fixando-o sobre a xícara em seu colo, não a enxergando de fato. 'Humilhação', isso ecoava em sua mente, era isso que via nos olhos dourados de Donskoi.. os mesmos olhos dourados de Shanks, que tantas vezes lhe transmitiram conforto e carinho.. o mesmo carinho que viu na noite em que se encontraram pela primeira vez. Mas ontem, tudo que viu foi humilhação, desolação... não queria e tentava arduamente tirar isso de seu coração.. mas ela, definitivamente, se importava com ele, lhe queria bem e, mesmo que ele tenha sido verdadeiramente, algum dia, um Comensal da Morte, acreditava que merecesse, ao menos, uma chance, a mesma chance que fora dada a Snape.

"—Crookshanks sempre foi um gatinho muito amoroso, sempre tão bem educado... isso.. isso não poderia ter vindo de alguém com o espírito trevoso... será que poderia?"


Hermione, que falava quase num sussurro, levantou seu olhar triste para a Professora, que a encarava seriamente, mas em seus olhos iam algo terno. Um sorriso se esboçou no rosto de Mcgonagall, que se levantou e foi até à garota, que a olhava com expectativa.

Alcançou o rosto da menina com suas mãos, num ato de carinho maternal, mantendo a atenção de Hermione em si e lhe falava por entre um sorriso leve e sincero.

"—O amor é contagioso, querida. Há almas tão grandiosas que transbordam Luz e que atinge todos aqueles que estão próximos... a Luz corrompe a Treva e esta se transforma. Se hoje há algo de bom naquele rapaz, isso foi obra sua, Hermione..."

O○◦○O
Hermione alcançava o corredor principal que dava acesso ao hall de entrada do castelo. A luz do dia transbordava multicolorida pelos vitrais das longas janelas em arco. Reduziu o ritmo de seus passos, indo em direção onde, há duas noites, havia visto pela última vez Crookshanks... e havia se encontrado pela primeira vez com ele.. com Pavel.

Parou próxima à janela onde esteve com ele, relembrando aqueles breves instantes daquele encontro quase ocasional... ou seria reencontro? Sentia que o conhecia há muito tempo, independente de ele ser, ter sido Crookshanks... ou não? Isso era muito confuso e a todo instante se policiava para não tirar conclusões precipitadas, como aconselhou o Prof Dumbledore.

Mas isso era muito difícil, muito difícil mesmo! Não tirar conclusões. Não pensar no assunto. Não ter expectativas a respeito... mas, o que mais queria, do fundo de seu coração, era que isso jamais tivesse acontecido, queria que tudo tivesse continuado como sempre fora... queria que Crookshanks ainda estivesse ali e fosse meramente um gato, mesmo.

Balançou raivosamente a cabeça em negativa, tentando desmanchar aquelas idéias absurdas. Isso era muito egoísmo e mais uma vez estava pensando apenas em si mesma! Talvez Rony tivesse razão a esse respeito: ela era mesmo uma grande egoísta!

Como não conseguia controlar a fúria de seus pensamentos e de sua mente teimosa que insistia em tirar as malfadadas conclusões precipitadas, o melhor que podia fazer era distrair-se com algo, aproveitar o sábado que ainda estava só começando.

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Harry, já muito aborrecido, levanta-se do gramado onde estava sentado diante do Lago da Lula Gigante sob a proteção de uma imensa figueira centenária. Espanava de si algumas gramas secas e terra que ficaram em sua roupa e já adiantava alguns passos rumo ao castelo quando pára de súbito.

Hermione também parou de sobressalto, não esperava encontrar alguém nessa parte tão isolada do Lago, muito menos pensava em encontrar Harry ali, que parecia ter surgido do nada. Refeita do leve susto, pergunta entre um sorriso de incredulidade... Harry estava se comportando muito estranho ultimamente e talvez devesse mesmo ter uma conversa séria com ele. Mesmo que tenha prometido a si mesma que começaria a seguir seu caminho sozinha e que não perderia mais tempo com seus amigos ingratos, seu lado altruísta sempre falava mais alto em tom de autoridade.

—Harry! Você me assustou! O que faz aqui.. e sozinho? Você está com algum problema, não é?

O garoto apenas riu, depois de também ter recuperado o fôlego perdido com a aparição repentina de Hermione. A atmosfera de aborrecimento que o envolvia se dissipou no mesmo instante e sentiu-se um tolo por deixar que qualquer coisinha o chateie. Demorou, mas ela estava ali, linda, parada há alguns passos de si. E finalmente ambos estavam num lugar neutro, isolado, simplesmente perfeito para resolver de uma vez por todas esse impasse entre ele e Mione.

—Eu não diria o que tenho seja um problema, mas...

A garota se adiantou até a margem do lago, mergulhando o cachepô com o bonsai, enquanto olhava por sobre o ombro para Harry, esperando por uma resposta mais objetiva.

—Como assim? Você tem andado muito esquisito, sabia? Isolado, cheio de meias palavras... tá na cara que isso é algum problema com alguma de suas namoradas.

—Olha só que está falando.. até parece! E o que quer dizer com 'alguma de minhAS namoradAS'? Tá achando que eu sou algum galinha, Mione?

A garota riu do falso tom de indignação de Harry, levantando-se e colocando o seu precioso cachepô entre as raízes sobresselentes da árvore. Pôs-se ereta, as mãos na cintura, encarando divertida o amigo que a olhava com ar preocupado.

—Não quis ofender, Harry... foi só uma pergunta. Agora, me diz, qual o problema: você e Rony estão brigados ou é algo mais sério?

—É algo mais sério...

O tom seco com que Harry a respondeu, deixou Hermione realmente preocupada, fazendo desaparecer toda a áurea de alegria que a acompanhava desde que saíra da sala particular da Profª McGonagall. O garoto deu-lhe às costas, afastando-se dela em alguns passos.

Harry concentrava toda a coragem que tinha para finalmente colocar a limpo essa história, de finalmente poder abrir-se para Hermione. Mas ainda havia algo que o incomodava, talvez a incerteza que ainda sustentava, ou talvez por ser esquisita a idéia de se estar apaixonado pela melhor amiga... ele não poderia estar enganado, poderia? Desde o que aconteceu em Hogsmeade a ela, que ele tem sentido algo diferente em relação à menina... o pior é que ele não sabia traduzir isso com exatidão e havia o medo de estar se enganando...

Mas, e se fosse mesmo um engano? Isso seria desastroso? Não, isso não seria possível, afinal, amar Hermione como mulher não seria nada difícil, muito pelo contrário...

O garoto voltou seu olhar para Hermione que ainda aguardava pacientemente sua resposta. Ele devia estar muito tenso, demonstrando isso em seu semblante, pois a garota ficou ainda mais preocupada.

—Ai, Harry, o que houve de tão grave, garoto? Não vai me dizer que... ai! Você não engravidou alguém, não é?!

Harry quase caiu para trás com a pergunta que Hermione fazia com a expressão mais séria que ele viu até então. Sentiu até um calafrio percorrer sua coluna vertebral com tal suposta possibilidade!

—NÃO! Eu não fiz nada! Nada que me comprometesse, nada de que viesse me arrepender! Pelamordedeus! Eu não engravidei ninguém!

—Ufa! Menos mau! – a garota soltava os braços, aliviando-se da tensão. —Mas algo de grave está acontecendo contigo! Eu o conheço muito bem, Harry... o que há? Você voltou a ter aqueles sonhos novamente? a sua cicatriz tem doído...?

O garoto riu sarcasticamente, que lembrou à Hermione o sorriso desdenhoso de Snape. Se ela o conhecia tão bem assim como dizia, por que ainda não percebeu suas intenções?

—Me conhece bem mesmo, Srta Granger? Até agora você errou todas as suas suposições...

—Oh, perdão Sr Potter, mas devo lembrá-lo que as asseclas da Trelawney são a Parvati e a Lilá, não eu! Se não quer me contar nada, não irei importuná-lo. Eu sei muito bem como isso é desagradável!

—Também não precisa jogar indiretas! O que tá acontecendo não é um problema, mas é algo que precisa ser resolvido.

—Então resolva-o, meu caro... – Hermione se adiantava para pegar seu cachepô e sair dali, para deixar Harry a sós novamente. Ela já tinha problemas demais para suportar e resolver sozinha, não queria ter que agüentar o mau humor de seus amigos.

—O que tenho que resolver é contigo, Mione... – falou no tom mais suave que conseguiu.

A garota estancou no movimento, pondo-se ereta novamente e olhando para Harry com um misto de surpresa e expectativa.

—O quê? Não me lembro de ter algum problema com você, Harry! Poderia ser mais explícito sobre isso de ter o que resolver comigo? – Hermione já demonstrava seus sinais de aborrecimento, xingando-se intimamente por não ter ido direto ao gazebo da colina ao invés de ir até ali, no Lago. A essa altura poderia estar tendo uma conversa mais agradável com Karinska e tentando descobrir mais coisas sobre Donskoi.

—Ser mais explícito? É, acho melhor também, já que não sou bom com palavras...

Harry alcançou Hermione até a figueira, passando seus braços pela garota, prendendo-a entre ele e o tronco da árvore. Hermione olha confusa dos braços de Harry para seu rosto que mantinha um sorriso maroto. A garota estava estática pela surpresa da atitude tão estranha do amigo e não esboçava qualquer reação ou palavra, apenas o olhava com apreensão diretamente em seus olhos verdes-esmeralda.

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Snape estava parado pensativo diante da pequena janela no escritório circular de Dumbledore. Em sua mão esfriava uma xícara ainda cheia com chá preto. O Diretor estava próximo a sua imensa estante-biblioteca, com um livro em mãos sobre Direito Penal, com os novos códigos e Leis do Ministério.

—Isso é muito bom! Pelas próprias regras do Ministério, é proibido por Lei usar a poção Verissitasserun ou o feitiço Veritas no réu.. para isso será necessário mover uma outra ação após o processo original, mas apenas se houver uma nova acusação pelo mesmo crime que o réu foi julgado.

—E mesmo assim não adianta quando é preciso, senão Lucius e McNair não teriam se livrado mais de uma vez da condenação...

—Bem, como disse Bennington, a Lei e suas brechas podem ser interpretadas em favor do réu, mesmo este sendo comprovadamente culpado. Resumindo, a dita "justiça" é isso, meramente interpretações e convencimentos.

—Eu sei que Nicolai não contará os fatos como eles são e essa palhaçada do Ministério é apenas um circo para o povo esquecer do que é realmente sério e necessário ser resolvido, que por acaso aqueles cretinos não fazem, mas...

Snape bebeu do chá esfriado, fazendo uma careta de desgosto. Dumbledore fechava o livro e se dirigia até sua mesa, olhando para o Mestre de Poções por sobre seus óculos de meia-lua, esperando-o completar a sentença.

—Ainda acha que Nicolai fez mal em ter-se entregado ao Ministério, Severus?

—Tenho certeza que sim, Alvo. Depois de vinte anos vivendo como um animal, ele não deve estar apto a raciocinar como deveria. Não devíamos ter permitido isso! Pra começar, devíamos ter feito de tudo para abafar o caso de Hogsmeade.

—Já foi muito conseguirmos ocultar os nomes das vítimas... mas, Severus, não se preocupe mais com isso. Dará tudo certo, eu lhe garanto. E Nicolai fez o certo, acredite. O rapaz quer a vida dele de volta e ele não conseguiria isso vivendo na clandestinidade.

—E eu acredito que sempre há um outro jeito, Alvo...

O Mestre de Poções depositou a xícara com chá pela metade sobre a mesa próxima à lareira, retirando-se do escritório do Diretor. Era visível que estava aborrecido com a situação. Dumbledore fitou-o até vê-lo desaparecer porta afora, balançando a cabeça em negativa, lamentando pela intolerância e incompreensão de Severus. Mas o que ele viu no íntimo de Nicolai o fazia acreditar no rapaz, e acreditar que ele fazia a coisa certa. Ele havia visto nele sua imensa vontade de querer viver novamente, de querer ter uma vida simples e normal...

E agora só resta esperar que ele realmente consiga isso...

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Hermione estava acuada, presa entre a grande figueira e ao corpo de Harry, cujos braços a cercavam. A garota estava começando a ficar nervosa com a situação. Seus olhos serpenteavam pelo rosto do garoto, buscando a compreensão daquele ato através de sua expressão... poderia ser apenas uma brincadeira boba do garoto? Afinal ele estava sorrindo, mas não havia nenhum sinal de malícia ou sarcasmo em seu semblante...

—Harry, que brincadeira é essa agora? Ou é alguma idéia boba de me fazer entender alguma coisa? Se for isso, eu prefiro que você grite como Rony faz...

—Não é brincadeira.. e o que quero que você entenda é isso...

Harry se silenciou com um beijo forçado nos lábios de Hermione, dobrando seus braços e deixando que seu corpo se encostasse ao dela contra a árvore. Temia estar sendo bruto com a garota, mas precisava pôr toda a sua paixão naquele beijo que, tinha certeza, diria muito mais do que conseguiria dizer com suas palavras; palavras estas que já magoaram por demais aquela garota maravilhosa... e ela não merecia isso. Ela merecia ser amada, e isso seria muito fácil.

O garoto abrandou o beijo, mas sem separar seus lábios dos de Hermione. Afastou-a da árvore e a envolveu em seus braços, aconchegando-a contra seu corpo, sentido o calor e perfume floral da menina o envolver por completo. O corpo esbelto e bem torneado da garota parecia lhe ser a metade que faltava, o completando, o excitando. Suas mãos deslizam pelas costas de Hermione, sentindo o calor que emanava através do tecido fino e macio do casaquinho que ela trajava. Suas mãos subiam até encontrar o pescoço nu da menina, liberto de seus cachos que pendiam num coque informal.

Suas mãos envolveram rosto e pescoço de Hermione, enquanto os lábios e língua buscavam uma brecha em sua boca cerrada e tensa, forçando sua invasão, penetrando-a e encontrando o calor e maciez de sua língua, sentido o gosto agridoce de sua saliva, algo como morango e mel...

Não querendo que aquelas sensações e aquele momento tão raro fugisse de si como um sonho bom que foge com o despertar, Harry abraçou-a ainda mais, seu braço forte quase enlaçava por completo toda a cintura fina da menina enquanto sua mão a acariciava pescoço-nuca-cabelos, libertando os cachos perfumados do cárcere em que estavam, fazendo-se de cortina nupcial para aquele beijo tão apaixonado que apenas se findou quando já lhe faltava oxigênio em seus pulmões, afastando seu rosto relutantemente de Hermione, mas ainda mantendo-a aprisionada contra seu corpo, em seus braços.

Ainda sentia o calor que ardia na face de ambos. Arfava com a boca entreaberta no esboço de um sorriso, degustando cada milímetro cúbico do tão precioso oxigênio que fora totalmente consumido naquele breve e quase irreal instante.

Mesmo temendo que tudo não passasse de um sonho que desapareceria assim que abrisse seus olhos, abriu-os lentamente, deleitando-se com cada detalhe daquele rosto tão bonito.

Mas sua expressão extasiada desmanchou-se ao encontrar aqueles olhos cor de mel marejados por lágrimas, parecendo suplicar de uma imensa mágoa contida.

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Fim do Capítulo XXVI – continua...
By Snake Eye's – 2004

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