quinta-feira, 4 de abril de 2013

Animago Mortis - Capítulo XXV – Malditas Conclusões

Animago Mortis
Capítulo XXV – Malditas Conclusões

Nicolai estava sentado sobre a cômoda, distraído com o jornal que lia enquanto mordiscava uma vistosa maçã. Estava vestido com o uniforme fornecido pelo Ministério aos detentos, que consistia numa camisa de manga curta e calça, ambas largas e num tom de azul pálido quase cinza.

As barras de energia ofuscaram-se até desaparecerem por completo, dando passagem a um agente carrancudo que Nicolai não se deu ao menor trabalho ou curiosidade de desviar os olhos do jornal para ver o porque daquele sujeito estar ali, até que a voz rouca do homem lhe chama-se à atenção, da qual dispensou muito desdenhosamente.

—Visita para você, Donskoi. E pela segunda vez: saia de cima dessa cômoda!

—Sinto muito senhor, mas lugares baixos demais me dão vertigem... – falava em tom de deboche, sem desgrudar os olhos do jornal e tirando um pedaço da maçã.

—Moleque arrogante! Tá se garantido só porque tá com proteçãozinha! – O agente saiu da cela resmungando para si mesmo, deixando a visita entrar e conjurando as barras de energia, trancando a cela novamente.

—Que piada! Não tenho ninguém para vir me visitar, muito menos num sábado de manhã... quem é você e o que quer?

Só ao terminar a frase que Nicolai se dignou a levantar a vista para olhar a visita que esperava pacientemente por sua atenção. O garoto ficou por alguns instantes estático, ou tentando reconhecer de quem se tratava ou não acreditando que tal pessoa ali estava lhe sorrindo timidamente.

—Não acredito... Remus Lupin??

—É.. ainda é esse o meu nome...

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Hermione estava muito centrada tentando transformar uma maçã num bonsai. O fato de aquilo ser uma lembrança concreta de seu fracasso na aula de Transfiguração do dia anterior, não permitia que se tornasse um exercício fácil, que estava começando a estressá-la. A Profª Minerva a observava com uma expressão indefinida no rosto enquanto estava parada no meio da entrada para o seu living, segurando uma bandeja de prata com diversos pães e doces e um bule também em prata.

A professora dá um suspiro de enfado e se adianta até a mesa do centro, depositando ali a bandeja e indo até onde Hermione tentava transformar a fruta numa árvore em miniatura sobre o armário de prataria.

—Criança, deixe isso pra depois e venha comer um pouco... você está aqui desde cedo, sequer tomou café.

—Desculpe, professora, eu irei fazer esse exercício em outro lugar então, não quero incomodar a senhora. – A menina dirigia um olhar triste à Professora.

—Quem aqui disse que você está incomodando, Hermione? Você pode ficar aqui pelo tempo que quiser. Apenas não a quero esquentando a cabeça com bobagens e deixar de se alimentar! Com a barriga vazia a cabeça não funciona direito, sabia?

A menina nada disse e apenas sorriu para a professora, guardando sua varinha no bolso do casaquinho leve e longo de tricô que vestia por cima de um vestido floral de generoso decote no busto, dando a ela um ar de sensualidade ingênua, principalmente pelos cabelos presos displicentemente num coque.

Sentou-se na poltrona de veludo bege em frente à mesinha de centro. A professora sentou-se no lado oposto ao da menina, ficando em frente à ela. Nada disse enquanto enchia as duas xícaras de porcelana com chá preto e leite, servindo uma das xícaras à Hermione.

A professora pegou sua xícara e recostou-se na poltrona, ajeitando-se para ficar mais confortável. Com uma expressão adocicada, Minerva fitava a garota que servia-se com um dos pãezinhos salgados que trouxera para o desjejum de sua aluna.

—Querida, há muito tempo eu havia lhe dito que se estivesse com problemas e quisesse alguém para conversar, eu estaria a sua disposição para o que pudesse lhe ajudar... esse convite ainda está de pé...

Hermione bebericou do chá e pôs a xícara sobre o pires que segurava sobre o colo, dando um sorriso tímido à professora, afastando uma mecha de cabelos que caia em seu rosto, prendendo-a atrás da orelha.

—Eu sei, professora, e nem imagina o quanto eu agradeço por isso, mas pra mim, só de poder estar aqui, já me alivia muito o peito... a senhora pode parecer austera, mas tem a serenidade de muito poucos...

—Oh, mas eu não pareço austera, eu sou! – Brincava a professora a fim de descontrair o ambiente. Algo perturbava Hermione e precisa deixá-la o mais a vontade possível, para que pudesse relaxar e contar o que estava acontecendo.

—Sim, é, é sim... – Hermione falava entre risos. —...bem, é uma coisa meio chata que eu queria perguntar e que está me incomodando desde ontem... – a menina voltava a ficar séria, olhando a xícara que contornava a borda com o dedo indicador.

—Se é uma dúvida que lhe incomoda, vamos acabar com ela, então. O que quer perguntar, querida?

Hermione voltou a encarar a velha professora. Não havia mais o sorriso infantil no rosto e seus olhos demonstravam algo como súplica.

—É sobre o rapaz Donskoi... por que a senhora e o Prof Dumbledore me esconderam que ele é um Comensal da Morte?

A professora recostou-se ainda mais na poltrona, depositando a xícara sobre o pires que segurava na mão esquerda. A tão típica expressão de austeridade estava de volta a seu rosto e seu olhar fitava Hermione de forma avaliativa, decidindo qual a melhor verdade a ser contada à menina. Mas algo era certo: não poderia preocupá-la ainda mais. Não queria fazê-la sofrer mais que já estava sofrendo com toda essa história. Talvez o melhor fosse sustentar a verdade que Dumbledore criou e, se for a vontade de Merlim, futuramente ela poderia vir a saber de todos os fatos reais pela boca do próprio animago.

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—Eu não acredito que Hermione fez isso de novo!

Reclamava Harry, recostando sua cabeça no tronco da figueira que ficava às margens do Lago, onde estava sentado na esperança de que a garota aparecesse por ali a qualquer momento, depois de tê-la procurado novamente pelos lugares mais óbvios da Escola.

—Está fazendo o que aí escondido sozinho, Harry?

—Curtindo uma enxaqueca... – o que, de fato, era verdade. O garoto permanecia com a cabeça recostada na árvore, com os olhos cerrados para tentar evitar que sua enxaqueca piorasse com a incidência da luz forte que era refletida nas águas da Lagoa.

Gina sentava-se na grama, ao lado de Harry. Cruzava os braços sob as pernas para dar apoio ao corpo no mesmo momento que segurava a sua saia. A menina ruivinha olhava para o garoto com um misto de curiosidade e pena.

—Ela sequer apareceu para o café no Salão Principal, né? Ela deve estar mesmo muito magoada...

Harry abriu os olhos novamente para olhar Gina, mas em sua mente ecoava aquelas palavras: "Ela deve estar mesmo muito magoada..." mágoa... mágoa... mágoa..... foi isso que viu no semblante de Hermione naquela hora em que Rony discutia com ela no hall de acesso às escadas... mágoa e decepção.... principalmente quando Rony falou aquelas demências que ele próprio havia dito sobre a amiga, numa infeliz ocasião há muito tempo.

—Isso é minha culpa... falei o que não devia, a deixei de lado por muito tempo, nunca dei o apoio que ela precisava...

—Você e essa mania de bode expiatório... há uma centena de razão para a Mione estar como está.. não é culpa sua Harry... não toda, pelo menos... – a ruivinha finalizava num sussurro, virando seu rosto para o outro lado, olhando disfarçadamente a paisagem.

—É, talvez eu tenha isso mesmo, complexo de bode expiatório... um bode expiatório prepotente ainda por cima! – Harry recostava novamente a cabeça na figueira e voltava a fechar os olhos, tentado ficar o mais calmo possível para ver se a dor ia embora.

Gina vira-se novamente para Harry, com uma expressão de travessura no rosto sardento, perguntando com um sorriso maroto nos lábios.

—Fiquei sabendo que você tá apaixonado pela Mione... é verdade?

Harry engasga-se com o ar, que o faz tossir e quase deixa os óculos caírem, que ajeita nervosamente no rosto, olhando assustado para a garota que ainda lhe sorria marotamente. O menino joga a cabeça para trás, levando as mãos à testa, em desespero..

—AI-MEU-DEUS!

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Nicolai saltava da cômoda onde estava sentado, andando até Lupin que estava parado fitando-o com expressão divertida, ao contrario de Nicolai, que o olhava com uma crescente desconfiança.

—O que faz aqui? Por acaso você faz parte da promotoria que irá me acusar?

Lupin solta uma risada, deixando Nicolai ainda com mais raiva. Ele poderia estar totalmente desprovido de magia dentro daquela cela, mas ainda tinha sua força física e ainda sabia como lutar, mesmo que tivesse que fazer isso contra um lobisomem.

—Só se for piada, rapaz! O Ministério sequer permite que eu tenha um emprego digno, quanto mais me aceitar para ser qualquer coisa num tribunal. Venho em paz, Sr Donskoi... ou seria melhor dizer 'velho amigo Crookshanks'?

Remus Lupin ainda permanecia com seu sorriso maroto no rosto, passando por Nicolai e puxando uma banqueta que estava embaixo da pequena mesa retangular, colocando-a quase em frente à cama e convidando o garoto a sentar-se também.

—Mesmo após ter lido no Profeta Diário sobre o 'sábado trágico' - que confesso que não liguei o fato às pessoas envolvidas - mesmo ter ouvido isso da boca do próprio Dumbledore.. eu ainda não conseguia acreditar, precisava ver com meus próprios olhos...

—Ah, sim, agora virei atração de circo e logo todos meus antigos conhecidos aparecerão aqui dando uma de São Thomé! Se já viu, por favor, retire-se daqui. Não se deve desperdiçar um sábado dentro de uma cela de prisão que fica no subsolo!

—Ô, calma Donskoi, já disse que vim em paz. Por que toda essa hostilidade? Será que eu lhe neguei algum pedaço de peixe ou pisei sem querer na sua cauda? Se foi isso, peço-lhe, humildemente, desculpas!

Nicolai não pode se conter, soltando uma risada meio abafada e sentando-se na cama, apoiando o cotovelo na perna e enterrando seus dedos nos cabelos, dando-se finalmente por vencido pela presença espirituosa de Remus Lupin.

—Eu quem peço desculpas... estou de péssimo humor e a última coisa que quero é ver um cara bonzinho na frente que eu não tenha uma boa justificativa para espancar! – Falava num tom meio cansado, meio de brincadeira.

—Que bom pra mim que você me acha um cara bonzinho... Bem, voltando ao porque da minha visita, achei por bem vir agradecer-lhe por ter nos ajudado a caçar aquele maldito rato e por ter tentado defender até com a própria vida aquele cachorro cabeça-dura... mesmo que o resultado seja isso hoje, tudo em vão, tudo ter dado tão errado...

Lupin terminava a frase em voz baixa, mirando o chão a seus pés, deixando transparecer toda a tristeza que denunciava o seu cansaço físico e espiritual, mostrando as marcas precoces do tempo em seu rosto, cada vez mais acentuadas. A melancolia do jovem-velho homem acabou de contaminar a Nicolai, que por ora havia esquecido da própria situação, mas fazendo-o se lembrar de todas as coisas péssimas que vinham acontecendo nos últimos anos e fazendo-o enxergar novamente o presságio de um futuro ainda pior caso não conseguissem destruir de vez Voldemort.

O garoto levantou-se sacudindo a cabeça na tola tentativa de espantar aqueles pensamentos. Não era uma questão de se tornar otimista de uma hora para outra, mas era uma questão de manter um pouco ainda de sanidade mental, senão ele seria um banquete e tanto praquelas criaturas horrendas que eram os Dementadores, assim que ele fosse mandado para apodrecer em Askaban.

—A função de um gato é caçar ratos, pelo menos é assim que os humanos pensam... mas aquele rato desgraçado me devia uma... não ajudei aquele cão babaca e o lobo-bobo por filantropia a nenhum de vocês, menos ainda para vingar aquele veado cretino! Foi por mim mesmo, e achei que juntando as forças pelo mesmo objetivo, poderíamos aplicar-lhe um castigo verdadeiramente merecido... grande burrice da minha parte, eu diria. Se eu não tivesse feito aquele maldito pacto, Rabicho estaria morto e aquele monstro não teria ressurgido!

—Infelizmente não posso discordar de você, exceto talvez pelo 'lobo-bobo'... – Lupin dá um breve sorriso que logo se desmancha. —Fomos, sim, muito burros em ter contado com o bom senso e a honra daquele verme, se ele já provou que não possuía nada disso. Isso foi um erro terrível e irreparável que está custando muitas vidas!

Lupin levanta-se da banqueta e põe-se de pé ao lado de Nicolai, que mantinha-se parado com os braços cruzados sobre o peito. Nesse momento o garoto pode sentir a áurea da besta que habita o interior daquele homem de aspecto tão calmo e bondoso.

—O Professor se reuniu conosco na noite de ontem... falou de você... ele está muito otimista a seu respeito, ele simpatizou com você a ponto de confiar cegamente, assim como ele faz com o Seboso... mas NÓS não somos tão otimistas assim, e NÃO confiamos em você, Donskoi... aquele gato viu muita coisa.. soube de muita coisa... nós não deixaremos Crookshanks em paz enquanto não tivermos provas contundentes de qual lado desse inferno ele andará!

Dito isso, Remus aproximou-se das grades e chamou pelo Agente-carcereiro, olhando para Nicolai por sobre os ombros.

—Boa Sorte, Nico! Espero que possamos desempatar aquele duelo que travamos no clube de Hogwarts há vinte e dois anos atrás!

Nicolai nada disse, apenas ficou observando Remus Lupin sair da cela e logo desaparecer pelo corredor afora. Estava a sós novamente. Respirou profundamente, cerrando os olhos, sentindo-se ainda mais exausto de quando chegou ali no fim da tarde de ontem... ainda tinha esse empecilho que não havia cogitado...

Crookshanks teve muito acesso dentro da Ordem da Fênix através de Hermione, que sempre o levava todas as vezes em que era convocada. Ele conhece tudo sobre a Ordem, seu planos, seus espiões, seus militantes... e são exatamente esses militantes que agora são seu mais novo problema, que poderia virar uma grande encrenca... seria pedir demais algo que nem mesmo ele faria: confiar num potencial inimigo.

Jogou-se sentado sobre a cama, apoiando os cotovelos sobre as pernas e escondendo o rosto nas mãos, deslizando-as até se enterrarem em seus cabelos, permanecendo nessa posição por longos instantes.

[[—Depois de tudo que já passei, hoje o que menos me importa é essa guerra... tudo o que quero é retomar minha vida, começar de novo!]]

Falava para si mesmo num murmúrio inaudível. Jogou-se deitado na cama, com as mãos ainda na cabeça. Maldita visita! Era tudo o que precisava: mais uma coisa para se preocupar caso saísse livre dali. Ele queria sim, paz, cuidar de sua vida, esquecer definitivamente o mundo bruxo caso necessário fosse, mas, pelo visto, não permitiriam isso, e muito pior ainda poderia vir... quando Voldemort descobrisse que ele venceu sua maldição... e se ele, por acaso, descobrisse sobre a Ordem da Fênix e viesse a juntar as peças e chegasse até ele...

[[—Que inferno! Muito obrigado pela visita, Remus Lupin! Eu realmente não precisava disso! E ele ainda disse que vinha em paz... HÁ!]]

Fim do Capítulo XXV – continua...
By Snake Eye's – 2004

N/A: Nessa fic eu estou ignorando o fato dos Dementadores terem abandonado Azkaban no 5º Livro. Como não dá para prever o que virá nos próximos livros em relação a essas criaturas, aqui a gente usa aquilo que foi o convencional até o 4º livro metade do 5º – que, no caso, ganha na maioria. Ademais, Azkaban sem os Dementadores não deve ser a mesma coisa... que coisa mais chata!

Bode-expiatório - Pessoa sobre quem se faz recair as culpas alheias ou a quem são imputados todos os reveses.
Faz parte da tradição anual dos judeus (ou seriam os mulçumanos???), durante uma cerimônia, pegar um bode e todos os presentes, simbolicamente, despejarem nele todas as suas culpas e em seguida largam o pobre animal no meio do deserto. E é isso que diz a expressão: quando um ser inocente paga pelos erros dos verdadeiros culpados. Coitado do bode!

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