segunda-feira, 4 de março de 2013

Animago Mortis - Capítulo XXI – Nada é tão ruim...

Animago Mortis
Capítulo XXI – Nada é tão ruim...

--Shanks! Espera! Acha que tenho quatro patas como você?!

Hermione subia uma colina verdejante recoberta de rododendros que exibiam grandes e belas flores púrpuras e brancas que espalhavam sua fragrância por todo o ambiente. Pedras de vários tamanhos e formas brotavam do chão coberto de gramíneas em floração. O sol morno e a brisa fresca e constante deixavam o lugar extremamente convidativo.

O gato, muito animado, já alcançava o topo do morro e olhava faceiro para a dona, que ainda subia ofegante atrás do felino. Ela o olhava braba e Shanks deu seu miadinho animado. A cauda grossa balançava de um lado para o outro e o gato desapareceu atrás de um grande arbusto de rododendro de flores brancas.

--Ah, gato! Você me paga, Shanks!

A menina finalmente alcançava o topo e passando pelo arbusto, viu que chegava a uma clareia. Um pouco rebaixada, apoiou a mão em seu joelho enquanto a outra ia a sua testa, enxugando o suor pela caminhada. Shanks a olhava muito animado e veio de banda até Hermione, roçando-lhe as pernas. Dali correu até um banco de pedra muito antigo, totalmente escurecido pelos anos e recoberto por musgo. Subiu no encosto do banco, chamando a atenção da menina.

--Eu quero saber onde estou com a cabeça pra andar atrás de um animal... – ainda ofegante e um pouco aborrecida, Hermione vai até o banco de pedra onde Crookshanks encontra-se empoleirado olhando muito atentamente na direção do horizonte.

O leve aborrecimento da garota se dissipou tão imediatamente que parecia jamais ter existido. Seus olhos se arregalaram brilhantes ao alcançarem o que o gato via.

Hermione e Crookshanks estavam no alto de uma colina que parecia reinar absoluta nos terrenos de Hogwarts, mas que, por algum motivo qualquer, permanecia incógnita enquanto nos jardins do castelo.

Daquele lugar podia-se avistar toda a extensão daquelas terras. De um lado a densa Floresta Proibida com suas belas e seculares árvores cujas copas farfalhavam graciosamente no embalo do vento que ali corria. Do outro, o horizonte plano perdia-se até encontrar montanhas azuis ao longe. Nuvens em forma de plumas pincelavam o céu de azul intenso.

A brisa corria com vontade naquele lugar e parecia brincar com os cabelos lanzudos e a roupa folgada da menina. Os pêlos longos e macios de Crookshanks cintilavam com o sol que já descia rumo ao horizonte, espalhando raios dourados pelo ar. O gato deu mais um miadinho faceiro e jogou-se contra o corpo da menina que parecia hipnotizada com a deslumbrante paisagem.

Hermione baixou a visão para Crookshanks que espichava sua cabeça pedante por carinho. A menina levou a mão à cabeça do gato, acariciando-a.

--Retiro tudo o que disse enquanto subíamos a colina... esse lugar é maravilhoso! É incrível como ele fica totalmente oculto visto lá de baixo. Em cinco anos de Hogwarts, nunca imaginei que pudesse ter um lugar como esse por aqui.

A menina pegou o gato no colo que tratou logo de acomodar-se, roçando sua cabeça no queixo de Hermione, que retribuía o carinho do bichano coçando-lhe as costas.

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Apoiando a cabeça sobre o vidro da janela da carruagem, o olhar vazio de Nicolai se perdia pela paisagem que passava como um borrão colorido de tinta. Estava prostrado pela situação. Os punhos algemados sobre o colo. Ele parecia mais um boneco inanimado, tão alienado estava. Tudo estava saindo pior do que esperava. Achava que poderia enfrentar e suportar a situação, se não fosse pelo o que aconteceu.

"...então deve saber que o seu ex-gato de estimação é um dos seguidores de Você-sabe-quem, um Comensal da Morte..."

--Prosrat'! – Murmurou para si próprio, fechando os olhos pesadamente. Era pessimista o suficiente para não encontrar boas perspectivas diante de si... mesmo que conseguisse sair dessa e retornar para Hogwarts, suas chances de se aproximar de Hermione estavam reduzidas a quase zero.

A expressão de medo e insegurança nos olhos cor de mel da garota não saia de sua mente... como ele conseguiria contornar essa situação? Como ele poderia fazer Hermione confiar nele dessa forma?

Mais uma vez, preferia ter morrido naquele sábado como Crookshanks.

Dumbledore, sentado a frente do rapaz, fitava-o seriamente. Na carruagem, apenas o ruído das rodas sobre o solo quebrava aquele silêncio entre seus ocupantes.

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Hermione abriu os olhos sentindo a face arder. Piscou algumas vezes confusa até sua visão se clarear e focalizar com exatidão o lugar onde estava. Havia muitos arbustos em volta com flores que variavam do branco alvo para o púrpura vivo.

Levantou-se, pondo-se sentada sobre sua capa negra que usou para forrar o gramado onde estava deitada. Sentia partes de seu rosto, braços e pernas ardendo. A saia pregueada subiu levemente em sua coxa, foi quando percebeu que ela havia se bronzeado, afinal, Hermione caiu no sono sob o sol quente. Já devia ser por volta do meio-dia.

Mas a brisa constante que corria no alto daquela colina refrescava o calor do sol. Levantou e espreguiçou-se, andando vagarosamente até o banco antigo de pedra. Observou demoradamente o horizonte, distraindo-se com pequenos insetos e flores que voavam carregados pelo vento.

--Que engraçado.. sonhar com a primeira vez que vim aqui... Foi Shanks que descobriu esse lugar, mas.. será que ele já conhecia aqui desde muito antes?

Sentiu o estômago se contrair e só então percebeu que já deveria ser a hora do almoço. Mas não tinha nem ânimo e nem vontade de ver qualquer pessoa naquele momento. Não queria ver mais ninguém naquele dia... mas a fome começava a incomodar.

Pegou sua capa e sua mochila do chão e rumou em direção a uma muralha de árvores e arbustos, passando por uma falha que sugeria ser uma porta que dava para um outro ambiente parecido com o que ela estava. Era um jardim secreto.

Um caminho feito de pedras planas levava até um belvedere. Ali havia um gazebo, uma cabana de pedras muito parecida com a que Hagrid morava. Plantas seculares subiam agarradas pelas paredes. No telhado feito em telhas de barro, brotavam outras plantas. Em torno da pequena cabana, havia um jardim simples, mas bem cuidado, com flores que o circundava.

Hermione dirigiu-se ao gazebo, caminhando pela pequena trilha de pedras intercaladas por uma grama fina e minúsculas flores silvestres. Chegando a porta de madeira escurecida pelo tempo, girou a maçaneta em argola de ferro fundido, emburrando a pesada porta de cedro.

O gazebo era retangular e estava mobiliado com mesa, bancos, cômoda e uma cama grande de dossel de renda e organza brancas, com uma grossa colcha de linho branco esmerosamente bordado e meia dúzia de travesseiros de mesmo padrão da colcha. Nas duas grandes janelas que se postavam ao lado da porta, havia delicadas cortinas também de renda branca e organza, que permitiam a entrada da luz externa.

Hermione foi até as duas janelas, abrindo-as e deixando entrar a luz e o perfume da vegetação entorno da pequena cabana de pedras.

Extraordinariamente, tudo estava rigorosamente limpo, sem poeiras, sem teias de aranha, sem mofo ou qualquer outra fuligem. Era como se alguém ali morasse, embora aquele gazebo estivesse totalmente desabitado.

Na lareira que encontrava-se na parede oposta à porta de entrada, havia um pote de cerâmica sobre o consolo, que Hermione pegou, destapando-o e pegando uma pitada de um pó fluorescente que ali estava, jogando-o dentro da lareira.

Depois de instantes, uma elfa doméstica saía das chamas verdes que ali se formaram. Ela trajava dois panos de prato branquíssimos que formavam um tipo de vestidinho e um pequeno avental florido, também feito de pano de prato. A pequena elfa sorriu ao ver quem a havia convocado.

--Srta Hermione Granger! Quanto tempo a senhorita não vem até aqui! Karinska estava com saudades! – Falou a elfa, numa voz fina e delicada, muito diferente de como costuma ser a maioria dos elfos.

--Você pode ir me visitar quando quiser lá no Salão Comunal da Grifinória, Karinska.

--Karinska fica muito feliz com o convite da boa senhorita, mas nem sempre Karinska tem tempo disponível. Karinska pede perdão por isso, Srta Hermione Granger.

Hermione se abaixou, levando a mão sobre a cabeça da pequena elfa, que arregalou ainda mais os grandes olhos violetas para a menina. Seu rosto minúsculo se contraiu num sorriso largo.

--Você não precisa se desculpar por isso, Karinska. Eu tenho uma idéia.. poderíamos almoçar juntas aqui, o que acha?

--Karinska ficaria muito feliz, muito feliz mesmo, Srta Hermione Granger!

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O Salão Principal aos poucos se enchia com todos os alunos da escola que iam chegando para o almoço, saídos das aulas matutinas. Harry entrava no Salão, procurando por todos os lados possíveis para encontrar Hermione, mesmo sabendo que o único lugar em que ela poderia estar era na mesa da Grifinória.

Seus belos olhos verdes se perderam por instantes na mesa dos professores, arregalados de surpresa, seguido de um pouco de preocupação. A cadeira central onde deveria estar Dumbledore estava desocupada.

O Diretor sempre era o primeiro a chegar e o último a sair do salão na hora das refeições. Exceto nas ocasiões quando Dumbledore se afastou de Hogwarts pelos diversos motivos, ele jamais havia se atrazado para as refeições, menos ainda ter deixado de comparecer... será que havia acontecido algo de grave mais uma vez?

Como se procurasse a resposta pelos rostos dos outros professores, Harry analisou cada um e viu que todos estavam com suas expressões e atitudes normais. Nada havia ali que lhe desse alguma pista. Pelo menos não havia nada também que sustentasse a sua preocupação.

--Tá procurando algo, Harry? A sua cadeira continua no mesmo lugar desde o primeiro ano... – falava um entediado Rony, que passava por Harry naquele momento, tirando-o de suas divagações.

Harry voltou a si e foi para seu habitual lugar na mesa de refeição da Grifinória. Sentou-se ao lado de Rony, sendo que a cadeira do seu lado esquerdo estava vazia... era onde Hermione deveria estar. Ficou por alguns breves segundos fitando o lugar vazio tristemente, quando ouviu alguém chamar a sua atenção.

--Harry! Harry! A Mione não veio, né? – Neville, sentado quase em frente a Harry, chamava o amigo quase num sussurro que mal dava pra ouvir com clareza devido ao burburinho do salão.

Harry nada fez ou respondeu, apenas assentiu com a cabeça. Rony o olhava de esguelha. O ruivo ainda estava irritado com a garota e tomava o cuidado para não se irritar também com Harry, que estavam dispensando uma preocupação com Hermione que ela não merecia.

--Ela... deve estar mesmo muito aborrecida. Tantas coisas ruins acontecendo ao mesmo tempo e ainda aquela maldita detenção com aquele babaca do Snape... – a voz de Harry foi sumindo até seu olhar se perder pela superfície da mesa.

Rony inspirou profundamente, com ar indignado, controlando-se para não xingar Harry por isso. Resolveu expor o outro lado da moeda.

--Qual é Harry.. até parece que você não conhece a Mione. Não é a primeira nem a centésima vez que ela se aborrece e não vem para o almoço! Desencana, cara! Assim você até parece o namoradinho dela!

O garoto olhou com espanto para o amigo, que começava a se servir das iguarias que havia aparecido na mesa há poucos instantes. Sentiu um aperto estranho na garganta com aquela comparação... uma certa tristeza por aquilo não ser verdade. Se eles fossem mesmo namorados, ele não permitiria que Hermione sofresse daquele jeito.

Mas eles eram apenas bons amigos e, talvez, agora nem mais fossem... e como amigo, ele havia magoado aquela menina tão excepcional.. e isso poderia aniquilar todas as expectativas de ser algo a mais, no futuro.

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Hermione ajudou a postar a pequena mesa em madeira maciça que havia na extremidade da cabana. A elfa trouxe porções generosas de refeição, com os pratos que Hermione mais gosta, havia até as torteletes de maçã e o suco de morango ao leite.

A menina comia calmamente, observando a pequena elfa que era muito asseada e de bons modos, muito melhores que a maioria dos alunos com quem dividia a mesa de refeições no Salão Principal. Karinska era mesmo muito diferente, embora fosse uma elfa escrava que recusava-se ser libertada.

Algumas coisas remoíam na cabeça de Hermione. Havia algumas suspeitas que gostaria de confirmar... mas a idéia por si só era quase tão sem cabimento que ela própria não acreditava que poderia ter este tipo de dedução.

--Karinska.. por que você mantém esta cabana e toda a área do belvedere tão bem cuidada assim? Você não mora aqui, não é?

--Não, senhorita. Karinska mora junto com os outros elfos de Hogwarts.

--Então por que você cuida deste lugar?

--Porque meu mestre assim me ordenou, senhorita. O senhor meu mestre falou para manter este lugar sempre limpo e conservado.

--E quem é o seu mestre? Fala do Prof Dumbledore?

--Não, embora o Sr Prof Dumbledore seja também mestre da Karinska... mas Karinska fala de seu outro mestre, o que salvou a vida da Karinska há muitos anos atrás.

--Salvou sua vida? Quem é ele?

--Sim, Karinska estava sendo torturada por alguns alunos da escola e meu mestre interveio. Meu jovem mestre me deu até um nome.. Karinska não tinha nome, era só chamada por 'criatura' ou 'elfo'. Karinska pede perdão, mas ela não sabe o nome do jovem mestre... o meu mestre jamais falou seu nome para Karinska.

--O seu nome.. Karinska.. é russo, não é?

--Karisnka também não sabe, senhorita. Mas Karinska gosta muito do nome dela.

Hermione esboçava um leve sorriso avaliativo para a elfa, enquanto levava à boca a taça com o suco de morango.

--Você poderia me falar sobre o jovem mestre? Como ele é, onde ele está agora?

Os grandes olhos da elfa se marejaram e fitaram amarguradamente Hermione, que se retraiu com a atitude dela. A menina levou a mão ao ombro da pequena elfa, afim de consolá-la.

--Desculpe, Karinska, não queria magoá-la... você não precisa me dizer nada, se não quiser...

--Karinska não está magoada, Srta Hermione Granger. Karinska sente apenas saudade do jovem mestre. Já faz muitos e muitos anos que ela não vê seu mestre.

--Então ele foi embora e a deixou aqui?

--Karinska não sabe. O jovem mestre desapareceu de uma hora pra outra... ele era um aluno da escola. O jovem mestre não poderia abandonar a escola antes de terminar os estudos.

Hermione voltou a sua atenção ao seu prato, remexendo a comida com o garfo. Aquele lugar lhe foi apresentado por Crookshanks e havia a possibilidade de ele saber desse lugar desde sua época de aluno em Hogwarts, quando ainda não tinha sido amaldiçoado por Voldemort.

--Então me fale como ele era...?

--O mestre era muito quieto, reservado.. ele falava muito pouco, tinha um sotaque estranho. Karinska não sabe muito sobre o jovem mestre, ele não falava com Karinska. Apenas ordenou que mantivesse esse lugar sempre bem cuidado.. e falou que Karinska deveria se comportar como um ser racional e não como um animal domesticado.

--Oh! Então ele era uma pessoa que respeitava os elfos...?

--O jovem mestre era muito respeitoso, sim. O jovem mestre tinha muito garbo.. sempre parecia muito superior a todos os outros.

--E... como ele era.. fisicamente?

Não entendia o porque, mas Hermione sentiu seu coração disparar com a iminência da resposta da elfa. Por alguma razão, gostaria que esse tal jovem mestre fosse Donskoi... se ele, na época em que supõe-se que tenha se tornado um comensal, era capaz de respeitar um elfo doméstico, isso poderia significar muitas coisas, principalmente de que o imbecil do agente do Ministério havia mentido sobre Donskoi, apenas para provocá-la gratuitamente.

--Ah, o jovem mestre era muito bonito... – a elfa fez uma cara sonhadora que chegou a ser cômica. Hermione se controlou para não deixar escapar uma risada. --... ele era alto e forte para a idade, tinha olhos puxados cor de ouro e os cabelos pareciam fios de sabugo de milho...

Hermione recostou-se na cadeira, expirando de alívio e deixando escapar as risadinhas que estava contendo. Mas não ria da expressão sonhadora da pequena elfa, ela ria por causa de um grande alivio que sentia dentro do peito, como se um balão de gás tivesse murchado fazendo com que seu coração batesse livremente.

Crookshanks sempre fora muito doce. Essa característica não poderia vir de alguém com a alma tão mergulhada nas trevas.

Como o Prof Dumbledore falou, "as perspectivas se tornam mais otimistas com a mente limpa e rejuvenescida". As coisas não poderiam ser tão ruins como pareciam, não poderiam! Isso seria injusto demais...

E ouvindo seu coração que pulsava aliviado, ela queria, mais que tudo no mundo neste momento, que o pobre rapaz animago tivesse a sua segunda chance. E se o próprio Prof Dumbledore estava ao lado de Donskoi, algo de bom deveria existir nele.

Medo é uma forma de auto-preservação, embora algumas vezes seja infundado. E todos merecem a sua segunda chance...

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 Fim do Capítulo XXI – continua...
By Snake Eye's - 2004
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N/A: "Tradução" »» Prosrat' = Perder. Usado se a coisa está perdida ou o jogo.

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