sábado, 2 de fevereiro de 2013

Animago Mortis - Capítulo XVI – Pela Primeira Vez Com Olhos Humanos

Este capítulo é uma das melhores coisas que já escrevi... espero que apreciem ^^

ẲתּỉΩẳģở ΩợЯŧįﻱ
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Capítulo XVI – Pela Primeira Vez Com Olhos Humanos
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_AHÁ! Xeque-mate! Desista Potter! Você nunca será páreo para o grande campeão nacional de xadrez bruxo! – Vangloriava-se Rony, balançando a rainha lentamente na cara de Harry, que parecia muito entediado.

_Bem.. como você mesmo falou... VOCÊ é o campeão nacional! Pelo menos tenho a honra de perder pro primeirão! – Harry levantava-se, lançando um sorriso forçado para Rony.

Seamus que presenciava o final da partida, dá alguns tapinhas no ombro esquerdo de Harry, troçando com um sorrisinho afetado e alegre.
_Cara, você é tão ruim em xadrez que perderia até pra Hermione, mas como você só joga com o campeão nacional... é uma boa desculpa, não?
A menção do nome de Hermione fez com que Harry fechasse a cara de vez, olhando de esguelha para Seamus que tomava o lugar antes ocupado por ele. Desde o jantar a garota não saia de seus pensamentos enquanto aquele sentimento dúbio flamejava em seu peito.

_Eu tenho melhorado, é sério! Mas Rony sempre se supera na mesma medida, aí fica difícil, né?

Harry se retirava um tanto apressado quando foi interrompido por Rony, já próximo ao pé da escadaria. O garoto virou-se para o amigo, com uma expressão mordaz, esperando que ele não lhe tomasse ainda mais tempo.


_Qual é, Harry? Não vai ficar pra ver Seamus apanhar feio também? – Rony ria em direção ao seu novo oponente.

_É ruim de eu apanhar feio, Weasley! Só não sou campeão porque não gosto de competir, valeu?! – Seamus retrucava numa falsa brabeza.

_Ah, tá legal, Finnigan... você não passaria nem das eliminatórias. E aí Harry, vai ficar ou não?

_Pô, cara, tô cansadão! Vou pro chuveiro e depois vou me esticar na cama. Amanhã a gente se vê, falô?
Harry subia às pressas a escadaria circular que levava aos dormitórios dos garotos. Chegando em seu quarto, bate a porta às suas costas, apoiando-se contra ela. Definitivamente os acontecimentos do dia não saiam de sua cabeça. Não era, nem de longe, a primeira vez que se desentendia com Hermione, mas desta vez o fato o estava incomodando muito. E o pior é que ele próprio não entendia o porquê! E isso vinha inflando dentro de si desde o ocorrido em Hogsmeade.

Ele queria protegê-la e não permitir que nunca mais lhe acontecesse qualquer coisa ruim. Queria embrulhá-la num manto e mantê-la em seus braços como se faz com um bebê recém-nascido, para não deixá-lo sentir medo, solidão, frio ou que se machuque. Sentia uma amarga culpa por tê-la deixado em segundo plano nos últimos tempos. O fato de ela estar deprimida e estressada talvez se devesse a isso. Eram grandes amigos, quase irmãos, e ele estava deixando Hermione sempre pra depois... mas, se ele se preocupava tanto assim com ela, por que aquela mágoa e raiva em seu peito?

Retirou os óculos redondos para massagear os olhos enquanto analisava a si próprio... talvez, o mais certo era que ele sabia o porque daquilo, mas tinha certo pavor de encarar o que estava lhe acontecendo.

Correu até seu baú. Retirou de lá sua capa de invisibilidade. Precisava conversar novamente com Hermione, mas num ambiente um pouco mais neutro para ambos. Ele não conseguiria dormir até resolver esse impasse... ele não ficaria em paz até acertar a situação com a menina. Não podia ficar alimentando aquela raiva irracional e sequer podia conceber a idéia de que ela mantivesse uma raiva permanente de si, se afastando ainda mais dele.
_Seja homem, Harry! Admita que foi você que se afastou de Mione! Agora desfrute da sua covardia em encarar certas coisas! – Disse para si num sussurro, jogando a capa por sobre a cabeça, camuflando-se ao ambiente.

*

_Oh, Merlin! Crookshanks?!

Hermione abria um largo sorriso ao ver seu gatinho de estimação descansando no parapeito da longa janela de vitral. A luz intensa do luar que adentrava o corredor era suficiente para distinguir as formas e até enxergar alguma cor. Quantas e quantas vezes o gato vinha recepcioná-la ali mesmo, naquele corredor, em suas rondas noturnas. Parece que tudo estava mesmo de volta a seu devido lugar. Talvez tudo tenha sido um sonho ruim...
Shanks sentiu sua garganta secar e o coração batia descompassado. Sua cabeça girava. Não era essa reação que esperava de Hermione, embora um lado seu sentia-se no céu por rever aquele sorriso tão caloroso e sincero. Talvez os fatos dos últimos dias tivessem sido um mero delírio pregado por sua mente que devia já está sofrendo algum desequilíbrio... talvez ele jamais tenha conseguido vencer a maldição... talvez Hermione jamais tenha sido ferida e aquele sábado jamais tenha existido... talvez ele finalmente estivesse surtando.
A menina aproximou-se em passos apressados até a janela onde o gato descansava. Mantinha um sorriso extasiante no rosto, totalmente alienada a qualquer fato recente e as suas próprias memórias do ocorrido. Crookshanks a encara um pouco assustado e surpreso, enquanto Hermione leva as duas mãos à cabeça do bichano, acariciando-a com vigor.

_Shanks! Que bom que apareceu! Por onde andou, gatinho? Estava preocupada com você!

Sem que Shanks tivesse a oportunidade de esboçar qualquer atitude, Hermione pega-o no colo abraçando-o como se fosse um bebê, como sempre costumava fazer. A princípio o gato estava um pouco assustado, mas assim que encontrou o pescoço da menina e seus pulmões se encheram com a fragrância de lírios que vinha de seus cabelos, acalmou-se de imediato. Fechou seus olhinhos já marejados pela emoção, enquanto Hermione o embalava, acariciando suas costas.
Tudo estava perfeito. Tudo estava como antes. Nada daquilo havia acontecido...

_Ah, Shanks! Você sumiu por quase uma semana, gato! Papai e mamãe ficariam muito chateados se você não voltasse pra casa comigo nas próximas férias.

Shanks se afastou para poder encarar Hermione. Não, tudo aquilo tinha acontecido mesmo, não era surto ou delírio. Mas será que ela não sabia do que tinha acontecido a ele? Será que Hermione não chegou a saber que ele era um animago? Isso, de certa forma, seria bom demais...

Ainda com uma expressão feliz, Hermione encara o gato devido ao súbito movimento em seu colo. Achou engraçada a forma como Shanks a olhava, parecia que não a estava reconhecendo. Mas ele era o Crookshanks sim, isso ela tinha certeza. Foi quando olhou diretamente nos olhos do gato que finalmente se deu conta da realidade. Havia uma expressão humana nos olhos dele.
Hermione respirou profundamente de forma falha. O frio que surgiu em seu peito parecia tê-la congelado por inteiro. De forma um pouco trêmula, coloca o gato no chão. Levando as duas mãos ao rosto, a menina se afasta de ré de Shanks, até dar-lhe as costas e se apressar até uma das janelas, distante em alguns passos, apoiando-se no batente. "_Oh, meu deus!!"
Sua cabeça girava. Ela perdera completamente a noção da realidade no momento. Isso era muito constrangedor! Não era Crookshanks que estava ali! Ele não existia mais, não existia mais!! Aquele era o rapaz animago! Como ela pôde se prestar a uma situação ridícula e constrangedora como essa?! Como ela foi capaz de esquecer completamente uma coisa que não saia de sua cabeça desde o sábado passado e que vinha pensando durante todo o caminho pelo castelo?!

Shanks respirou fundo enquanto mantinha os olhos fechados procurando dentro de si toda a coragem para enfrentar tal momento. A hora havia finalmente chegado. Hermione apenas havia se esquecido do que aconteceu... ela devia estar sofrendo muita pressão por causa disso... devia estar encarando tudo isso sozinha... havia cheiro de lágrimas em sua pele.

_Perdão... – Hermione dizia num tom um pouco mais alto que um sussurro, ainda apoiada no batente da janela, sem se virar para Crookshanks. Estava se sentindo estúpida. Estava muito envergonhada para encará-lo de imediato.

Coloca-se numa posição ereta, acertando sua postura, mas ainda mantinha suas costas voltadas ao bichano enquanto olhava o corredor sumir dentro da escuridão ao fundo.

_Desculpe.. eu esqueci completamente de que você..... Isso foi ridículo! Eu... Eu não tive a intenção de...
_Não há pelo que se desculpar, Hermione... sei que é uma situação delicada... para nós dois...

Hermione vira-se abruptamente, levando novamente as mãos ao rosto, tentando conter alguma possível exclamativa. Seus olhos estavam arregalados pela surpresa. Seu coração havia disparado ainda mais ao ouvir aquela voz grave e macia que lhe falava de forma baixa e pausada.

No lugar de Crookshanks havia um rapaz alto e robusto trajando roupas negras. Entre a luz e a sombra não era possível distinguir muita coisa de si, mas ele parecia tão sem jeito quanto ela estava se sentindo.
Tentando se acalmar, Nicolai levava a mão aos cabelos, enterrando seus dedos nos fios. De repente as formas distorcidas do exterior do castelo vistas pelo vitral lhe pareceu muito mais interessantes do que continuar a encarar Hermione. Ele que sempre teve um temperamento frio acabou deixando que a ansiedade em querer revê-la tomasse conta de si e tal atitude tola poderia ter posto definitivamente tudo a perder. Preferia uma cruciatus a fazer Hermione passar por uma situação como a de agora... e ele acabava de fazer exatamente isso!

_Eu que lhe devo desculpas... fui incauto, eu queria tanto lhe falar, lhe agradecer e... me desculpe...

Reunindo toda a coragem que lhe conferia o direito de pertencer à Grifinória, Hermione aproxima-se cautelosamente de Nicolai, que apenas a observa de forma tensa. É provável que em nenhum momento de sua vida sua mente tenha ficado tão liberta de qualquer pensamento. Tudo que queria era aproximar-se daquela pessoa pela qual tinha a íntima impressão de que a conhecia há muitos anos... não o fato de ele ter sido Crookshanks, mas como se já tivesse estado em algum momento com essa pessoa, como se fosse um velho amigo que há muito tempo não via.

Hermione estancou o movimento em pouco mais de um metro de distância do rapaz... seja lá o que seu subconsciente tenha imaginado a respeito do animago, definitivamente não era nada do que ele aparentava. Ele era muito jovem, quase um garoto. Os olhos eram os mesmos de Shanks, a mesma expressão que viu por diversas vezes, a mesma expressão humana de tensão ou angústia... as íris claras, pareciam douradas, a mesma cor dos olhos do gato. Os cabelos claros e finos que caiam levemente sobre o rosto...
Mais uma vez a respiração de Hermione falhou.

*

Harry descia correndo as escadarias do castelo, pouco se importando com o barulho que fazia com seus sapatos contra o piso de pedra. No atual estado em que Hermione se encontrava, era muito provável que ela fosse lhe dar alguma detenção e até descontar pontos da própria Casa, por ele estar fora do Salão Comunal em horário indevido. Mas qualquer coisa valeria o sacrifício. Precisava tirar esse peso dos ombros. Necessitava ficar bem novamente com a menina. E não podia deixar isso para amanhã. Ele tinha que ser adulto o suficiente para encarar a situação de frente, de cabeça erguida, sem relutar. Eles eram grandes amigos há sete anos. Não podia deixar essa amizade se apagar aos poucos e cada dia que passasse sem resolver as questões pendentes poderia ser irreversível.
Ele não apenas estava perdendo tempo saindo com outras garotas desprovidas de qualquer conteúdo, tentando se enganar de que uma ou outra o interessava, quando poderia estar perdendo também a mais perfeita que um cara como ele poderia querer e que era a sua melhor amiga... e talvez pudesse, algum dia, ser mais...

Droga! Que diabos ele estava pensando afinal?!
Sem perceber, Harry já havia alcançado o corredor principal. Um pouco ofegante pela corrida, caminhava em direção ao saguão de entrada, se auto-excomungando por sua confusão mental em relação à Hermione. Ele devia ser um grande idiota por estar misturando coisas sem sentido algum. De alguma forma, o ocorrido em Hogsmeade o deixou mesmo muito transtornado e estava inventando coisas que realmente não existiam, nem de sua parte e menos ainda da parte dela.
Ao longe, mesmo com a pouca luminosidade, consegue perceber um vulto parado próximo aos vitrais. Começa a andar cautelosamente, evitando fazer qualquer ruído mais audível. O silêncio quase mórbido do local não colaborava muito e mesmo com a capa de invisibilidade ele poderia ser percebido. Teve a súbita e idéia brilhante de enfeitiçar sua capa com um feitiço silenciador. O sorriso que se formou em seu rosto involuntariamente diante da aparente grande idéia desapareceu lentamente ao chegar mais próximo do vulto.

Quando viu de quem se tratava e que não estava sozinha, instintivamente Harry procurou a sombra densa de uma pilastra próxima, para poder observar melhor e se manter o mais incógnito possível.

Era Hermione que estava ali. E em sua companhia, afastado apenas alguns poucos passos de si, um rapaz alto, de cabelos louros...
"_Donskoi?!!"

Harry levou a mão à própria boca para impedir que soltasse aquilo que deveria ficar apenas em sua mente. Uma raiva repentina surgiu queimando em seu peito e sua vontade era gritar e esmurrar o tal Donskoi. Fechou as mãos em punho, mordendo o nó dos dedos da mão direita a fim de conter essa raiva irracional que havia surgido do nada.
Como ele poderia estar sendo tão imbecil a ponto de sentir coisas totalmente sem nexo? Quando foi que ele desenvolveu tal antipatia por uma pessoa que vira apenas uma vez e que jamais trocou qualquer palavra... alguém que talvez nem soubesse que ele existia?

Pior: como ele poderia sentir raiva do cara que, de certa forma, ajudou a salvar a vida da sua melhor amiga? Será que, intimamente, ele preferia que ela não tivesse sido salva?
Harry chacoalhou com raiva a cabeça, a fim de espantar aqueles pensamentos absurdos dali! Que idéia mais sem propósito pensar em coisas tão sem sentido. Os balaços que tem levado nos jogos de Quadribol talvez estejam começando a surtir efeito nele.

Fixou novamente seu olhar nos dois personagens e apurou bem os ouvidos para tentar escutar algo do que falavam.

"_Quando foi que esse cara saiu da enfermaria? Se Hermione já sabia, por que está se encontrando as escondidas com ele?! E por que ela teria que se encontrar com ele?! Maldição! Nada faz sentido?!"

*
Distantes em alguns passos, mas próximos o suficiente para perceberem a feição de um e de outro, o olhar de ambos mantinha-se preso diante de si quase como um transe. A tensão era tanta que parecia que o mundo tinha parado, parecia não haver mais qualquer brisa, qualquer ruído, tempo ou espaço.
Uma lembrança que julgava não possuir veio como um raio a sua mente ao ver aquele rapaz parado diante de si. E essa lembrança a remeteu novamente ao sábado passado em Hogsmeade, horas antes de ser atacada...
Como isso foi capaz de acontecer ela não sabia, mas ela conhecia essa pessoa diante de si, já esteve em sua presença... o rapaz diante de si é o mesmo que apareceu como uma imagem em sua mente, quando Crookshanks a confortava do incidente com Malfoy, na plataforma. Naquele sábado, em Hogsmeade, quando chorava sob uma árvore e Shanks veio até ela...

O que sentiu naquele momento foi a sensação nítida e palpável de alguém a abraçando e a beijando, e a imagem daquele garoto que se formou em sua mente... os mesmos cabelos, o mesmo porte físico... e logo em seguida, quando apenas encarou Shanks... era o mesmo rosto.

Aquele momento fora assim tão intenso que conseguira perceber sua essência?!

Hermione ficou ainda mais desconcertada, mas manteve-se firme, não deixando transparecer mais do que já demonstrou. Uma reação pela surpresa é aceitável, mas não poderia demonstrar o medo que começava a se intensificar naquele momento. Era medo, sim, mesmo sem saber exatamente o porquê.

Quanto à Nicolai, ele apenas a observava, seu rosto estava inexpressivo, mas por dentro ia a tensão que o momento exigia. Agora a menina estava agindo como ele havia suposto que agiria, mas não estava gostado do que via em seus olhos... parecia medo?

Estar tensa e ansiosa era até normal, mas por que ela teria medo dele? Fechou os olhos por breves instantes para raciocinar melhor... provavelmente ela já sabia tudo ao seu respeito, é quase certo que os professores já conversaram com ela sobre isso.

Ele sendo um puro-sangue, comensal da morte e ela, uma nascida em família não-mágica... talvez ela o enxergasse como um Malfoy, embora ela não tivesse qualquer medo daquele moleque, mas ela conhecia Draco, bem ou mal era um colega... quanto a ele...
"_Eu sou totalmente estranho a ela..."
Virou-se para a janela, apoiando as duas mãos no parapeito. Antes de qualquer coisa precisava desviar o olhar da menina, deixar de intimidá-la com isso e, mesmo a muito contragosto, teria que ser breve. Poderia – e queria – falar um milhão de coisas, por si passaria toda a noite e mais um pouco conversando com Hermione, mas, obviamente, isso não era nem possível e nem prudente.

Harry quase mordia a pilastra de tensão. Aquele silêncio sepulcral parecia eterno. Ele queria e precisava ver até onde ia a "conversa" daqueles dois. Se o cara fizesse qualquer gracinha contra Hermione, ele já estaria preparado até pra lançar um imperdoável naquele infeliz! Mas enquanto isso precisava se agüentar firme, pois tinha certeza que a amiga não o perdoaria em nenhuma hipótese a sua intromissão, principalmente quando ele nem sequer deveria estar ali.

Nicolai respirou fundo, controlando seus impulsos. O perfume de Hermione parecia dançar entorno de si, o envolvendo. E precisava resolver isso rápido antes que perdesse a cabeça e cometesse uma grave tolice. Queria tê-la em seus braços, senti-la pela primeira vez com aquele corpo, retribuir todo o carinho que recebeu dela nos últimos quatro anos... mas isso sim era totalmente impossível neste momento.

_ Estarei partindo amanhã e queria lhe agradecer... e me despedir... – com a voz quase falha, Nicolai finalmente conseguiu quebrar aquele silêncio que durava já alguns minutos. Mesmo com toda a tensão, estava feliz por, finalmente, poder falar com Hermione... o seu maior desejo enquanto Crookshanks.

_Pa-partir? – Hermione sentiu seu peito se comprimir com aquilo... ele iria embora de Hogwarts? Por Merlin! Será que ele seria levado mesmo para Azkaban?!

Nicolai virou o rosto em direção a menina. O tom de voz dela demonstrava alguma preocupação e isso o deixou, de certa forma, feliz. Não conseguiu disfarçar o sorriso ao lhe responder.
_Tenho que dar algumas explicações ao Ministério, mas isso não importa! Eu só quero agradecer por esses quatro anos em que cuidou de Shanks.. e por tê-lo tirado daquela loja de animais horrorosa! Foram quase dez anos lá.

Ele lhe agradecendo? Pensara coisas tão ruins a respeito da situação que sequer cogitou a possibilidade de Shanks.. ou Donskoi, que seja, ser uma pessoa gentil e bondosa a ponto de agradecer por algo que ela tenha feito sem a mínima noção da realidade... não, não era verdade, havia falado sobre isso hoje mesmo com Gina, no fim da tarde lá no lago... mas apenas havia dito para confortar a menina, ela própria não se convenceria disso.

Mas... isso remete a outro fato: ele tinha realmente plena consciência enquanto Crookshanks. Então esta pessoa a sua frente sabe sobre seus segredos, a conhece intimamente! Isso fez com que Hermione congelasse novamente, fazendo desaparecer de imediato a frágil chama de algum otimismo que havia surgido instantes atrás.

_Então.. você tinha plena consciência de tudo, não é mesmo? Você era uma mente humana presa no corpo de um animal?

O tom de voz de Hermione saiu mais seco e mordaz do que ela gostaria. Nicolai se sobressaltou com aquele tom e sabia o que poderia vir depois daquilo... precisava desfazer rapidamente qualquer mal entendido, ou melhor, não poderia deixá-la ter uma má interpretação sobre isso. Então, será que era esse o motivo do medo que viu em seus olhos?

_É isso sim, Hermione. A idéia é essa, afinal. A Animago Mortis é uma maldição imperdoável, uma grande tortura psicológica. Voldemort não me pouparia disso.

Voldemort? Ele disse Voldemort?! Então fora ele que o amaldiçoara?! McGonagall, Dumbledore ou mesmo Snape não mencionara qualquer coisa a respeito... e ela, justo ELA, fora burra o suficiente pra não perguntar quem fizera isso a ele! Tudo bem, decerto nem mesmo eles sabiam. Mas isso só poderia significar uma coisa...

Hermione afasta-se do garoto, dando-lhe as costas. Sua garganta estava seca e seu coração pulsava de forma demorada e forte, lhe doendo o peito. Uma raiva subia a cabeça igualmente com uma conclusão que não gostaria de ter e menos ainda gostaria que fosse verdade! Se ele fora amaldiçoado por Voldemort, só havia duas possibilidades: ou ele era um comensal que vacilou em algo ou ele havia se recusado a seguir as trevas... neste caso, por que ele não fora simplesmente morto? Havia algo muito maior por trás disso, com certeza! E ele era um sonserino, logo um puro-sangue e, provavelmente, vindo de uma família das trevas!?

Nicolai fechou a mão em punho, socando a própria testa. Fora imbecil o suficiente para falar exatamente o que não devia ter dito. Certamente que ela não sabia muito sobre si, Dumbledore jamais teria dito à Hermione de que ele fora um seguidor de Voldemort. Mas agora ela iria associá-lo a isso. Maldição! Não é o momento para se dizer nada a respeito de sua vida, isso só poderia ser feito futuramente, quando ela não tivesse mais quaisquer receios sobre si! Mas agora ele quase acabou de estragar tudo e sequer tinham começado qualquer coisa.

Ao lado da pilastra, Harry agachava-se, segurando as próprias pernas, para impedir a si mesmo de partir pra cima do tal Donskoi. A raiva transformava-se em ódio, pois, pra ele ter sido amaldiçoado por Voldemort, devia ser um dos seus malditos comensais, como foram quase todos os sonserinos da época em que ele estudou em Hogwarts! Deve ter dado algum mole e seu mestre quis brincar com ele. Com a varinha em punho, Harry estava totalmente pronto para qualquer coisa que poderia vir dali.

_Ouça, Hermione... não dê qualquer importância a isso, isso realmente não importa, não mais.. – a menina olhava para Nicolai por sobre os ombros, mas havia um fio de raiva em seus olhos. O rapaz apenas engoliu a seco, precisava finalizar aquilo antes que terminasse em desastre total. Quando ele voltasse do Ministério e SE voltasse, ele teria tempo de sobra para consertar as coisas.

_Amanhã serei levado para o Ministério sob custódia e talvez eu não retorne... só quero que saiba que estou muito agradecido por tudo que fez por mim e.. peço desculpas por todo o transtorno que Shanks lhe causou...
Hermione virava-se, encarando Nicolai de forma um tanto surpresa. O animago era muito decidido e de pulso firme, sabia como contornar uma situação... muito diferente de todos os seus colegas, incluindo aí Rony e Harry.

_Tudo bem, boa sorte, então... – a menina falava secamente, estendendo sua mão direita para cumprimentar o rapaz. Nicolai olhava surpreso, embora aquela frieza e desdenho da menina o machucasse.
Com certa relutância, Nicolai aproxima-se da menina em alguns passos, estendendo também a sua mão direita, aceitando o cumprimento. O calor que vinha da mão de Hermione pareceu preencher de ar quente seu interior. Ao contrário dela, suas mãos estavam muito frias.

Seus olhos estavam fixos em suas mãos entrelaçadas. Aquele momento que parecia apenas um sonho era mesmo real. Um momento totalmente inconcebível até poucos dias atrás. Algo tão singelo, mas tão especial para si. Uma sensação de calor e aconchego enchia seu coração. Um leve sorriso formou em seu rosto e levou sua outra mão à mão de Hermione, envolvendo-a com delicadeza.

Levanta seu olhar ao rosto da menina, que o olhava com curiosidade. Seu rosto estava suave sob a luz leitosa e levemente colorida pelos vitrais, que lhe conferia um brilho extra aos olhos e cabelos encacheados que caiam sobre os ombros. Ela respirava pela boca entreaberta, os lábios e faces muito coradas devido ao momento... ela realmente era muito mais linda vista através de olhos humanos.
Ainda segurando a mão da menina entre as suas, Nicolai levou a pequena e delicada mão de Hermione sobre seu peito, a encarando com doçura. Esta podia ser sua única vez... talvez jamais voltasse a vê-la e nunca mais partilharia daquele momento tão precioso para si.

_Hermione... mesmo eu estando preso no corpo de um gato, esses quatro anos foram os melhores de minha vida.. de toda ela. Você é muito importante para mim, jamais duvide disso...
Nicolai levou a mão de Hermione até os lábios, beijando-a com muita suavidade. Manteve os olhos fechados para sorver cada instante daquele momento ainda mais precioso. A menina o olhava com surpresa e incredulidade, e sua respiração se tornou ofegante.

Muito relutante, Nicolai solta a mão de Hermione, que permanece estática, sem forças para pronunciar qualquer palavra, a respiração ainda alterada. Com um olhar que transmitia muito carinho, o rapaz despede-se:

_Adeus...

Passando por Hermione, em direção às escadarias, desaparece na escuridão adentro no fim do corredor. A menina, um pouco trêmula, apóia-se na janela esperando que sua respiração se normalize. Olhando para a mão direita, sem conseguir pôr os pensamentos em ordem, esboça um sorriso.

Esquecer. Refletir. Colocar idéias em ordem. Decidir quais atitudes iria tomar. Tentar reencontrar-se. Tentar voltar a ser como antes era... ao menos era essa a sua intensão, e agora... Que conclusão tirar daquilo?
Afinal, foi um dia e tanto. Um dia muito diferente.

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Fim do Capítulo XVI – continua...
By Snake Eyes – 2004
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