terça-feira, 29 de janeiro de 2013

ANIMAGO MORTIS - Capítulo XIV – Em Pratos Limpos

ANIMAGO MORTIS
Capítulo XIV – Em Pratos Limpos
_O que foi?

_Hum?


_Algum problema com os talheres? Ou não gosta da comida?


_AH! Não, não é isso... é que... *khu'in'a*! – Nicolai larga o garfo sobre o prato com raiva e leva as mãos aos cabelos, puxando-os para trás. Estava com raiva e nervosinho pela situação constrangedora. _Estou me sentindo como um pirralho de um ano! Vou ter que reaprender tudo? Não parece, mas está sendo tudo muito difícil!


_É só uma questão de tempo até você relembrar como se comportar com um ser humano...


_Isto é, me lembrar como me comportar como um ser inferior... bom, até lá, me perdoe pelos maus modos à mesa.


*

Hermione estava sentada recostada à cabeceira de sua cama, distraindo-se com o livro que pegara emprestado com Madame Pince, Antologia de Romantismo. Sua tranqüilidade é quebrada quando alguém bate na porta de seu dormitório. A menina pára sua leitura com enfado, achando que se tratava de Gina. Ela não estava com paciência para conversas tolinhas, mas...


_Pode entrar!


A porta se abriu dando passagem para uma grande bandeja de prata que reluzia mesmo com a pouca iluminação do ambiente. Hermione ainda detém sua atenção para o livro, enquanto a figura carregando a bandeja aproximava-se de sua cama.


_Ah, Gin.. você não precisava se preocupar. Deveria estar no Salão Principal jantando com os outros.


_Hãa.. não sou tão bonito para se a Gina...


_Harry? – Hermione virava-se surpresa ao ouvir a voz de Harry, que mantinha um sorriso tímido no rosto.


Harry depositou com cuidado a bandeja sobre a cama de Hermione, em frente à menina, que continuava a olhá-lo com surpresa, deixando-o um pouco sem graça.


_Bem.. a Gina falou que você não desceria para o jantar, então.. fui até a cozinha e peguei algumas coisinhas que você gosta.


_Oh! Sim, e... fico agradecida, mas.. por que? Eu estou bem, é sério.


_A quem quer enganar, Mione? Você não está bem e não é de hoje. Não quero mais te deixar de lado.. sei que não estamos te tratando legal...


_Olha, Harry.. não que eu esteja desdenhando da sua solidariedade, mas.. essa paparicação está me deixando enjoada. Eu não sou tão frágil assim.


_Tudo bem, mas já que estamos aqui... me ajuda a comer isso tudo. – Harry apontava para a bandeja, olhando marotamente para Hermione, que parecia um pouco desconfiada. _É muita coisa pra uma pessoa só comer.


*


Nicolai se esmerava para fazer o menos feio possível. Segurava o garfo como se fosse uma criança de dois anos. Ao menos espetar os alimentos estava sendo fácil. Por benevolência, Snape se preocupou em passar ao garoto os alimentos que não precisavam ser cortados. E a comida não estava tão saborosa quanto parecia. Decerto, seu paladar estava menos apurado também.

Por outro lado, Snape parecia muito pouco interessado em sua comida. Estava preocupado com todos os fatos recentes, com o pouco que viu na penseira de Nico e com o destino que aguardava o garoto. A comida, assim como seus pensamentos, parecia indigerível.


_Garoto.. penso que foi alguma sorte eu não ter caído em alguma de suas armadilhas... você era muito bom em emboscadas.


_Quando criança, antes de entrar pra Dumstrang, eu saia com meu avô e os servos para caçadas e, mesmo depois de entrar pra escola, eles nos faziam ir buscar nossos próprios ingredientes pras aulas de poções. Isso ajudou muito. Meu avô dizia que eu não deveria ficar mimado por causa da magia e que tática era tudo... bem, serviu para alguma coisa.


_Então você usava a mesma tática para emboscar animais? – Snape perguntava com cinismo. Embora houvesse a possibilidade de ter sucumbido nas mãos do rapaz, há 20 anos, não sentia qualquer rancor em relação a ele.


_Isso.. mas é muito mais difícil emboscar uma gazela. Eu fui um ecoterrorista numa época em que nem sequer cogitavam tal palavra... uns amigos e eu caçávamos caçadores trouxas que invadiam nossas terras pra abater animais por vaidade. Foi assim que desenvolvi a maioria das azarações e maldições.


_Isso foi perfeito.. um caçador de caçadores. Era isso que nós éramos: caçadores covardes que perseguiam presas inocentes. Até bebês eram mortos e exibidos como troféus. Isso era bárbaro, insano...


_Prefiro não lembrar disso. Vacilei duas vezes em minhas missões. A primeira foi quando meu pai estava num grupo que eu iria atacar. Foi quando vi o quanto ele estava ensandecido com a idéia de poder e riqueza, embora não precisasse de nada disso. Foi terrível.


Nicolai empurrou o prato sobre a mesa para longe de si, por causa de uma súbita náusea causada pelas lembranças. E ele sabia que uma vez de volta, teria que encarar todo aquele inferno novamente, mesmo que fossem lembranças passadas como um filme antigo e já gasto.


_E qual foi a segunda?


_Você.


_O que? Você está querendo fazer média!


_Como você pode ter sido tão burro de se unir a Voldemort, Severus? Sua família é tão tradicional que até tem uma cidade com seu nome! E você sempre foi um cara brilhante, como pôde cair numa cilada como essa?


Snape erguia-se num salto da cadeira, indo em direção à janela. Estava aborrecido com as palavras do garoto, embora fosse verdade o que ele dizia. Por que ele cometera tamanha burrice? Até hoje não havia encontrado uma resposta que lhe convencesse verdadeiramente.

_Suponho que você tenha sido tão burro quanto eu, não é mesmo, Nicolai? E quanto a sua ingenuidade burra de achar que derrotaria Lord das Trevas sozinho?


Nicolai também levanta-se da cadeira, recostando-se à mesa. Mantinha um sorrisinho cínico em direção ao velho amigo.


_Realmente: burrice e ingenuidade. Quando se é adolescente acha que é capaz de qualquer coisa, que sabe todas as respostas, que tem total conhecimento do mundo... ok, Sr Severus Snape, estamos quites nessa.


_Está certo, estamos quites. Dois adolescentes com objetivos diferentes, mas burrices iguais.


_Mas houve alguém que realmente deu sorte de não cair em uma emboscada... aquele maldito Lucius Malfoy! E a sorte daquele verme foi ele estar no mesmo grupo que você! Agora, vinte anos depois e eu tenho que me deparar com o eco distorcido dele. É piada, não?


_Fala de Draco? Ele não é nem metade que o pai foi quando tinha a mesma idade.. ele não é problema.


_Não? Não entendo esse seu protecionismo com o garoto Malfoy, Severus... o moleque sequer tem caráter! A personalidade dele é risível!


_Muito bem, Sr Donskoi.. o senhor chegou num ponto que não lhe diz o mínimo respeito. – Snape estava com sua expressão letal e o tom de voz mordaz, como costuma ser com a maioria das pessoas, mas em Nico isso não parecia surtir o efeito desejado.


Nicolai com um sorrisinho afetado aproxima-se de Snape, segurando-o pela nuca e o encarando nos olhos.


_Então controle o seu bichinho de estimação, Severus. Se esse moleque aprontar novamente, nem que seja uma brincadeirinha infantil com Hermione, eu acabo com ele!


*


Harry e Hermione jantaram todo o tempo praticamente em silêncio. A menina por ora esqueceu-se dos recentes transtornos, a comida estava boa demais para se lembrar de coisas ruins. Harry fez a gentileza de trazer até uma jarra com suco de morango ao leite que tanto Hermione gosta. Já o garoto mordiscava sem muito interesse uma tortinha de maçã.


_É muito mais divertido jantar no Salão Principal, não é mesmo?


_Como?


_Harry, agradeço muito toda essa sua gentileza.. você trouxe tudo o que gosto e estava tudo muito bom, mas... você não está a vontade. Não precisa forçar a barra pra mostrar que se importa comigo.


_Mas.. mas não é.. isso...


_É o quê, então?


O garoto permaneceu em silêncio por instantes, olhando para a meia tortinha de maçã nas mãos, depositando-a em seguida sobre a bandeja. Dentro de si queimava dois sentimentos contraditórios sobre Hermione: mágoa e pena, e ele não sabia a qual dos dois ouvir.

_Você.. não nos considera seus amigos, não é mesmo?


_Do que você está falando, Harry? É claro que considero vocês como meus amigos... mas as coisas mudam. Não somos mais crianças pra ficarmos agarrados uns aos outros o tempo inteiro.


_Não! Você não nos considera. – Harry apertou as mãos nos joelhos, olhando fixamente para os próprios sapatos.


_O que está havendo, Harry? Por que isso agora?


_ Por que isso agora? Quer mesmo saber? Depois de tudo que passamos juntos nestes sete anos, fico sabendo que você não confia em nós para contar os seus problemas!


Hermione apóia os cotovelos nas pernas, escondendo o rosto nas mãos... será que essa maldita história nunca vai acabar? Esse pessoal perturbado e ocioso deveria encontrar algo para ocupar a mente!


_Essa de novo, não... vamos, Harry, prossiga... – A menina, muito entediada, fazia um sinal com a mão encorajando Harry a continuar falando. O olhava de forma blasé num suspiro enfadado.


_Isso magoa, sabia? Você preferia a companhia de um gato, um animal... Gina falou que você contava suas coisas pra ele... e agora, o resultado? O maldito bicho é um ser humano que pode usar tudo que sabe sobre você para te sacanear!


A garota levantou da cama num salto, com raiva, agitando as mãos de nervoso, andando de um lado para outro em frente a sua cama.


_Quando vocês vão parar com isso? Quando vocês vão parar de ficar me aborrecendo com essas coisinhas?


_M-mas...


_Não tem 'mas', Harry! Vocês estão sempre me questionando, estão sempre me cobrando algo! Qual o problema afinal?


_Droga, Mione! Não é isso! A gente se preocupa com você! Acha que gosto de ver você irritada ou deprimida?


_É mesmo? Sabia então que vocês têm um jeito muito peculiar de demonstrar isso? Não creio que cobranças e acusações seja uma boa forma de demonstrar o quanto gosta e se preocupa com alguém... – Hermione encara sarcástica Harry que ainda permanecia sentado na beirada da cama.


Harry levanta-se irritado, cruzando os braços sobre o peito e encarando muito de perto a garota.


_Perdoe-me, Srta Sabe-Tudo, se eu não sei me expressar de acordo com o que a senhorita considere o certo!


O garoto se retira passando por Hermione, esbarrando levemente nela. A menina acompanha os movimentos de Harry, mas antes que ele saia do dormitório, ela defere mordazmente.


_Harry... eu não devo absolutamente nada a você.. a nenhum de vocês. Não me venha com cobranças de atitudes e comportamento. Se formos amigos mesmo, é bom me aceitarem como sou.. o que não é nenhuma novidade para ninguém.


Com a porta entreaberta e meio corpo fora, Harry apenas responde com um olhar frio e indignado, antes de se retirar batendo ruidosamente a porta às suas costas.


Hermione dá apenas uma risada fria e vira-se para sua cama, onde ficou a bagunça daquele jantar informal que deveria ter sido de uma atitude mais amigável. Pega a sua varinha sobre o criado mudo, apontando para a bandeja e fazendo tudo desaparecer no mesmo instante.

_Seguirei sozinha... para o inferno com todo o resto!


========================
Fim do Capítulo XIV – continua...
By Snake Eyes – 2004
========================


N/A: khu'in'a = seria um xingamento russo equivalente ao nosso 'droga', usado como expressão para descontentamento.

Animago Mortis também é cultura inútil ^^

Nenhum comentário:

Santa Tranqueira Magazine