sábado, 19 de janeiro de 2013

Animago Mortis - Capítulo XI – Revivendo

ANIMAGO MORTIS

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 Capítulo XI – Revivendo
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Alvo Dumbledore saiu do castelo acompanhado por Nicolai. O velho diretor preferiu pegar um atalho através de passagens 'secretas' do que passar pelo corredor principal, saindo pela porta de entrada. Ainda era muito cedo para expor o rapaz e queria evitar o máximo possível deparar-se com alunos curiosos, coisa que Hogwarts estava repleta. Dumbledore tinha total ciência dos boatos que corriam por toda escola a respeito do ocorrido em Hogsmeade e o jovem Donskoi havia virado um ícone de hora para outra. Outro dia havia pego um pedaço da conversa entre alunas quintanistas da Corvinal especulando sobre a aparência do animago misterioso. Alvo se controlou para não soltar uma risadinha, não queria chamar a atenção do garoto que estava tão concentrado em seus passos, que iam ganhando agilidade a cada instante.

Desconsiderando todos os problemas graves que envolviam o rapaz, certamente se Nicolai viesse a ter problemas na escola, seria com as garotas. Assim como as meninas corvinais, as sonserinas também estavam um tanto alvoroçadas com os boatos e especulações a respeito do garoto, ainda mais sabendo que este pertence à Sonserina. Já pela parte de Grifinória, a preocupação era voltada mais para Hermione Granger. Os grifinórios, por natureza, achavam que havia mais um maldito sonserino a ser combatido e muitos se apiedavam do azar que Hermione teve: seu gato de estimação ser um animago e, ainda por cima, sonserino! "Ela deveria ter comprado uma coruja!" – Rony Weasley lamentava quase todo o tempo.


Chegando no exterior do castelo, no local onde corresponderia aos fundos da construção, Nicolai, que vinha distraído com seus próprios pés, levou as mãos aos olhos, ao sentirem eles se ferindo com a luz direta do sol, que começava a se pôr no horizonte. Seus olhos de um castanho amarelado claríssimo, ainda tinham que se acostumar a ter novamente essa maior concepção de cores e luzes. Ao sentir que poderia suportar a luz direta, abriu lentamente os olhos, para deparar-se com uma paisagem que há muito tempo não via em toda a sua forma e cores. Aos fundos do castelo, apenas via-se o horizonte amplo, um prado e montanhas ao longe. O tom dourado daquele sol de fim de verão dava uma dinâmica muito diferente a todas as coisas ali banhadas. Não se lembrava mais disso. A sua visão felina era excepcional à noite, mas não enxergava muito bem sob luz forte, ainda mais sob uma luz tão intensa como a do sol. Suspirou profundamente, sentindo-se exasperado pela exuberante visão daquela paisagem que sentia estar vendo pela primeira vez em sua vida.. o que deveria ser, pois não se lembrava de, alguma vez, ter dado valor a coisas do tipo... começou a reparar nas coisas ditas simples depois que Hermione entrou em sua vida, já que a menina aprecia justamente aquelas coisas que a maioria teima em desprezar.


Dumbledore fitou o garoto, como se analisando-o. Ele parecia mesmo muito fascinado com a paisagem adiante. Ele se lembrava bem de Nicolai, enquanto estudante, há 20 anos atrás. Era um garoto muito frio e altivo, porém extremamente educado... afinal, o rapaz vinha de uma família nobre da Rússia Oriental, porém uma família das trevas que exaltava a pureza do sangue. A mais antiga família bruxa da Rússia. Apesar de trevosos, eram nobres e soberanos... porém, era um mistério do porque Donskoi e seus pais vieram para a Inglaterra se aliar à Voldemort, uma vez que a casta de sua família não tolerava qualquer atitude desse seguimento, a de se subjugar a outros.


_É mesmo uma bela visão... após ver milhares de crepúsculos, ainda me admiro com tal espetáculo. Isso sempre me faz lembrar da minha insignificância diante de tudo isso a nossa volta.


Nicolai virou-se para Dumbledore, que estava a alguns passos atrás de si. Por 20 anos teve como aprender o quanto ele próprio era insignificante diante do mundo a sua volta, mas acreditava que era porque estava amaldiçoado. Ouvir Alvo Dumbledore lhe falar isso era algo quase inconcebível de se acreditar, por isso buscava nos olhos daquele velho mago algum traço de falsa modéstia... e se surpreendeu ao ver que ali estava estampada a sinceridade de sempre.


_esqueci.. como é enxergar.. por olhos humanos...


Sua voz ainda era embargada, mas assim como seus movimentos, ia ganhando agilidade na medida que os instantes passavam.


_Venha meu jovem, vamos nos acomodar num banco mais à frente, para apreciarmos melhor esse crepúsculo vespertino e para falarmos sobre nossos últimos vinte anos...


*

Hermione e Gina se aprontavam para voltar para o castelo. A essa hora os jardins de Hogwarts começavam a se encher de alunos e a última coisa que Hermione queria era ficar respondendo a inquéritos de um bando de curiosos. Até mesmo alunos que ela nem sequer tinha noção de suas existências a haviam importunado com as perguntas mais idiotas e sem contexto que já ouvira. Tudo o que tinha a ser dito o próprio Diretor já o fizera no mesmo dia que a notícia tinha tornado-se pública.


As duas meninas já quase alcançavam o portão principal quando uma voz monótona e desagradável as interrompeu.


_Puxa, até que enfim te encontrei, Granger... será que você anda se escondendo de todos da escola? Deve ter motivos para isso...


Gina e Hermione viraram-se com ar nocivo para Draco Malfoy, que vinha acompanhado de seus dois inseparáveis capangas acéfalos. Mas logo em seguida, as duas meninas deram os seus melhores sorrisos de contentamento.


_Agora eu sou uma celebridade, Malfoy.. apenas quero evitar o assédio. Sabe como é, nem sempre uma aluna de Hogwarts é quase morta por um comensal num sábado em Hogsmeade. Agora você deveria fazer o mesmo, pois VOCÊ sim parece que tem algo a esconder!


_Ainda acha que eu tenho alguma coisa a ver com aquilo, sangue-ruim?! Acha que eu, um Malfoy, mantenho negócios com gentalha daquela estirpe?! Isso seria algo mais apropriado para um Weasley, pois os farrapos humanos que se entendem!


_E você vai virar um farrapo humano se não cair fora agora, Malfoy!


Harry e Rony haviam se aproximado de esgueira, pelas costas do trio sonserino sem que estes percebessem. Ambos apontavam suas varinhas diretamente para Malfoy, quando este se virou num salto, temeroso.


_Como eu deveria saber, a corja sempre anda junta! – Draco sacava sua varinha seguido dos dois capangas e apontavam para Rony e Harry.


_É por isso que os três maiores babacas de Hogwarts estão sempre juntos, não é Crabbe, Goyle e Malfoy?


Quando o trio virou-se novamente, viu Gina e Hermione apontando-lhes as varinhas e as meninas mantinham um sorriso mau no rosto. Os três tremeram, afinal estavam cercados pelos melhores duelistas da escola.


Hermione estremeceu ao ter a impressão de ter visto os verdes olhos de Harry tornando-se vermelhos de puro ódio que ele destilava em direção à Malfoy.


_Mantenha distância de Hermione, Malfoy! Se acontecer mais alguma coisa a ela eu juro que te mato, desgraçado!


Draco tentou parecer o mais blasé possível, embora houvesse notado o ódio que Harry, especialmente, lhe dirigia. Intimamente estava apavorado.


_Acredita mesmo que eu tenho a ver com aquilo? Quero ver provar, São Potter!


_Ainda vamos te pegar, seu merda! – Dizia Rony, quase gritando.


Uma figura sorumbática surge diante dos alunos prontos para uma guerra, interrompendo. O olhar frio e mordaz de Snape poderia congelar até o fogo naquele momento.


_Potter, Weasley e Malfoy, vocês poderão tentar se matar mais tarde, durante a detenção dos três! Não acredito que há cinco dias que os três vêm fazendo detenções juntos, ainda não se tornaram amigos? – Snape finalizava com escárnio, com um sorriso afetado para Harry.


O trio sonserino, aproveitando o aparecimento de seu diretor, desaparecem em segundos no interior do castelo, enquanto os quatro grifinórios continuam a encarar Snape, nada satisfeitos, enquanto guardavam suas varinhas.


Harry, que ainda não havia destilado todo seu ódio por Draco, encara friamente Snape, a sua frente.


_Você sabe que Malfoy forjou aquilo, Snape... será preciso que alguém realmente morra nas mãos dele para tomarem uma atitude decente? O que ele fez foi sórdido e bem merecia uma temporada em Azkaban.


_Sua opinião nada importa, Potter! Cuide de sua vida, Garoto-que-sobreviveu e não se meta onde não é chamado.


Harry teve que engolir a maldita indiferença com que Snape tratava todos os assuntos que tinham envolvidos seus preciosos sonserinos. Ele já estava muito bem arranjado em passar três meses em detenções variadas na companhia de Draco.. não queria aumentar esse tempo para até o fim do ano letivo. Foi o primeiro a se retirar para o castelo e quase esbarrou em Snape, quando a sua vontade era socá-lo no estômago. Rony foi logo em seguida, ainda ruborizado pela raiva, seguido de sua irmã. Hermione ainda permaneceu por instantes, olhando fixamente para Snape, com um olhar de quase súplica. Chegou a ensaiar alguma palavra, mas sua garganta havia ficado seca de repente e manteve-se calada, mesmo quando ele a encorajou a prosseguir.


_Há algo que queira dizer, Srta Granger? – Snape mantinha a voz macia e baixa o suficiente para que apenas a menina o ouvisse, porém sem seu costumeiro escarnecimento.


_...er.. não, professor.. não é nada de mais. Desculpe...


Hermione cruzou o portão de entrada de cabeça baixa. Gostaria muito de perguntar sobre Donskoi, se ele estava se recuperando, sobre como era a sua vida no passado... desde que recebeu alta na Ala Hospitalar, não teve a mínima coragem de retornar até lá para visitar o inusitado paciente. Ela tinha desenvolvido um estranho medo em relação a essa pessoa. Medo de vê-lo, de encontrá-lo, de falar-lhe... tinha medo de encontrar ainda algum traço de Crookshanks nele, tinha medo de sentir como se o já conhecesse há tempos. Se ele viesse a torturá-la como um típico sonserino sangue-puro, não queria enxergar nele Crookshanks. Preferia pensar que seu bichinho tão querido e companheiro tinha morrido naquele sábado. Podia ser um egoísmo cruel de sua parte, mas é assim que se sentia.


O pior de tudo é que agora não havia ninguém com quem contar... era certo que seus amigos, antes tão afastados de si, voltaram a lhe fazer companhia, oferecer apoio e conforto, mas sabia que não poderia retribuir com a sua mais intima sinceridade. Ela sabia que não podia simplesmente abrir seu coração para eles, contar todas as suas angústias, desejos.. afinal, aquele acontecimento não despertou apenas incertezas, mas despertou sentimentos que lhe davam muito medo. Ademais, já cometera esse erro uma vez e pretendia jamais repeti-lo... confidente, nunca mais!


*

Sentados no banco que ficava nos jardins dos fundos do castelo, Nicolai e Dumbledore apreciavam aquele fim de tarde. Dumbledore permanecia calado, esperando pacientemente que o garoto lhe voltasse a atenção. Nicolai estava tão entretido com o vento que soprava em seu rosto e brincava com seus cabelos finos e claros, que havia se esquecido do porque estava ali.


Dumbledore resolveu interromper o quase transe do rapaz, mais por incerteza do que impaciência. Talvez ele ainda não estivesse totalmente recuperado e poderia estar ainda sofrendo de alguma seqüela.


_Vejo que está apreciando bastante a vista, meu jovem... gostaria de falar sobre isso?


Nicolai abriu os olhos e virou sua cabeça para a direção de Dumbledore, que mantinha um sorriso sereno e encorajador. O rapaz retribuiu o sorriso, voltando seu rosto para frente antes de responder.


_As sensações são.. diferentes... o vento.. a luz.. as cores.. é como ver tudo... pela primeira vez... – Sua voz tornava-se mais firme, porém ainda rouca. Quanto tempo mais iria aturar essa voz irritante? Nem sequer se lembrava mais o som de sua voz.


_Isso é bom... na maioria das vezes só damos valor àquilo que perdemos. Há pessoas que passam sua vida inteira sem perceber a doçura contida numa brisa ou a beleza de um crepúsculo.


_É.. e já tive muito... muito mesmo.. e jamais dei valor... e.. rejeitei muito, também...


Nicolai suspirou profundamente, escondendo seu rosto entre as mãos. Com os braços apoiados sobre os joelhos, começou a observar no chão a grama que balançava levemente com o vento. Tinha sua vida de volta e agora tinha também o remorso de muitas coisas erradas que fez, o arrependimento que, sabia, o corroeria para sempre. Tantas palavras ruins e atitudes erradas em nome de algo tão superficial e volátil quanto a arrogância por pertencer a uma família nobre e poderosa... e de que tudo valeu? Esteve completamente sozinho por 20 anos, sem que ninguém procurasse saber o que lhe aconteceu. Não, não foram 20 anos sozinho... teve Hermione, nos últimos quatro anos.. justamente o tipo de pessoa que seria considerada uma afronta e desonra se a tivesse apenas como amiga!


_Fui muito arrogante.. presunçoso... cometi um erro terrível.. ao entrar pro círculo de Voldemort...


O rapaz ergueu um pouco a cabeça, para encarar Dumbledore. Finalmente poderia exorcizar todos aqueles demônios que o devoravam há anos. Fazer o que deveria ter feito há 20 anos atrás, mesmo que agora seja tarde demais... mas não gostaria de levar isso para o túmulo, como sempre temeu todo o tempo enquanto esteve amaldiçoado pela Animago Mortis.


_Eu juro... jamais matei ou feri alguém.. a mando daquele monstro... tudo o que queria era.. fazer Voldemort pagar caro.. pela desonra de meus pais!


_Vejo sinceridade em você, garoto... e vejo também o quanto é corajoso. Mesmo ter passado todos esse anos sob uma maldição de Voldemort, não o teme e ainda pronuncia seu nome com um tom de escárnio. Se é sobre isso que quer falar, fique a vontade e diga tudo o que quiser...


_Eu quero.. e mais.. sei que é um legilimante... se o senhor quiser ver.. minhas lembranças...


Alvo sorriu alegremente, dando tapinhas no ombro do rapaz. _Vejo que sabes muitas coisas também... ouviu Harry falando sobre isso?


Nicolai sorriu maliciosamente, seus olhos finos se estreitando: _Digamos que.. como gato.. sou um espião melhor que.. Severus...


_E todos achavam que você não passava de um gato abusado demais... – com tom sarcástico, Snape se anunciava, aproximando-se às costas de Dumbledore e Nicolai.


Nicolai levantou-se num sobressalto, encarando Snape com curiosidade. Alvo apenas virou-se, sorrindo.


_E por acaso estávamos falando sobre assuntos de seu interesse também, caro Severus.


_Desculpe por me intrometer, professor. Estive na enfermaria e Pomfrey havia dito que Nicolai despertou e que estava com o senhor. Não quero atrapalhar. Sei que têm muito o que conversarem.


_Por mim não há nenhum inconveniente e até gostaria que você ficasse, Severus... e quanto a você, Nicolai? Há algo contra a presença de Severus aqui?


_Nenhum.. Professor...


_É muito bom revê-lo, Nicolai! – Snape estendia sua mão ao garoto, num cumprimento.


_É bom revê-lo, também.. com olhos humanos! – Nicolai apertava a mão do mestre de poções, numa rápida gargalhada.

 
 _É incrível que ele não tenha mudado absolutamente nada, não é Alvo? É exatamente o mesmo garoto de 17 anos...

Nicolai olhava confuso de Snape para Dumbledore. Ele estava com 37 anos e mentalidade de um adolescente de 17?! Isso era uma lástima!


Dumbledore percebendo a confusão nos olhos do garoto tenta lhe explicar:


_Papoula não lhe deu um espelho para que se visse?


_Não.. e era tanta coisa em mente que.. nem sequer me lembrei desse detalhe...


_Pois bem, filho... você é o mesmo Nicolai de 20 anos atrás. Nenhum centímetro a mais de cabelos, nenhum grama a mais ou a menos de pele.


_Isso mesmo, Nico! No fim, ganhou um prêmio de consolação: você é um coroa de 37 anos no corpo de um pirralho de 17!


O garoto levou a mão ao rosto, tateando e sentindo que sua tez continuava com a mesma suavidade da juventude, nem sequer havia vestígio de barba em seu rosto ou nódulos que denunciassem a maturidade da pele.


_É.. prêmio de consolação... então é isso que a animago mortis faz... fez meu tempo parar na minha forma animaga.


_É o que tudo indica, meu jovem... e voltando ao nosso assunto, depois poderemos preparar uma Penseira para você. Creio que Severus e Minerva ficarão interessados nessa suas lembranças. Você teria alguma objeção quanto a isso, Nicolai?


_Não senhor.. muito pelo contrário... não quero ser tido como um.. maldito comensal...!


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 Fim do Capítulo XI – continua...
By Snake Eyes – 2004
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