segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Capítulo 7 – A Casa Que Não Existe Mais

Hermione arrumava sua mochila de passeio, colocando alguns utensílios ali dentro, como toalha de mão, uma canga para forrar o chão, cantil, alguns potes fechados com comíveis, duas tigelinhas de plástico com desenho do Garfield, além de outras coisinhas de garotas, como nécessarie, presilhas, filtro solar. Vestia-se de forma despojada como uma simples trouxa, com o trio sagrado tênis-jeans-camiseta e um casaco leve de moletom amarrado na cintura. Havia prendido suas madeixas num rabo de cavalo, formando vários caracóis pendentes, alguns soltos, dando um ar ainda mais jovial à menina. Estava sentindo-se feliz por finalmente ir à Hogsmeade, depois de tanto tempo, principalmente por agora ter uma companhia, pois levaria seu gato, Crookshanks, pela primeira vez ao povoado. Seria um sábado bastante divertido, ao menos era o que cogitava. Além do mais, queria ver as casas por lá, pois pensava seriamente em comprar ou alugar algo por ali, já que no próximo ano não estaria mais estudando em Hogwarts. Bom, era apenas um sonhozinho, que talvez levasse ainda muito tempo para realizar. Afinal, não iria começar a trabalhar tão logo, pois ainda iria cursar a faculdade. E, com certeza, demoraria ainda muito tempo juntar o dinheiro... talvez seus pais pudessem lhe ajudar, mas não sabia se eles teriam condição para comprar uma outra casa...

Crookshanks mantinha-se escondido sob as cortinas da cama de dossel de Hermione, desde o incidente com Parvati Patil. Ele não queria complicar ainda mais as coisas, então dava-se ao trabalho de passar despercebido pelo maior números de pessoas possíveis naquele castelo, acatando inteiramente a ordem de sua dona, de evitar as pessoas. O gato estava sentado, olhando vigorosamente para sua dona, com a cauda irrequieta, demonstrando toda a sua ansiedade com o passeio. Queria muito poder rever a casa onde viveu por quase três anos, logo que chegou com a família à Inglaterra. Era provável que a casa nem mais existisse, mas, pelo menos, gostaria de poder rever o lugar. Mas, o mais importante, era estar com sua dona e poder passar um dia inteiro em sua companhia, o que é algo bastante difícil durante o ano letivo.

Outras colegas de dormitório também estavam se arrumando, mas ao contrário de Hermione, Lilá e Parvati mais pareciam que iam a alguma festa do que num simples passeio ao vilarejo. Ambas usavam vestidos com um corte um pouco ousado, deixando bastante evidente suas curvas. As duas meninas, apesar de muito sebosas, eram também muito bonitas, mas não tanto quanto Hermione, que desbancaria qualquer garota de Hogwarts se ousasse um pouco em sua vestimenta... isso, fazia apenas nos bailes, onde mostrava a todos o quanto era deslumbrante.

_Vai acampar, Granger? – Falava Parvati, sarcasticamente. Lilá apenas dava risadinhas furtivas.

_E vocês? Vão a alguma festa? Na idade de vocês, ainda se empolgam com Hogsmeade? Se fossem sangues-ruins, eu até entenderia, mas as duas são puros-sangues e esse negócio de povoado mágico nem deveria ter a mínima atenção de ambas... – Retrucava Hermione, já levando sua mochila de algodão cru às costas.

_Nós duas temos um encontro, querida... sabe como é, né?

_Bom, na verdade não, mas, mesmo assim, desejo sorte aos seus pares... acho que vão precisar! Vamos, Shanks!

Hermione já alcançava a porta quando o gato pulou de sua cama correndo em direção a dona. Parvati e Lilá quase caíram de costa, se esquivando do bicho, soltando, as duas, gritinhos. Nesta mesma hora, uma outra menina, que também dividia o dormitório com elas, saia do banheiro, carregando uma toalha dobrada nas mãos.

_Ah, peraí, Grager! Não me diga que você vai levar esse monstro contigo para Hogsmeade? – Parvati fazia uma cara de nojo.

_Tá ok, não digo! Tchauzinho! Espero não encontrar vocês por lá!

Hermione saia pela porta com o gato em seu encalço, que ainda dirigiu um olhar mordaz pras garotas, que perceberam e tiveram um leve tremor. Quando Hermione fechou a porta do dormitório atrás de si, Parvati soltou uma bela gargalhada, assustando Lilá e a outra menina.

_HAHAHAHA! NÃO ACREDITO! Coitada! Tá surtando de vez!

_É mesmo o fim da picada! A Granger vai para Hogsmeade em companhia daquele gato horroroso! Ah, tadinha, Parvati... deveríamos fazer alguma coisa por ela... – falava e ria sarcasticamente Lilá Brown.

_O quê? Dar-lhe um coleira anti-pulgas de presente? Ou mandá-la para St Mungus? Ah, por favor, a garota pirou de vez, né?

_Nossa, como vocês são maldosas... – dizia a menina que havia saído do banho. _Coitada da Granger, vocês deveriam é ajudá-la e não tratá-la desse jeito... ela deve se sentir muito excluída por ser como é...

_...por ser sangue-ruim ou por ser uma sebosa intragável e mandona? – Parvati havia parado de rir, levando as mãos à cintura, impaciente. _Qual é, Anne? A Granger é insuportável, metida! Se ela soubesse qual seu devido lugar, não se exibiria por aí, se achando a melhor de todos!

_Pode até ser que tenha razão, Patil... mas é muito compreensível a forma como ela age. Ela já está em muita desvantagem em ser trouxa, então ela deve se sentir obrigada a fazer tudo em dobro para se equiparar a nós e ach...

_Tá, tá legal, Anne! Mas isso não muda o fato...

_... o fato da Granger tá ficando louquinha de pedra, hihihi! – Lilá completou e as duas caíram na gargalhada novamente. Quanto a Anne, apenas lhes dirigiu um olhar indignado e foi cuidar da sua própria vida.

_Você endoidou de vez, Mione? Vai levar Crookshanks pra Hogsmeade?

_Até você, Harry? O que tá havendo com todo mundo? Qual é o problema de eu levar meu gato pra passear? Já se esqueceu que nós trouxas costumamos levar nossos bichos de estimação pra passeios? Passou a maior parte da vida com os trouxas e não sabe disso, Harry Potter?

Hermione, Crookshanks em seu colo, Harry e Rony caminhavam pelo corredor principal, indo em direção aos jardins, onde tomariam as carruagens rumo ao vilarejo. Rony e Harry, apesar de falarem algumas grosserias sem querer, estavam muito preocupados com a amiga.

_Bom, bruxos também fazem isso, mas... – Rony abrira a boca pela primeira vez, depois de se recompor da surpresa, mas estava muito preocupado com Mione, talvez ela precisasse de algum tratamento em St Mungus.
_... acontece que o gato só vai te atrapalhar e duvido que deixem você entrar nas lojas com ele.

_Ah, sim, mas não pretendo entrar em loja nenhuma... vou dar um passeio com Crookshanks pela área residencial de Hogsmeade, ir na pracinha, fazer um piquenique no bosque... será muito agradável, bem que vocês dois poderiam vir conosco... – Hermione já se esquecera totalmente das grosserias de seus "amigos" e "amigas" e sorria ante a lembrança dos lugares. Crookshanks apenas olhava crucificadamente para Rony e Harry.

_Só você mesma pra querer ver casa e mato, Mione... além do mais, marcamos um encontro em grupo no 3 Vassouras... se você quiser ir, mas vai ter que largar esse gato aí. Aproveita que ainda estamos no castelo.

_Oh, muito obrigada pelo convite tardio, Harry Potter. Pelo visto, andaram planejando o tal encontro e nem sequer se lembraram de me convidar antes! Mas fico feliz que tenha me convidado em última hora, se compadecendo de minha insanidade!

Hermione apertou o passo, tomando a dianteira e saindo rapidamente do castelo, sem dar chance de resposta aos garotos, que a olhavam atônitos.

_Sinceramente, Harry... acho que estamos tratando muito mal a Mione... isso é falta de consideração!

_Fazer o que, Rony? Não somos nós que estamos desconsiderando ela; é ela própria que tem se afastado de nós... ela só pensa em estudo, livros, monitoramento, NIEM, carreira! Tá certo que temos que fazer isso, mas a Mione é maníaca obsessiva! É difícil ajudar alguém que não admite ajuda!

Por alguma sorte, Hermione foi na carruagem acompanhada de Luna Lovegood da Lufa-Lufa, Neville Longbotton e Gina Weasley. Os três não costumavam implicar com ela, então não pegaram no seu pé por causa de Crookshanks. Este, por sua vez, derretia-se em carinhos no colo de Gina, que o adorava, e de vez em quando, brincava com Luna. Neville, que ia acompanhado de Trevor, seu sapo de estimação, contava sobre a última tentativa de Snape envenená-lo na aula, salvo em última hora por Mione. Quanto à monitora-chefe, falava pela milionésima vez para que ele parasse de levar o sapo pra aula de poções, se ele tinha algum amor ao bicho. Conselho que entrava e saída pelos ouvidos do menino.

Ao chegar no povoado, os terminais de desembarque das carruagens estavam apinhados de estudantes de Hogwarts, para desespero de funcionários e de alguns professores que acompanhavam os alunos, entre eles McGonagall e Snape – para desespero ainda maior de alguns alunos! Hermione esperou que o terminal esvaziasse um pouco para sair com Crookshanks, temendo que o gato se assustasse com tanto alvoroço. Os três colegas que a acompanharam na carruagem, já tinham seus programas prontos e se adiantaram, deixando a menina sozinha. Mas, desta vez, ela não se importava nem um pouco se teria ou não a companhia de qualquer um deles... afinal, ela não poderia deixar de fazer as coisas que gosta só por não ter quem a acompanhasse. Um dia, quem sabe, ela encontrasse amigos que apreciassem as mesmas coisas que ela? Aí ela não estaria mais tão sozinha...

Mas não estava tão sozinha quanto imaginou. Um sorriso se alastrou por seu rosto ao ver Harry e Rony correrem em sua direção... será que eles teriam decidido acompanhá-la na caminhada pelo povoado? Poderiam fazer, os quatro, um belo piquenique no bosque, já que providenciara comíveis o suficiente para todos, prevendo algo do tipo; seria só comprar uns reforços na Dedosdemel e no 3 Vassouras...

_Oi, Mione! Vejo que trouxe mesmo o Crookshanks... – falava ofegante Harry, mas sorridente.

_É, viemos tentar te convencer a ir ao 3 Vassouras conosco, mas pelo jeito não vai dar... a menos que encontremos um lugar pra deixar o gato. – Rony falava um pouco mais ofegante que Harry.

_Não! Claro que não! Eu prometi a Shanks que o traria para passear aqui em Hogsmeade. Largá-lo em qualquer lugar só pra ir num boteco que tô cansada de ver e olhar pras mesmas caras conhecidas é sujeira! Agora, se vocês quiserem, pode vir conosco... será divertido!

_Ah, muito obrigado, Mione! Obrigado mesmo! Você prefere andar com esse gato aí do que passar o tempo com seus amigos? Isso quer dizer que está de saco cheio da nossa cara, não é? – Rony estava rubro e os olhos faiscando, por causa da desconsideração de Hermione para com eles. Como ela poderia ser tão falsa assim? Justo ela?

_Rony! Não exagera! Não foi isso que Mione falou... – Harry censurava o amigo, embora estive intimamente concordando com ele.

_Olha, tudo bem, não aconteceu nada... – Hermione tentava apaziguar a situação. Ela não poderia deixar que seu passeio fosse estragado logo de início! _Cada um de nós seguirá o que planejou e, mais tarde, se der, a gente se encontrar por aí pra saidera, tá legal?

Não querendo mais discutir com a amiga e também não querendo estragar o sábado, Rony e Harry apenas concordaram. Hermione, que segura o gato no colo, retribui com um sorriso e parte em direção oposta do centro comercial, satisfeita, com seus longos cachos amarrados balançando com suas passadas rápidas.

Mas o sábado só está começando e pelo jeito ele promete. De trás de uma grossa pilastra, sai Draco Malfoy, com um sorrisinho desagradável no rosto, um olhar de peixe morto e sua voz monótona e arrastada, interrompendo o caminho da menina.

_Oh, que comovente... a pobre sangue-ruim prefere passear com seu bichinho de estimação do que ficar com os amiguinhos... então os boatos são verdadeiros, Granger? Ou será que é uma libidinosa zoófila?

Hermione vira-se com tanta raiva para o garoto, que quase derruba uma menina que passava perto dela no momento. Crookshanks olhava o loiro platinado com tal ódio que, se lhe dessem uma varinha, certamente poderia mandar-lhe uma kedavra!

_Maldito seja, Malfoy! Você é um infeliz! Deveria procurar ajuda psiquiátrica, seu desgraçado! Como pode ser tão podre? – Hermione gritava, sem se importar com quem estava próximo. Até o gato olhou assustado pra garota, esquecendo-se momentaneamente da desagradável intromissão do garoto Malfoy. As poucas pessoas que ali ainda estavam, pararam assustadas diante da explosão de Hermione. Rony e Harry correram pra ver o que estava acontecendo.

_Tão pouco lhe afetou muito assim, é? Quer dizer que é verdade? Mas deveria encontrar lugares mais seguros pra essas práticas, sua trouxa! Esse seu amante – Draco apontava o gato, que Hermione segurava com tanta força que o impedia de voar no pescoço do garoto – não poderá fazer nada se alguma coisa ruim lhe acontecer, minha cara...

Hermione já ia com tudo pra cima de Draco numa bofetada, quando sua mão foi impedida a poucos centímetros do rosto do garoto, que se encolheu diante da rápida reação dela. Prof Snape, surgido do nada, segurava a mão de Hermione firmemente, olhando fuzilante para Draco, que se encolheu ainda mais com aquele olhar de Snape tão atípico para si. A súbita aparição do professor fez com que Rony e Harry freassem suas ações, que também iam com tudo pra cima de Draco.

_Sr Malfoy! É melhor que vá se divertir com seus amigos e esqueça um pouco suas desavenças. Não desperdice seu tempo com tolices como essas! – Snape falava gelidamente, como ninguém nunca tinha visto falar com qualquer um da Sonserina, embora fosse o tom típico que usava com os demais alunos, principalmente os da Grifinória.

Hermione estancou, olhando assustada para o professor, que ainda segurava seu pulso firmemente. Até mesmo o gato o olhava assustado, pois não tinha percebido nem sequer a aproximação de Severus. Draco apenas lançou um olhar de ódio à Hermione, sumindo na multidão logo em seguida.

_Muito cuidado por onde anda, Srta Granger. Não fique muito longe de outras pessoas. – Snape falava friamente, sem sequer olhar para a menina; mantinha seu olhar fixo na direção em que Draco partiu. Largou o pulso dela, que estava esbranquiçado pela pressão. Tomou o rumo da maioria dos alunos, sumindo logo em seguida.

_Mione! Como você está? O que aquele imbecil queria? – Harry segurava Hermione pelos ombros, quase gritando com ela.

_Mione, é melhor ficar conosco! Esse imbecil pode querer aprontar alguma contigo! – Rony apertava o braço da menina.

_AI! Chega! Me larga! Draco não fez nada além do que é típico dele e duvido muito que ele tome alguma atitude mais enérgica do que defecar pela boca! E, agora mesmo, é que quero ficar bem longe de todo mundo depois desse escândalo! Qualquer coisa estarei lá pelos lados residenciais!

Hermione correu no sentido oposto à multidão de alunos, que já enchiam as ruas de pedras polidas do centro comercial de Hogsmeade. Crookshanks não via a hora da Hermione soltá-lo! Ela o comprimia tanto ao corpo que ele estava se sufocando.

Quando notou que já estava bastante distante de todos, parou para recuperar o fôlego. Deixou-se cair aos pés de uma grande árvore, soltando o gato do colo, que estava tão sem fôlego quanto ela. A menina levou as mãos aos olhos, tentando impedir as lágrimas, sem conseguir. Soluçava baixinho. Felizmente, não havia ninguém por perto, além de Crookshanks, que já havia recuperado seu fôlego e olhava sua dona com desespero. Não conseguia aceitar que haviam estragado a alegria de Hermione! Estava tudo tão certo, ela estava tão contente, como há muito tempo não via e, no entanto, tinha que ter aparecido aquele verme miserável para humilhá-la daquela forma, insultá-la de uma forma tão grotesca!

Porém, Crookshanks sabia que isso apenas aconteceu por conseqüência do ocorrido entre ele e o garoto Malfoy na sala de Severus, há dois dias. Obviamente que o garoto não se daria o trabalho de fazer algo contra ele, afinal, ele era um mero animal supostamente irracional, embora duvidava que o tal Draco o deixaria ileso dessa. E o garoto odiava sua dona, mesmo sem nunca ter entendido o porque de tamanho ódio, uma vez que a garota jamais lhe fez qualquer mal, e não acreditava que a diferença racial fosse um motivo tão forte a ponto de chegar a odiar alguém apenas por isso... "Ah, maldição, Nico! O moleque é um Malfoy! Uma das piores famílias bruxas do mundo, uma escória sem honra!"

Crooksnahks subiu no colo de sua dona, que estava sentada sobre as pernas. Sentia como se uma adaga de gelo atravessasse o seu coração, ao vê-la desta forma. Dava-lhe náusea só de se lembrar que, em parte, aquilo era sua culpa. Lambeu as lágrimas que escorriam pelas mãos de Hermione, fazendo-a despertar de seu pranto. Tirou lentamente as mãos do rosto, encarando os olhos amarelos com as pupilas fechadas em fendas do gato. Sentiu um arrepio ao ver novamente naqueles olhos uma expressão humana, sentia que seus olhos transmitiam dor, mágoa e culpa...? Apoiou suas patas dianteiras no peito da menina, erguendo-se até seu rosto. O felino começou a lamber o rastro de lágrimas que havia no rosto de Hermione, que fechou os olhos diante daquela sensação tão diferente e, o que era pior, boa! Crookshanks abraçava o pescoço da menina, mordiscando o lóbulo da orelha, descendo pela nuca. Uma imagem muito estranha se formou diante dos olhos cerrados de Hermione e a sensação que sentia era como se uma pessoa a abraçasse e a beijasse. A imagem era de um rapaz robusto, com cabelos muito claros e finos que caiam pelo rosto. Não conseguia ver o rosto do rapaz, que parecia trajar a capa negra do uniforme de Hogwarts, mas tinha plena certeza de jamais ter visto tal pessoa na vida.

Mesmo que tivesse parecido horas, passaram-se efêmeros segundos, até ser desperta de seu devaneio com aquelas palavras podres de Malfoy, chamando-a de libidinosa zoófila. Sem pensar duas vezes, empurra o gato para longe de si, apavorada. Crookshanks, percebendo o erro que cometeu e também lembrando-se das palavras do garoto, tentou consertar a situação, dando um miadinho inocente e triste para sua dona, que a fez voltar a si.

Hermione levou a mão à testa e começou a rir baixo, mas parecendo algo ensandecido. Onde havia parado todos os planos que tinha pr'aquele dia? Olhou de volta para o gato, que estava sentado envolto de sua cauda, observando-a tristemente. Por frações de segundos, a imagem do rapaz voltou novamente a anuviar-lhe a vista. Chacoalhou com raiva a cabeça, espantando aqueles pensamentos. Se estava mesmo surtando, não seria agora, justo naquele sábado maravilhoso de sol, céu azul e brisa fresca que iria procurar uma solução para isso. Havia planejado trazer seu gato para passear por Hogsmeade e até fazer um lanchinho no bosque, ver as casas, o rio, a pracinha central... e era isso que iriam fazer.

Enxugou o que restou de suas lágrimas, ajeitou seus cabelos e levantou-se, espanando algumas folhas secas que ficaram agarradas na perna da calça. Com um sorriso, embora seu olhar ainda fosse triste, aproximou-se do gato, agachando-se diante dele e levando a mão esquerda à cabeça do bichando, alisando-a.

_Me desculpe, Shanks! Eu quase estraguei o nosso passeio. Vamos fingir que nada aconteceu e vamos voltar ao nosso programão de sábado, ok? Definitivamente, o problema são esses infelizes de Hogwarts, não nós! Mas tudo bem está acabando, só resta alguns meses e ainda poderemos passar três semanas longe daqui nas férias de natal.

A garota se levantou e tomou a direção de seu rumo, chamando pelo gato para acompanhá-la, que ainda permanecia parado. Crookshanks estava olhando para todos os lados, farejando algo, tentando perceber se havia alguém por perto, mais especificadamente se havia o garoto Malfoy por perto. Ele não havia se esquecido da ameaça do loiro aguado e o alerta de Severus para Hermione, na plataforma de desembarque, o deixou intrigado. Sabia que Severus não gastava fôlego falando coisas à toa. Se Hermione não havia percebido nada, ele teria que tomar toda a precaução possível. Até achava melhor que ela não estivesse preocupada com mais isso, senão seu dia estaria realmente arruinado e ele bem sabia que sua menina merecia um bom relax.

*

No pub Hog's Head, os tipos mais estranhos e suspeitos lá se reuniam, contrapondo ao pessoal que freqüentava o 3 Vassouras. Se tinha algo de sigiloso para tratar, Hog's Head parecia o lugar ideal para isso, tanto que fora lá, no 5º ano de Hermione, que Harry se reuniu com vários outros alunos para tratarem de um plano para burlar a vigilância da sapa velha da Umbridge e passarem a treinar DCAT. Porém, era um ledo engano crer que tal pub oferecia o sigilo necessário para negócios escusos...

Esse engano, porém, passava despercebido para duas figuras encapuzadas que conversavam muito próximas uma da outra numa mesa nos fundos do recinto. As outras figuras presentes no pub não eram muito diferentes daqueles dois, pois pareciam que quase todos eram procurados da justiça, pois de alguma forma também ocultavam seus rostos e formas sob capas, capuzes, chapéus, faixas...

Um dos encapuzados da mesa dos fundos entregava ao outro um saquinho de couro, que tilintou ao cair na mesa diante do outro sujeito, que, por sua vez, abriu o saquinho, observando cuidadosamente o conteúdo e tirando de lá uma grande moeda de ouro. Levando a moeda a altura dos olhos, para observá-la melhor, a manga larga de sua veste deslizou até a altura do cotovelo, deixando a mostra uma tatuagem que lembrava um crânio com uma serpente saindo de sua boca.

_O senhor é mesmo muito generoso, Sr Malfoy... brincar com sangues-ruins eu faço até de graça, só por prazer... mas como o senhor tá pagando... deve mesmo odiar a garota, não? Por acaso o senhor quis ter e ela não quis te dar, é isso? – Uma voz embargada de escárnio saia da boca daquele encapuzado, enquanto o outro levantava-se raivosamente da cadeira, agarrando firme o pulso do sujeito e prensando sua mão contra a mesa.

_Cale-se, seu grande idiota! E não se atreva a pronunciar novamente meu nome, cretino! Apenas faça o que te mando fazer! Brinque a vontade com a garota, mas não a mate! Eu quero ter o prazer de vê-la moralmente arruinada, que desapareça do mundo mágico e sobreviva com isso!

O rapaz saiu às pressas do pub, mas ninguém se deu o trabalho de olhar sua saída. O outro sujeito que permanecia na mesa levou lentamente à boca um copo de uísque, virando todo o conteúdo num só gole, batendo com força o copo sobre a mesa. Levanta-se lentamente, deixando perto do copo vazio uma moeda de prata, retirando-se do recinto, resmungando:
_Covarde! Não tem metade da tenacidade que tem o pai! Nem o caráter!

Draco já havia livrado-se das vestes marrons e puídas que usou dentro de Hog's Head, distanciando-se um bom pedaço do pub pé-sujo. Estava visivelmente nervoso e precisava se controlar para ir procurar pelos amigos que estavam espalhados pelas lojas do povoado. Uma voz grave e fria, porém, interrompeu seu caminho. Cautelosamente se virou pra direção da voz, fazendo o possível para esconder seu nervosismo.

_Sr Malfoy, de onde está vindo? Não sabe que não deve permanecer longe de seus colegas?

_Pro-professeor Snape? O que faz por aqui?

_Como ousa me questionar e não responder minha pergunta, garoto? – Snape aproximava-se perigosamente de Draco, olhando fixamente para os olhos acinzentados dele, que parecia ter sido hipnotizado.

Alguns instantes se passaram até que Draco voltasse ao normal, balançando a cabeça para espantar algumas imagens que lhe surgiam como um turbilhão a sua mente, olhando, desta vez decidido, para o professor.

_Desculpe-me, Prof Snape. Eu só estava procurando por Zabini e...

_Tudo bem, Sr Malfoy. Pode continuar seu caminho. Apenas não se meta em encrencas.

_T-tá, professor! Obrigado! – Draco pôs-se a correr, tentando se distanciar o mais rápido possível de Snape. Mesmo que o professor sempre o apoiasse, ele ainda o temia, principalmente quando ele fixava aqueles olhos negros, que pareciam ver dentro de sua alma!

Snape apenas ficou onde estava, dirigindo um olhar sério ao garoto, até que ele desaparecesse de sua vista. Intimamente, lamentava que o garoto estivesse tomando um rumo tão errado em sua vida. Pelo jeito, seria impossível lutar contra o sangue Malfoy... Deixando suas lamentações de lado, pôs-se a caminho do centro comercial, precisava evitar o que o garoto havia planejado.

_Onde estaria aquela garota estúpida? Espero que esteja com seus bravos amiguinhos...

Hermione e Crookshanks andavam tranqüilamente por uma ruazinha calçada com pedras irregulares, cercada de casas que, a primeira vista, pareciam simples casas trouxas, puxadas mais para o estilo colonial. Havia uma árvore em frente a cada casa, o que deixava a rua sombreada e fresca, com leves perfumes que se misturavam harmoniosamente. Muitas casas tinham as fachadas em pedras, algumas eram totalmente em madeira. Todas tinham belos jardins muito bem cuidados. Não sabia se era ainda muito cedo ou se todos os moradores estavam no centro do povoado, já que muitos ali trabalhavam no comércio local, mas raramente se encontrava algum morador fora de casa. Hermione apenas encontrou uma senhora muito idosa, que deveria ter mais de 100 anos, que fazia questão de varrer as folhas da calçada a moda trouxa, usando uma velha e gasta vassoura de palha. Hermione a conhecia, assim como conhecia a maioria dos moradores dali, principalmente as velhas senhoras bruxas, que gostavam muito da menina. Ficou alguns minutos conversando com a simpática velhinha, que era muito risonha, embora não tivesse mais muitos dentes para mostrar.

Crookshanks estava muito excitado com o passeio, sentia-se uma criancinha que nunca saia do apartamento. Tudo era tão novo e tão conhecido aos seus olhos. Ali o tempo parecia ter parado, apenas algumas coisas eram novas; algumas fachadas, algumas casas que "cresceram", as árvores estavam muito mais altas e frondosas. De vez em quando corria de uma calçada a outra, dava saltinhos para pegar uma borboleta ou fadinha que passava voando rasante, como se quisesse provocá-lo. Hermione ria das gracinhas do gato, jamais havia visto ele assim tão feliz. Quando o felino percebia que a menina observava, dirigia-lhe um olhar muito luminoso e davam uns miadinhos alegres.

Estavam chegando ao final da rua, que formava uma bifurcação. De um lado, continuava uma nova fila de casa, do outro era o bosque e mais adiante o rio. O silêncio era tão ensurdecedor, que era possível ouvir a correnteza e o farfalhar da vegetação.

O coraçãozinho do gato disparava ainda mais com a aproximação daquele local. Lembrava-se que era por ali que ficava a casa que morou há mais de vinte anos. Hermione tomava o rumo do bosque, mas Crookshanks correu em direção a ruela de casas. A menina o chamou, mas ele estava tão entretido com o momento que nem sequer a ouviu, ela não teve outra opção a não ser seguí-lo, para ver onde queria chegar.

Algumas casas lhe pareciam as mesmas de duas décadas atrás. Uma ou duas estavam totalmente reformadas. Uma ou outra parecia abandonada. Ainda lembrava-se dos detalhes daquela rua como se tivesse passado por ela ontem mesmo. Seu coração não parava de acelerar com a proximidade de sua casa. Viu um chalé em madeira escura, sabia que era esse chalé vizinho de sua casa, mas passou correndo pelo terreno vazio ao lado dele, chegando até outra cabana em madeira, até que parou confuso. Hermione vinha correndo em sua direção, ofegante por carregar a mochila nas costas. Ela parecia brava, mas não falou nada com ele. A menina percebeu a confusão do gato, como se procurasse por algo. Ele voltou e parou de frente para o terreno entre a cabana e o chalé e ficou sentado ali, observando.

O terreno era cercado por uma pequena cerca de madeira já velha e com alguns pedaços desabados. Havia muitas plantas rasteiras que se agarravam na cerca. No centro do terreno havia um imenso arbusto de Ruta Graveolens, carregada de pequenas flores amarelas. À frente do terreno, onde seria a entrada, uma grande pedra branca de forma triangular. Fora isso, não havia mais qualquer vegetação ou vestígios de construção no terreno, que era totalmente árido. Hermione percebeu que o gato olhava tristemente para o terreno vazio e sombrio, uma corrente de ar fria parecia circular por aí.

_Qual o seu interesse aí, Crookshanks? – o gato olhou para sua dona, com certa confusão e tristeza nos olhos.

_Esse lugar provavelmente fora a moradia de bruxos das trevas... talvez mesmo de Comensais da Morte. Quando Voldemort caiu pela primeira vez, muitos de seus seguidores tiveram suas casas totalmente destruídas. Os terrenos foram limpos dos destroços e em alguns foram plantados pés de Ruta Graveolens, como esse daí. A energia maligna de certos lugares era tanta que jamais voltou a brotar vida neles... veja como o ar daqui é frio e o terreno arenoso, nem sequer a terra ali está viva. Pela cultura popular, Ruta Graveolens ou Arruda, serve para afugentar e dissipar o mal... a pedra branca de forma cônica tem o mesmo sentido e serve para barrar a entrada de mais energia maligna, por isso fica disposta a entrada do local, além de canalizar a energia negativa do terreno, enviando-a para se dissipar no espaço... bem, são superstições, no mundo trouxa tem muito disso também.

Hermione dá meia volta e vai em direção de onde veio, afim de pegar a trilha no bosque até o rio. Anda alguns metros e percebe que o gato ainda estava diante do terreno, virando-se para chamá-lo:

_Vamos, Shanks! Ainda temos muita coisa para ver por aqui... – a garota dava um leve tapa na própria perna, para chamar ainda mais a atenção do gato.

Crookshanks ainda deu uma última olhada triste para o terreno, suspirando e saindo de cabeça baixa, andando vagarosamente até a menina... "_não devia ter esperado mais que isso, mesmo..."

Hermione se abaixa, passando a mão pela cabeça do bichando, a fim de consolá-lo. O que será que teria ali para deixá-lo tão triste? Crookshanks era mesmo um animal muito misterioso...

_Ah, Shanks, não fique assim... tem muitas coisas bonitas para vermos por aqui, esqueça aquilo... sabe, gostaria muito que você pudesse me falar o que se passa nessa cabecinha, tenho certeza que tem muito a contar! Mas, vamos que a hora não pára pra nos esperar.

"_... e você nem sequer imagina o quanto gostaria de poder falar com você... este é o meu maior desejo, Hermione..."

Fim do Capítulo VII – continua...
By Snake Eyes – 2004

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Capítulo 6 – Primeiro Fim de Semana Em Hogsmeade

O primeiro fim de semana em Hogsmeade do novo ano letivo estava próximo e, como de praxe, um burburinho muito animado tomava conta do Salão Comunal da Grifinória, principalmente entre os alunos do 3º ano, que iriam pela primeira vez ao povoado onde só habitavam bruxos. Todos estavam muito animados, alguns extasiados até demais, exceto porém, pelos alunos de 1º e 2º anos que não tinham permissão para o passeio e se mostravam extremamente aborrecidos e enciumados com a alegria exagerada dos colegas mais velhos, mas não tanto quanto a Monitora Chefe da Grifinória, Hermione Granger. No seu caso, estava apenas extremamente aborrecida com a baderna, que não conseguia dar cabo. Gostava de aproveitar os minutos que tinha antes da sua ronda noturna para ler algum livro, rever alguma matéria ou fazer o dever de casa, coisas completamente impossíveis de serem feitas com toda aquela bagunça lhe tirando toda a atenção e dando-lhe dor de cabeça.

Embora gostasse muito do povoado, Hermione há muito tempo deixara de se importar com o passeio, ficando no castelo a maioria das vezes, estudando, revendo matérias, aproveitando os jardins do castelo com seu gato quando o tempo permitia ou, simplesmente, para aproveitar toda a tranqüilidade que tomava conta de Hogwarts, tranqüilidade esta que ela tanto apreciava.

Gostava muito de ver as novidades no povoado, parar com os amigos no bar 3 Vassouras, comprar os doces na DedosDeMel... mas, desde o ano anterior, isso havia se tornado inviável, pois não tinha mais companhia para desfrutar desses lugares tão legais. Harry e Rony sempre marcavam com alguma garota e ficavam a tarde toda no Café de Madame Puddifoot; Gina, se não estava com algum namorado, estava com as amigas da mesma turma; Neville sempre estava com os outros garotos do 7º ano, quando também não estava com alguma namorada da Lufa-Lufa... enfim, a grande sabe-tudo Hermione Granger, a aluna exemplar e monitora-chefe perfeita, ficava totalmente sozinha, sem qualquer companhia para passear e se divertir no vilarejo. Por outro lado, das diversas vezes que ficou sobrando, aproveitou para conhecer outro lado do povoado, um lado que ninguém se interessava em conhecer, o lado estritamente residencial e suas belezas naturais, como prados, morros, bosques, uma pracinha muito bonitinha e muito bem cuidada que ficava escondida entre as casas, longe do burburinho do centro comercial. Se ela tivesse novamente a companhia de seus amigos, levaria-os para conhecer essas maravilhas que havia descoberto... se tivesse um namorado, certamente não perderia seu tempo em bares e cafés super lotados, nada pessoais e barulhentos. Havia lugares muito gostosos e realmente românticos para se namorar em Hogsmeade, que não fosse num capitalista centro comercial tumultuado de adolescentes bruxos. Sonhava até, algum dia, comprar uma casa perto do rio que desembocava montanha abaixo, margeado por uma mata densa de um lado e que se perdia floresta adentro. Um lugar divino, em sua opinião, de um silêncio que jamais ouvira, uma paz muito fácil de alcançar... mas, nesse momento, tudo o que queria era estar bem longe desse tumulto e falatório sobre Hogsmeade, que já estava tirando-a do sério!

Fechando o livro com rudeza, levanta-se da sua poltrona preferida que fica em frente à lareira. Crookshanks, que a acompanhava silenciosamente, pula de seu colo e já se adianta aos pés da escadaria que leva aos dormitórios femininos, pois já sabia que era pra lá que sua dona pretendia rumar. Ele simplesmente odiava aquela empolgação toda, aquelas risadinhas, aquele falatório exasperado, o "calor humano" que se formava naquele salão. Não fosse por Hermione, ela estaria em qualquer lugar de Hogwarts que não tivesse qualquer alma viva. Aliás, ele ainda só suportava essa tortura de estar em Hogwarts, que lhe trazia uma amargura imensa por esfregar em sua cara uma condição que não poderá nunca mais desfrutar, por causa de Hermione Granger. Por ela, arderia a eternidade no fogo do inferno... que, de certa forma, seu inferno era Hogwarts e todas as lembranças que esse lugar lhe trazia. Não que alguma vez a Escola de Magia e Bruxaria tenha lhe sido ruim, muito pelo contrário, e é aí que mais incomodava. Ele jamais teria de volta sequer o eco daquela época...

Hermione subiu correndo a escadaria, acompanhada do gato em seu encalço. Seus amigos estavam tão entretidos em seus planos para o próximo sábado, que nem sequer repararam que ela havia se retirado. Entrou em seu dormitório e jogou-se pesadamente na cama, deitando aos pés da mesma de modo que pudesse ver o céu noturno estrelado pela janela aberta próxima. Mantinha-se quieta. Crookshanks subia na cama, colocando-se ao lado da dona, observando atentamente aquele rosto bonito banhado pela luz fria da lua crescente que adentrava o dormitório. Fora o burburinho do Salão Comunal, não parecia que mais nada havia perturbado Hermione, que mantinha seu semblante sereno e até mesmo com o esboço de um sorriso, enquanto observava atentamente a lua através das janelas de vitrais abertas.

Felizmente, o orgulho de Malfoy não permitiu que a fofoca sobre o ocorrido entre ele e o gato na sala de Snape se espalhasse por todo o castelo. Obviamente ele não permitiria que seus amigos comentassem uma palavra sequer e Severus e Filch, claro, também não diriam nada, não por qualquer respeito ou consideração pelo garoto Malfoy, mas porque não é do feitio de ambos. Isso permitiu que Hermione não viesse a saber do caso, embora, muito provavelmente, ela daria pulos de alegria... bem, talvez fosse interessante que apenas ela ficasse sabendo da história que a deixaria muito satisfeita. Mas é melhor que fique como está, sem ninguém, além dos presentes naquele momento, saber que o gato da monitora chefe da Grifinória bateu de frente com Draco Malfoy, o futuro grande comensal da morte, como Severus falou.

Por outro lado, isso era preocupante. Ele bem sabia da dupla atividade de Severus Snape, como espião da Ordem da Fênix e falso Comensal da Morte, então ele estava a par de tudo que rondava nesse meio, inclusive sabia quem eram os tais cinco novos comensais que ali estudavam. O estranho disso tudo é que o garoto Malfoy ainda não o era, principalmente sendo filho de quem era, Lucius, que ele sabia muito bem que este era o comensal mais fiel e importante de Voldemort... então, algo realmente grande nas trevas aguardava o garoto Malfoy. Por precaução, o melhor era mesmo se prevenir, pois tinha certeza que o loiro aguado iria se vingar da sua insolência "_Provavelmente tentarão me matar a pauladas ou, ainda, me fazer de cobaia para experiência com feitiços... bem, nada que não tenha passado e me safado, mas a menina..."

Crookshanks olhou fixamente para o rosto de Hermione, que percebeu o interesse do felino. Com um sorriso, Hermione carinhosamente passou a mão pelo dorso do gato, puxando-o levemente para que deitasse sobre seu peito, apoiando a cabeça no ombro da garota como se fosse um bebezinho. Enquanto um braço envolvia o gato, a outra mão acariciava sua cabeça. Nesta hora, todas as preocupações esvaíram da mente do felino. Aquele carinho, aconchego, calor e perfume de lírios o deixavam tão leve e extasiado como se experimentasse um nirvana. Certamente, ele devia muita à Hermione. Depois que a menina entrou em sua vida há quatro anos, tudo se tornou muito mais suportável, sua condição se tornou até mesmo agradável. Jamais fora tratado com tanto afeto em toda a sua vida, fosse de um jeito ou de outro. Jamais soube o que é receber um carinho e atenção. Jamais sequer imaginou ser possível alguém se dedicar a algo sem esperar absolutamente nada em troca. Hermione lhe mostrou um outro lado da moeda, uma outra forma de vida possível e, por mais incrível que pareça, fora justamente o tipo de pessoa que ele tanto desprezava que o mostrou isso e que, em outra época, talvez ele a tratasse da mesma forma ou ainda pior que o garoto Malfoy, por exemplo. Um leve tremor passou por seu corpo, que o fez arranhar levemente a veste da menina e apertar os olhos. "Não, o que importa é este momento! E é tudo muito diferente... já se foram vinte anos! Hermione é a benção que eu não mereço..."

_Estava pensando numa coisinha e acho que você vai gostar, Shanks...

Hermione sussurrava ao gato sem desviar os olhos da janela aberta.

O gato virou apenas a cabeça, para tentar ver o rosto da dona... Hermione parecia contente com alguma coisa.

_Faz tempo que não vou à Hogsmeade... estou com um pouquinho de saudade de passear pela pracinha e pelo bosque, ver aquelas casinhas, o rio... e você nunca esteve lá, né? O que é culpa minha, já que nunca o levei...

Hermione levantava-se, pondo-se sentada na cama, colocando o persa imenso sentado ao seu lado. Olhava-o com um sorriso, acariciando a cabeça do gato, que a fitava com curiosidade.

_Neste sábado, quando teremos a primeira visita à Hogsmeade do ano, levarei você junto, Shanks, para que conheça o vilarejo... e para brincar num lugar diferente dos jardins de Hogwarts. Lá, pelo menos, podemos passear por entre a mata, há um bosque com trilhas, coisa que não podemos fazer na floresta daqui. E você poderá exercitar um pouco seus instintos e pescar uns peixinhos lá no rio...

O gato respondeu com um ronronar e roçando a cabeça no braço da menina. Era o seu jeitinho de dizer que aprovara a idéia. "Já estava cheio daqui mesmo e... faz tantos anos que não vou ao vilarejo que deve ser como uma primeira vez". Uma coisa do que aquele gato não poderia reclamar era que sua dona o deixava trancado em casa. Mesmo nas férias, quando Hermione viajava com os pais para diversos lugares, Crookshanks também ia curtir as férias e as viagens.

_Já está na hora da minha ronda... e aí, Shanks? Vai ou fica?

Hermione já se adiantava quando Crookshanks pulou da cama e foi aos saltinhos para perto da dona, visivelmente mais animado, afinal, iria rever Hogsmeade depois de duas décadas e, talvez, até encontrassem a casa onde viveu quando jovem. Seria mesmo um sábado e tanto!

Faltavam apenas mais trinta minutos para o fim da ronda de Hermione, que caminhava pelos corredores desertos silenciosamente. Crookshanks a acompanhava adiantado, para prever qualquer coisa antes que chegasse de surpresa até sua dona. Ele sempre se mantinha atento a tudo e agora o fazia ainda mais; temia alguma brincadeira de mau gosto por parte do garoto Malfoy, querendo se vingar do que aconteceu na sala de Severus. Ouviram passos se aproximando. Enquanto Hermione ficava em prontidão para flagrar a aparição de quem quer que fosse, Crookshanks apenas revirava suas orelhas, sentando-se e esperando o dono dos passos surgir na esquina do corredor. Pela excelente audição de felídeo, Shanks já sabia de quem se tratava.

Severus Snape surgia após a curva do corredor, vindo também de sua ronda, embora aqueles corredores não fossem de sua jurisdição. Hermione respirou fundo, segurando o fôlego. Nunca era bom cruzar com o Prof Snape, pois qualquer mínima vacilada iam-se pontos da Grifinória. Seu corpo inteiro gelou como se tivesse sido jogada numa piscina de gelo quando viu seu gato, todo animadinho, levantar-se e correr até o professor, roçando-lhe as pernas. Por um momento, Hermione desejou ter um infarto ali mesmo, pois, só assim, talvez, ela conseguisse se livrar do carão que tomaria e dos pontos que a casa perderia!

Se antes ela apenas desejou sofre um infarto, agora tinha certeza que estava preste a ter um, com o que acabava de presenciar. Nem em seus sonhos mais nonsenses presenciaria tal acontecimento. Snape apenas sorriu para o bichano que roçava-lhe as pernas, abaixando-se um pouco para alcançar uns tapinhas no lombo de Shanks. O gato, muito satisfeito, retribui com um miado manhoso e volta correndo para junto de sua dona. A garota, por sua vez, permanecia estática como uma estátua... poderia-se até jurar que seu coração e respiração haviam parado.

_Está se sentindo mal, Srta Granger? Está pálida como um fantasma... minha súbita aparição a assusta tanto assim? Talvez não fosse apropriado a senhorita ser uma monitora chefe, fazendo essas rondas...

Snape já estava apenas alguns metros próximo à garota. Um sorrisinho sarcástico desenhava em seu rosto.

Ao ouvir sobre a sua inapropriação como monitora chefe, Hermione parecia ter acordado daquele estado petreficado.

_N-não pro-professor... é que... é que... o Shanks!

Gaguejando, a menina parou uns instantes, engolindo seco e se controlando para encarar o temível professor.

_Me desculpe professor! Eu não esperava que Crookshanks agisse dessa forma, ele nunca faz isso, juro! Ele só se comporta assim com alguns dos meus colegas e eu não esp...

Hermione, ainda nervosa, foi interrompida com um sinal de Snape, que parecia se divertir com o nervosismo da menina.

_Acalme-se, senhorita. Digamos que o felino e eu somos "velhos conhecidos"... ele costuma passar algumas horas na minha sala nas masmorras.

A menina, com surpresa, leva a mão na boca, para abafar um gritinho. Seus olhos estão arregalados e sente algum suor escorrer por sua testa.

_Pe-perdão, professor! E-eu não sabia disso! Vou dar um jeito para que isso não se repita, eu prometo!

_E me privará de companhia tão agradável, senhorita? Gatos são muito interessantes e excelentes companhias. Não se preocupe com isso, a presença do felino não me aborrece. Mas a senhorita deve ficar alerta com outros que também admiram o bichano...

_C-como assim, professor?

Crookshanks dá uma olhada apreensiva para Severus, tendo a certeza de que ele se referia ao incidente com o garoto Malfoy. Gostaria que Severus contasse a Hermione o que aconteceu e lhe aconselhasse a ter cautela... mas duvidava muito que o faria. Para dizer isso somente, ele teria que dizer muito mais. Conhecendo Severus como conhecia, tinha quase certeza de que ele próprio estaria por perto de sua dona caso haja algum problema por parte de Malfoy, ao menos era o que esperava, já que era mais certo o garoto se ferrar nas mãos de Hermione que o inverso...

_Digamos que o seu gato não seja muito apreciado por todos... da mesma forma que a senhorita não é.

Com um sorrisinho mordaz, Snape prossegue sua caminhada, com a capa se esvoaçando as suas costas. Hermione enxuga com as costas da mão o suor da testa, suspirando aliviada por finalmente se ver livre da presença do professor, embora esse encontro não tenha durado sequer cinco minutos. Mas é sempre muito bom sair ileso de um encontro com Snape, sem levar um fora qualquer ou perder alguns pontos. Mais calma, olha para baixo, na direção de Crookshanks, que está parado em pé, ao seu lado, olhando na direção onde o professor foi, balançando raivosamente sua grossa cauda.

_Gato... acho melhor você parar de aprontar por aí, ouviu? Não quero que ninguém lhe faça mal! Me doeria muito lhe ver machucado... e tenho pavor só de pensar em perder você! Comporte-se, por favor.

Crookshanks olhou muito surpreso para Hermione, com os olhos arregalados. Jamais alguém havia lhe dito isso... sabia que a menina gostava de si, mas ouvir tais palavras... tudo o que queria era abraçá-la com força neste momento, mas nem isso podia...

Como se tivesse lido os pensamentos do gato, Hermione ergue Crookshanks no colo, segurando-o como se fosse um bebê. O gato envolve como pode suas patinhas no pescoço da menina e deita sua cabeça no ombro dela. Apesar de tudo, estava muito feliz. Se era impossível mudar essa condição, ao menos tentaria vivê-la da melhor forma cabível e, nisso, Hermione o estava ajudando e muito.

_Vamos voltar para a Torre da Grifinória... a nossa ronda já está no fim mesmo, não há porque perambularmos por aí por mais alguns minutos. E você vai se comportar, gato! Já lhe disse isso outras vezes: mantenha-se longe de outras pessoas, é uma ordem!

Os dois rumaram para a Torre. Crookshanks ia aproveitando aquele momento tão singular. Aquelas palavras da menina ditas de forma tão preocupada e tão sincera ainda ecoavam em seu coração, preenchendo-lhe ainda mais. Talvez fosse essa a força necessária de que precisava para, enfim, quebrar essa maldição. Se o ódio não o fizera, talvez esse amor intenso o faria...

Fim do Capítulo VI – continua...
By Snake Eyes – 2004

Santa Tranqueira Magazine