sexta-feira, 15 de abril de 2011

Capítulo VIII – Do Céu Ao Inferno





A loja de doces Dedosdemel estava apinhada de adolescentes, como costuma ser todos os fins de semana que Hogwarts libera seus alunos para visitação ao povoado. Rony e Harry disputavam caixas de diversos tipos de doces, quando esbarram em alguém, derrubando algumas caixas. Prontamente Harry pede desculpas à pessoa com quem esbarrou, até levantar os olhos ao rosto do sujeito, vendo de quem se tratava.


_Você nunca presta atenção em nada, Potter? – Troçava Draco, com um sorrisinho mau nos lábios.

_Infelizmente não, Malfoy... se eu soubesse que era você, cretino, teria te acertado com força!

_Eeh, concordo... – Draco falava monotonamente, olhando sem interesse pra multidão de alunos dentro da loja, passando a mão pelos cabelos platinados. _... se fosse mais atencioso, perceberia que seus amiguinhos poderiam precisar da ajuda do São Potter para salvá-los de encrencas...

_O que ta querendo dizer, Malfoy? – Rony voou para cima de Draco, agarrando-o pela gola da camiseta.

_Como ousa, Weasley? Está amarrotando minha blusa! E você fede, cara! Nem grana pra sabonete e pasta de dentes você tem?

Antes que Rony, Harry e Draco caíssem numa briga pra valer dentro da loja, um homem velho e muito parrudo aparece diante dos três, com um olhar flamejante. Pelo uniforme, deveria ser um dos funcionários da loja. Não precisou esboçar um movimento além de apontar o dedo para a porta da loja, ordenando numa voz grave e letal que saíssem dali. Os três garotos saíram imediatamente, quase correndo.

A Profª McGonagall e o Prof Snape estavam próximos à loja, observando o movimento dos alunos. Harry, Rony e Draco deram de cara com os dois professores, que os olhavam inquisitivamente, enquanto o homem que os expulsou da loja permanecia em pé diante da porta, como um leão de chácara, a fim de se certificar que os garotos não voltariam.

_Potter, Weasley e Malfoy! O que fizeram para serem expulsos da Dedosdemel? – Perguntava irritada a professora Minerva.

_N-nós? Na-nada, professora! Malfoy que fez escândalo porque demos um esbarrãozinho sem querer nele. – Harry gaguejava sem se desviar dos olhos da professora, apontando para Draco com o polegar.

_Sem querer? E desde quando o que ocorre entre vocês é sem querer, Potter?

_Mas é verdade, professora! – Rony estava rubro diante da injustiça. Era sempre assim, Malfoy aprontava e eles que levavam a culpa! _A loja está muito cheia e... e...

Rony se vira para Draco, que continua olhando a todos de forma tediosa.

_... Mione está certa! Malfoy precisa de tratamento psiquiátrico! O que você quis dizer para Harry prestar atenção nos amigos em perigo, Malfoy? Está nos ameaçando de alguma coisa, desgraçado?

Harry e McGonagall seguram Rony, que tentava partir para cima de Draco novamente. Snape, por sua vez, apenas detém Draco segurando no ombro do garoto e olhando letalmente para Harry e Rony.

_Onde está a Srta Granger? É quase inacreditável ver o 'time dos sonhos' desfalcado, não acham?

Os três, McGonagall, Harry e Rony pararam por instantes, tentando assimilar aquela pergunta tão fora do contexto do momento, até que Harry acha ter percebido a intenção de Snape.

_Há, como sempre... querendo defender seu aluno preferido, Snape? Acha que bolamos algum plano sórdido para pegá-lo e Mione está de tocaia em algum lugar para isso? Lembre-se que os sonserinos aqui são vocês!

Snape ia avançar pra cima de Harry, com uma expressão terrível no rosto pela insolência do garoto, quando Minerva intercedeu.

_Potter e Weasley! Desapareçam daqui imediatamente e não se metam mais em encrencas por hoje! Teremos uma longa conversa mais tarde, quando retornarmos para o castelo!
Harry e Rony trataram de obedecer imediatamente a professora, sumindo da vista de todos em frações de segundo. Snape parecia ainda mais furioso com a intromissão de Minerva. Draco tentava sair de mansinho, sem ser percebido.

_E você, Sr Malfoy, também terá uma conversa comigo! A sua cara de anjo não convence a ninguém. E o senhor, Severus, não precisa se estressar com tais alunos! Eu mesma tomarei as devidas providências que já devia ter tomado há anos com esses três. Não vamos estragar nosso dia de folga, não é mesmo?

_Tem razão, Minerva... Draco faça o mesmo que seus amigos e desapareça! Desta vez não intercederei a seu favor, meu caro!

*

Alheia a tudo isso, estava Hermione a caminhar tranqüilamente a margem do rio, desfrutando da paz do local. As águas corriam pelo fundo de pedras, fazendo um chiar tranqüilizante. O vento que deslizava pela vegetação balançava levemente as copas das árvores, como se fosse câmera lenta. O silêncio era quase etéreo e ouviam-se sussurros distantes de aves, do vento sobre as plantas, do correr das águas, dos galhos das árvores se chocando e roçando uns aos outros. Insetos passavam carregados pela brisa. Pássaros piavam alegremente pulando de um galho a outro; outros pareciam caçar sobre o rio. Brilhos difusos do sol atravessavam o entrelaçamento de folhas, fazendo desenhos diversos na grama, de luz e sombras. Era um lugar simplesmente perfeito, um pedaço de paraíso, se assim podia-se dizer.

Hermione abandonou a mochila num canto, deitando sobre a grama, admirando as diversas formas e tonalidades das altas copas das árvores. Crookshanks divertia-se com as folhas que caiam sobre a água. Nenhuma sombra de preocupação passava mais por suas cabeças. Era impossível sentir-se preocupado, triste ou entediado num lugar como aquele.

Crookshanks percebeu que sua dona havia deitado sobre a relva e foi até ela, jogando-se de barriga para cima e apoiando a cabeça no colo da menina, que riu pelo gato se deitar como ela e ficar olhando para cima.

_Você é mesmo muito engraçado, gatinho... daqui a pouquinho vamos comer, já que nem tomamos café da manhã ainda... vamos passar o dia inteiro aqui e mais tarde a gente vê se encontra Harry e Rony por aí.

O gato respondeu com um miadinho, fechando os olhos em seguida. Era um ótimo lugar para dormir: fresquinho e silencioso.

*

Longe dali, não muito tranqüilos, estavam Rony e Harry, que a essa altura já haviam se esquecido do encontro que teriam no 3 Vassouras. Estavam furiosos com Draco Malfoy, por tê-los metido numa bela encrenca. Temiam e tinham certeza que boa coisa não sairia daquela conversa com Mcgonagall. Estavam ainda mais irritados em acharem que Malfoy teria saído ileso dessa, por causa do idiota do Snape. Mas Rony não estava enrubrecido da cabeça aos pés apenas por causa disso, também estava preocupado com a suposta ameaça de Draco.

_Ainda estou encanado com aquela conversinha do Malfoy... o que ele quis dizer para você prestar atenção se seus amigos correm perigo?

_Apenas uma ameaça idiota e gratuita, como tudo que costuma vir de Draco Malfoy. Vai me dizer que você ainda tá preocupado com isso, Rony?

Rony parou, colocando-se em frente a Harry. Ele realmente estava apreensivo, o que demonstrava claramente em sua expressão.

_Harry! Esqueceu o que aconteceu logo cedo, entre a Mione e Malfoy? E se ele estiver aprontando alguma para ela? A Mione tá lá sozinha no meio do mato! Se acontecer alguma coisa a ela, não terá ninguém para ajudar! Aquilo lá ficar deserto a maioria do tempo!

_Mas, Rony... Malfoy está por aqui e ele nem deve saber onde a Mione se meteu, pode achar até que ela voltou pra escola depois daquela ceninha dele...

_Você tem certeza do que tá dizendo? Acredita mesmo nisso? Malfoy é vil, peçonhento, sonserino! Acha mesmo que ele não aprontaria para a Mione?

_Tem razão! Então vamos procurá-la! Diremos a ela que aceitamos o convite para o piquenique, não precisamos aborrecê-la com essa história, ok?

_Falô! Vamos nessa então!

*

Snape andou por todos os lados possíveis de serem freqüentados pelos alunos. Procurava por lugares onde atraiam mais a atenção de meninas, como lojas de vestiário, perfumaria, joalheria. Acabava de sair da livraria de Hogsmeade e não havia encontrado qualquer indício da Srta Granger. Estava furioso e exausto da procura. Cogitava abandonar a garota a própria sorte, afinal, ela já se metera em tantas agruras acompanhadas de seus amigos irresponsáveis, que saberia como lhe dar com uma situação de perigo, ainda mais se tivesse que enfrentar uma única pessoa...

_O que você está pensando, Severus... ela é só uma criança e está sozinha! Talvez ela não tenha muitas chances contra um comensal! Maldito Draco! O que passa na cabeça daquele moleque para pagar um comensal para... meu deus! Preciso encontrar essa menina! Aquele homem irá barbarizá-la!

Severus andava a passos largos sem prestar atenção ao seu redor. Se não havia encontrado a Srta Granger no centro comercial, talvez devesse procurá-la em local mais afastado. Havia uma praça no povoado onde muitos casais costumavam ir, afastando-se do tumulto para um pouco de privacidade. Intimamente torcia para que a garota estivesse acompanhada de alguém, isso poderia até desencorajar a ação do comensal. Estava tão distraído com suas hipóteses, que não percebeu e esbarrou em alguém, derrubando pacotes ao chão.

_Oh, perdão senhorita! – Snape abaixava-se para pegar os pacotes do chão. Lilá se encolheu ao ver em quem esbarrou na sua amiga, esta, por sua vez, abriu um largo sorriso, um tanto provocante.

_Não se preocupe, professor. Não foi nada. Eu também estava muito distraída.

Snape apenas assentiu e saiu sem outras respostas. Lilá e Parvati notaram que o professor estava muito estranho. Parvati, que tinha uma queda TAMBÉM por Snape, não queria perder a oportunidade de trocar mais algumas palavras com ele fora daquele ambiente de escola e, talvez ser-lhe útil... afinal, para tudo precisa-se de um começo.

_Prof Snape... está tudo bem com o senhor? O senhor parece preocupado, se pudermos ajudar em algo...

Lilá levou as mãos à boca, com olhos arregalados para Parvati. Será que a amiga estava surtando também?

Snape parou e virou-se, fitando por breves instantes as duas garotas. Não era hora para ser orgulhoso, precisava de informações.

_A Srta Granger? Sabem onde ela se encontra?

As duas meninas olhavam uma para a outra. Definitivamente, não era essa resposta que Parvati esperava ouvir.

_O que, professor?

_A Srta Granger, onde ela está? Dois alunos de sua casa aprontaram e a Srta Granger, sendo a monitora-chefe, precisa tomar algumas providências!

Mesmo achando aquilo estranho e se aborrecendo por ter se lembrado da existência da Granger, Parvati responde com certo mau modo.

_Ah, sim, Granger... não sei ao certo, mas parece que ela foi acampar ou qualquer coisa que o valha. Parece que ouvimos Rony e Harry reclamando algo, de que a Granger preferiu ficar no meio de casas e mato ao invés de ficar com eles... é, acho que é isso.

Snape cogitou a possibilidade por alguns instantes e era aquilo que ele havia imaginado, não encontrando a Srta Granger em nenhum lugar do centro. Virou-se e seguiu seu caminho, sem dizer qualquer palavra a mais para as duas garotas, que ficaram olhando-o partir, atônitas.

*

Hermione estendia a canga no chão, onde preparava os lanches que iriam comer. Crookshanks apenas observava curioso os movimentos da dona, que parecia muito contente. Mas o silêncio e a tranqüilidade do lugar foi rompida por um estalo alto e forte, como se algo se arrebentasse no ar. Com o susto, Hermione deixou cair uma garrafa com suco, molhando a canga e parte dos comíveis. Buscou por sua varinha para limpar aquela bagunça e depois procurar saber de onde viera tal barulho, quando foi alertada pelo gato, que se ouriçou todo e soltava silvos baixos. Hermione sentiu seu coração gelar quando ouviu uma voz grossa e tediosa lhe falar. Alguém havia aparatado ali, neste momento.

_Uma mocinha tão linda como você não deveria ficar num lugar tão isolado como esse... pode ser muito perigoso, princesa!

Hermione armava-se, mas estava tremula pelo susto e pela tensão. Se fosse menos ingênua, teria acertado o homem naquele instante, mas a menina não tinha a maldade ou destreza necessária para isso.

_O que você quer? Se chegar mais perto eu...

_Você o quê, sangue-ruim? EXPELLIARMUS!

Um raio dourado saiu da varinha do sujeito, acertando Hermione no peito e jogando-a para trás, enquanto sua varinha voa até as mão do homem. Crookshanks corre até sua dona, para certificar-se que ela está bem.

*

Enquanto isso, Rony e Harry correm pelas ruas calçadas de pedras irregulares, cercada de casas e árvores. Ambos estão com mau pressentimento e estão apreensivos. Resmungam o tempo inteiro algo como "Onde está a Mione?" ou "Por que não viemos junto com ela?". Eles param próximos a uma casa feita de pedras, para tomarem fôlego, pois estavam correndo desde que saíram do centro, há quase um quilometro, pelo menos.

_Nós não podemos parar Harry! E se a Mione estiver em perigo?

_Eu sei, Rony! Eu sei! Mas nem vimos sinal dela ainda! A Hermione pode estar em qualquer lugar! Não parece, mas Hogsmeade é grande, entende?

Enquanto recuperavam o fôlego, uma velhinha saia no portão de uma casa próxima, carregando uma cesta de batatas que estava descascando. Muito sorridente, dirigi-se aos meninos.

_Olá, mocinhos! Estão procurando pela mocinha de cabelos encaracolados?

Harry arregala os olhos e se adianta, quase levando as mãos aos ombros da velhinha para chacoalhá-la.

_Sim, sim, estamos! A senhora a viu? Sabe onde está?

_Sim... é uma ótima menina, muito boazinha mesmo...

_É, é, é sim! Mas a senhora sabe onde ela está? Por favor! Talvez ela esteja em perigo!

_Oh! Mas quem faria mal a uma mocinha tão graciosa como ela?

_Alguém muito mau, senhora! – Rony chegou junto, agarrando os ombros da velhinha miúda, que o olhou assustada. _Diga onde Hermione está! Para onde ela pode ter ido!

_Por Merlin! Isso pode mesmo acontecer? Oh, não, pobre menina...

_Vamos embora, Harry! Essa velha não sabe de nada!

Harry e Rony quase voltavam a correr quando a velhinha gritou para eles numa voz esganiçada e quase falhando!

_Eu sei, sim, jovens petulantes! A mocinha deve estar próxima ao rio! Ela disse que faria um piquenique lá!

_E onde fica esse rio? – perguntava bravio, Harry.

_Deixa, eu sei onde fica! Vamos logo! – Rony o puxava pela manga da camiseta.

A velhinha ajeitava a cesta ao corpo, muito embravecida com os dois garotos, entrando para sua casa.

_Jovens mal-educados! Que petulância! Não sabe tratar uma velha bruxa? Ah seu eu estivesse com minha varinha aqui...

*

Ao ser jogada para trás pelo feitiço expelliarmus, Hermione se machuca um bocado nos braços. Crookshanks mira enraivecido o homem, que se aproxima lentamente com um sorriso de escárnio no rosto parcialmente coberto por um capuz. O gato põe-se em posição de ataque e solta altos silvos em sua direção. O homem apenas gargalha com aquela cena patética. Hermione procura por coisas no chão para tentar se defender, mas tudo que encontra são pequenos galhos podres e algumas pedras polidas, também pequenas.

_VAI PRO INFERNO! – Hermione atira uma pedra, que acerta na boca do homem, fazendo-a sangrar. _SAI DAQUI SHANKS! BUSQUE AJUDA!

Crookshanks sabia que muito pouco poderia fazer contra aquele homem que parecia ser quase duas vezes maior que um homem normal. Então desviou-se dele, a fim de buscar ajuda. Seu coração batia muito rápido que lhe doía as costelas! Sentia como se algo inflasse dentro de si, diante daquela situação horrenda: Hermione em grave perigo e a sua impotência em poder ajudá-la, estando ele preso naquele corpo pequeno e sem poderes mágicos. Hermione precisava fugir, precisavam ganhar tempo para encontrar ajuda!

Hermione havia se levantado, escondendo uma pedra nas mãos. Precisava fugir! Estava sozinha e sem sua varinha! O que aquele homem iria fazer com ela?

Vendo que Hermione estava em posição alerta, Crookshanks pôs-se a correr, desviando-se do homem que tentara chutá-lo. Mas ao ver que o homem alcançou Hermione em dois passos, ele estancou o movimento.

Quando o homem estava próximo de si, quase agarrando-a pelo braço, Hermione juntou toda a sua força e golpeou-o com a pedra, fazendo-o cair diante de si, com um jorro de sangue caindo de sua testa. Hermione tentou escapar, mas ao pular sobre o homem que impedia seu caminho, este agarrou-a pela barra da calça fazendo-a cair, machucando-se muito na queda sobre os galhos de árvore e pedras.

O homem agarrou-a pelos braços virando-a para cima e montando sobre ela. Ele apertava tanto seus braços que sentia que poderia quebrá-los.

_Ah, leoazinha selvagem, heim? É por isso que me pagaram tão bem para brincar contigo!

Não ouve tempo para resposta. Crookshanks voou com garras e presas sobre a cabeça do homem, cravando suas garras dolorosamente em seu rosto! O que ele queria era acertar o pescoço do maldito, se conseguisse rasgar a jugular do sujeito, não teriam mais o que temer. Mas seu corpo estava muito bem protegido pela veste de tecido rústico e grosso, mesmo assim, o gato fez um belo estrago no homem, acertando-lhe um dos olhos.

O homem urrou de dor, agarrando Crookshanks e jogando-o para longe, rasgando ainda mais sua própria pele do rosto. O gato caia de pé, quando se preparava para nova investida. Mas o homem era muito rápido em suas reações e apontou a varinha para o bichano:

_AVADAKEDAVRA!

_HARRY! Você ouviu isso?

_AH, meu deus! Alguém.. alguém gritou a kedavra?

Os dois garotos estancaram no movimento, olhando atônitos um para o outro. Os olhos de Harry enchiam-se de lágrimas... seria possível?

Snape, próximo à praça do vilarejo, sentiu um calafrio, sentiu como se um raio finíssimo atravessasse sua cabeça. Alguém havia usado uma maldição imperdoável, uma maldição das trevas. Sem pensar duas vezes, desaparata para o lugar onde supõe que seja.

Nunca subestime os reflexos de um felino, eles não seriam caçadores por excelência e o topo da cadeia alimentar se fossem fáceis de serem pegos. Crookshanks, que já estava em posição de ataque, desvia-se velozmente do raio verde que vinha em sua direção, acertando uma pequena árvore atrás de si, secando-a na hora. Preparava nova investida contra o homem, quando ouve Hermione gritar e se debater, tirando sua concentração.

_NÃOOO! SHANKS! MALDITO! SAIA DAQUI, DESGRAÇADO! – No mesmo momento em que grita, Hermione se debate furiosamente para escapar, mas o sujeito, muito mais forte que ela, agarra-a pelo pescoço, prensando-a contra o chão, enquanto mantém a varinha apontada para o gato.

_CRUCIUS!

Crookshanks, que havia se distraído com Hermione, é pego em cheio, caindo e se contorcendo em dores atrozes no chão forrado de folhas secas, miando alto e forte, de dor e agonia.

O homem larga sua varinha e leva a outra mão ao pescoço de Hermione, apertando-o ainda mais. Debruça-se sobre ela, olhando-a insandecidamente com um sorriso sádico no rosto rasgado e ensangüentado. Gotas de sangue caem sobre o colo e rosto da menina, que tenta lutar em vão contra o homem. O sujeito lhe apertava tão forte o pescoço que sentia que iria quebrá-lo e seu ar já começava a faltar.

_Muito bem pago é o caralho! Aquele Malfoy vai me pagar muito caro por isso! Agora, vagabunda, vai morrer lenta e dolorosamente! E terei o prazer de fazê-lo com minhas próprias mãos!

Crookshanks ainda estava caído no chão, sentindo seu corpo sofrendo de várias câimbras ao mesmo tempo, como se seus ossos fossem se quebrar a qualquer momento. Mas ao conseguir abrir os olhos viu algo que fez seu coração parar: Hermione havia sido estrangulada! Seu corpo estava inerte no chão. Aquele homem monstruoso dava risadas altas e esganiçadas, como se fosse um louco.

Ao ver aquela cena, Crookshanks sentiu-se caindo num abismo. Sua vista se turvou e sentia seu coração bater tão rápido que apenas ouvia suas próprias batidas. Seu sangue esquentou nas veias. Sua cabeça começou a latejar num turbilhão. Algo que estava inflando dentro de seu peito parecia que iria explodir naquele mesmo momento!

Harry e Rony chegaram naquele mesmo instante. Pararam estupefatos. Não conseguiam acreditar no que viam: Hermione morta no chão sob um homem vestido de farrapos e Crookshanks caído todo torto, logo próximo. Quando os dois caíram na real e foram correndo na direção de Hermione, uma forte pressão os impediu. Snape aparatava ali neste mesmo instante e também foi surpreendido pela pressão. Um redemoinho de nuvens negras formava em volta de Crookshanks, que espalhava folhas e galhos para todos os lados, atraindo a atenção de todos, inclusive do assassino.

_Isso é magia negra! Magia negra poderosa!

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Fim do Capítulo VIII – continua...
By Snake Eyes – 2004

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Capítulo VII – A Casa Que Não Existe Mais

Hermione arrumava sua mochila de passeio, colocando alguns utensílios ali dentro, como toalha de mão, uma canga para forrar o chão, cantil, alguns potes fechados com comíveis, duas tigelinhas de plástico com desenho do Garfield, além de outras coisinhas de garotas, como nécessarie, presilhas, filtro solar. Vestia-se de forma despojada como uma simples trouxa, com o trio sagrado tênis-jeans-camiseta e um casaco leve de moletom amarrado na cintura. Havia prendido suas madeixas num rabo de cavalo, formando vários caracóis pendentes, alguns soltos, dando um ar ainda mais jovial à menina. Estava sentindo-se feliz por finalmente ir à Hogsmeade, depois de tanto tempo, principalmente por agora ter uma companhia, pois levaria seu gato, Crookshanks, pela primeira vez ao povoado. Seria um sábado bastante divertido, ao menos era o que cogitava. Além do mais, queria ver as casas por lá, pois pensava seriamente em comprar ou alugar algo por ali, já que no próximo ano não estaria mais estudando em Hogwarts. Bom, era apenas um sonhozinho, que talvez levasse ainda muito tempo para realizar. Afinal, não iria começar a trabalhar tão logo, pois ainda iria cursar a faculdade. E, com certeza, demoraria ainda muito tempo juntar o dinheiro... talvez seus pais pudessem lhe ajudar, mas não sabia se eles teriam condição para comprar uma outra casa...
Crookshanks mantinha-se escondido sob as cortinas da cama de dossel de Hermione, desde o incidente com Parvati Patil. Ele não queria complicar ainda mais as coisas, então dava-se ao trabalho de passar despercebido pelo maior números de pessoas possíveis naquele castelo, acatando inteiramente a ordem de sua dona, de evitar as pessoas. O gato estava sentado, olhando vigorosamente para sua dona, com a cauda irrequieta, demonstrando toda a sua ansiedade com o passeio. Queria muito poder rever a casa onde viveu por quase três anos, logo que chegou com a família à Inglaterra. Era provável que a casa nem mais existisse, mas, pelo menos, gostaria de poder rever o lugar. Mas, o mais importante, era estar com sua dona e poder passar um dia inteiro em sua companhia, o que é algo bastante difícil durante o ano letivo.
Outras colegas de dormitório também estavam se arrumando, mas ao contrário de Hermione, Lilá e Parvati mais pareciam que iam a alguma festa do que num simples passeio ao vilarejo. Ambas usavam vestidos com um corte um pouco ousado, deixando bastante evidente suas curvas. As duas meninas, apesar de muito sebosas, eram também muito bonitas, mas não tanto quanto Hermione, que desbancaria qualquer garota de Hogwarts se ousasse um pouco em sua vestimenta... isso, fazia apenas nos bailes, onde mostrava a todos o quanto era deslumbrante.
_Vai acampar, Granger? – Falava Parvati, sarcasticamente. Lilá apenas dava risadinhas furtivas.
_E vocês? Vão a alguma festa? Na idade de vocês, ainda se empolgam com Hogsmeade? Se fossem sangues-ruins, eu até entenderia, mas as duas são puros-sangues e esse negócio de povoado mágico nem deveria ter a mínima atenção de ambas... – Retrucava Hermione, já levando sua mochila de algodão cru às costas.
_Nós duas temos um encontro, querida... sabe como é, né?
_Bom, na verdade não, mas, mesmo assim, desejo sorte aos seus pares... acho que vão precisar! Vamos, Shanks!
Hermione já alcançava a porta quando o gato pulou de sua cama correndo em direção a dona. Parvati e Lilá quase caíram de costa, se esquivando do bicho, soltando, as duas, gritinhos. Nesta mesma hora, uma outra menina, que também dividia o dormitório com elas, saia do banheiro, carregando uma toalha dobrada nas mãos.
_Ah, peraí, Grager! Não me diga que você vai levar esse monstro contigo para Hogsmeade? – Parvati fazia uma cara de nojo.
_Tá ok, não digo! Tchauzinho! Espero não encontrar vocês por lá!
Hermione saia pela porta com o gato em seu encalço, que ainda dirigiu um olhar mordaz pras garotas, que perceberam e tiveram um leve tremor. Quando Hermione fechou a porta do dormitório atrás de si, Parvati soltou uma bela gargalhada, assustando Lilá e a outra menina.
_HAHAHAHA! NÃO ACREDITO! Coitada! Tá surtando de vez!
_É mesmo o fim da picada! A Granger vai para Hogsmeade em companhia daquele gato horroroso! Ah, tadinha, Parvati... deveríamos fazer alguma coisa por ela... – falava e ria sarcasticamente Lilá Brown.
_O quê? Dar-lhe um coleira anti-pulgas de presente? Ou mandá-la para St Mungus? Ah, por favor, a garota pirou de vez, né?
_Nossa, como vocês são maldosas... – dizia a menina que havia saído do banho. _Coitada da Granger, vocês deveriam é ajudá-la e não tratá-la desse jeito... ela deve se sentir muito excluída por ser como é...
_...por ser sangue-ruim ou por ser uma sebosa intragável e mandona? – Parvati havia parado de rir, levando as mãos à cintura, impaciente. _Qual é, Anne? A Granger é insuportável, metida! Se ela soubesse qual seu devido lugar, não se exibiria por aí, se achando a melhor de todos!
_Pode até ser que tenha razão, Patil... mas é muito compreensível a forma como ela age. Ela já está em muita desvantagem em ser trouxa, então ela deve se sentir obrigada a fazer tudo em dobro para se equiparar a nós e ach...
_Tá, tá legal, Anne! Mas isso não muda o fato...
_... o fato da Granger tá ficando louquinha de pedra, hihihi! – Lilá completou e as duas caíram na gargalhada novamente. Quanto a Anne, apenas lhes dirigiu um olhar indignado e foi cuidar da sua própria vida.
_Você endoidou de vez, Mione? Vai levar Crookshanks pra Hogsmeade?
_Até você, Harry? O que tá havendo com todo mundo? Qual é o problema de eu levar meu gato pra passear? Já se esqueceu que nós trouxas costumamos levar nossos bichos de estimação pra passeios? Passou a maior parte da vida com os trouxas e não sabe disso, Harry Potter?
Hermione, Crookshanks em seu colo, Harry e Rony caminhavam pelo corredor principal, indo em direção aos jardins, onde tomariam as carruagens rumo ao vilarejo. Rony e Harry, apesar de falarem algumas grosserias sem querer, estavam muito preocupados com a amiga.
_Bom, bruxos também fazem isso, mas... – Rony abrira a boca pela primeira vez, depois de se recompor da surpresa, mas estava muito preocupado com Mione, talvez ela precisasse de algum tratamento em St Mungus.
_... acontece que o gato só vai te atrapalhar e duvido que deixem você entrar nas lojas com ele.
_Ah, sim, mas não pretendo entrar em loja nenhuma... vou dar um passeio com Crookshanks pela área residencial de Hogsmeade, ir na pracinha, fazer um piquenique no bosque... será muito agradável, bem que vocês dois poderiam vir conosco... – Hermione já se esquecera totalmente das grosserias de seus "amigos" e "amigas" e sorria ante a lembrança dos lugares. Crookshanks apenas olhava crucificadamente para Rony e Harry.
_Só você mesma pra querer ver casa e mato, Mione... além do mais, marcamos um encontro em grupo no 3 Vassouras... se você quiser ir, mas vai ter que largar esse gato aí. Aproveita que ainda estamos no castelo.
_Oh, muito obrigada pelo convite tardio, Harry Potter. Pelo visto, andaram planejando o tal encontro e nem sequer se lembraram de me convidar antes! Mas fico feliz que tenha me convidado em última hora, se compadecendo de minha insanidade!
Hermione apertou o passo, tomando a dianteira e saindo rapidamente do castelo, sem dar chance de resposta aos garotos, que a olhavam atônitos.
_Sinceramente, Harry... acho que estamos tratando muito mal a Mione... isso é falta de consideração!
_Fazer o que, Rony? Não somos nós que estamos desconsiderando ela; é ela própria que tem se afastado de nós... ela só pensa em estudo, livros, monitoramento, NIEM, carreira! Tá certo que temos que fazer isso, mas a Mione é maníaca obsessiva! É difícil ajudar alguém que não admite ajuda!
Por alguma sorte, Hermione foi na carruagem acompanhada de Luna Lovegood da Lufa-Lufa, Neville Longbotton e Gina Weasley. Os três não costumavam implicar com ela, então não pegaram no seu pé por causa de Crookshanks. Este, por sua vez, derretia-se em carinhos no colo de Gina, que o adorava, e de vez em quando, brincava com Luna. Neville, que ia acompanhado de Trevor, seu sapo de estimação, contava sobre a última tentativa de Snape envenená-lo na aula, salvo em última hora por Mione. Quanto à monitora-chefe, falava pela milionésima vez para que ele parasse de levar o sapo pra aula de poções, se ele tinha algum amor ao bicho. Conselho que entrava e saída pelos ouvidos do menino.
Ao chegar no povoado, os terminais de desembarque das carruagens estavam apinhados de estudantes de Hogwarts, para desespero de funcionários e de alguns professores que acompanhavam os alunos, entre eles McGonagall e Snape – para desespero ainda maior de alguns alunos! Hermione esperou que o terminal esvaziasse um pouco para sair com Crookshanks, temendo que o gato se assustasse com tanto alvoroço. Os três colegas que a acompanharam na carruagem, já tinham seus programas prontos e se adiantaram, deixando a menina sozinha. Mas, desta vez, ela não se importava nem um pouco se teria ou não a companhia de qualquer um deles... afinal, ela não poderia deixar de fazer as coisas que gosta só por não ter quem a acompanhasse. Um dia, quem sabe, ela encontrasse amigos que apreciassem as mesmas coisas que ela? Aí ela não estaria mais tão sozinha...
Mas não estava tão sozinha quanto imaginou. Um sorriso se alastrou por seu rosto ao ver Harry e Rony correrem em sua direção... será que eles teriam decidido acompanhá-la na caminhada pelo povoado? Poderiam fazer, os quatro, um belo piquenique no bosque, já que providenciara comíveis o suficiente para todos, prevendo algo do tipo; seria só comprar uns reforços na Dedosdemel e no 3 Vassouras...
_Oi, Mione! Vejo que trouxe mesmo o Crookshanks... – falava ofegante Harry, mas sorridente.
_É, viemos tentar te convencer a ir ao 3 Vassouras conosco, mas pelo jeito não vai dar... a menos que encontremos um lugar pra deixar o gato. – Rony falava um pouco mais ofegante que Harry.
_Não! Claro que não! Eu prometi a Shanks que o traria para passear aqui em Hogsmeade. Largá-lo em qualquer lugar só pra ir num boteco que tô cansada de ver e olhar pras mesmas caras conhecidas é sujeira! Agora, se vocês quiserem, pode vir conosco... será divertido!
_Ah, muito obrigado, Mione! Obrigado mesmo! Você prefere andar com esse gato aí do que passar o tempo com seus amigos? Isso quer dizer que está de saco cheio da nossa cara, não é? – Rony estava rubro e os olhos faiscando, por causa da desconsideração de Hermione para com eles. Como ela poderia ser tão falsa assim? Justo ela?
_Rony! Não exagera! Não foi isso que Mione falou... – Harry censurava o amigo, embora estive intimamente concordando com ele.
_Olha, tudo bem, não aconteceu nada... – Hermione tentava apaziguar a situação. Ela não poderia deixar que seu passeio fosse estragado logo de início! _Cada um de nós seguirá o que planejou e, mais tarde, se der, a gente se encontrar por aí pra saidera, tá legal?
Não querendo mais discutir com a amiga e também não querendo estragar o sábado, Rony e Harry apenas concordaram. Hermione, que segura o gato no colo, retribui com um sorriso e parte em direção oposta do centro comercial, satisfeita, com seus longos cachos amarrados balançando com suas passadas rápidas.
Mas o sábado só está começando e pelo jeito ele promete. De trás de uma grossa pilastra, sai Draco Malfoy, com um sorrisinho desagradável no rosto, um olhar de peixe morto e sua voz monótona e arrastada, interrompendo o caminho da menina.
_Oh, que comovente... a pobre sangue-ruim prefere passear com seu bichinho de estimação do que ficar com os amiguinhos... então os boatos são verdadeiros, Granger? Ou será que é uma libidinosa zoófila?
Hermione vira-se com tanta raiva para o garoto, que quase derruba uma menina que passava perto dela no momento. Crookshanks olhava o loiro platinado com tal ódio que, se lhe dessem uma varinha, certamente poderia mandar-lhe uma kedavra!
_Maldito seja, Malfoy! Você é um infeliz! Deveria procurar ajuda psiquiátrica, seu desgraçado! Como pode ser tão podre? – Hermione gritava, sem se importar com quem estava próximo. Até o gato olhou assustado pra garota, esquecendo-se momentaneamente da desagradável intromissão do garoto Malfoy. As poucas pessoas que ali ainda estavam, pararam assustadas diante da explosão de Hermione. Rony e Harry correram pra ver o que estava acontecendo.
_Tão pouco lhe afetou muito assim, é? Quer dizer que é verdade? Mas deveria encontrar lugares mais seguros pra essas práticas, sua trouxa! Esse seu amante – Draco apontava o gato, que Hermione segurava com tanta força que o impedia de voar no pescoço do garoto – não poderá fazer nada se alguma coisa ruim lhe acontecer, minha cara...
Hermione já ia com tudo pra cima de Draco numa bofetada, quando sua mão foi impedida a poucos centímetros do rosto do garoto, que se encolheu diante da rápida reação dela. Prof Snape, surgido do nada, segurava a mão de Hermione firmemente, olhando fuzilante para Draco, que se encolheu ainda mais com aquele olhar de Snape tão atípico para si. A súbita aparição do professor fez com que Rony e Harry freassem suas ações, que também iam com tudo pra cima de Draco.
_Sr Malfoy! É melhor que vá se divertir com seus amigos e esqueça um pouco suas desavenças. Não desperdice seu tempo com tolices como essas! – Snape falava gelidamente, como ninguém nunca tinha visto falar com qualquer um da Sonserina, embora fosse o tom típico que usava com os demais alunos, principalmente os da Grifinória.
Hermione estancou, olhando assustada para o professor, que ainda segurava seu pulso firmemente. Até mesmo o gato o olhava assustado, pois não tinha percebido nem sequer a aproximação de Severus. Draco apenas lançou um olhar de ódio à Hermione, sumindo na multidão logo em seguida.
_Muito cuidado por onde anda, Srta Granger. Não fique muito longe de outras pessoas. – Snape falava friamente, sem sequer olhar para a menina; mantinha seu olhar fixo na direção em que Draco partiu. Largou o pulso dela, que estava esbranquiçado pela pressão. Tomou o rumo da maioria dos alunos, sumindo logo em seguida.
_Mione! Como você está? O que aquele imbecil queria? – Harry segurava Hermione pelos ombros, quase gritando com ela.
_Mione, é melhor ficar conosco! Esse imbecil pode querer aprontar alguma contigo! – Rony apertava o braço da menina.
_AI! Chega! Me larga! Draco não fez nada além do que é típico dele e duvido muito que ele tome alguma atitude mais enérgica do que defecar pela boca! E, agora mesmo, é que quero ficar bem longe de todo mundo depois desse escândalo! Qualquer coisa estarei lá pelos lados residenciais!
Hermione correu no sentido oposto à multidão de alunos, que já enchiam as ruas de pedras polidas do centro comercial de Hogsmeade. Crookshanks não via a hora da Hermione soltá-lo! Ela o comprimia tanto ao corpo que ele estava se sufocando.
Quando notou que já estava bastante distante de todos, parou para recuperar o fôlego. Deixou-se cair aos pés de uma grande árvore, soltando o gato do colo, que estava tão sem fôlego quanto ela. A menina levou as mãos aos olhos, tentando impedir as lágrimas, sem conseguir. Soluçava baixinho. Felizmente, não havia ninguém por perto, além de Crookshanks, que já havia recuperado seu fôlego e olhava sua dona com desespero. Não conseguia aceitar que haviam estragado a alegria de Hermione! Estava tudo tão certo, ela estava tão contente, como há muito tempo não via e, no entanto, tinha que ter aparecido aquele verme miserável para humilhá-la daquela forma, insultá-la de uma forma tão grotesca!
Porém, Crookshanks sabia que isso apenas aconteceu por conseqüência do ocorrido entre ele e o garoto Malfoy na sala de Severus, há dois dias. Obviamente que o garoto não se daria o trabalho de fazer algo contra ele, afinal, ele era um mero animal supostamente irracional, embora duvidava que o tal Draco o deixaria ileso dessa. E o garoto odiava sua dona, mesmo sem nunca ter entendido o porque de tamanho ódio, uma vez que a garota jamais lhe fez qualquer mal, e não acreditava que a diferença racial fosse um motivo tão forte a ponto de chegar a odiar alguém apenas por isso... "Ah, maldição, Nico! O moleque é um Malfoy! Uma das piores famílias bruxas do mundo, uma escória sem honra!"
Crooksnahks subiu no colo de sua dona, que estava sentada sobre as pernas. Sentia como se uma adaga de gelo atravessasse o seu coração, ao vê-la desta forma. Dava-lhe náusea só de se lembrar que, em parte, aquilo era sua culpa. Lambeu as lágrimas que escorriam pelas mãos de Hermione, fazendo-a despertar de seu pranto. Tirou lentamente as mãos do rosto, encarando os olhos amarelos com as pupilas fechadas em fendas do gato. Sentiu um arrepio ao ver novamente naqueles olhos uma expressão humana, sentia que seus olhos transmitiam dor, mágoa e culpa...? Apoiou suas patas dianteiras no peito da menina, erguendo-se até seu rosto. O felino começou a lamber o rastro de lágrimas que havia no rosto de Hermione, que fechou os olhos diante daquela sensação tão diferente e, o que era pior, boa! Crookshanks abraçava o pescoço da menina, mordiscando o lóbulo da orelha, descendo pela nuca. Uma imagem muito estranha se formou diante dos olhos cerrados de Hermione e a sensação que sentia era como se uma pessoa a abraçasse e a beijasse. A imagem era de um rapaz robusto, com cabelos muito claros e finos que caiam pelo rosto. Não conseguia ver o rosto do rapaz, que parecia trajar a capa negra do uniforme de Hogwarts, mas tinha plena certeza de jamais ter visto tal pessoa na vida.
Mesmo que tivesse parecido horas, passaram-se efêmeros segundos, até ser desperta de seu devaneio com aquelas palavras podres de Malfoy, chamando-a de libidinosa zoófila. Sem pensar duas vezes, empurra o gato para longe de si, apavorada. Crookshanks, percebendo o erro que cometeu e também lembrando-se das palavras do garoto, tentou consertar a situação, dando um miadinho inocente e triste para sua dona, que a fez voltar a si.
Hermione levou a mão à testa e começou a rir baixo, mas parecendo algo ensandecido. Onde havia parado todos os planos que tinha pr'aquele dia? Olhou de volta para o gato, que estava sentado envolto de sua cauda, observando-a tristemente. Por frações de segundos, a imagem do rapaz voltou novamente a anuviar-lhe a vista. Chacoalhou com raiva a cabeça, espantando aqueles pensamentos. Se estava mesmo surtando, não seria agora, justo naquele sábado maravilhoso de sol, céu azul e brisa fresca que iria procurar uma solução para isso. Havia planejado trazer seu gato para passear por Hogsmeade e até fazer um lanchinho no bosque, ver as casas, o rio, a pracinha central... e era isso que iriam fazer.
Enxugou o que restou de suas lágrimas, ajeitou seus cabelos e levantou-se, espanando algumas folhas secas que ficaram agarradas na perna da calça. Com um sorriso, embora seu olhar ainda fosse triste, aproximou-se do gato, agachando-se diante dele e levando a mão esquerda à cabeça do bichando, alisando-a.
_Me desculpe, Shanks! Eu quase estraguei o nosso passeio. Vamos fingir que nada aconteceu e vamos voltar ao nosso programão de sábado, ok? Definitivamente, o problema são esses infelizes de Hogwarts, não nós! Mas tudo bem está acabando, só resta alguns meses e ainda poderemos passar três semanas longe daqui nas férias de natal.
A garota se levantou e tomou a direção de seu rumo, chamando pelo gato para acompanhá-la, que ainda permanecia parado. Crookshanks estava olhando para todos os lados, farejando algo, tentando perceber se havia alguém por perto, mais especificadamente se havia o garoto Malfoy por perto. Ele não havia se esquecido da ameaça do loiro aguado e o alerta de Severus para Hermione, na plataforma de desembarque, o deixou intrigado. Sabia que Severus não gastava fôlego falando coisas à toa. Se Hermione não havia percebido nada, ele teria que tomar toda a precaução possível. Até achava melhor que ela não estivesse preocupada com mais isso, senão seu dia estaria realmente arruinado e ele bem sabia que sua menina merecia um bom relax.
*
No pub Hog's Head, os tipos mais estranhos e suspeitos lá se reuniam, contrapondo ao pessoal que freqüentava o 3 Vassouras. Se tinha algo de sigiloso para tratar, Hog's Head parecia o lugar ideal para isso, tanto que fora lá, no 5º ano de Hermione, que Harry se reuniu com vários outros alunos para tratarem de um plano para burlar a vigilância da sapa velha da Umbridge e passarem a treinar DCAT. Porém, era um ledo engano crer que tal pub oferecia o sigilo necessário para negócios escusos...
Esse engano, porém, passava despercebido para duas figuras encapuzadas que conversavam muito próximas uma da outra numa mesa nos fundos do recinto. As outras figuras presentes no pub não eram muito diferentes daqueles dois, pois pareciam que quase todos eram procurados da justiça, pois de alguma forma também ocultavam seus rostos e formas sob capas, capuzes, chapéus, faixas...
Um dos encapuzados da mesa dos fundos entregava ao outro um saquinho de couro, que tilintou ao cair na mesa diante do outro sujeito, que, por sua vez, abriu o saquinho, observando cuidadosamente o conteúdo e tirando de lá uma grande moeda de ouro. Levando a moeda a altura dos olhos, para observá-la melhor, a manga larga de sua veste deslizou até a altura do cotovelo, deixando a mostra uma tatuagem que lembrava um crânio com uma serpente saindo de sua boca.
_O senhor é mesmo muito generoso, Sr Malfoy... brincar com sangues-ruins eu faço até de graça, só por prazer... mas como o senhor tá pagando... deve mesmo odiar a garota, não? Por acaso o senhor quis ter e ela não quis te dar, é isso? – Uma voz embargada de escárnio saia da boca daquele encapuzado, enquanto o outro levantava-se raivosamente da cadeira, agarrando firme o pulso do sujeito e prensando sua mão contra a mesa.
_Cale-se, seu grande idiota! E não se atreva a pronunciar novamente meu nome, cretino! Apenas faça o que te mando fazer! Brinque a vontade com a garota, mas não a mate! Eu quero ter o prazer de vê-la moralmente arruinada, que desapareça do mundo mágico e sobreviva com isso!
O rapaz saiu às pressas do pub, mas ninguém se deu o trabalho de olhar sua saída. O outro sujeito que permanecia na mesa levou lentamente à boca um copo de uísque, virando todo o conteúdo num só gole, batendo com força o copo sobre a mesa. Levanta-se lentamente, deixando perto do copo vazio uma moeda de prata, retirando-se do recinto, resmungando:
_Covarde! Não tem metade da tenacidade que tem o pai! Nem o caráter!
Draco já havia livrado-se das vestes marrons e puídas que usou dentro de Hog's Head, distanciando-se um bom pedaço do pub pé-sujo. Estava visivelmente nervoso e precisava se controlar para ir procurar pelos amigos que estavam espalhados pelas lojas do povoado. Uma voz grave e fria, porém, interrompeu seu caminho. Cautelosamente se virou pra direção da voz, fazendo o possível para esconder seu nervosismo.
_Sr Malfoy, de onde está vindo? Não sabe que não deve permanecer longe de seus colegas?
_Pro-professeor Snape? O que faz por aqui?
_Como ousa me questionar e não responder minha pergunta, garoto? – Snape aproximava-se perigosamente de Draco, olhando fixamente para os olhos acinzentados dele, que parecia ter sido hipnotizado.
Alguns instantes se passaram até que Draco voltasse ao normal, balançando a cabeça para espantar algumas imagens que lhe surgiam como um turbilhão a sua mente, olhando, desta vez decidido, para o professor.
_Desculpe-me, Prof Snape. Eu só estava procurando por Zabini e...
_Tudo bem, Sr Malfoy. Pode continuar seu caminho. Apenas não se meta em encrencas.
_T-tá, professor! Obrigado! – Draco pôs-se a correr, tentando se distanciar o mais rápido possível de Snape. Mesmo que o professor sempre o apoiasse, ele ainda o temia, principalmente quando ele fixava aqueles olhos negros, que pareciam ver dentro de sua alma!
Snape apenas ficou onde estava, dirigindo um olhar sério ao garoto, até que ele desaparecesse de sua vista. Intimamente, lamentava que o garoto estivesse tomando um rumo tão errado em sua vida. Pelo jeito, seria impossível lutar contra o sangue Malfoy... Deixando suas lamentações de lado, pôs-se a caminho do centro comercial, precisava evitar o que o garoto havia planejado.
_Onde estaria aquela garota estúpida? Espero que esteja com seus bravos amiguinhos...
Hermione e Crookshanks andavam tranqüilamente por uma ruazinha calçada com pedras irregulares, cercada de casas que, a primeira vista, pareciam simples casas trouxas, puxadas mais para o estilo colonial. Havia uma árvore em frente a cada casa, o que deixava a rua sombreada e fresca, com leves perfumes que se misturavam harmoniosamente. Muitas casas tinham as fachadas em pedras, algumas eram totalmente em madeira. Todas tinham belos jardins muito bem cuidados. Não sabia se era ainda muito cedo ou se todos os moradores estavam no centro do povoado, já que muitos ali trabalhavam no comércio local, mas raramente se encontrava algum morador fora de casa. Hermione apenas encontrou uma senhora muito idosa, que deveria ter mais de 100 anos, que fazia questão de varrer as folhas da calçada a moda trouxa, usando uma velha e gasta vassoura de palha. Hermione a conhecia, assim como conhecia a maioria dos moradores dali, principalmente as velhas senhoras bruxas, que gostavam muito da menina. Ficou alguns minutos conversando com a simpática velhinha, que era muito risonha, embora não tivesse mais muitos dentes para mostrar.
Crookshanks estava muito excitado com o passeio, sentia-se uma criancinha que nunca saia do apartamento. Tudo era tão novo e tão conhecido aos seus olhos. Ali o tempo parecia ter parado, apenas algumas coisas eram novas; algumas fachadas, algumas casas que "cresceram", as árvores estavam muito mais altas e frondosas. De vez em quando corria de uma calçada a outra, dava saltinhos para pegar uma borboleta ou fadinha que passava voando rasante, como se quisesse provocá-lo. Hermione ria das gracinhas do gato, jamais havia visto ele assim tão feliz. Quando o felino percebia que a menina observava, dirigia-lhe um olhar muito luminoso e davam uns miadinhos alegres.
Estavam chegando ao final da rua, que formava uma bifurcação. De um lado, continuava uma nova fila de casa, do outro era o bosque e mais adiante o rio. O silêncio era tão ensurdecedor, que era possível ouvir a correnteza e o farfalhar da vegetação.
O coraçãozinho do gato disparava ainda mais com a aproximação daquele local. Lembrava-se que era por ali que ficava a casa que morou há mais de vinte anos. Hermione tomava o rumo do bosque, mas Crookshanks correu em direção a ruela de casas. A menina o chamou, mas ele estava tão entretido com o momento que nem sequer a ouviu, ela não teve outra opção a não ser seguí-lo, para ver onde queria chegar.
Algumas casas lhe pareciam as mesmas de duas décadas atrás. Uma ou duas estavam totalmente reformadas. Uma ou outra parecia abandonada. Ainda lembrava-se dos detalhes daquela rua como se tivesse passado por ela ontem mesmo. Seu coração não parava de acelerar com a proximidade de sua casa. Viu um chalé em madeira escura, sabia que era esse chalé vizinho de sua casa, mas passou correndo pelo terreno vazio ao lado dele, chegando até outra cabana em madeira, até que parou confuso. Hermione vinha correndo em sua direção, ofegante por carregar a mochila nas costas. Ela parecia brava, mas não falou nada com ele. A menina percebeu a confusão do gato, como se procurasse por algo. Ele voltou e parou de frente para o terreno entre a cabana e o chalé e ficou sentado ali, observando.
O terreno era cercado por uma pequena cerca de madeira já velha e com alguns pedaços desabados. Havia muitas plantas rasteiras que se agarravam na cerca. No centro do terreno havia um imenso arbusto de Ruta Graveolens, carregada de pequenas flores amarelas. À frente do terreno, onde seria a entrada, uma grande pedra branca de forma triangular. Fora isso, não havia mais qualquer vegetação ou vestígios de construção no terreno, que era totalmente árido. Hermione percebeu que o gato olhava tristemente para o terreno vazio e sombrio, uma corrente de ar fria parecia circular por aí.
_Qual o seu interesse aí, Crookshanks? – o gato olhou para sua dona, com certa confusão e tristeza nos olhos.
_Esse lugar provavelmente fora a moradia de bruxos das trevas... talvez mesmo de Comensais da Morte. Quando Voldemort caiu pela primeira vez, muitos de seus seguidores tiveram suas casas totalmente destruídas. Os terrenos foram limpos dos destroços e em alguns foram plantados pés de Ruta Graveolens, como esse daí. A energia maligna de certos lugares era tanta que jamais voltou a brotar vida neles... veja como o ar daqui é frio e o terreno arenoso, nem sequer a terra ali está viva. Pela cultura popular, Ruta Graveolens ou Arruda, serve para afugentar e dissipar o mal... a pedra branca de forma cônica tem o mesmo sentido e serve para barrar a entrada de mais energia maligna, por isso fica disposta a entrada do local, além de canalizar a energia negativa do terreno, enviando-a para se dissipar no espaço... bem, são superstições, no mundo trouxa tem muito disso também.
Hermione dá meia volta e vai em direção de onde veio, afim de pegar a trilha no bosque até o rio. Anda alguns metros e percebe que o gato ainda estava diante do terreno, virando-se para chamá-lo:
_Vamos, Shanks! Ainda temos muita coisa para ver por aqui... – a garota dava um leve tapa na própria perna, para chamar ainda mais a atenção do gato.
Crookshanks ainda deu uma última olhada triste para o terreno, suspirando e saindo de cabeça baixa, andando vagarosamente até a menina... "_não devia ter esperado mais que isso, mesmo..."
Hermione se abaixa, passando a mão pela cabeça do bichando, a fim de consolá-lo. O que será que teria ali para deixá-lo tão triste? Crookshanks era mesmo um animal muito misterioso...
_Ah, Shanks, não fique assim... tem muitas coisas bonitas para vermos por aqui, esqueça aquilo... sabe, gostaria muito que você pudesse me falar o que se passa nessa cabecinha, tenho certeza que tem muito a contar! Mas, vamos que a hora não pára pra nos esperar.
"_... e você nem sequer imagina o quanto gostaria de poder falar com você... este é o meu maior desejo, Hermione..."

Fim do Capítulo VII – continua...
By Snake Eyes – 2004

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Capítulo 7 – A Casa Que Não Existe Mais

Hermione arrumava sua mochila de passeio, colocando alguns utensílios ali dentro, como toalha de mão, uma canga para forrar o chão, cantil, alguns potes fechados com comíveis, duas tigelinhas de plástico com desenho do Garfield, além de outras coisinhas de garotas, como nécessarie, presilhas, filtro solar. Vestia-se de forma despojada como uma simples trouxa, com o trio sagrado tênis-jeans-camiseta e um casaco leve de moletom amarrado na cintura. Havia prendido suas madeixas num rabo de cavalo, formando vários caracóis pendentes, alguns soltos, dando um ar ainda mais jovial à menina. Estava sentindo-se feliz por finalmente ir à Hogsmeade, depois de tanto tempo, principalmente por agora ter uma companhia, pois levaria seu gato, Crookshanks, pela primeira vez ao povoado. Seria um sábado bastante divertido, ao menos era o que cogitava. Além do mais, queria ver as casas por lá, pois pensava seriamente em comprar ou alugar algo por ali, já que no próximo ano não estaria mais estudando em Hogwarts. Bom, era apenas um sonhozinho, que talvez levasse ainda muito tempo para realizar. Afinal, não iria começar a trabalhar tão logo, pois ainda iria cursar a faculdade. E, com certeza, demoraria ainda muito tempo juntar o dinheiro... talvez seus pais pudessem lhe ajudar, mas não sabia se eles teriam condição para comprar uma outra casa...

Crookshanks mantinha-se escondido sob as cortinas da cama de dossel de Hermione, desde o incidente com Parvati Patil. Ele não queria complicar ainda mais as coisas, então dava-se ao trabalho de passar despercebido pelo maior números de pessoas possíveis naquele castelo, acatando inteiramente a ordem de sua dona, de evitar as pessoas. O gato estava sentado, olhando vigorosamente para sua dona, com a cauda irrequieta, demonstrando toda a sua ansiedade com o passeio. Queria muito poder rever a casa onde viveu por quase três anos, logo que chegou com a família à Inglaterra. Era provável que a casa nem mais existisse, mas, pelo menos, gostaria de poder rever o lugar. Mas, o mais importante, era estar com sua dona e poder passar um dia inteiro em sua companhia, o que é algo bastante difícil durante o ano letivo.

Outras colegas de dormitório também estavam se arrumando, mas ao contrário de Hermione, Lilá e Parvati mais pareciam que iam a alguma festa do que num simples passeio ao vilarejo. Ambas usavam vestidos com um corte um pouco ousado, deixando bastante evidente suas curvas. As duas meninas, apesar de muito sebosas, eram também muito bonitas, mas não tanto quanto Hermione, que desbancaria qualquer garota de Hogwarts se ousasse um pouco em sua vestimenta... isso, fazia apenas nos bailes, onde mostrava a todos o quanto era deslumbrante.

_Vai acampar, Granger? – Falava Parvati, sarcasticamente. Lilá apenas dava risadinhas furtivas.

_E vocês? Vão a alguma festa? Na idade de vocês, ainda se empolgam com Hogsmeade? Se fossem sangues-ruins, eu até entenderia, mas as duas são puros-sangues e esse negócio de povoado mágico nem deveria ter a mínima atenção de ambas... – Retrucava Hermione, já levando sua mochila de algodão cru às costas.

_Nós duas temos um encontro, querida... sabe como é, né?

_Bom, na verdade não, mas, mesmo assim, desejo sorte aos seus pares... acho que vão precisar! Vamos, Shanks!

Hermione já alcançava a porta quando o gato pulou de sua cama correndo em direção a dona. Parvati e Lilá quase caíram de costa, se esquivando do bicho, soltando, as duas, gritinhos. Nesta mesma hora, uma outra menina, que também dividia o dormitório com elas, saia do banheiro, carregando uma toalha dobrada nas mãos.

_Ah, peraí, Grager! Não me diga que você vai levar esse monstro contigo para Hogsmeade? – Parvati fazia uma cara de nojo.

_Tá ok, não digo! Tchauzinho! Espero não encontrar vocês por lá!

Hermione saia pela porta com o gato em seu encalço, que ainda dirigiu um olhar mordaz pras garotas, que perceberam e tiveram um leve tremor. Quando Hermione fechou a porta do dormitório atrás de si, Parvati soltou uma bela gargalhada, assustando Lilá e a outra menina.

_HAHAHAHA! NÃO ACREDITO! Coitada! Tá surtando de vez!

_É mesmo o fim da picada! A Granger vai para Hogsmeade em companhia daquele gato horroroso! Ah, tadinha, Parvati... deveríamos fazer alguma coisa por ela... – falava e ria sarcasticamente Lilá Brown.

_O quê? Dar-lhe um coleira anti-pulgas de presente? Ou mandá-la para St Mungus? Ah, por favor, a garota pirou de vez, né?

_Nossa, como vocês são maldosas... – dizia a menina que havia saído do banho. _Coitada da Granger, vocês deveriam é ajudá-la e não tratá-la desse jeito... ela deve se sentir muito excluída por ser como é...

_...por ser sangue-ruim ou por ser uma sebosa intragável e mandona? – Parvati havia parado de rir, levando as mãos à cintura, impaciente. _Qual é, Anne? A Granger é insuportável, metida! Se ela soubesse qual seu devido lugar, não se exibiria por aí, se achando a melhor de todos!

_Pode até ser que tenha razão, Patil... mas é muito compreensível a forma como ela age. Ela já está em muita desvantagem em ser trouxa, então ela deve se sentir obrigada a fazer tudo em dobro para se equiparar a nós e ach...

_Tá, tá legal, Anne! Mas isso não muda o fato...

_... o fato da Granger tá ficando louquinha de pedra, hihihi! – Lilá completou e as duas caíram na gargalhada novamente. Quanto a Anne, apenas lhes dirigiu um olhar indignado e foi cuidar da sua própria vida.

_Você endoidou de vez, Mione? Vai levar Crookshanks pra Hogsmeade?

_Até você, Harry? O que tá havendo com todo mundo? Qual é o problema de eu levar meu gato pra passear? Já se esqueceu que nós trouxas costumamos levar nossos bichos de estimação pra passeios? Passou a maior parte da vida com os trouxas e não sabe disso, Harry Potter?

Hermione, Crookshanks em seu colo, Harry e Rony caminhavam pelo corredor principal, indo em direção aos jardins, onde tomariam as carruagens rumo ao vilarejo. Rony e Harry, apesar de falarem algumas grosserias sem querer, estavam muito preocupados com a amiga.

_Bom, bruxos também fazem isso, mas... – Rony abrira a boca pela primeira vez, depois de se recompor da surpresa, mas estava muito preocupado com Mione, talvez ela precisasse de algum tratamento em St Mungus.
_... acontece que o gato só vai te atrapalhar e duvido que deixem você entrar nas lojas com ele.

_Ah, sim, mas não pretendo entrar em loja nenhuma... vou dar um passeio com Crookshanks pela área residencial de Hogsmeade, ir na pracinha, fazer um piquenique no bosque... será muito agradável, bem que vocês dois poderiam vir conosco... – Hermione já se esquecera totalmente das grosserias de seus "amigos" e "amigas" e sorria ante a lembrança dos lugares. Crookshanks apenas olhava crucificadamente para Rony e Harry.

_Só você mesma pra querer ver casa e mato, Mione... além do mais, marcamos um encontro em grupo no 3 Vassouras... se você quiser ir, mas vai ter que largar esse gato aí. Aproveita que ainda estamos no castelo.

_Oh, muito obrigada pelo convite tardio, Harry Potter. Pelo visto, andaram planejando o tal encontro e nem sequer se lembraram de me convidar antes! Mas fico feliz que tenha me convidado em última hora, se compadecendo de minha insanidade!

Hermione apertou o passo, tomando a dianteira e saindo rapidamente do castelo, sem dar chance de resposta aos garotos, que a olhavam atônitos.

_Sinceramente, Harry... acho que estamos tratando muito mal a Mione... isso é falta de consideração!

_Fazer o que, Rony? Não somos nós que estamos desconsiderando ela; é ela própria que tem se afastado de nós... ela só pensa em estudo, livros, monitoramento, NIEM, carreira! Tá certo que temos que fazer isso, mas a Mione é maníaca obsessiva! É difícil ajudar alguém que não admite ajuda!

Por alguma sorte, Hermione foi na carruagem acompanhada de Luna Lovegood da Lufa-Lufa, Neville Longbotton e Gina Weasley. Os três não costumavam implicar com ela, então não pegaram no seu pé por causa de Crookshanks. Este, por sua vez, derretia-se em carinhos no colo de Gina, que o adorava, e de vez em quando, brincava com Luna. Neville, que ia acompanhado de Trevor, seu sapo de estimação, contava sobre a última tentativa de Snape envenená-lo na aula, salvo em última hora por Mione. Quanto à monitora-chefe, falava pela milionésima vez para que ele parasse de levar o sapo pra aula de poções, se ele tinha algum amor ao bicho. Conselho que entrava e saída pelos ouvidos do menino.

Ao chegar no povoado, os terminais de desembarque das carruagens estavam apinhados de estudantes de Hogwarts, para desespero de funcionários e de alguns professores que acompanhavam os alunos, entre eles McGonagall e Snape – para desespero ainda maior de alguns alunos! Hermione esperou que o terminal esvaziasse um pouco para sair com Crookshanks, temendo que o gato se assustasse com tanto alvoroço. Os três colegas que a acompanharam na carruagem, já tinham seus programas prontos e se adiantaram, deixando a menina sozinha. Mas, desta vez, ela não se importava nem um pouco se teria ou não a companhia de qualquer um deles... afinal, ela não poderia deixar de fazer as coisas que gosta só por não ter quem a acompanhasse. Um dia, quem sabe, ela encontrasse amigos que apreciassem as mesmas coisas que ela? Aí ela não estaria mais tão sozinha...

Mas não estava tão sozinha quanto imaginou. Um sorriso se alastrou por seu rosto ao ver Harry e Rony correrem em sua direção... será que eles teriam decidido acompanhá-la na caminhada pelo povoado? Poderiam fazer, os quatro, um belo piquenique no bosque, já que providenciara comíveis o suficiente para todos, prevendo algo do tipo; seria só comprar uns reforços na Dedosdemel e no 3 Vassouras...

_Oi, Mione! Vejo que trouxe mesmo o Crookshanks... – falava ofegante Harry, mas sorridente.

_É, viemos tentar te convencer a ir ao 3 Vassouras conosco, mas pelo jeito não vai dar... a menos que encontremos um lugar pra deixar o gato. – Rony falava um pouco mais ofegante que Harry.

_Não! Claro que não! Eu prometi a Shanks que o traria para passear aqui em Hogsmeade. Largá-lo em qualquer lugar só pra ir num boteco que tô cansada de ver e olhar pras mesmas caras conhecidas é sujeira! Agora, se vocês quiserem, pode vir conosco... será divertido!

_Ah, muito obrigado, Mione! Obrigado mesmo! Você prefere andar com esse gato aí do que passar o tempo com seus amigos? Isso quer dizer que está de saco cheio da nossa cara, não é? – Rony estava rubro e os olhos faiscando, por causa da desconsideração de Hermione para com eles. Como ela poderia ser tão falsa assim? Justo ela?

_Rony! Não exagera! Não foi isso que Mione falou... – Harry censurava o amigo, embora estive intimamente concordando com ele.

_Olha, tudo bem, não aconteceu nada... – Hermione tentava apaziguar a situação. Ela não poderia deixar que seu passeio fosse estragado logo de início! _Cada um de nós seguirá o que planejou e, mais tarde, se der, a gente se encontrar por aí pra saidera, tá legal?

Não querendo mais discutir com a amiga e também não querendo estragar o sábado, Rony e Harry apenas concordaram. Hermione, que segura o gato no colo, retribui com um sorriso e parte em direção oposta do centro comercial, satisfeita, com seus longos cachos amarrados balançando com suas passadas rápidas.

Mas o sábado só está começando e pelo jeito ele promete. De trás de uma grossa pilastra, sai Draco Malfoy, com um sorrisinho desagradável no rosto, um olhar de peixe morto e sua voz monótona e arrastada, interrompendo o caminho da menina.

_Oh, que comovente... a pobre sangue-ruim prefere passear com seu bichinho de estimação do que ficar com os amiguinhos... então os boatos são verdadeiros, Granger? Ou será que é uma libidinosa zoófila?

Hermione vira-se com tanta raiva para o garoto, que quase derruba uma menina que passava perto dela no momento. Crookshanks olhava o loiro platinado com tal ódio que, se lhe dessem uma varinha, certamente poderia mandar-lhe uma kedavra!

_Maldito seja, Malfoy! Você é um infeliz! Deveria procurar ajuda psiquiátrica, seu desgraçado! Como pode ser tão podre? – Hermione gritava, sem se importar com quem estava próximo. Até o gato olhou assustado pra garota, esquecendo-se momentaneamente da desagradável intromissão do garoto Malfoy. As poucas pessoas que ali ainda estavam, pararam assustadas diante da explosão de Hermione. Rony e Harry correram pra ver o que estava acontecendo.

_Tão pouco lhe afetou muito assim, é? Quer dizer que é verdade? Mas deveria encontrar lugares mais seguros pra essas práticas, sua trouxa! Esse seu amante – Draco apontava o gato, que Hermione segurava com tanta força que o impedia de voar no pescoço do garoto – não poderá fazer nada se alguma coisa ruim lhe acontecer, minha cara...

Hermione já ia com tudo pra cima de Draco numa bofetada, quando sua mão foi impedida a poucos centímetros do rosto do garoto, que se encolheu diante da rápida reação dela. Prof Snape, surgido do nada, segurava a mão de Hermione firmemente, olhando fuzilante para Draco, que se encolheu ainda mais com aquele olhar de Snape tão atípico para si. A súbita aparição do professor fez com que Rony e Harry freassem suas ações, que também iam com tudo pra cima de Draco.

_Sr Malfoy! É melhor que vá se divertir com seus amigos e esqueça um pouco suas desavenças. Não desperdice seu tempo com tolices como essas! – Snape falava gelidamente, como ninguém nunca tinha visto falar com qualquer um da Sonserina, embora fosse o tom típico que usava com os demais alunos, principalmente os da Grifinória.

Hermione estancou, olhando assustada para o professor, que ainda segurava seu pulso firmemente. Até mesmo o gato o olhava assustado, pois não tinha percebido nem sequer a aproximação de Severus. Draco apenas lançou um olhar de ódio à Hermione, sumindo na multidão logo em seguida.

_Muito cuidado por onde anda, Srta Granger. Não fique muito longe de outras pessoas. – Snape falava friamente, sem sequer olhar para a menina; mantinha seu olhar fixo na direção em que Draco partiu. Largou o pulso dela, que estava esbranquiçado pela pressão. Tomou o rumo da maioria dos alunos, sumindo logo em seguida.

_Mione! Como você está? O que aquele imbecil queria? – Harry segurava Hermione pelos ombros, quase gritando com ela.

_Mione, é melhor ficar conosco! Esse imbecil pode querer aprontar alguma contigo! – Rony apertava o braço da menina.

_AI! Chega! Me larga! Draco não fez nada além do que é típico dele e duvido muito que ele tome alguma atitude mais enérgica do que defecar pela boca! E, agora mesmo, é que quero ficar bem longe de todo mundo depois desse escândalo! Qualquer coisa estarei lá pelos lados residenciais!

Hermione correu no sentido oposto à multidão de alunos, que já enchiam as ruas de pedras polidas do centro comercial de Hogsmeade. Crookshanks não via a hora da Hermione soltá-lo! Ela o comprimia tanto ao corpo que ele estava se sufocando.

Quando notou que já estava bastante distante de todos, parou para recuperar o fôlego. Deixou-se cair aos pés de uma grande árvore, soltando o gato do colo, que estava tão sem fôlego quanto ela. A menina levou as mãos aos olhos, tentando impedir as lágrimas, sem conseguir. Soluçava baixinho. Felizmente, não havia ninguém por perto, além de Crookshanks, que já havia recuperado seu fôlego e olhava sua dona com desespero. Não conseguia aceitar que haviam estragado a alegria de Hermione! Estava tudo tão certo, ela estava tão contente, como há muito tempo não via e, no entanto, tinha que ter aparecido aquele verme miserável para humilhá-la daquela forma, insultá-la de uma forma tão grotesca!

Porém, Crookshanks sabia que isso apenas aconteceu por conseqüência do ocorrido entre ele e o garoto Malfoy na sala de Severus, há dois dias. Obviamente que o garoto não se daria o trabalho de fazer algo contra ele, afinal, ele era um mero animal supostamente irracional, embora duvidava que o tal Draco o deixaria ileso dessa. E o garoto odiava sua dona, mesmo sem nunca ter entendido o porque de tamanho ódio, uma vez que a garota jamais lhe fez qualquer mal, e não acreditava que a diferença racial fosse um motivo tão forte a ponto de chegar a odiar alguém apenas por isso... "Ah, maldição, Nico! O moleque é um Malfoy! Uma das piores famílias bruxas do mundo, uma escória sem honra!"

Crooksnahks subiu no colo de sua dona, que estava sentada sobre as pernas. Sentia como se uma adaga de gelo atravessasse o seu coração, ao vê-la desta forma. Dava-lhe náusea só de se lembrar que, em parte, aquilo era sua culpa. Lambeu as lágrimas que escorriam pelas mãos de Hermione, fazendo-a despertar de seu pranto. Tirou lentamente as mãos do rosto, encarando os olhos amarelos com as pupilas fechadas em fendas do gato. Sentiu um arrepio ao ver novamente naqueles olhos uma expressão humana, sentia que seus olhos transmitiam dor, mágoa e culpa...? Apoiou suas patas dianteiras no peito da menina, erguendo-se até seu rosto. O felino começou a lamber o rastro de lágrimas que havia no rosto de Hermione, que fechou os olhos diante daquela sensação tão diferente e, o que era pior, boa! Crookshanks abraçava o pescoço da menina, mordiscando o lóbulo da orelha, descendo pela nuca. Uma imagem muito estranha se formou diante dos olhos cerrados de Hermione e a sensação que sentia era como se uma pessoa a abraçasse e a beijasse. A imagem era de um rapaz robusto, com cabelos muito claros e finos que caiam pelo rosto. Não conseguia ver o rosto do rapaz, que parecia trajar a capa negra do uniforme de Hogwarts, mas tinha plena certeza de jamais ter visto tal pessoa na vida.

Mesmo que tivesse parecido horas, passaram-se efêmeros segundos, até ser desperta de seu devaneio com aquelas palavras podres de Malfoy, chamando-a de libidinosa zoófila. Sem pensar duas vezes, empurra o gato para longe de si, apavorada. Crookshanks, percebendo o erro que cometeu e também lembrando-se das palavras do garoto, tentou consertar a situação, dando um miadinho inocente e triste para sua dona, que a fez voltar a si.

Hermione levou a mão à testa e começou a rir baixo, mas parecendo algo ensandecido. Onde havia parado todos os planos que tinha pr'aquele dia? Olhou de volta para o gato, que estava sentado envolto de sua cauda, observando-a tristemente. Por frações de segundos, a imagem do rapaz voltou novamente a anuviar-lhe a vista. Chacoalhou com raiva a cabeça, espantando aqueles pensamentos. Se estava mesmo surtando, não seria agora, justo naquele sábado maravilhoso de sol, céu azul e brisa fresca que iria procurar uma solução para isso. Havia planejado trazer seu gato para passear por Hogsmeade e até fazer um lanchinho no bosque, ver as casas, o rio, a pracinha central... e era isso que iriam fazer.

Enxugou o que restou de suas lágrimas, ajeitou seus cabelos e levantou-se, espanando algumas folhas secas que ficaram agarradas na perna da calça. Com um sorriso, embora seu olhar ainda fosse triste, aproximou-se do gato, agachando-se diante dele e levando a mão esquerda à cabeça do bichando, alisando-a.

_Me desculpe, Shanks! Eu quase estraguei o nosso passeio. Vamos fingir que nada aconteceu e vamos voltar ao nosso programão de sábado, ok? Definitivamente, o problema são esses infelizes de Hogwarts, não nós! Mas tudo bem está acabando, só resta alguns meses e ainda poderemos passar três semanas longe daqui nas férias de natal.

A garota se levantou e tomou a direção de seu rumo, chamando pelo gato para acompanhá-la, que ainda permanecia parado. Crookshanks estava olhando para todos os lados, farejando algo, tentando perceber se havia alguém por perto, mais especificadamente se havia o garoto Malfoy por perto. Ele não havia se esquecido da ameaça do loiro aguado e o alerta de Severus para Hermione, na plataforma de desembarque, o deixou intrigado. Sabia que Severus não gastava fôlego falando coisas à toa. Se Hermione não havia percebido nada, ele teria que tomar toda a precaução possível. Até achava melhor que ela não estivesse preocupada com mais isso, senão seu dia estaria realmente arruinado e ele bem sabia que sua menina merecia um bom relax.

*

No pub Hog's Head, os tipos mais estranhos e suspeitos lá se reuniam, contrapondo ao pessoal que freqüentava o 3 Vassouras. Se tinha algo de sigiloso para tratar, Hog's Head parecia o lugar ideal para isso, tanto que fora lá, no 5º ano de Hermione, que Harry se reuniu com vários outros alunos para tratarem de um plano para burlar a vigilância da sapa velha da Umbridge e passarem a treinar DCAT. Porém, era um ledo engano crer que tal pub oferecia o sigilo necessário para negócios escusos...

Esse engano, porém, passava despercebido para duas figuras encapuzadas que conversavam muito próximas uma da outra numa mesa nos fundos do recinto. As outras figuras presentes no pub não eram muito diferentes daqueles dois, pois pareciam que quase todos eram procurados da justiça, pois de alguma forma também ocultavam seus rostos e formas sob capas, capuzes, chapéus, faixas...

Um dos encapuzados da mesa dos fundos entregava ao outro um saquinho de couro, que tilintou ao cair na mesa diante do outro sujeito, que, por sua vez, abriu o saquinho, observando cuidadosamente o conteúdo e tirando de lá uma grande moeda de ouro. Levando a moeda a altura dos olhos, para observá-la melhor, a manga larga de sua veste deslizou até a altura do cotovelo, deixando a mostra uma tatuagem que lembrava um crânio com uma serpente saindo de sua boca.

_O senhor é mesmo muito generoso, Sr Malfoy... brincar com sangues-ruins eu faço até de graça, só por prazer... mas como o senhor tá pagando... deve mesmo odiar a garota, não? Por acaso o senhor quis ter e ela não quis te dar, é isso? – Uma voz embargada de escárnio saia da boca daquele encapuzado, enquanto o outro levantava-se raivosamente da cadeira, agarrando firme o pulso do sujeito e prensando sua mão contra a mesa.

_Cale-se, seu grande idiota! E não se atreva a pronunciar novamente meu nome, cretino! Apenas faça o que te mando fazer! Brinque a vontade com a garota, mas não a mate! Eu quero ter o prazer de vê-la moralmente arruinada, que desapareça do mundo mágico e sobreviva com isso!

O rapaz saiu às pressas do pub, mas ninguém se deu o trabalho de olhar sua saída. O outro sujeito que permanecia na mesa levou lentamente à boca um copo de uísque, virando todo o conteúdo num só gole, batendo com força o copo sobre a mesa. Levanta-se lentamente, deixando perto do copo vazio uma moeda de prata, retirando-se do recinto, resmungando:
_Covarde! Não tem metade da tenacidade que tem o pai! Nem o caráter!

Draco já havia livrado-se das vestes marrons e puídas que usou dentro de Hog's Head, distanciando-se um bom pedaço do pub pé-sujo. Estava visivelmente nervoso e precisava se controlar para ir procurar pelos amigos que estavam espalhados pelas lojas do povoado. Uma voz grave e fria, porém, interrompeu seu caminho. Cautelosamente se virou pra direção da voz, fazendo o possível para esconder seu nervosismo.

_Sr Malfoy, de onde está vindo? Não sabe que não deve permanecer longe de seus colegas?

_Pro-professeor Snape? O que faz por aqui?

_Como ousa me questionar e não responder minha pergunta, garoto? – Snape aproximava-se perigosamente de Draco, olhando fixamente para os olhos acinzentados dele, que parecia ter sido hipnotizado.

Alguns instantes se passaram até que Draco voltasse ao normal, balançando a cabeça para espantar algumas imagens que lhe surgiam como um turbilhão a sua mente, olhando, desta vez decidido, para o professor.

_Desculpe-me, Prof Snape. Eu só estava procurando por Zabini e...

_Tudo bem, Sr Malfoy. Pode continuar seu caminho. Apenas não se meta em encrencas.

_T-tá, professor! Obrigado! – Draco pôs-se a correr, tentando se distanciar o mais rápido possível de Snape. Mesmo que o professor sempre o apoiasse, ele ainda o temia, principalmente quando ele fixava aqueles olhos negros, que pareciam ver dentro de sua alma!

Snape apenas ficou onde estava, dirigindo um olhar sério ao garoto, até que ele desaparecesse de sua vista. Intimamente, lamentava que o garoto estivesse tomando um rumo tão errado em sua vida. Pelo jeito, seria impossível lutar contra o sangue Malfoy... Deixando suas lamentações de lado, pôs-se a caminho do centro comercial, precisava evitar o que o garoto havia planejado.

_Onde estaria aquela garota estúpida? Espero que esteja com seus bravos amiguinhos...

Hermione e Crookshanks andavam tranqüilamente por uma ruazinha calçada com pedras irregulares, cercada de casas que, a primeira vista, pareciam simples casas trouxas, puxadas mais para o estilo colonial. Havia uma árvore em frente a cada casa, o que deixava a rua sombreada e fresca, com leves perfumes que se misturavam harmoniosamente. Muitas casas tinham as fachadas em pedras, algumas eram totalmente em madeira. Todas tinham belos jardins muito bem cuidados. Não sabia se era ainda muito cedo ou se todos os moradores estavam no centro do povoado, já que muitos ali trabalhavam no comércio local, mas raramente se encontrava algum morador fora de casa. Hermione apenas encontrou uma senhora muito idosa, que deveria ter mais de 100 anos, que fazia questão de varrer as folhas da calçada a moda trouxa, usando uma velha e gasta vassoura de palha. Hermione a conhecia, assim como conhecia a maioria dos moradores dali, principalmente as velhas senhoras bruxas, que gostavam muito da menina. Ficou alguns minutos conversando com a simpática velhinha, que era muito risonha, embora não tivesse mais muitos dentes para mostrar.

Crookshanks estava muito excitado com o passeio, sentia-se uma criancinha que nunca saia do apartamento. Tudo era tão novo e tão conhecido aos seus olhos. Ali o tempo parecia ter parado, apenas algumas coisas eram novas; algumas fachadas, algumas casas que "cresceram", as árvores estavam muito mais altas e frondosas. De vez em quando corria de uma calçada a outra, dava saltinhos para pegar uma borboleta ou fadinha que passava voando rasante, como se quisesse provocá-lo. Hermione ria das gracinhas do gato, jamais havia visto ele assim tão feliz. Quando o felino percebia que a menina observava, dirigia-lhe um olhar muito luminoso e davam uns miadinhos alegres.

Estavam chegando ao final da rua, que formava uma bifurcação. De um lado, continuava uma nova fila de casa, do outro era o bosque e mais adiante o rio. O silêncio era tão ensurdecedor, que era possível ouvir a correnteza e o farfalhar da vegetação.

O coraçãozinho do gato disparava ainda mais com a aproximação daquele local. Lembrava-se que era por ali que ficava a casa que morou há mais de vinte anos. Hermione tomava o rumo do bosque, mas Crookshanks correu em direção a ruela de casas. A menina o chamou, mas ele estava tão entretido com o momento que nem sequer a ouviu, ela não teve outra opção a não ser seguí-lo, para ver onde queria chegar.

Algumas casas lhe pareciam as mesmas de duas décadas atrás. Uma ou duas estavam totalmente reformadas. Uma ou outra parecia abandonada. Ainda lembrava-se dos detalhes daquela rua como se tivesse passado por ela ontem mesmo. Seu coração não parava de acelerar com a proximidade de sua casa. Viu um chalé em madeira escura, sabia que era esse chalé vizinho de sua casa, mas passou correndo pelo terreno vazio ao lado dele, chegando até outra cabana em madeira, até que parou confuso. Hermione vinha correndo em sua direção, ofegante por carregar a mochila nas costas. Ela parecia brava, mas não falou nada com ele. A menina percebeu a confusão do gato, como se procurasse por algo. Ele voltou e parou de frente para o terreno entre a cabana e o chalé e ficou sentado ali, observando.

O terreno era cercado por uma pequena cerca de madeira já velha e com alguns pedaços desabados. Havia muitas plantas rasteiras que se agarravam na cerca. No centro do terreno havia um imenso arbusto de Ruta Graveolens, carregada de pequenas flores amarelas. À frente do terreno, onde seria a entrada, uma grande pedra branca de forma triangular. Fora isso, não havia mais qualquer vegetação ou vestígios de construção no terreno, que era totalmente árido. Hermione percebeu que o gato olhava tristemente para o terreno vazio e sombrio, uma corrente de ar fria parecia circular por aí.

_Qual o seu interesse aí, Crookshanks? – o gato olhou para sua dona, com certa confusão e tristeza nos olhos.

_Esse lugar provavelmente fora a moradia de bruxos das trevas... talvez mesmo de Comensais da Morte. Quando Voldemort caiu pela primeira vez, muitos de seus seguidores tiveram suas casas totalmente destruídas. Os terrenos foram limpos dos destroços e em alguns foram plantados pés de Ruta Graveolens, como esse daí. A energia maligna de certos lugares era tanta que jamais voltou a brotar vida neles... veja como o ar daqui é frio e o terreno arenoso, nem sequer a terra ali está viva. Pela cultura popular, Ruta Graveolens ou Arruda, serve para afugentar e dissipar o mal... a pedra branca de forma cônica tem o mesmo sentido e serve para barrar a entrada de mais energia maligna, por isso fica disposta a entrada do local, além de canalizar a energia negativa do terreno, enviando-a para se dissipar no espaço... bem, são superstições, no mundo trouxa tem muito disso também.

Hermione dá meia volta e vai em direção de onde veio, afim de pegar a trilha no bosque até o rio. Anda alguns metros e percebe que o gato ainda estava diante do terreno, virando-se para chamá-lo:

_Vamos, Shanks! Ainda temos muita coisa para ver por aqui... – a garota dava um leve tapa na própria perna, para chamar ainda mais a atenção do gato.

Crookshanks ainda deu uma última olhada triste para o terreno, suspirando e saindo de cabeça baixa, andando vagarosamente até a menina... "_não devia ter esperado mais que isso, mesmo..."

Hermione se abaixa, passando a mão pela cabeça do bichando, a fim de consolá-lo. O que será que teria ali para deixá-lo tão triste? Crookshanks era mesmo um animal muito misterioso...

_Ah, Shanks, não fique assim... tem muitas coisas bonitas para vermos por aqui, esqueça aquilo... sabe, gostaria muito que você pudesse me falar o que se passa nessa cabecinha, tenho certeza que tem muito a contar! Mas, vamos que a hora não pára pra nos esperar.

"_... e você nem sequer imagina o quanto gostaria de poder falar com você... este é o meu maior desejo, Hermione..."

Fim do Capítulo VII – continua...
By Snake Eyes – 2004

Santa Tranqueira Magazine