quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Capítulo V – Turma de 76

ANIMAGO MORTIS
Capítulo V – Turma de 76

Ora, ora... o persa alaranjado da Srta Granger... quanto tempo não aparece por aqui, Crookshanks?
O gato entrava faceiro pela sala reservada nas masmorras. Sendo um gato, apreciava muito mais lugares quentes. Não gostava das suas patinhas nuas tocando aquele chão de pedras álgidas, nem do ar frio que ali se respirava... mas a companhia valia esse sacrifício.
Severus Snape, o professor de poções, postava-se novamente atrás de sua escrivaninha, onde estavam dezenas de rolos de pergaminho, em que ele lia pacientemente cada um, na maioria das vezes com uma expressão medonha no rosto, outras apenas com um leve erguer de sobrancelhas. O silêncio da masmorra era quebrado apenas pelo chiar da pena de Snape sobre os pergaminhos com os trabalhos dos alunos.
O gato era mesmo abusado e parecia não temer absolutamente nada daquele professor tão detestado e temido por todos. Subiu na escrivaninha onde Snape trabalhava, pondo-se sentado, envolto da própria cauda, num porte altivo e parecia dirigir um olhar inquisitivo e curioso para o que o professor fazia. Snape poderia até jurar que o gato entendia tudo o que se passava e até mais que isso: parecia entender perfeitamente os garranchos escritos naqueles pergaminhos. Por uma ou duas vezes, teve a impressão que o gato se arrepiou com uma monstruosa estupidez escrita sobre a poção “morto-vivo”, a que ele mandara fazer uma redação a respeito, na última aula de Grifinória e Sonserina.
Por acaso essa redação é de Neville Longbottom, o protegido da sua dona... você está aqui a mando dela? Não se preocupe, nem preciso ler o que ela escreveu para dar-lhe uma nota 10. Ela é a melhor aluna de Hogwarts em 20 anos... mas, você não se atreva a contar a ela que eu disse isso!
O gato, como resposta, apenas dirigiu um olhar curioso ao professor, revirando suas orelhas.
Sabe, gato... ouvi algumas coisas estranhas sobre a sua dona de alguns alunos que conversavam animadamente, até demais. Seria verdade que a Srta Sabe Tudo Granger finalmente estria surtando?
Crookshanks lançou um último olhar fulminante à Snape, que lhe dirigia aquele irritante sorrisinho sarcástico tão característico, antes de pular da mesa, bufando. Snape limitou-se a acompanhar os movimentos do gato. Era estranha para si mesmo a afeição que desenvolveu, quase instantaneamente, por aquele felino. Não que chagasse a detestar animais, mas nunca sentiu qualquer afeição por um, como as pessoas costumam fazer. E Crookshanks era um gato feio de cara emburrada, que parecia olhar implacavelmente para todos; além de ele mesmo não ter qualquer simpatia por sua dona, Hermione Granger, então, por que essa afeição pelo animal? Mas havia algo naquele gato... talvez ele próprio estivesse surtando... pena a Legilimancia não funcionar em animais, senão tentaria, ao menos, descobrir algo sobre ele, se é que há algo naquela cabeça grande além de pêlos laranjas.
O gato, de forma elegante e precisa, pula num único salto até o console sobre a lareira da sala particular de Snape. Lá, alguns porta-retratos com fotos antigas e outros objetos esquisitos para decoração. Andando garbosamente entre os objetos, sem ao menos encostar em qualquer um deles – ainda bem, pois alguns se quebrariam se caíssem dali! – pára em frente a um porta-retratos de metal, derrubando-o sobre o console com a pata. Na foto antiga em preto e branco, havia muitos rapazes e moças juntos, todos com uniformes de Hogwarts, sustentando o brasão da Sonserina no peito da capa negra. A foto, como era costume nas fotos bruxas, as pessoas se mexiam. As meninas davam tchauzinhos, jogavam beijinhos e coisas do tipo. Os garotos brincavam uns com os outros, alguns se mantinham sérios e outros faziam poses altivas para seu espectador. O garoto sério, de braços cruzados, Crookshanks reconheceu sendo Severus, uns 20 anos mais jovem...
O professor levantou-se intrigado da escrivaninha, indo direto à lareira e pegando o porta-retratos que o gato derrubou e estava olhando tão interessado.
Essa foto de novo, Crookshanks? Não é a primeira nem a décima vez que você fica olhando para ela... o que ela significa para você, heim? ... “idiota, Severus, o gato não vai te responder...”
Porém, o gato olhava para o professor de forma pedante, inclinando-se para frente, perdendo toda a sua pose garbosa... parecia que ele queria que Snape lhe contasse a história daquela foto...
Bom... essa daqui é a turma 76/77 da Sonserina, éramos do 6º ano... só lamento muito dizer que a maioria, ou melhor, quase todos aqui, ou estão mortos ou estão enlouquecidos em Azkaban... apenas esse garoto ao meu lado direito está desaparecido até hoje, ninguém nunca soube de seu paradeiro... seus pais morreram na primeira guerra das Trevas, eram comensais... Nicolai também era, mas eu sentia que ele tinha segundas intenções, que não eram para seguir Lord das Trevas, muito pelo contrário... enfim, ele desapareceu antes de terminarmos o nosso 7º ano... pobre garoto, veio da Rússia para morrer aqui...
Colocando a foto de volta ao console da lareira, Severus dava-lhe um olhar diferente, sem a frieza costumeira. De fato, eram lembranças dolorosas. Ver todos aqueles jovens cheios de sonhos e esperanças, tendo suas vidas aniquiladas por causa de tolices como ambição e poder a qualquer custo... todos, sem exceção, receberam apenas dor e sofrimento daquele ser monstruoso, vil e hediondo a quem entregaram até mesmo suas vidas e seus futuros!
... e o passado se repete! Hoje, há pelo menos cinco alunos da Sonserina que são comensais da morte... e duvido muito que eles tenham um futuro diferente destes que aí estão, nesta foto. Tenho tentado evitar a todo o custo perder mais crianças para as trevas, mas a ambição é um demônio astuto e poderoso!
Neste mesmo momento, alguém bate a porta da sala de Snape, que olha de forma muito tediosa para a mesma.
Que desagradável!... ENTRE!
Um grupinho de quatro alunos da Sonserina adentra a sala particular do Prof Snape nas masmorras, sendo um deles Draco Malfoy, agora ainda mais intragável, depois que o pai, Lucius Malfoy conseguiu sair de Azkaban, ao ‘comprar’ a sua inocência pela segunda vez.
O que os senhores querem aqui? – De forma muito tediosa e mordaz, Snape recebia os alunos de sua casa. A paciência dele com os alunos da Sonserina já não era a mesma de anos atrás.
Apenas lhe fazer uma visitinha, senhor... e saber o que achou de minha redação? – Draco estava com um irritante sorrisinho de lado e a voz monótona.
Oh, sim! Que maldade a minha... pensei que os senhores estavam aqui escondendo-se de alguma idiotice que tivessem aprontado no corredor! – Snape estava cada vez mais impaciente...
Crookshanks não desviava os olhos do garoto loiro platinado, o qual ele odiava profundamente por diversas razões, embora a que conquistou lugar de destaque em sua lista negra fora o total desrespeito que o garoto tinha por Hermione! Pulou do console e andou altivamente de volta a escrivaninha do professor, onde postou-se mais uma vez, sem desviar os olhos ameaçadores para os garotos sonserinos.
Esse gato... parece aquele gato esquisito daquela sangue-ruim da Grifinória, a Granger. O que ele faz aqui?
Isso não é de sua conta, Sr Malfoy! E quanto a redação de vocês, eu já as corrigi, se é o que querem saber. E sobre a sua redação, Sr Malfoy, se é que posso chamar assim aquilo... sugiro que leve mais a sério seus estudos este ano, pois neste nível não conseguirá pontos nos NIEMs nem sequer para sair de Hogwarts!
Isso não me preocupa, professor... meu pai tem excelentes planos reservados para mim, pouco importa NIEMs, isso é coisa pros desqualificados que precisam de pontinhos para se mostrarem mais dignos entre os bruxos...
O gato sobre a escrivaninha deu uma seqüência de miados mínimos que lembravam uma leve gargalhada – supondo-se que gatos riem... – pondo-se a andar vagarosamente em direção à Snape, sacolejando a cauda como se zombasse do loiro platinado.
Se quer confiar o seu futuro ao seu pai... mas eu ainda insisto que o senhor cuide você mesmo de seu futuro, enquanto ainda há oportunidade para isso.
Ah, tá, mas peraí! Esse gato ridículo, ele tá caçoando de mim? Não, isso só pode ser coisa daquela maldita sangue-ruim, ela deve ter ensinado isso a ele!
Os outros três colegas que estavam com Draco e Snape olham para o gato, que mantém-se altivo, sentado sobre a escrivaninha, mas abanando a cauda nervosamente. A expressão do gato, que normalmente já era feia, era de ódio pelo garoto, com os olhos formando meio globo, brilhando com a difusão das luzes. Vendo nada anormal no gato, os quatro espectadores voltam-se curiosos e inquisitivos para Draco, que se incomoda com os olhares incrédulos em sua direção.
Ah! Qual é! Eu tô falando sério! Não é a primeira vez que vejo esse bicho agir assim, parece até gente! Isso deve algum feitiço que aquela sangue-ruim fez para ele agir desta forma!
Você tá avariando, Draco! O bicho é só um gato idiota, e gatos são assim mesmo! – Blás Zabini falava com um sorrisinho sarcástico.
Antes que Draco retrucasse ou os outros dessem seus comentários, Crookshanks pulou da mesa, em direção da porta da masmorra, que não estava completamente fechada. Saindo no corredor, olha para os lados, encontrando o zelador Argo Filch furioso, acompanhado de sua fiel dedo-duro, a gata Madame Nor-r-ra. Crookshanks dá um miado feio e agudo, chamando a atenção da gata, que corre em sua direção. À porta da sala particular de Snape, Madame Nor-r-ra fareja algo, lançando um miado agudo e longo para Filch, que corre em direção aos felinos com sua expressão sádica muito satisfeito.
Filch empurra com raiva a porta, encontrando os quatro alunos da Sonserina estáticos e temerosos, enquanto Snape observa a tudo de forma monótona e tediosa, já prevendo o que ia acontecer.
Desculpe, Prof Snape! Mas esses quatro alunos estavam lançando azarações em alunos da Lufa-Lufa agora a pouco no corredor, quando alguns alunos saíam de seu Salão Comunal!
Os quatro sonserinos ficaram ainda mais estáticos e boquiabertos quando perceberam Crookshanks passando arrogante pelas pernas de Filch, colocando-se ao lado de Madame Nor-r-ra, lançando um olhar altivo e satisfeito para os garotos. Os outros três sonserinos – Zabini, Crabbe e Goyle – olhavam estranhos para o gato, ignorando Filch... fora o persa laranja que chamara o zelador?!
Mas que gato filho-da-puta... ele dedurou a gente?! – Zabini exclamava com a voz falhando, quase inacreditando em suas próprias palavras. Draco olhava do gato para Zabini, escondendo sua confusão.
Draco tentou consertar a situação, disfarçando a surpresa que sentiu. Ele realmente andava notando algo esquisito no gato da Granger, mas ele não esperava que o bicho fosse tão ardiloso quanto uma pessoa. Ele tinha a intima certeza de que o gato percebeu que eles aprontaram algo e que Filch os procurava, e fora chamá-lo... afinal, até mesmo aquela gata nojenta do zelador fazia isso, talvez isso seja mesma uma característica desses animais...
Virando-se para o professor, com seu olhar desdenhoso e sorriso torto, tentava ridicularizar o pobre zelador.
Esse pobre diabo do Filch está cada vez mais estouvado... como poderíamos ter feito qualquer coisa se estamos aqui com o senhor preocupados com o que é realmente importante, os nossos trabalhos...?
Mentiroso! Garoto insuportável como todo Malfoy! Os alunos atacados disseram claramente quem os azarou! Só não consegui alcançá-los em tempo!
Cale a boca, maldito aborto! Quem você pensa que é par...
Draco é abruptamente interrompido pela voz grave e fatal de Snape que parecia reverberar pela sala.
Pelo que saiba senhores Malfoy, Zabini, Crabbe e Goyle, os senhores acabaram de entrar em minha sala particular, um tanto exasperados para uma simples visita. Sugiro que acompanhem o Sr Filch e resolvam esse mal entendido com ele.
Mas Prof Snape, o senhor dev...
Sr Malfoy! Resolva esse mal entendido com o Sr Filch! E agora saiam todos, que tenho muito que fazer aqui!
Filth deu o melhor de seus sorrisos sádicos, brilhando de satisfação. Os garotos saiam porta afora, sendo que Draco se arrastava, sendo o último. Dirigia o pior de seus olhares à Crookshanks, que permanecia parado ao lado da entrada, sentado envolto de sua cauda. Encarava satisfeito e desafiadoramente o loiro platinado nos olhos, com postura esguia, dando-lhe um ar majestoso.
Gato maldito! Tinha que ser daquela sangue-ruim! Eu vou te matar qualquer dia desses, desgraçado! – Sussurrava Draco, com voz letal.
O garoto, antes de sair, ainda tenta acerta um chute no gato, ignorando os olhares e a presença de Filch e Snape, que se alarmaram com a abrupta reação de Draco. O seu pé acertou apenas o ar, o gato desaparecera de sua frente como se tivesse desaparatado. Felinos são os animais na natureza com o mais rápido reflexo, estando todo o tempo em posição de alerta e prontos para o ataque. Crookshanks saltou sobre a perna esticada do garoto, escalando-a e saltando sobre o peito, derrubando Draco de costas no chão. Leva uma das patas ao pescoço do garoto, fazendo-o sentir levemente suas garras afiadas. Olhando diretamente nos olhos apavorados de Draco, Crookshanks dá um silvo perigoso. Mas antes que qualquer um dos presentes tomasse qualquer atitude com o ocorrido, o gato salta para longe de Draco e do chão salta de volta para a mesa de Snape, que por sua vez o observa atônito. Filch se limita a puxar Draco do chão pelas vestes, bravejando.
Vamos logo, garoto! Já tomou demais o nosso tempo!
A porta da sala fecha num baque, deixando Snape e Crookshanks a sós novamente. O professor continuava a olhar o gato de forma estranha, mas parecia satisfeito com o ocorrido.
Seja lá o que tenha dito ao Draco, tenho certeza de ser o que todos têm vontade de dizer! Você é ousado, como a sua dona... mas prepare-se para retaliação por parte do garoto... é provável que ele irá querer vingar-se também na sua dona, afinal, o grande e futuro comensal da morte, Draco Malfoy, não vai engolir essa humilhação.
Crookshanks pareceu dirigir um olhar preocupado para o professor, após ouvir essas palavras. A última coisa que queria na vida é arranjar mais uma complicação para Hermione... será que tudo o que ele fizesse ela iria pagar por isso?! Será que teria que ouvir calado os outros a ofenderem sem nada a fazer?!
Snape postava-se atrás de sua escrivaninha, recolocando-se na atividade que estava exercendo antes de ser interrompido por um gato abusado de trejeitos humanos e um bando de debilóides da Sonserina.
...um Malfoy ser humilhado, desafiado, já é um grande desatino... e ser humilhado diante de espectadores por um animal?! Ah, gato! Até eu teria vontade de matá-lo depois dessa! Tome cuidado, bichano...
Enquanto Snape, calmamente, voltava a rabiscar os pergaminhos dos alunos com sua pena vermelha, Crookshanks pulava da escrivaninha para uma confortável poltrona em veludo musgo quase negro. Enrolando-se, depositava a cabeça sobre as patas dianteiras cruzadas, e mantinha um ar pensativo e preocupado... não era a primeira ameaça de morte que recebia na vida e o garoto Malfoy não era capaz sequer de pregar-lhe uma peça de molecagem, quanto mais cumprir sua ameaça... mas ele poderia complicar a vida de Hermione, aprontar algo para ela, apenas para dar-lhe mais um incomodo para se preocupar. E vê-la revoltada era tudo o que não queria e vê-la chorar novamente... e ele conseguira de novo arranjar mais uma dor de cabeça para sua dona! Talvez fosse mesmo a hora de começar a assumir de vez sua condição e começar a ignorar veemente todas esses ultrajes dirigidos à Hermione.
Os olhos de Crookshanks tornaram-se obscurecidos, distanciando-se em pensamentos, apenas com o som da pena arranhando os pergaminhos tornando-se cada vez mais distante, como se mergulhasse num infinito de trevas...

Fim do Capítulo V – continua...
By Snake Eyes – 2004

Capítulo IV – Entre Sangues-Ruins

Capítulo IV – Entre Sangues-Ruins

Hermione desperta pontualmente às 6:30h, como é seu costume todas as manhãs. A princípio, por causa do ambiente idêntico ao seu quarto na casa dos pais, pensa que ainda está em férias e volta a fechar os olhos, para dormir mais alguns minutinhos.
Crookshanks, também acostumado a despertar na mesma hora junto com a dona, aproxima-se do rosto de Hermione e fica apenas observando que ela havia se esquecido de onde estava e cogitava a possibilidade de deixá-la dormir mais um pouco. Lembrou-se que nesta hora o castelo estava completamente deserto, todos ainda dormiam, então era a melhor hora para alguém andar por aí sem ser importunado sequer pelos fantasmas. Se deixasse Hermione dormir por mais tempo, talvez ela tivesse que dar muitas explicações do porque estava andando pelo castelo em vestes de dormir e, pior, poderiam acabar descobrindo o seu ‘refúgio secreto’.
Fugindo de seus pensamentos, Crookshanks mirou-a novamente. Ele gostava de sua aparência enquanto dormia; não havia sinais de preocupação ou olhar triste. Deitada de lado com as mãos quase sob o rosto, lábios úmidos entreabertos e cachos caindo rebeldes sobre a face rosada, lhe davam um ar angelical, a serenidade que tanto precisava nesses últimos tempos. Poderia ficar horas apreciando-a, mas eles não tinham horas. Balançou bruscamente a cabeça para desmanchar pensamentos que não queria mais que existissem, por trazerem uma esperança ilusória que machucava profundamente. Droga! Ele era um gato e não havia qualquer coisa no mundo que mudaria essa condição, a menos que... “idiota!” ...era mais certo ele próprio morrer de velhice com 200 anos do que aquele ser hediondo vir a desaparecer completamente, assim como dava provas claras...
Jogou a cabeça sobre a testa da menina, acariciando-a para despertá-la. Baixando até sua bochecha, dando lambidinhas e uma leve mordiscada, que fez Hermione despertar com um sorriso por causa das cócegas. Apoiou-se num dos braços, rindo para o gato. Este deu um miado rouco e monótono e correu para a porta, arranhando-a.
Aaaaah! Meu deus!!
Hermione levantou da cama num salto, jogando a colcha verde florida no chão. Mas isso não importava, daqui a minutos ela desapareceria dali. Correu em direção a porta, abrindo-a cuidadosamente sem fazer ruído, deixando apenas uma brecha por onde espiar. O corredor parecia deserto, Crookshanks empurrou mais um pouco a porta para sair, para se certificar de que não havia ninguém ali ou próximo para flagrá-los na Sala de Requerimento. Virou-se para sua dona, dando-lhe um olhar confiante. Hermione saiu na ponta dos pés, mesmo porque o chão estava gelado e ela se esquecera de calçar os chinelos quando saíra do dormitório feminino, tão furiosa estava com a situação ridícula de Patil e Brown. Logo que alcançava a metade do corredor, a porta verde-clara encolhera na parede até desaparecer completamente, restando apenas uma maciça parede branca com um archote pendurado, ainda flamejando.
Hermione e Crookshanks seguiram em passos leves a apressados para a Torre da Grifinória. As pontas dos pés de Hermione estavam dormentes pela friagem do chão. Finalmente alcançaram o quadro com uma sonolenta mulher gorda com um decotado vestido vermelho, que sempre lembrava a Hermione uma imensa salsicha que cozinhara demais. Falou a senha e, sem ao menos abrir os olhos, a mulher do quadro bocejou um “...diah...” arrastado e afastou, dando lugar a abertura do Salão. Crookshanks entrou primeiro, pulando na frente de Hermione, para observar o Salão Comunal, embora fosse inútil, pois nada poderiam fazer se houvesse alguém ali a espreita.
Estranharam ao encontrar a lareira acesa aquela hora. Hermione andou com cautela, esgueirando-se na parede, tentando tornar-se imperceptível para alguém que estivesse sentado oculto nas altas poltronas de fronte a lareira. Crookshanks prefiria acompanhar a dona ao invés de encarar o alguém que ele já sabia estar ali, por ter ouvido o chiar de uma respiração leve e principalmente pelo cheiro, que ele sabia exatamente a quem pertencia. Estranhou... por que aquele garoto estaria ali, a essa hora? Sabia que ele era um dos que sempre acordavam atrazados para o café por ser um dos últimos a ir dormir, mas... torcia para que Hermione chegasse logo às escadarias do dormitório feminino sem ser notada, pois ele não tinha certeza se o rapaz estava dormindo...
Uma voz grave chamou por Hermione, que sobressaltou-se. Crookshanks sentiu o sangue esquentar... o que esse garoto queria com ela? Já não era suficientemente perturbada por seus ‘amigos’ mais próximos?!
Dean...? Por que está aí? Acabou dormindo aí mesmo? Deve estar com o corpo dolorido... – Hermione tentava disfarçar seu susto e sua indignação por encontrar alguém acordado no Salão Comunal.
Er... mais ou menos... mas eu estou bem. Quer chá? Pedi ao elfo Dobby para que trouxesse... – Dean Thomas jogava-se a frente da poltrona, olhando para Hermione sobre a aba do encosto.
Oh, muita gentileza a sua, Dean, mas eu prec...
Por favor, Mione! Gostaria de conversar contigo, se quiser, claro...
Pelo olhar de suplica, Hermione pode perceber que talvez o rapaz não quisesse implicar consigo, mas, mesmo assim, sentou-se na poltrona ao lado com muito receio. Crookshanks estava com as orelhas voltadas para trás e uma expressão brava com os olhos formando um meio circulo. Saltou para o colo da dona, sem desviar o olhar agressivo de Dean. Se esse aí também estava pensando em falar qualquer gracinha para a sua Hermione, ele poderia esperar uma bela cicatriz de uma ponta a outra em seu rosto pardo!
Olha, me desculpe, Mione, eu... – Dean estava um pouco nervoso, torcia as mãos e estava achando seus pés as coisas mais interessantes da Terra, evitando olhar diretamente para a garota. Isso era algo que sempre quis falar com ela, mas nunca encontrou a coragem necessária... talvez fosse mais fácil enfrentar 10 trasgos, não gostaria de tocar nesse assunto, mas...
Hermione o olhava apreensiva, agarrando Crookshanks pelas patas, talvez temendo que ele voasse pro pescoço do rapaz. Seu coração batia dolorosamente, não estava pronta para uma declaração ou coisa do tipo, além de nunca ter despertado o mínimo interesse no rapaz, aliás, jamais se passou qualquer lampejo de tal idéia em sua cabeça alguma vez na vida, mas, teria que enfrentar, não é mesmo?
Você não vai querer o chá? – Desviando-se do assunto, para ganhar mais algum tempo, Dean enchia uma xícara e oferecia a Hermoine. Está muito bom, é chá preto comum, se quiser leite, está neste outro bule. Ah, os bolinhos estão excelentes! Dobby é um ótimo cozinheiro!
Enquanto Hermione pegava a xícara das mãos do rapaz, atônita, Dean levantava-se num salto e andava de uma escadaria a outra, para certificar-se de que não havia ninguém por perto. Respirou fundo e voltou até a garota, mas sem se sentar na poltrona, deixando-se apoiado no encosto da mesma.
Desculpa, não quero deixá-la alarmada, não vou importuná-la como os outros têm feito ultimamente, mas você é a única da nossa casa com quem posso falar sobre isso! – Adiantou-se ao ver a expressão aflita da garota.
Oh, puxa, não me importunar... isso é bom, mas... o que é tão importante assim que só eu posso ouvi-lo? Como assim sou a única da Grifinória para isso? – Hermione deixou os ombros caírem, como um alivio.
Não sei se você já notou, mas... essa coisa de sangue-puro não é apenas privilégio da Sonserina...
Bom, claro que sim, muitos dos alunos de Hogwarts são de famílias bruxas tradicionais, sendo a maioria mestiços. O que você quer dizer com isso, Deam?
Que apenas você, os irmãos Creevey e eu somos os únicos sangues-ruins da Grifinória! E não há mais que 30 de nós em toda a escola!
Hermione levantou-se num pulo, como se assustando com o que ouviu, derrubando Crookshanks que a olhou severamente, mas voltando para Dean... o que será que o garoto queria falar sobre sangues-ruins?
Dean! Não fale isso! O que aconteceu? Alguém esteve implicando com você também, alguém da própria Grifinória te xingou de sangue-ruim?!
Não diretamente, eu diria, mas... Mione, você não é a única que é acometida por essa falta de respeito, acredite! Há sim um imenso preconceito entre os bruxos e nós trouxas, às vezes é quase imperceptível, mas há!
Dean, você está falando bobagens, nós somos bruxos e não trouxas, mesmo que tenhamos nascido em família trouxa e...
Eu sei, Mione! Mas o hábito não faz o monge... não digo que todos os sangues-puros são preconceituosos, que se importam com isso, mas, acredite, a maioria deles sustentam nem que seja uma ponta desse preconceito, inclusive aqueles que são nossos colegas, amigos...
Oh, Dean... o que aconteceu? Você não é assim depressivo... – Hermione se compadeceu com a expressão de desolação do rapaz. Teve até a impressão de que seus olhos estavam marejados, mas ele evitava encará-la agora.
Dean andava de um lado para o outro diante da lareira, para não ter que encarar Mione de frente. Estava engolindo a seco e sua cabeça começava a doer por isso.
Mesmo os nossos colegas, Mione... possamos nos tornar os maiores bruxos, mas nada jamais apagará o fato de termos nascidos trouxas! É por isso que tantos a importunam, tentam quebrar o seu equilíbrio, a sua tranqüilidade. Você, Mione, é a melhor aluna de Hogwarts em todos os sentidos e você é trouxa! Eles a invejam demais, alguns tanto que até desejam o seu mal...
Hermione largou-se pesadamente na poltrona. Tentava sufocar um pranto que se formou com aquelas últimas palavras... “alguns tanto que até desejam o seu mal...” Então era isso que a Prof Minerva queria lhe dizer? Que lhe a invejavam e a antipatizavam não porque ela era apenas uma boa aluna, mas porque, inclusive, era uma boa aluna sangue ruim!? Pensando bem, isso deveria mesmo ser encarado como uma afronta pelos alunos de famílias tradicionais, mas, daí, desejar o seu mal e ainda vindo de colegas da mesma casa?!
Crookshanks olhava atônito para Hermione. Ele próprio a considerava, no início, uma sangue-ruim intrometida e até mesmo desagradável, mas depois de conviver intimamente com ela, mudara totalmente seu conceito sobre, tanto que até havia esquecido completamente que alguma vez tivesse esses pensamentos podres em relação a essa menina adorável... mas, desejar-lhe mal por isso, bom, isso é doentio, já é demais!
Dean ajoelhou-se diante de Mione, segurando-lhe as mãos. Agora ela podia ver que seus olhos estavam mesmo rasos d’água. Algo sério aconteceu a ele e provavelmente foi na maldita noite passada.
Me desculpe, Mione... não queria deixá-la ainda mais triste! Mas queria que soubesse que sei pelo o que passa, sei exatamente o que sente em relação a essas coisas. Não sou um grande aluno, mas... é só você sobressair-se em alguma coisinha, qualquer que seja, para ouvir algum comentário maldoso sobre ser sangue-ruim, mesmo que indireto. Quero também dizer que acredito que será VOCÊ a mostrar a esses grandes babacas que os trouxas não são assim tão simplórios! Você é poderosa, é muito inteligente, e sei que o fará!
Dean jogou-se de volta para a poltrona que antes estava, colocando as mãos sobre os olhos e testa, apertando com força, tentando conter algo. Hermione ficou ainda mais compadecida com o rapaz, levantando de sua poltrona e parando ao lado da outra onde o rapaz estava jogado. Colocando suavemente sua mão sobre o ombro de Dean, para dar-lhe conforto no mesmo momento em que chama-lhe a atenção, usando a voz mais suave que possuía:
Dean... me conte o que aconteceu? Não fique assim, isso não vai te fazer bem...
Uma garota, da nossa casa, do 5º ano... –Dean falava pausadamente, tentando conter inutilmente as lágrimas que já caiam em abundância.
Pode falar, não tenha medo... não contarei a ninguém... – Hermione apertava mais forte o ombro do rapaz, para encorajá-lo.
Essa garota, ela... eu estava afim dela desde o ano passado... passei todas as férias pensando em como me declarar a ela... então eu o fiz, ontem, depois de ter preparado tudo... éramos amigos, sabe? Pelo menos eu achava isso...
Dean abaixou a cabeça, escondendo o rosto entre as mãos, tentando conter os soluços e engolir as lágrimas. Hermione segurava-se para não chorar também. Ela era relativamente sentimentalista para não suportar cenas como aquelas, mas o garoto precisa de um consolo, de um ombro amigo. E ela mesma bem sabia o quanto uma palavra gentil, um gesto de afeto, um calor amigo faziam falta... só porque ela não tinha, não poderia negá-lo aos outros, ainda mais quando lhe pediam ajuda. Dean jamais lhe dirigiu qualquer palavra de conforto, mas ele precisava e muito de conforto, agora, e ela não poderia lhe negar isso, sabia o quanto era doloroso.
Hermione alisava as costas do garoto, encorajando-o a continuar contando o que aconteceu, dizendo que ele se sentiria melhor depois de desabafar. Crookshanks olhava tristemente para a cena e algo também lhe doía... talvez remorso. E se Hermione, por algum devaneio do destino, descobrisse que ele próprio, seu confidente, alguma vez a tratou unicamente por sangue-ruim? E se ela descobrisse que ele chegou a desprezá-la por isso e tudo que queria era apenas usá-la para se aproximar de Pettigrew? Dean levantou-se, desvencilhando-se de Hermione, nervoso, o que trouxe o gato de volta de seus pensamentos...
Sem voltar-se para Hermione, dando-lhe as costas e fitando diretamente o fogo que ardia na lareira, calmamente, evitando chorar de novo, Dean ia contando o que aconteceu...
...ela não disse com essas palavras, mas deixou isso claramente entendido... que já era suficientemente vergonhoso sua mãe ser trouxa e não queria criar a mais remota possibilidade de algum dia se envolver com alguém que não fosse de família bruxa...
Hermione mantinha as mãos sobre o peito, como se quisesse conter a angustia que ali se formava... se humilhada por sonserinos por ser descendente de trouxas era uma coisa, se rejeita ou sofrer retaliações por outros colegas por causa dessa condição era muito ruim, mas dava pra aturar, como fazia, mas... ser rejeitado pela pessoa que se ama por causa de um preconceito estúpido?! Por Merlin, isso devia ser terrível! Dean virava-se para Hermione, encarando-a, mas sua expressão era mais de raiva do que de mágoa.
... o pior é que nos dávamos bem! Eu sempre a ajudava nas lições, íamos juntos à Hogsmeade, conversávamos como bons amigos... se ela tivesse me dado o fora, apenas se dissesse que éramos só amigos, mas... ela teve que falar nessa maldita condição de sangue-puro!
Como um turbilhão, aquelas palavras do rapaz fizeram imagens estranhas e muito antigas virem a tona na mente de Crookshanks, o que o fez arregalar os olhos e sentir como o coração e respiração cessarem.
Uma garotinha de uns 12 ou 13 anos, de cabelos castanhos amarrados num rabo de cavalo, soluçava ferozmente enquanto ouvia-se a voz grave, macia e fria de um garoto... mas deste garoto, tudo que era possível ‘ver’ era a sua voz, mas suas palavras soavam estranhas, como se houvesse algum sotaque forte... e ele não parecia se comover com a menina, que parecia vestir o uniforme da Lufa-Lufa...
...isto ser muita ingenuidade, minha cara! Eu pertenço a mais tradicional das famílias bruxas e jamais mancharia a honra de minha família misturando-me com impuros! Em suas veias correm sangue trouxa! Não seja tola e meta-se apenas com seus pares!
Um mal estar abateu sobre Crookshanks, sentindo um nó na garganta, náusea, mal estar... por que uma lembrança como aquelas lhe fazia isso? Não teve muito mais tempo em suas divagações, pois a cena adiante chamara-lhe a atenção. Dean estava abraçando fortemente a Hermione, que tentava consolá-lo. O garoto estava mesmo muito ferido, pois chorava a balde sobre o ombro da menina.
Me desculpe, Mione... – Dean desvencilhava-se da garota calmamente. Você tem seus próprios problemas e eu aqui perturbando com os meus...
Tudo bem, Dean... – Hermione enxugava as lágrimas do rosto do garoto com as mãos. Mas, agora, é melhor você ir até o banheiro jogar água no rosto. Daqui a pouco os outros alunos estarão descendo pro Salão e seria muito chato se lhe vissem assim. Não precisamos de mais escárnio do que já temos, não é mesmo?
Obrigado, Mione! Muito obrigado, mesmo... tente não se meter nessas roubadas como eu fiz! Não deixe que te magoem...
É... eu tento...
Hermione entra cautelosamente no dormitório, acompanhada por Crookshanks. Ainda não eram nem 7:30 e, por sorte, todas as suas colegas de quarto só acordavam após esse horário, próximo do café. Pegou cuidadosamente, sem fazer ruídos, seu uniforme, a capa preta e uma toalha, indo direto para o banheiro. O gato enfiou-se por entre as cortinas do dossel, ocultando-se no interior, confortavelmente na cama ainda arrumada. As palavras de Dean não saiam de sua cabeça, bem como a mágoa que o assolava. E Hermione... ela era realmente incrível, com uma alma imensa. Jamais conhecera alguém como ela... talvez apenas a pudesse comparar com Dumbledore, McGonagall e até mesmo Hagrid, mas ele não conhecia essas pessoas intimamente, como conhecia Hermione. Ela era só uma menina, mas tinha tanta força interior que podia dividir com outros, mesmo quando ela precisava para si de toda força possível. No final das contas, os puros-sangues viviam a ilusão de uma falsa força, num mundo diminuto e frágil... tão frágil que precisavam, desesperadamente, se agarrar a essa tolice do sangue-puro, da família tradicional, como ele próprio já o fizera e, por causa de uma estúpida honra de família, era o que era hoje!
Hermione apareceu já arrumada para as aulas, tirando Crookshanks da cama.
Vamos, Shanks! Não quero que essas garotas o vejam aqui quando acordarem. Irei arranjar seu lanche e você trate de se manter o dia todo longe dessas pessoas, ouviu? Tenho medo do que elas possam vir a fazer contigo sobre as alegações mais idiotas.
Nem era preciso lhe dizer isso, hoje havia decidido ir visitar um velho amigo, que não visitava desde o final do ano letivo anterior.

Fim do Capítulo IV – continua...
By Snake Eyes – 2004

Animago Mortis - Cap.03 - Refúgio

ANIMAGO MORTIS
Capítulo III - Refúgio

Duas horas se passaram como segundos, mas para Hermione é como se tivesse levado o dia inteiro. Voltando de mais uma tediosa ronda noturna pelos corredores de Hogwarts sem nenhum aluno fora de seu salão comunal, nenhum fantasma assombrando, nenhuma aranha tecendo sua armadilha. Aquilo estava tornando-se cada vez mais insuportável de tão chato, tão comum e tão monótono. Aquelas duas horas noturnas seriam melhores aproveitadas com estudos do que com aquela ronda inútil e, especificadamente nesta noite, nem sequer teve a companhia de Crookshanks para deixar tudo mais tolerável. Se o cargo de Monitora-Chefe não fosse de relevância para sua vida pós-Hogwarts, seja qual profissão fosse exercer, Hermione já teria desistido disso há tempos. Não é tão fabuloso assim ser monitor quando se está vivendo na pele tal experiência e, para ela, era só mais um motivo para que seus colegas lhe implicassem.
Chegando ao dormitório, encontrou apenas uma aluna já adormecida em sua cama, então teve todo o cuidado possível para não fazer qualquer ruído. Foi até sua cama, afastando as grossas cortinas de veludo carmesim, encontrando um sonolento Crookshanks que se esforçava para olhá-la com olhos semi-abertos. Hermione apenas lhe dirigiu um sorriso doce e acariciou a cabeça e o dorso do gato, retirando-se logo em seguida para seu banho. Crookshanks levantou-se, eriçando suas costas, arrepiando-se todo ao se despreguiçar. Pulou da cama e foi esticar seus músculos numa caminhada do quarto para o salão comunal da Grifinória, encontrando lá muitos alunos ainda, quase todos do 6º e 7º anos. Viu um grupinho que conversava calorosamente perto da lareira, com aquelas duas amiguinhas acéfalas, Lilá Brown e Parvati Patil, dando irritantes risadinhas, enquanto a menina ruiva falava aborrecida com elas. Harry e Rony também estavam no grupinho, mas a expressão deles era de preocupação ou algo que o valha.
Crookshanks manteve-se incógnito na curva para as escadas dos dormitórios femininos, com expressão brava e suas duas orelhinhas minúsculas voltadas totalmente para frente, para ouvir bem do que falavam. Apesar do burburinho do salão, sua audição felina lhe permitia entender perfeitamente o que o grupo conversava, apesar de falarem em tom normal, sem ser as duas desmioladas, com suas risadinhas odiosas. Falavam de Hermione...
Vocês duas são nojentas, insuportáveis! Como têm coragem de caçoar de Mione, ainda mais pelas costas?! Isso é vil, é traiçoeiro! – Dizia uma furiosa Gina Weasley para Parvati e Lilá, que estavam até lacrimejando com as risadinhas!
Sai dessa, Gina! Nós gostamos muito da Granger, mas, peralá né! A menina, coitadinha, tá totalmente doida! Cara! Ela passa horas falando com aquele gato horroroso dela! Ah! É de dar dó...
Harry, Rony e Gina olhavam para Parvati como se quisessem atirá-la em pedacinhos na lareira. Rony se segurava, com os punhos cerrados, para não avançar em Parvati e Lilá. Crookshanks, na subida da escadaria de pedras, arrepiou-se todo, amassando para trás suas orelhas e emitindo um rosnado muito baixo. Seus olhos pareciam em chamas, ainda mais por refletir em seu espelho ocular a luz ambiente. Sua vontade era pular na jugular daquela garota sebosa e só soltar quando não mais respirasse... obviamente, uns profundos e cirúrgicos arranhões naquela cara lisa faria ainda mais estrago no ego de Parvati, mas isso complicaria muito Hermione e, talvez, o até expulsassem da escola, jogando-o a própria sorte no meio da Floresta Proibida... não, toleraria qualquer coisa para jamais provocar a sua separação de Hermione, mas... não poderia ficar suportando quieto aquele disparate contra sua dona, precisava agir, deixar seu recado!
Bufou, para aliviar a tensão da ira que o culminou. Todo faceiro, com a grossa cauda em pé e andar elegante, foi esgueirando-se pelas paredes até chegar ao grupinho na lareira. Ninguém percebeu sua aproximação, o que era óbvio, afinal, felinos são caçadores por excelência, logo, suas presas raramente percebem sua presença. Sabia a quem iria usar como pretexto a ficar cara a cara com a indiana insuportável, então, com manha, emitiu um miado dengoso, para anunciar sua chegada – afinal, não iria gostar de tomar um chute ou pizão de alguém se assustando com sua repentina aparição! Os cinco alunos voltaram sua atenção para a direção do ruído, encontrando o persa laranja de Hermione, silenciando-se por instantes. Harry e Rony o olhavam muito desconfiado; Lilá e Parvati apenas com curiosidade, mas Gina simplesmente se derreteu ao avistar o bichano, que lhe dirigia um olhar divertido e outros miadinhos manhosos.
Gina rapidamente abaixou-se para pegar Crookshanks no colo, que ainda facilitou o serviço pondo-se em pé sobre as patas traseiras, esticando as dianteiras na direção dos braços da menina ruiva. Enquanto Gina e Crookshanks derretiam-se em carinhos um com o outro, Rony olhava para o gato atônito, embora já estivesse farto de ver o bicho em atitudes suspeitas, mas não conseguiu deter um comentário, que vez Harry desejar estrangular o amigo, por dar mais um motivo para piadinhas por parte de Lilá e Parvati.
Eu não acredito! Eu tenho certeza de que Crookshanks ouviu a gente falando da Mione e veio até aqui para espionar de perto!
Rony, idiota! Cala-a-boca! – Rosnava Harry, baixo, por entre os dentes.
Puxa é mesmo! – Dizia com um sorriso debochado e voz fanhosa, Parvati Patil. Dizem que gatos têm audição excelente, que podem ouvir o menor dos ruídos em quilômetros... então, com certeza ele ouviu e ‘en-ten-deu’ o que falávamos da sua dona...
...e irá correndo contar a ela antes de dormir! – completava Lilá, sem conseguir abafar a risada.
Lilá e Parvati soltaram calorosas gargalhadas, atraindo a atenção dos outros alunos que estavam no salão. Desta vez Rony teve que segurar Harry para que ele não avançasse sobre as duas. Gina ficou tão furiosa que sua pele se confundiu em cor com seus cabelos.
Calem a boca agora! Suas babacas ridículas!
As duas apenas gargalharam ainda mais alto em resposta a fúria de Gina, que abraçava Crookshanks com força, como se quisesse protegê-lo daquelas duas víboras. O ódio podia se visto nos olhos do felino, que dirigia uma expressão medonha, como um tigre acuado. Abaixou suas orelhas quase que desaparecendo sobre a cabeça e rosnou em direção as duas garotas debochadas, num rosnado frio e mordaz, emitindo um silvo agudo que amedrontou até Gina e Harry. As duas pararam com a risada no mesmo instante, olhando abobadas para o gato no colo de Gina, que ainda o segurava firmemente, agora por medo de que avançasse sobre as colegas. Quando viu que as duas prestavam-lhe toda a atenção, soltou mais um silvo raivoso, deixando a mostra suas presas e garras. Parvati e Lilá ficaram apavoradas, deram um gritinho ensurdecedor e correram em direção ao dormitório. Os três que ficaram, ainda com Gina segurando o gato com força, não sabiam se continuavam aparvalhados ou se davam risadas. Crookshanks se sacudiu para descer do colo da menina ruiva, dando dois saltinhos à frente. Balançava a cauda nervosamente e tinha uma postura altiva. Virou a carinha alegre para Gina e soltou dois miadinhos manhosos, o que fez com que a menina caísse na risada, abaixando-se para acariciar as costas do gato, cumprimentando-o.
É isso aí, Shanks! A Mione precisa da gente para defendê-la dessas peçonhentas!
Definitivamente, Crookshanks não é um gato! Não mesmo! Isso é impossível, mesmo sendo uma criatura mágica! – Dizia Harry, exasperando, fazendo movimentos bruscos com os braços.
O que importa isso agora? – Dizia Rony, muito sorridente. Ele fez exatamente o que a gente queria fazer: botar pra correr aquelas duazinhas metidas!
Gina já estava com Crookshanks no colo novamente, rumando para os dormitórios.
Vamos lá pro quarto da Mione, Shanks! A essa altura, aquelas duas bestas devem estar enchendo a paciência da Mione com besteiras, devem tá falando que você tentou esfolá-las com uma patada! Heheh! Mas se comporte, viu! Vamos deixá-las ainda mais com cara de idiotas!
Dito e feito. Quando Gina adentrou o quarto, lá estavam Parvati e Lilá nervosas balbuciando em voz alta o que tinha acontecido. Gina podia jurar que elas estavam quase desmanchando-se em lágrimas. Hermione permanecia estática, com a mão entre os olhos, buscando alguma paciência do fundo de seu âmago. Quando Gina aproximou-se das três garotas, Lilá e Parvati quase caíram no chão, ao ver Crookshanks no colo da menina.
Vocês são muito ri-dí-cu-las! Deveriam ter horrores de se apresentarem em público com uma personalidade dessa! – Gina quase gritava, apertando ainda mais Crookshanks contra si. O gato parecia surpreso, afinal, não era ele que tinha que se comportar?!
Não durmo uma noite a mais com esse monstro aqui, Granger! Vou até a professora McGonagall contar o que aconteceu! Tomara que mandem esse bicho ser executado pelo controle de criaturas do ministério! – Gritava em prantos Parvati, que estava caída sobre sua cama.
NÃO! Não se atreva a incomodar a diretora com essas amenidades! Acha que McGonagall irá acreditar nessas mentiras estúpidas?! Vocês duas estão passando dos limites do absurdo! – Hermione gritava irada com Parvati, que pareceu ainda mais amedrontada do que há poucos instantes com o gato.
Hermione vestia as pressas o penhoar sobre sua camisola. Estava nitidamente colérica. Era só mais isso que lhe faltava? Seu gato ser acusado de um monstro selvagem e assassino?! Pegou Gina pelo braço, sem dizer uma palavra sequer e a arrastou para fora do quarto, com Crookshanks ainda agarrado em seu pescoço.
Mione! O que você vai fazer?! Não acredite naquelas duas imbecis! Elas estão loucas! Shanks só miou para elas! Se quiser, ele pode dormir comigo essa noite, eu não me importo!
Obrigada, Gin! Obrigada mesmo! Você é a única que tem estado ao meu lado, a única que não me perturba por besteiras! Mas não quero que você se incomode ou que venha a ter problemas por causa de nós... irei levar Shanks para um lugar mais seguro! E obrigada mesmo!
Hermione pegava Crookshanks do colo da amiga, que a olhava tristemente. Podia notar-se o quanto Hermione estava estressada. Temia pela saúde da amiga, que provavelmente viria a ter um colapso a qualquer momento e as aulas mal haviam começado! Hermione desapareceu pela escadaria em direção ao salão comunal. Gina decidira a falar com a diretora sobre tudo que ocorreu, antes que outros dissessem com mentiras. Tudo que ela pudesse fazer para ajudar Hermione, ela faria. E também ela não queria que Crookshanks sofresse qualquer retaliação.
Harry e Rony ainda estavam no salão comunal, esperando a volta de Gina para saber como se desenrolou a história. Eles mal conseguiram perceber que quem passava velozmente por eles era Hermione, com suas vestes brancas e seus cachos caídos soltos sobre suas costas se esvoaçando com suas passadas apressadas. Harry correu e conseguiu alcançar Hermione, segurando-a pelo braço.
Mione! O que houve?! Pra onde você vai com essa pressa?!
Hermione soltou-se quase dando uma bofetada em Harry. Estava com a face rubra, de tanta raiva. Seus olhos estavam marejados, a ponto de chorar.
Sai, Harry! Me larga! Não te interessa pra onde estou indo, não se meta!
Rony e, principalmente, Harry, ficaram olhando aturdidos Hermione desaparecer com o gato em seus braços pela passagem de entrada do salão comunal. A coisa tinha sido ainda mais séria do que pensavam!
Hermione apertava Crookshanks contra seu peito, abraçando-o com tal força que o bichinho ficou com dificuldade para respirar. Correu pelos desertos corredores da torre da Grifinória, descendo para o sétimo andar. Parou no fim do corredor, procurando por algo nas paredes. Parando em frente ao que parecia ser apenas uma parede lisa, começa a surgir diante de seus olhos uma porta de madeira, pintada com tinta plástica verde pastel, com um quadrinho artesanal pendurado por um prego, em forma de uma bruxinha estilizada voando numa vassoura junto com um gato preto, onde pendia uma plaquinha em aço polido com o nome Hermione gravado no metal numa caligrafia gótica.
Hermione girou a maçaneta redonda, abrindo a porta para um quarto não muito grande. Havia uma mistura de estilos, um quarto de menina que misturava-se a um estilo mais maduro. A cor predominante era verde, com um tom mais denso nas paredes e um tom bem clarinho no teto. Uma larga cama com cabeceira em vime trançado de cor natural sustentava uma grossa colcha com motivos florais, também em tons de verde. Aos dois lados da cama, um criado-mudo de mesmo padrão que a cama, em cada lado, sendo que um sustentava um abajur de tecido com flores pintadas a mão e dois livros, e o outro, um despertador de corda com design antigo e um vaso solitário em cristal com um pequeno buquê de rosas vermelhas em miniaturas, fazendo contraste com o ambiente verde. Um grande quadro com foto de folhas e violetas ampliadas ficava acima da cama. À frente, uma grande estante embutida, com várias bonecas de louça, muitos livros e outros objetos decorativos e utilitários. Ao lado da porta, uma penteadeira de vime natural trançado, estava embutida na parede, com um banquinho de mesmo padrão, acolchoado com motivos florais. Sobre a penteadeira, duas caixinhas em madeira decoradas artesanalmente e um grande espelho de parede, também em vime trançado. Ao lado da estante, no final do quarto, havia uma porta quase imperceptível, que daria entrada a um closet e a suíte. No final do quarto, uma grande janela, que ia de uma ponta a outra da parede, do chão ao teto, coberta por uma finíssima cortina em renda de tom natural, que parecia tremular com a brisa.
Hermione mergulhou sobre a cama fofa, afundando o rosto num macio e gordo travesseiro. Crookshanks estava ao seu lado, observando todo o ambiente. Ele estava atordoado, sabia que estava na sala de requerimento, mas jamais havia entrado ali com esse ambiente. Esse era exatamente o quarto da casa de Hermione, com todas as cores, todos os adereços, todos os livros e até com o mesmo perfume floral! Pulou da cama e rumou um pouco mais pra direção da janela e ali, após a cama de Hermione, encontrou um grande cesto de vime forrado com uma colcha fofa de babados, com o mesmo padrão da colcha da cama... era exatamente o cesto onde dormia quando ia pra casa com a dona nas férias... tinha até seu cheiro e dois brinquedinhos de tecido que a menina achava que ele gostava de brincar. Olhou tristemente, com as orelhinhas arriadas, para a menina afundada na cama fofa. Pelo olfato, sentiu que ela chorava, abafando seu pranto no travesseiro.
Pulou de volta na cama, passando sua patinha nos cabelos da menina. Hermione virou-se para o gato, com os olhos muito vermelhos e inchados, a face igualmente rubra, banhada pelas lágrimas. Sentou-se sobre as pernas, pegando o travesseiro e apertando-o fortemente contra o corpo, apoiando o queixo sobre, tentando abafar seu choro. Não suportando a força das lágrimas, enfia o rosto novamente contra o travesseiro, soluçando furiosamente. Crookshanks a observava sem saber o que fazer. Balançava a cabeça e a cauda nervosamente, andando de um lado para outro pela cama, como se fosse uma onça enjaulada! E é o que era, um animal enjaulado, impotente, vulnerável, domesticado pela força do medo ou escravidão e, no seu caso, pela força de uma maldição!
Hermione sentiu-se totalmente esgotada, suas energias se exauriram com a angústia, suas lágrimas começaram e escassear. Baixou o travesseiro e viu Crookshanks agir de forma estranha, como uma pessoa nervosa, andando de um lado para o outro, com a cabeça baixa. Hermione sentiu pena do pobre bichinho junto com uma pontada de culpa, por ele ser obrigado a passar por aquelas situações por sua causa. Espalmou sua mão direita sobre a cabeça do felino, fazendo-o se acalmar um pouco. Acariciou as orelhas e o queixo do gato, que o fez olhar diretamente para ela. Hermione sentiu um calafrio ao ver aqueles olhos amarelos marejados por lágrimas, que lhe pareciam muito com olhos humanos... jamais havia visto Crookshanks dessa forma, era como se ele estivesse se condoendo pela situação. Isso fez com que Hermione cessasse os carinhos, mas sem desviar seus olhos dos dele.
Está tudo bem agora, Shanks... estamos em casa... Vê? É o nosso quarto...
Hermione desliza para a cama, afundando-se novamente no travesseiro, mas continua olhando para o gato. Ironicamente, todo aquele choro, deixou Hermione ainda mais bonita, com suas faces mais coradas do que é naturalmente e os lábios num vermelho intenso.
Me desculpe, Shanks... me desculpe por você ter que passar por isso, por ter que presenciar essa minha fraqueza detestável! Como posso pertencer a Grifinória dessa forma?!
A menina puxava a colcha verde floral, cobrindo-se até o queixo. Virou-se de costas para Crookshanks, que continuava a olhá-la de forma pesar. Deu-lhe boa noite num suspiro. O gato, também exausto, deu duas voltinhas em torno de si, deitando enrolado e praticamente colado às costas de Hermione. Afundou seu focinho na cauda grossa de pêlos longos e sedosos, fechando seus olhinhos amarelos para mais um dia... e que dia!

Fim do Capítulo III – continua...
By Snake Eyes – 2004

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Capítulo II - Finite Incantatem Animago.


ANIMAGO MORTIS
Capítulo II - Finite Incantatem Animago

Hermione estava sentada em frente à penteadeira do dormitório, arrumando-se e prendendo alguns cachos que caiam sobre seu rosto com delicadas e quase imperceptíveis presilhas, deixando a mostra seu rosto de uma beleza simples, mas autêntica. Com o dedo indicador, passava duas gotinhas de seu perfume, uma gotinha atrás de cada orelha... suzuran, a fragrância que escolheu para si, desde que visitou o Japão na últimas férias com seus pais. Ficou encantada com aquelas delicadas florzinhas em forma de sino, que pendiam-se em caules ainda mais delicados. Gostava da lembrança que aquele aroma lhe trazia, lembrando-se da melhor parte da viagem, quando foi visitar o parque de Fujiyama, um lugar incrível e de beleza exótica. À noite, próximo ao riacho em que viu pela primeira vez as suzurans, brincavam vaga-lumes, refletindo sua luz nas águas velozes do córrego, enquanto a brisa fresca varria a vegetação num silêncio muito confortante... podia jurar que as pequeninas flores em forma de sino soavam como guizos com o balançar do vento e quando Crookshanks lhe havia trazido um pequeno ramalhete como presente.
Sentiu algo fofo roçar suas pernas, o que a fez despertar de suas agradáveis lembranças. Olhando para baixo, sorriu ao ver que tratava-se de Crookshanks. Fechou o frasco de perfume, pegou o gato no colo e levantou-se da penteadeira.
O que tem dado em você, heim Shanks? Nestes últimos tempos você tem passado a noite toda dormindo... não sai mais pra passear...
O gato olhava Hermione diretamente nos olhos e, como resposta, jogou-se contra o colo da dona, fechando os olhinhos amarelos e ronronando alto. Hermione riu, e como retribuição pelo afago, coçava atrás das orelhas do bichano.
Ainda é cedo para o café da manhã, então temos quase duas horas até o desjejum para estudarmos na biblioteca.
Eram apenas 6:37 h da manhã. A imensa biblioteca de Hogwarts estava completamente deserta, como era de se esperar. Nem mesmo Madame Pince, a bibliotecária, estava ali a esta hora. Hermione esperou que Crookshanks entrasse para fechar a pesada porta de carvalho. O gato dirigia-se até as prateleiras, quando parou e esperou pela decisão da dona, de qual matéria estudariam hoje.
Rony e Harry podem dizer o que quiserem, mas eu tenho certeza de que você realmente entende a literatura... e o que gostaria de ler hoje, Sr Crookshanks?
Hermione sorria em direção do gato, dirigindo-lhe a pergunta. Ela própria se questionava se estava em sã consciência, por achar que o gato era capaz de entender tudo o que dizia e, principalmente, era capaz de ler! Embora já tivesse pesquisado a exaustão sobre gatos – e outros animais mágicos de aparência comum – e arrancado todo o conhecimento de Hagrid a esse respeito, ela jamais encontrou qualquer linha que mencionasse que tais animais bruxos tinham capacidades humanas de ler, por exemplo. Tudo que encontrou a respeito de gatos bruxos era que tais criaturas eram excelentes para detectar pessoas suspeitas e focos de magia, mesmo que totalmente imperceptíveis para o mais experiente bruxo, além da grande orientação de espaço, jamais se perdendo e, até, ajudando outros animais ou pessoas a encontrarem o caminho certo, caso estas se perdessem. A capacidade de detectar pessoas suspeitas e focos de magia, mesmo que latentes, foram muito bem comprovadas quando Crookshanks tentou capturar o rato de Rony, Perebas, a todo o custo, em seu terceiro ano em Hogwarts. O gato havia detectado que o rato era, na verdade, um animago... o animago Peter Pettigrew, o traidor dos Potter.
Crookshanks, como havia feito algumas vezes desde o fim do outro ano letivo, correu em direção a uma grande porta no final do salão, meio que escondida entre as grandes prateleiras de livros. Hermione limitou-se a pôr as mãos sobre os quadris, um tanto impaciente. Sua voz, mesmo baixa, ecoou pelo salão vazio de outros seres viventes além dela e do gato.
De novo, Crookshanks? O que tanto você quer aí? Já falei várias vezes que a área reservada da biblioteca é estritamente restrita aos alunos, salvo raras exceções! E está enfeitiçada, não há como entrarmos aí sem ajuda de Madame Pince.
O gato olhava triste para sua dona e, de cabeça baixa, retornava para perto da menina, que o pegava no colo e andava entre as prateleiras, procurando livros específicos, enquanto conversava com o gato.
Lá estão livros raríssimos, alguns muito antigos, desde a fundação de Hogwarts. Há também livros poderosos de magia negra... eu realmente gostaria de poder entrar lá e ver todo esse tesouro... espero algum dia ainda poder ter esse privilégio...
Hermione postava-se nas pontas dos pés para alcançar um livro sobre poções que julgava ainda não ter visto, decepcionando ao ler o título da capa. Ela já havia estudado tal livro, até mais de uma vez. Deu um longo suspiro de tédio, olhando para o resto do corredor de prateleiras, procurando algo novo. Certamente, ela já havia lido toda a biblioteca de Hogwarts. Estava decidida a pedir autorização ao diretor Alvo Dumbledore para ter acesso à seção reservada. Ela que já provara inúmeras vezes ser uma pessoa totalmente responsável a ponto mesmo de receber autorização para usar um vira-tempo, era quase certo de que teria o livre acesso à parte restrita da biblioteca pelo diretor.
Crookshanks pulara de seu colo e ia correndo até o final do corredor, sumindo atrás das prateleiras. Hermione o seguiu curiosa, queria ver o que ele queria dessa vez. Dobrou a prateleira e ficou observando o gato de longe. Este andava olhando para o alto da prateleira a sua esquerda, como se procurasse algo. Parecendo ter achado o que procurava, começou a escalar os andares de livros, o que fez Hermione correr em direção ao gato, temendo que ele fizesse uma grande besteira que estragasse os livros.
Crookshanks! Desça já daí! Você vai acabar destruindo esses livros e Madame Pince nos crucificará por uma semana!
O gato não deu ouvidos a dona, derrubando um livro com a patinha, jogando-se ao chão logo em seguida. Em desespero, Hermione apontou sua varinha fazendo o livro flutuar até suas mãos. Virando a capa para cima, para ler o título.
”Animago Mortis”...
O gato olhava curioso para Hermione, como se esperasse alguma resposta ou comentário, até que esta voltou seu olhar para o bichano.
Isso aqui não é um livro didático, é um romance bruxo. E, além disso, eu já o li e, pelo que lembro, você também, Crookshanks...
Crookshanks num meio salto postou-se nas pernas da menina, roçando sua cabeça contra. Hermione entendeu aquilo como um pedido, e riu.
Ah! Então você gosta de contos de fadas, gatinho esperto? Tudo bem, você venceu! Também acho que é uma boa para passar o tempo até o café da manhã. Além do mais, já perdemos 15 minutos do nosso precioso tempo.
Durante o café da manhã, Hermione sentiu que o murmurinho na mesa da Grifinória, especificamente entre os alunos de sua turma do 7º ano, estavam falando de si. Adivinhando o que talvez seria e dando de ombros – afinal, ela tinha que aprender a não se importar mais com essas atitudes de seus colegas – não se deu nem ao trabalho e nem a curiosidade de perguntar do que falavam, apenas continuava a comer tranqüilamente seu desjejum enquanto tentava absorver mais um pouco da matéria que seria ensinada daqui a pouco na aula de Transfiguração. Se nesses últimos tempos Hogwarts estava tornando-se insuportável para si devido as atitudes e conversinhas tolas de seus colegas, ao menos deveria tirar o melhor proveito, pois sabia que o conhecimento ali adquirido a acompanharia para o resto da vida e isso ninguém tiraria dela. Já as supostas amizades que tinha, principalmente com Harry e Rony, lhe traziam muitas dúvidas se conseguiriam sobreviver pós-Hogwarts, apesar de todos os pesares.
Durante a aula de transfiguração, sentiu coisas estranhas novamente. Sentia que havia olhares de seus colegas para si. Também sentia que a Professora McGonagall lhe dirigia uma atenção diferente. Viria, a saber, o porque logo após a aula, quando a professora, ao dispensar todos os alunos, pedira a ela para que ficasse, pois precisavam conversar.
Sabendo que a professora McGonagall não era imprevisível, ela manteve-se tranqüila. Decerto, a professora iria querer falar sobre o seu cargo de Chefe dos Monitores ou sobre as provas para NIEM que teria que fazer este ano. Pacientemente, Hermione esperou em frente à mesa da professora, aguardando a saída do último aluno, para que McGonagall lhe dirigisse a atenção.
Sente-se, querida. Não é preciso permanecer em pé.
Hermione obedeceu um tanto intrigada, pois não era isso que esperava ouvir. Geralmente, as conversas que tinha com a professora não duravam mais de 2 ou 3 minutos, pois eram sempre em relação a escola, apenas para noticiar alguns fatos que, na sua grande maioria, não havia quase nada fora do habitual.
Hermione, a conversa que gostaria de ter com você não é de professora para aluna, mas de amigas... – McGonagall mantinha um olhar preocupado para Hermione e esta, por sua vez, estremeceu levemente ao ouvir aquilo. Não que seria ruim ter uma conversa amigável com a professora, longe disso, mas que aquilo era mesmo muito estranho, isso era. Inúmeras vezes passou horas conversando com a professora sobre diversos outros assuntos além dos relacionados à escola, mas nunca desta forma, em que a professora precisava segurá-la mais tempo na sala de aula... deveria ser algo muito sério. Hermione prendeu a respiração e dirigia toda a atenção à senhora que estava sentada a sua frente.
Bem, vamos direto ao assunto, pois não quero atrazá-la para sua próxima aula. Não se preocupe que não a deterei por mais que 10 minutos.
Tudo bem professora... a próxima aula é do Prof Flitwick e ele é bastante compreensível com os alunos. Mas... aconteceu algo de grave, professora? É alguma coisa que fiz de errado, alguma ordem equivocada aos outros monitores ou...?
Não, não, querida. O seu comportamento é exemplar até mesmo como Chefe dos Monitores. Não há absolutamente nada errado ou atípico sobre o que reclamar de você, seja como monitora, seja como aluna...
Então? – Hermione ficava mais apreensiva, colocando as mãos sobre a mesa da professora e apertando-as fortemente, sentia que elas estavam umedecendo. Detestava esse tipo de situação em que não previa o que estava para acontecer ou para ser dito.
É algo pessoal, é sobre você, como pessoa. Seus colegas, Hermione, me procuraram e eles estão muito preocupados contigo, principalmente Weasley e Potter. As senhoritas Brown e Patil me procuraram também e... elas também estão muito preocupadas com você, querida...
Hermione suspirou fundo, revirando os olhos de descontentamento. Então era isso?
Afff! Então era por isso aquele burburinho durante o café da manhã? – Falou em tom baixo, mais para si mesma, mas alto o suficiente para a professora ouvir.
Que burburinho? – Minerva olhava desconfiada, talvez não fosse apenas uma fofoquinha de alunos ociosos.
Er, bem... eu senti que cochichavam algo ao meu respeito hoje pela manhã, no desjejum e... também senti alguns olhares inquisitores em minha direção durante a aula da Senhora. Mas... não faço a mínima idéia do que possa se tratar. Não me lembro de ter destratado injustamente ninguém e também não sou de me envolver em intrigazinhas. Aqui dentro de Hogwarts, minha vida é a escola... não me arriscaria com bobagens, seja lá o que fosse.
Eu sei disso, perfeitamente. Reitero o que disse: você é uma aluna exemplar. Mas o que estou falando é sobre você como pessoa, como uma moça, para assim dizer... seus amigos estão preocupados exatamente com essa sua atitude um tanto retraída, de nunca participar da interação com os outros alunos fora do ambiente escolar. Eles estão preocupados com a sua preferência de estar todo o tempo em companhia de livros e... suas colegas com quem divide o dormitório, me disseram que você passa horas conversando sozinha, antes de dormir...
Minerva envolveu firmemente as mãos da menina com as suas, como se quisesse lhe passar uma confiança ainda maior, para que a menina sentisse segura em falar se algo de errado a estava acometendo. Hermione, por sua vez, estava estupefata, com olhos arregalados para a professora... o que ela iria dizer? Que seus colegas estavam tempo demais a toa para ficarem se metendo em sua vida particular?!
Eu realmente não sei o que lhe dizer sobre isso, professora... De fato, prefiro muito mais a companhia de livros a desperdiçar meu precioso tempo com brincadeirinhas tolas e conversas sem propósitos... não acho que isso me trará algum benefício, muito pelo contrário. E quanto à Lilá e Parvati... elas passam horas em conversas antes de dormir, às vezes em voz alta e soltando risadinhas, nem sequer se importam se incomodam ou não as outras colegas... não sabia que meus monólogos com Crookshanks estavam as incomodando! – Hermione terminou a frase com uma expressão brava, desviando o olhar raivoso para um ponto qualquer da sala. A professora apertou ainda mais as suas mãos.
Hermione, querida... gostaria muito de continuarmos essa nossa conversa. Por favor, venha até minha sala particular à noite, após o jantar e antes da sua ronda. Agora é melhor que vá para a aula de Feitiços, não podemos deixar o Prof Flitwick triste com sua ausência. E, por favor, não fique chateada com seus colegas... eles apenas querem o melhor para vocês. Eles realmente gostam de você e estão muito preocupados.
Hermione já estava próxima à porta, quando respondeu à professora de forma tediosa.
Ah, ta... sei... estarei na sua sala às 8:30h professora.
Hermione por mais furiosa que estava, tentou ser o mais gentil possível ao falar com o Prof Flitwick, quando entrou em sala, já atrasada. A aula era dividida com o 7º ano da Lufa-Lufa e todos os alunos desviaram seus olhares para ela.
Desculpe-me, Professor. A Profª McGonagall precisava me falar com certa urgência e...
Está tudo muito bem, Srta Granger. Não se incomode com alguns poucos minutos de atrazo. Acomode-se em seu lugar para que possamos ver hoje uma série de vários feitiços avançados de ilusão.
Hermione apenas assentiu com a cabeça e rumava para uma das cadeiras vagas no final da sala. Focalizou pelo caminho Harry e Rony, que estavam apreensivos, encolhendo-se em seguida com o olhar fuzilante de Hermione. Parvati e Lilá abafavam risadinhas enquanto olhavam de esgueira para Hermione que, em troca, mandou-lhe o mais mordaz de seus olhares que pareceu ter queimado as duas amiguinhas, que se calaram de imediato, afundando na cadeira.
“"cio em excesso... terei que tomar uma providência sobre meu caros amigos tão preocupados com meu bem estar!”
Após terminar seu jantar, Hermione levanta-se da mesa, sem olhar para ninguém – ainda estava aborrecida pela intromissão de seus colegas em sua vida, como se sua opção de ocupar um tempo ocioso com algo importante como livros fosse a coisa mais absurda do mundo.
Onde você vai, Mione? Nem sequer tocou na sua sobremesa... você está bem? – Harry lhe falava, entre uma colherada e outra de seu pavê de chocolate. Hermione apenas o olhou de lado, observando em seguida que seus outros colegas “muito preocupados” com seu bem-estar estavam muito interessados nela naquele momento. A frieza que vinha de si parece que congelou toda a mesa da Grifinória e alguns alunos, principalmente os do 7º ano, mudaram de assunto ou fingiram que estavam fazendo outras coisas.
A Prof McGonagall me convidou a ir até sua sala particular para uma conversa... parece que meus bons amigos estão preocupados com minhas atitudes responsáveis demais... realmente, responsabilidade e dedicação não combinam com a idade de 17 anos.
Hermione saiu do salão antes que qualquer um desse alguma resposta ou uma desculpa qualquer. Rony, Harry, Lilá e Parvati apenas se entreolharam meio sem-graça, meio temendo alguma retaliação por parte da Chefe dos Monitores; embora isso não fosse típico de Hermione, mas aquele tratamento álgido para com eles era menos típico ainda.
Enquanto Hermione caminhava lentamente até a sala particular de Minerva McGonagall, encontrou algo se esgueirando pelas paredes de pedra, ocultando-se nas sombras formadas pelas tochas. Parou e ficou a espera, observando a pequena figura ainda distante. Pela difusão das luzes, seus olhos tornavam-se dois faróis que refracionavam a luz ambiente como raios.
Ao perceber que se tratava de Hermione, o gato persa alaranjado correu em sua direção, jogando-se contra as pernas da moça, roçando sua cabeça. A garota abaixou-se para cumprimentá-lo com alguns tapinhas no seu dorso.
Shanks! Vamos até a sala da prof Minerva, ela quer falar comigo. Acho que ela não se importará se você também for, já que ela própria pode transformar-se num gato quando quer...
Chegando em frente à porta da sala particular da professora, a figura de um leão dourado que ornamentava a entrada, deu um rugido baixo, abrindo a porta e dando passagem à garota e ao gato. A professora deve ter enfeitiçado a porta para permitir a entrada de Hermione assim que ela chegasse. Sem mais demoras, Hermione adentrou a sala junto com Crookshanks, sentando-se numa confortável poltrona de dois lugares em veludo bege, com base em madeira escura esmerosamente entalhada. Todo o ambiente tinha uma decoração simples de muito bom gosto, que mais parecia uma casa trouxa de família de classe média. Eram poucos móveis, o que dava ao ambiente mais conforto. Um tapete de mesma tonalidade das poltronas com felpos fofos de lã, alguns quadros de paisagens que moviam-se como se fossem paisagens reais vistas da janela, uma grande lareira e alguns objetos delicados de decoração sobre o consolo, alguns abajures com estampas graúdas de flores no mesmo tom terral do resto da decoração.
Crookshanks parecia ter adorado o grande tapete felpudo, pois não parava de rolar de costas sobre ele. Hermione ria das gracinhas do gato, que colocava-se de barriga para cima fazendo carinha pedinte por afago. Lembrou-se de que talvez a professora não fosse gostar que seu tapete ficasse cheio de pêlos alaranjados, então convidou o gato a esperar comportado em seu colo.
Instantes depois, a professora Minerva adentra a sala, com um sorriso sincero nos lábios, ao ver a aluna sentada lhe esperando. Aproximou-se da menina, ainda sorrindo.
Que bom que veio, querida! E esse gatinho? É o Crookshanks, certo?
É, é ele mesmo. E gatinho é só carinhosamente... como Harry diz, ele é um tigre muito pequeno.
A professora que aprecia gatos, principalmente porque sua forma animaga é a de um gato, afaga a cabeça do bichano, que retribui com um pequeno ronronar.
Venha, vamos até meus aposentos. Pedi para que os elfos tragam chá e alguns doces. Vi que você não jantou direito esta noite.
Ah, bem... estava um tanto ansiosa para a nossa conversa...
Os aposentos da professora eram, obviamente, ainda mais confortáveis que sua sala de estar onde antes estavam. Uma grande cama de dossel estava parcialmente oculta por suas cortinas de seda e renda, em tons de bege. Ficava ao canto do grande cômodo, próxima a uma janela de vitrais, com o símbolo e cores da Grifinória. Professora e aluna estavam frente à lareira, onde havia mais duas poltronas e uma mesa de centro, onde estava a bandeja de chá e doces. Enquanto elas duas bebiam o chá, Crookshanks se lambuzava com uma generosa fatia de bolo de morangos e chocolate. Para Hermione, não importava o assunto que tratasse, sempre era muito agradável estar em companhia da velha professora, e, naquele momento, não era diferente.
... eu só não entendo o porquê de só agora eles se implicarem com meu jeito de ser, de agir... desde que entrei para Hogwarts que ocupo meus tempos livres com livros e estudos, isso não é nenhuma novidade para ninguém!
Sim, sei disso... mas, ao que pude perceber, a preocupação deles é com você estar se afastando cada vez mais de atividades em grupos que não envolvem a escola, de não interagir com seus colegas e quando alguém se aproxima para alguma conversa, você os destrata, se aborrecendo e se retirando para o dormitório...
Hermione fechou os olhos, respirando fundo para conter sua fúria crescente... como eles podiam ser tão injustos?
Então é isso? Eles por acaso não mencionaram o teor da conversa deles? Da implicância e falta de respeito com tudo que me diz respeito? Uma hora é por causa do meu cargo de Chefe dos Monitores, outra por causa do meu gosto por estudo, outra pela minha descendência de trouxas... até com Crookshanks estão implicando agora! Perdão professora, mas meu limite de tolerância com essa falta de respeito está quase a zero!
Eu entendo, Hermione... mas espero que você saiba que alguém em sua posição gera muita inveja, principalmente. Não a convidei para essa conversa para acusá-la de nada, mas para ouvir a sua argumentação. E sei também que precisa ser algo grave para você chegar a destratar alguém, isso não é de sua natureza. Agora, sobre o seu gato...
O Shanks? O que tem ele? Vai me dizer que aqueles ingratos estão maldizendo do meu bichinho, que ele tá incomodando, depois de tudo o que ele já fez?!
Não, eles não estão incomodados com Crookshanks, nem estão maldizendo dele... apenas me falaram algo que... bem, achei mesmo muito engraçado.
Hermione relaxou, jogando-se para trás na poltrona, dando um largo sorriso.
Aposto que Rony e Harry falaram que Shanks fica lendo junto comigo... ou melhor, que eu estou ficando louca por achar que o gato tem a capacidade de ler e compreender, não é isso?
A professora retribuiu o sorriso, mas não com o mesmo otimismo.
Exatamente, e gostaria de ter dado a mesma risada que a sua diante da cara perplexa dos dois meninos ao me contarem isso, mas... preciso perguntar, Hermione: é verdade?
Hermione ficou séria, mesmo porque ela acreditava veemente nessa possibilidade. Se ela falasse isso, a professora podia achar que ela está enlouquecendo... por outro lado, se houvesse algo de errado consigo, Minerva McGonagall era a melhor pessoa do mundo para auxiliá-la. Então, era melhor ser sincera, mesmo porque ela não gostava de mentir, ainda mais para sua professora, que lhe era quase uma mãe.
Er... é verdade... sempre que leio ou estudo, Shanks fica junto comigo, como se estivesse mesmo lendo e estudando junto... e também acho que ele compreende tudo que acontece e é dito ao seu redor... mas creio que essa é uma característica, mesmo porque ele é uma criatura mágica, não é um gato comum...
A professora parou por instantes como se estivesse analisando a informação. Mordia o lábio inferior e dirigia seu olhar intrigado para o gato, que parava de comer a fatia de bolo para prestar atenção à conversa. Minerva ficou ainda mais intrigada com essa atitude do gato, era perfeitamente visível que ele prestava atenção, logo, devia compreender o que era dito. Ela levantou-se de sua poltrona e andou em direção do gato, parando frente a ele a certa distância. Crookshanks apenas acompanhava a senhora, dirigindo-lhe um olhar curioso. Suas orelhas estavam totalmente voltadas para frente, demonstrando seu total interesse na situação. Minerva saca sua varinha e aponta para o gato, que faz Hermione levantar da poltrona num salto, quase voando em direção à professora.
Professora, não! O que a senhora vai fazer?! Crookshanks pode ser estranho, mas é muito bonzinho! Por favor, não faça nada!
Não precisa temer nada, Hermione! Não farei qualquer mal à Crookshanks... apenas quero testar algo nele. Não irá machucá-lo, lhe asseguro.
Crookshanks olhava curioso para Hermione, como se esperasse alguma resposta dela. Por sua vez, a menina estava apreensiva com aquilo, mas confiava na professora, dando-lhe permissão de fazer tal ‘teste’.
Não entendi o que a senhora quer com isso, mas se a senhora diz que não fará qualquer mal à Shanks...
Não farei, lhe prometo! – Firmando a varinha para o gato, proferiu o feitiço:
Finite Incantatem!
Uma luz saiu da varinha de McGonagall, que envolveu Crookshanks como uma névoa brilhante. A névoa dissipou-se rapidamente e nada parecia ter mudado no gato. Hermione apenas olhava atônita, ainda não entendia aonde a professora queria chegar. O gato apenas ficou observando a névoa se dissipar, voltando sua atenção à professora.
Finite Incantatem Animago!
Uma nova névoa brilhante, mas ainda mais densa, envolveu o gato num redemoinho nervoso. Por instantes, o gato desapareceu dentro da névoa dourada, quando essa começou a se dissipar, espalhando-se pelo ambiente. Crookshanks parecia nervoso. Seus longos pêlos estavam arrepiados e olhava para si para todos os lados. Suas orelhas murcharam e ele olhou tristemente da professora para Hermione. Emitiu um miado melancólico e pulou no colo de sua dona, agarrando-se ao pescoço da menina. Estava tremendo e emitia um baixo chiado.
Oh, pobrezinho! Ficou com medo! Mas não doeu nada, doeu?
Desculpe-me, Hermione, mas precisava tirar essa dúvida...
Eu não entendo... esse último feitiço que a senhora lançou sobre Shanks...
Por toda a descrição que você me deu sobre o gato... desconfiei de que podia tratar-se de um animago.
Mas, mas... se fosse, eu já teria descoberto! Estou com ele há 4 anos e...
Weasley permaneceu com Peter Pettigrew por 12 anos em sua família e como sabe, é uma família de bruxos sangue puro, acostumados com todo o tipo de magia e... eles jamais perceberam que o rato de Rony Weasley era um animago... aliás, nem eu própria havia percebido, mesmo tê-lo visto diversa vezes.
Mas, Peter Pettigrew era uma pessoa ruim, que cometeu crimes horríveis... ele estava se escondendo então não deixaria nunca que descobrissem sobre ele, até que Shanks descobriu... então, por ter ficado contra um comensal da morte, certamente Shanks, se fosse mesmo um animago, pelo menos não seria um inimigo...
Desculpe por tê-la deixado confusa, Hermione. Mas nem sempre um animago permanece nessa forma por que quer. É por isso que essa capacidade é acompanhada de perto pelo ministério, tem que ser praticado sob acompanhamento de bruxos experientes. Às vezes, um animago não sabe como voltar à forma humana, permanecendo na forma animago até a morte.
A professora aproxima-se da menina, acariciando as costas do gato, que está agarrado e encolhido em seu colo.
Desculpe-me, gatinho. Não queria deixá-lo com medo. Agora é melhor você ir, Hermione, já são quase 10, hora da sua ronda noturna.
Hermione andava apressada em direção à torre da Grifinória. Crookshanks ainda estava em seu colo, meio trêmulo. Iria deixá-lo em sua cama no dormitório antes de começar sua ronda. A menina ia acariciando a cabeça e costas do gato, tentando confortá-lo... foi mesmo uma historia muito estranha.
Passou pelo quadro da mulher gorda, entrando no salão comunal e indo direto ao dormitório, ignorando todos pelo caminho, inclusive os colegas que a cumprimentavam. Estava preocupada com Crookshanks e também estava atrasada para sua ronda noturna. Esperava que o gato se acalmasse em sua cama.
Com certa dificuldade, colocou o gato deitado no meio de sua cama. Crookshanks não queria desgrudar do pescoço de sua dona. Com muito carinho, Hermione fez com que ele se deitasse, postando-lhe um beijo em sua cabeça.
Fique quietinho aqui, Shanks. Daqui a duas horas estarei de volta pra ficar contigo. Irei enfeitiçar o leito, ninguém irá perceber que está aqui, então ninguém lhe fará mal, está bem?
Hermione murmura um feitiço, apontando sua varinha para as cortinas da cama. Desamarra as cortinas, cobrindo totalmente sua cama. Agora, o que acontecesse dentro daquelas cortinas, não seria percebido por quem estivesse fora... deveria ter pensado nisso muito antes, assim teria poupado-se daquelas conversinhas tolas de Parvati e Lilá, e elas jamais saberiam que ela fica ‘falando sozinha’ antes de dormir.
Na cama, abaixo das grossas cortinas de veludo carmesim, Crookshanks deu duas voltas em torno de si mesmo, enrolando-se como um caracol, enfiando a carinha embaixo da pata. Seus olhinhos amarelos brilhavam como se estivessem marejados, um ar melancólico pairava sobre o felino, que adormeceu envolto do calor aconchegante do leito e do perfume de suzuran de sua amada Hermione.

Fim do Capítulo II – continua...
By Snake Eyes - 2004

Santa Tranqueira Magazine