quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Capítulo V – Turma de 76

ANIMAGO MORTIS
Capítulo V – Turma de 76

Ora, ora... o persa alaranjado da Srta Granger... quanto tempo não aparece por aqui, Crookshanks?
O gato entrava faceiro pela sala reservada nas masmorras. Sendo um gato, apreciava muito mais lugares quentes. Não gostava das suas patinhas nuas tocando aquele chão de pedras álgidas, nem do ar frio que ali se respirava... mas a companhia valia esse sacrifício.
Severus Snape, o professor de poções, postava-se novamente atrás de sua escrivaninha, onde estavam dezenas de rolos de pergaminho, em que ele lia pacientemente cada um, na maioria das vezes com uma expressão medonha no rosto, outras apenas com um leve erguer de sobrancelhas. O silêncio da masmorra era quebrado apenas pelo chiar da pena de Snape sobre os pergaminhos com os trabalhos dos alunos.
O gato era mesmo abusado e parecia não temer absolutamente nada daquele professor tão detestado e temido por todos. Subiu na escrivaninha onde Snape trabalhava, pondo-se sentado, envolto da própria cauda, num porte altivo e parecia dirigir um olhar inquisitivo e curioso para o que o professor fazia. Snape poderia até jurar que o gato entendia tudo o que se passava e até mais que isso: parecia entender perfeitamente os garranchos escritos naqueles pergaminhos. Por uma ou duas vezes, teve a impressão que o gato se arrepiou com uma monstruosa estupidez escrita sobre a poção “morto-vivo”, a que ele mandara fazer uma redação a respeito, na última aula de Grifinória e Sonserina.
Por acaso essa redação é de Neville Longbottom, o protegido da sua dona... você está aqui a mando dela? Não se preocupe, nem preciso ler o que ela escreveu para dar-lhe uma nota 10. Ela é a melhor aluna de Hogwarts em 20 anos... mas, você não se atreva a contar a ela que eu disse isso!
O gato, como resposta, apenas dirigiu um olhar curioso ao professor, revirando suas orelhas.
Sabe, gato... ouvi algumas coisas estranhas sobre a sua dona de alguns alunos que conversavam animadamente, até demais. Seria verdade que a Srta Sabe Tudo Granger finalmente estria surtando?
Crookshanks lançou um último olhar fulminante à Snape, que lhe dirigia aquele irritante sorrisinho sarcástico tão característico, antes de pular da mesa, bufando. Snape limitou-se a acompanhar os movimentos do gato. Era estranha para si mesmo a afeição que desenvolveu, quase instantaneamente, por aquele felino. Não que chagasse a detestar animais, mas nunca sentiu qualquer afeição por um, como as pessoas costumam fazer. E Crookshanks era um gato feio de cara emburrada, que parecia olhar implacavelmente para todos; além de ele mesmo não ter qualquer simpatia por sua dona, Hermione Granger, então, por que essa afeição pelo animal? Mas havia algo naquele gato... talvez ele próprio estivesse surtando... pena a Legilimancia não funcionar em animais, senão tentaria, ao menos, descobrir algo sobre ele, se é que há algo naquela cabeça grande além de pêlos laranjas.
O gato, de forma elegante e precisa, pula num único salto até o console sobre a lareira da sala particular de Snape. Lá, alguns porta-retratos com fotos antigas e outros objetos esquisitos para decoração. Andando garbosamente entre os objetos, sem ao menos encostar em qualquer um deles – ainda bem, pois alguns se quebrariam se caíssem dali! – pára em frente a um porta-retratos de metal, derrubando-o sobre o console com a pata. Na foto antiga em preto e branco, havia muitos rapazes e moças juntos, todos com uniformes de Hogwarts, sustentando o brasão da Sonserina no peito da capa negra. A foto, como era costume nas fotos bruxas, as pessoas se mexiam. As meninas davam tchauzinhos, jogavam beijinhos e coisas do tipo. Os garotos brincavam uns com os outros, alguns se mantinham sérios e outros faziam poses altivas para seu espectador. O garoto sério, de braços cruzados, Crookshanks reconheceu sendo Severus, uns 20 anos mais jovem...
O professor levantou-se intrigado da escrivaninha, indo direto à lareira e pegando o porta-retratos que o gato derrubou e estava olhando tão interessado.
Essa foto de novo, Crookshanks? Não é a primeira nem a décima vez que você fica olhando para ela... o que ela significa para você, heim? ... “idiota, Severus, o gato não vai te responder...”
Porém, o gato olhava para o professor de forma pedante, inclinando-se para frente, perdendo toda a sua pose garbosa... parecia que ele queria que Snape lhe contasse a história daquela foto...
Bom... essa daqui é a turma 76/77 da Sonserina, éramos do 6º ano... só lamento muito dizer que a maioria, ou melhor, quase todos aqui, ou estão mortos ou estão enlouquecidos em Azkaban... apenas esse garoto ao meu lado direito está desaparecido até hoje, ninguém nunca soube de seu paradeiro... seus pais morreram na primeira guerra das Trevas, eram comensais... Nicolai também era, mas eu sentia que ele tinha segundas intenções, que não eram para seguir Lord das Trevas, muito pelo contrário... enfim, ele desapareceu antes de terminarmos o nosso 7º ano... pobre garoto, veio da Rússia para morrer aqui...
Colocando a foto de volta ao console da lareira, Severus dava-lhe um olhar diferente, sem a frieza costumeira. De fato, eram lembranças dolorosas. Ver todos aqueles jovens cheios de sonhos e esperanças, tendo suas vidas aniquiladas por causa de tolices como ambição e poder a qualquer custo... todos, sem exceção, receberam apenas dor e sofrimento daquele ser monstruoso, vil e hediondo a quem entregaram até mesmo suas vidas e seus futuros!
... e o passado se repete! Hoje, há pelo menos cinco alunos da Sonserina que são comensais da morte... e duvido muito que eles tenham um futuro diferente destes que aí estão, nesta foto. Tenho tentado evitar a todo o custo perder mais crianças para as trevas, mas a ambição é um demônio astuto e poderoso!
Neste mesmo momento, alguém bate a porta da sala de Snape, que olha de forma muito tediosa para a mesma.
Que desagradável!... ENTRE!
Um grupinho de quatro alunos da Sonserina adentra a sala particular do Prof Snape nas masmorras, sendo um deles Draco Malfoy, agora ainda mais intragável, depois que o pai, Lucius Malfoy conseguiu sair de Azkaban, ao ‘comprar’ a sua inocência pela segunda vez.
O que os senhores querem aqui? – De forma muito tediosa e mordaz, Snape recebia os alunos de sua casa. A paciência dele com os alunos da Sonserina já não era a mesma de anos atrás.
Apenas lhe fazer uma visitinha, senhor... e saber o que achou de minha redação? – Draco estava com um irritante sorrisinho de lado e a voz monótona.
Oh, sim! Que maldade a minha... pensei que os senhores estavam aqui escondendo-se de alguma idiotice que tivessem aprontado no corredor! – Snape estava cada vez mais impaciente...
Crookshanks não desviava os olhos do garoto loiro platinado, o qual ele odiava profundamente por diversas razões, embora a que conquistou lugar de destaque em sua lista negra fora o total desrespeito que o garoto tinha por Hermione! Pulou do console e andou altivamente de volta a escrivaninha do professor, onde postou-se mais uma vez, sem desviar os olhos ameaçadores para os garotos sonserinos.
Esse gato... parece aquele gato esquisito daquela sangue-ruim da Grifinória, a Granger. O que ele faz aqui?
Isso não é de sua conta, Sr Malfoy! E quanto a redação de vocês, eu já as corrigi, se é o que querem saber. E sobre a sua redação, Sr Malfoy, se é que posso chamar assim aquilo... sugiro que leve mais a sério seus estudos este ano, pois neste nível não conseguirá pontos nos NIEMs nem sequer para sair de Hogwarts!
Isso não me preocupa, professor... meu pai tem excelentes planos reservados para mim, pouco importa NIEMs, isso é coisa pros desqualificados que precisam de pontinhos para se mostrarem mais dignos entre os bruxos...
O gato sobre a escrivaninha deu uma seqüência de miados mínimos que lembravam uma leve gargalhada – supondo-se que gatos riem... – pondo-se a andar vagarosamente em direção à Snape, sacolejando a cauda como se zombasse do loiro platinado.
Se quer confiar o seu futuro ao seu pai... mas eu ainda insisto que o senhor cuide você mesmo de seu futuro, enquanto ainda há oportunidade para isso.
Ah, tá, mas peraí! Esse gato ridículo, ele tá caçoando de mim? Não, isso só pode ser coisa daquela maldita sangue-ruim, ela deve ter ensinado isso a ele!
Os outros três colegas que estavam com Draco e Snape olham para o gato, que mantém-se altivo, sentado sobre a escrivaninha, mas abanando a cauda nervosamente. A expressão do gato, que normalmente já era feia, era de ódio pelo garoto, com os olhos formando meio globo, brilhando com a difusão das luzes. Vendo nada anormal no gato, os quatro espectadores voltam-se curiosos e inquisitivos para Draco, que se incomoda com os olhares incrédulos em sua direção.
Ah! Qual é! Eu tô falando sério! Não é a primeira vez que vejo esse bicho agir assim, parece até gente! Isso deve algum feitiço que aquela sangue-ruim fez para ele agir desta forma!
Você tá avariando, Draco! O bicho é só um gato idiota, e gatos são assim mesmo! – Blás Zabini falava com um sorrisinho sarcástico.
Antes que Draco retrucasse ou os outros dessem seus comentários, Crookshanks pulou da mesa, em direção da porta da masmorra, que não estava completamente fechada. Saindo no corredor, olha para os lados, encontrando o zelador Argo Filch furioso, acompanhado de sua fiel dedo-duro, a gata Madame Nor-r-ra. Crookshanks dá um miado feio e agudo, chamando a atenção da gata, que corre em sua direção. À porta da sala particular de Snape, Madame Nor-r-ra fareja algo, lançando um miado agudo e longo para Filch, que corre em direção aos felinos com sua expressão sádica muito satisfeito.
Filch empurra com raiva a porta, encontrando os quatro alunos da Sonserina estáticos e temerosos, enquanto Snape observa a tudo de forma monótona e tediosa, já prevendo o que ia acontecer.
Desculpe, Prof Snape! Mas esses quatro alunos estavam lançando azarações em alunos da Lufa-Lufa agora a pouco no corredor, quando alguns alunos saíam de seu Salão Comunal!
Os quatro sonserinos ficaram ainda mais estáticos e boquiabertos quando perceberam Crookshanks passando arrogante pelas pernas de Filch, colocando-se ao lado de Madame Nor-r-ra, lançando um olhar altivo e satisfeito para os garotos. Os outros três sonserinos – Zabini, Crabbe e Goyle – olhavam estranhos para o gato, ignorando Filch... fora o persa laranja que chamara o zelador?!
Mas que gato filho-da-puta... ele dedurou a gente?! – Zabini exclamava com a voz falhando, quase inacreditando em suas próprias palavras. Draco olhava do gato para Zabini, escondendo sua confusão.
Draco tentou consertar a situação, disfarçando a surpresa que sentiu. Ele realmente andava notando algo esquisito no gato da Granger, mas ele não esperava que o bicho fosse tão ardiloso quanto uma pessoa. Ele tinha a intima certeza de que o gato percebeu que eles aprontaram algo e que Filch os procurava, e fora chamá-lo... afinal, até mesmo aquela gata nojenta do zelador fazia isso, talvez isso seja mesma uma característica desses animais...
Virando-se para o professor, com seu olhar desdenhoso e sorriso torto, tentava ridicularizar o pobre zelador.
Esse pobre diabo do Filch está cada vez mais estouvado... como poderíamos ter feito qualquer coisa se estamos aqui com o senhor preocupados com o que é realmente importante, os nossos trabalhos...?
Mentiroso! Garoto insuportável como todo Malfoy! Os alunos atacados disseram claramente quem os azarou! Só não consegui alcançá-los em tempo!
Cale a boca, maldito aborto! Quem você pensa que é par...
Draco é abruptamente interrompido pela voz grave e fatal de Snape que parecia reverberar pela sala.
Pelo que saiba senhores Malfoy, Zabini, Crabbe e Goyle, os senhores acabaram de entrar em minha sala particular, um tanto exasperados para uma simples visita. Sugiro que acompanhem o Sr Filch e resolvam esse mal entendido com ele.
Mas Prof Snape, o senhor dev...
Sr Malfoy! Resolva esse mal entendido com o Sr Filch! E agora saiam todos, que tenho muito que fazer aqui!
Filth deu o melhor de seus sorrisos sádicos, brilhando de satisfação. Os garotos saiam porta afora, sendo que Draco se arrastava, sendo o último. Dirigia o pior de seus olhares à Crookshanks, que permanecia parado ao lado da entrada, sentado envolto de sua cauda. Encarava satisfeito e desafiadoramente o loiro platinado nos olhos, com postura esguia, dando-lhe um ar majestoso.
Gato maldito! Tinha que ser daquela sangue-ruim! Eu vou te matar qualquer dia desses, desgraçado! – Sussurrava Draco, com voz letal.
O garoto, antes de sair, ainda tenta acerta um chute no gato, ignorando os olhares e a presença de Filch e Snape, que se alarmaram com a abrupta reação de Draco. O seu pé acertou apenas o ar, o gato desaparecera de sua frente como se tivesse desaparatado. Felinos são os animais na natureza com o mais rápido reflexo, estando todo o tempo em posição de alerta e prontos para o ataque. Crookshanks saltou sobre a perna esticada do garoto, escalando-a e saltando sobre o peito, derrubando Draco de costas no chão. Leva uma das patas ao pescoço do garoto, fazendo-o sentir levemente suas garras afiadas. Olhando diretamente nos olhos apavorados de Draco, Crookshanks dá um silvo perigoso. Mas antes que qualquer um dos presentes tomasse qualquer atitude com o ocorrido, o gato salta para longe de Draco e do chão salta de volta para a mesa de Snape, que por sua vez o observa atônito. Filch se limita a puxar Draco do chão pelas vestes, bravejando.
Vamos logo, garoto! Já tomou demais o nosso tempo!
A porta da sala fecha num baque, deixando Snape e Crookshanks a sós novamente. O professor continuava a olhar o gato de forma estranha, mas parecia satisfeito com o ocorrido.
Seja lá o que tenha dito ao Draco, tenho certeza de ser o que todos têm vontade de dizer! Você é ousado, como a sua dona... mas prepare-se para retaliação por parte do garoto... é provável que ele irá querer vingar-se também na sua dona, afinal, o grande e futuro comensal da morte, Draco Malfoy, não vai engolir essa humilhação.
Crookshanks pareceu dirigir um olhar preocupado para o professor, após ouvir essas palavras. A última coisa que queria na vida é arranjar mais uma complicação para Hermione... será que tudo o que ele fizesse ela iria pagar por isso?! Será que teria que ouvir calado os outros a ofenderem sem nada a fazer?!
Snape postava-se atrás de sua escrivaninha, recolocando-se na atividade que estava exercendo antes de ser interrompido por um gato abusado de trejeitos humanos e um bando de debilóides da Sonserina.
...um Malfoy ser humilhado, desafiado, já é um grande desatino... e ser humilhado diante de espectadores por um animal?! Ah, gato! Até eu teria vontade de matá-lo depois dessa! Tome cuidado, bichano...
Enquanto Snape, calmamente, voltava a rabiscar os pergaminhos dos alunos com sua pena vermelha, Crookshanks pulava da escrivaninha para uma confortável poltrona em veludo musgo quase negro. Enrolando-se, depositava a cabeça sobre as patas dianteiras cruzadas, e mantinha um ar pensativo e preocupado... não era a primeira ameaça de morte que recebia na vida e o garoto Malfoy não era capaz sequer de pregar-lhe uma peça de molecagem, quanto mais cumprir sua ameaça... mas ele poderia complicar a vida de Hermione, aprontar algo para ela, apenas para dar-lhe mais um incomodo para se preocupar. E vê-la revoltada era tudo o que não queria e vê-la chorar novamente... e ele conseguira de novo arranjar mais uma dor de cabeça para sua dona! Talvez fosse mesmo a hora de começar a assumir de vez sua condição e começar a ignorar veemente todas esses ultrajes dirigidos à Hermione.
Os olhos de Crookshanks tornaram-se obscurecidos, distanciando-se em pensamentos, apenas com o som da pena arranhando os pergaminhos tornando-se cada vez mais distante, como se mergulhasse num infinito de trevas...

Fim do Capítulo V – continua...
By Snake Eyes – 2004

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