quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Animago Mortis - Cap.03 - Refúgio

ANIMAGO MORTIS
Capítulo III - Refúgio

Duas horas se passaram como segundos, mas para Hermione é como se tivesse levado o dia inteiro. Voltando de mais uma tediosa ronda noturna pelos corredores de Hogwarts sem nenhum aluno fora de seu salão comunal, nenhum fantasma assombrando, nenhuma aranha tecendo sua armadilha. Aquilo estava tornando-se cada vez mais insuportável de tão chato, tão comum e tão monótono. Aquelas duas horas noturnas seriam melhores aproveitadas com estudos do que com aquela ronda inútil e, especificadamente nesta noite, nem sequer teve a companhia de Crookshanks para deixar tudo mais tolerável. Se o cargo de Monitora-Chefe não fosse de relevância para sua vida pós-Hogwarts, seja qual profissão fosse exercer, Hermione já teria desistido disso há tempos. Não é tão fabuloso assim ser monitor quando se está vivendo na pele tal experiência e, para ela, era só mais um motivo para que seus colegas lhe implicassem.
Chegando ao dormitório, encontrou apenas uma aluna já adormecida em sua cama, então teve todo o cuidado possível para não fazer qualquer ruído. Foi até sua cama, afastando as grossas cortinas de veludo carmesim, encontrando um sonolento Crookshanks que se esforçava para olhá-la com olhos semi-abertos. Hermione apenas lhe dirigiu um sorriso doce e acariciou a cabeça e o dorso do gato, retirando-se logo em seguida para seu banho. Crookshanks levantou-se, eriçando suas costas, arrepiando-se todo ao se despreguiçar. Pulou da cama e foi esticar seus músculos numa caminhada do quarto para o salão comunal da Grifinória, encontrando lá muitos alunos ainda, quase todos do 6º e 7º anos. Viu um grupinho que conversava calorosamente perto da lareira, com aquelas duas amiguinhas acéfalas, Lilá Brown e Parvati Patil, dando irritantes risadinhas, enquanto a menina ruiva falava aborrecida com elas. Harry e Rony também estavam no grupinho, mas a expressão deles era de preocupação ou algo que o valha.
Crookshanks manteve-se incógnito na curva para as escadas dos dormitórios femininos, com expressão brava e suas duas orelhinhas minúsculas voltadas totalmente para frente, para ouvir bem do que falavam. Apesar do burburinho do salão, sua audição felina lhe permitia entender perfeitamente o que o grupo conversava, apesar de falarem em tom normal, sem ser as duas desmioladas, com suas risadinhas odiosas. Falavam de Hermione...
Vocês duas são nojentas, insuportáveis! Como têm coragem de caçoar de Mione, ainda mais pelas costas?! Isso é vil, é traiçoeiro! – Dizia uma furiosa Gina Weasley para Parvati e Lilá, que estavam até lacrimejando com as risadinhas!
Sai dessa, Gina! Nós gostamos muito da Granger, mas, peralá né! A menina, coitadinha, tá totalmente doida! Cara! Ela passa horas falando com aquele gato horroroso dela! Ah! É de dar dó...
Harry, Rony e Gina olhavam para Parvati como se quisessem atirá-la em pedacinhos na lareira. Rony se segurava, com os punhos cerrados, para não avançar em Parvati e Lilá. Crookshanks, na subida da escadaria de pedras, arrepiou-se todo, amassando para trás suas orelhas e emitindo um rosnado muito baixo. Seus olhos pareciam em chamas, ainda mais por refletir em seu espelho ocular a luz ambiente. Sua vontade era pular na jugular daquela garota sebosa e só soltar quando não mais respirasse... obviamente, uns profundos e cirúrgicos arranhões naquela cara lisa faria ainda mais estrago no ego de Parvati, mas isso complicaria muito Hermione e, talvez, o até expulsassem da escola, jogando-o a própria sorte no meio da Floresta Proibida... não, toleraria qualquer coisa para jamais provocar a sua separação de Hermione, mas... não poderia ficar suportando quieto aquele disparate contra sua dona, precisava agir, deixar seu recado!
Bufou, para aliviar a tensão da ira que o culminou. Todo faceiro, com a grossa cauda em pé e andar elegante, foi esgueirando-se pelas paredes até chegar ao grupinho na lareira. Ninguém percebeu sua aproximação, o que era óbvio, afinal, felinos são caçadores por excelência, logo, suas presas raramente percebem sua presença. Sabia a quem iria usar como pretexto a ficar cara a cara com a indiana insuportável, então, com manha, emitiu um miado dengoso, para anunciar sua chegada – afinal, não iria gostar de tomar um chute ou pizão de alguém se assustando com sua repentina aparição! Os cinco alunos voltaram sua atenção para a direção do ruído, encontrando o persa laranja de Hermione, silenciando-se por instantes. Harry e Rony o olhavam muito desconfiado; Lilá e Parvati apenas com curiosidade, mas Gina simplesmente se derreteu ao avistar o bichano, que lhe dirigia um olhar divertido e outros miadinhos manhosos.
Gina rapidamente abaixou-se para pegar Crookshanks no colo, que ainda facilitou o serviço pondo-se em pé sobre as patas traseiras, esticando as dianteiras na direção dos braços da menina ruiva. Enquanto Gina e Crookshanks derretiam-se em carinhos um com o outro, Rony olhava para o gato atônito, embora já estivesse farto de ver o bicho em atitudes suspeitas, mas não conseguiu deter um comentário, que vez Harry desejar estrangular o amigo, por dar mais um motivo para piadinhas por parte de Lilá e Parvati.
Eu não acredito! Eu tenho certeza de que Crookshanks ouviu a gente falando da Mione e veio até aqui para espionar de perto!
Rony, idiota! Cala-a-boca! – Rosnava Harry, baixo, por entre os dentes.
Puxa é mesmo! – Dizia com um sorriso debochado e voz fanhosa, Parvati Patil. Dizem que gatos têm audição excelente, que podem ouvir o menor dos ruídos em quilômetros... então, com certeza ele ouviu e ‘en-ten-deu’ o que falávamos da sua dona...
...e irá correndo contar a ela antes de dormir! – completava Lilá, sem conseguir abafar a risada.
Lilá e Parvati soltaram calorosas gargalhadas, atraindo a atenção dos outros alunos que estavam no salão. Desta vez Rony teve que segurar Harry para que ele não avançasse sobre as duas. Gina ficou tão furiosa que sua pele se confundiu em cor com seus cabelos.
Calem a boca agora! Suas babacas ridículas!
As duas apenas gargalharam ainda mais alto em resposta a fúria de Gina, que abraçava Crookshanks com força, como se quisesse protegê-lo daquelas duas víboras. O ódio podia se visto nos olhos do felino, que dirigia uma expressão medonha, como um tigre acuado. Abaixou suas orelhas quase que desaparecendo sobre a cabeça e rosnou em direção as duas garotas debochadas, num rosnado frio e mordaz, emitindo um silvo agudo que amedrontou até Gina e Harry. As duas pararam com a risada no mesmo instante, olhando abobadas para o gato no colo de Gina, que ainda o segurava firmemente, agora por medo de que avançasse sobre as colegas. Quando viu que as duas prestavam-lhe toda a atenção, soltou mais um silvo raivoso, deixando a mostra suas presas e garras. Parvati e Lilá ficaram apavoradas, deram um gritinho ensurdecedor e correram em direção ao dormitório. Os três que ficaram, ainda com Gina segurando o gato com força, não sabiam se continuavam aparvalhados ou se davam risadas. Crookshanks se sacudiu para descer do colo da menina ruiva, dando dois saltinhos à frente. Balançava a cauda nervosamente e tinha uma postura altiva. Virou a carinha alegre para Gina e soltou dois miadinhos manhosos, o que fez com que a menina caísse na risada, abaixando-se para acariciar as costas do gato, cumprimentando-o.
É isso aí, Shanks! A Mione precisa da gente para defendê-la dessas peçonhentas!
Definitivamente, Crookshanks não é um gato! Não mesmo! Isso é impossível, mesmo sendo uma criatura mágica! – Dizia Harry, exasperando, fazendo movimentos bruscos com os braços.
O que importa isso agora? – Dizia Rony, muito sorridente. Ele fez exatamente o que a gente queria fazer: botar pra correr aquelas duazinhas metidas!
Gina já estava com Crookshanks no colo novamente, rumando para os dormitórios.
Vamos lá pro quarto da Mione, Shanks! A essa altura, aquelas duas bestas devem estar enchendo a paciência da Mione com besteiras, devem tá falando que você tentou esfolá-las com uma patada! Heheh! Mas se comporte, viu! Vamos deixá-las ainda mais com cara de idiotas!
Dito e feito. Quando Gina adentrou o quarto, lá estavam Parvati e Lilá nervosas balbuciando em voz alta o que tinha acontecido. Gina podia jurar que elas estavam quase desmanchando-se em lágrimas. Hermione permanecia estática, com a mão entre os olhos, buscando alguma paciência do fundo de seu âmago. Quando Gina aproximou-se das três garotas, Lilá e Parvati quase caíram no chão, ao ver Crookshanks no colo da menina.
Vocês são muito ri-dí-cu-las! Deveriam ter horrores de se apresentarem em público com uma personalidade dessa! – Gina quase gritava, apertando ainda mais Crookshanks contra si. O gato parecia surpreso, afinal, não era ele que tinha que se comportar?!
Não durmo uma noite a mais com esse monstro aqui, Granger! Vou até a professora McGonagall contar o que aconteceu! Tomara que mandem esse bicho ser executado pelo controle de criaturas do ministério! – Gritava em prantos Parvati, que estava caída sobre sua cama.
NÃO! Não se atreva a incomodar a diretora com essas amenidades! Acha que McGonagall irá acreditar nessas mentiras estúpidas?! Vocês duas estão passando dos limites do absurdo! – Hermione gritava irada com Parvati, que pareceu ainda mais amedrontada do que há poucos instantes com o gato.
Hermione vestia as pressas o penhoar sobre sua camisola. Estava nitidamente colérica. Era só mais isso que lhe faltava? Seu gato ser acusado de um monstro selvagem e assassino?! Pegou Gina pelo braço, sem dizer uma palavra sequer e a arrastou para fora do quarto, com Crookshanks ainda agarrado em seu pescoço.
Mione! O que você vai fazer?! Não acredite naquelas duas imbecis! Elas estão loucas! Shanks só miou para elas! Se quiser, ele pode dormir comigo essa noite, eu não me importo!
Obrigada, Gin! Obrigada mesmo! Você é a única que tem estado ao meu lado, a única que não me perturba por besteiras! Mas não quero que você se incomode ou que venha a ter problemas por causa de nós... irei levar Shanks para um lugar mais seguro! E obrigada mesmo!
Hermione pegava Crookshanks do colo da amiga, que a olhava tristemente. Podia notar-se o quanto Hermione estava estressada. Temia pela saúde da amiga, que provavelmente viria a ter um colapso a qualquer momento e as aulas mal haviam começado! Hermione desapareceu pela escadaria em direção ao salão comunal. Gina decidira a falar com a diretora sobre tudo que ocorreu, antes que outros dissessem com mentiras. Tudo que ela pudesse fazer para ajudar Hermione, ela faria. E também ela não queria que Crookshanks sofresse qualquer retaliação.
Harry e Rony ainda estavam no salão comunal, esperando a volta de Gina para saber como se desenrolou a história. Eles mal conseguiram perceber que quem passava velozmente por eles era Hermione, com suas vestes brancas e seus cachos caídos soltos sobre suas costas se esvoaçando com suas passadas apressadas. Harry correu e conseguiu alcançar Hermione, segurando-a pelo braço.
Mione! O que houve?! Pra onde você vai com essa pressa?!
Hermione soltou-se quase dando uma bofetada em Harry. Estava com a face rubra, de tanta raiva. Seus olhos estavam marejados, a ponto de chorar.
Sai, Harry! Me larga! Não te interessa pra onde estou indo, não se meta!
Rony e, principalmente, Harry, ficaram olhando aturdidos Hermione desaparecer com o gato em seus braços pela passagem de entrada do salão comunal. A coisa tinha sido ainda mais séria do que pensavam!
Hermione apertava Crookshanks contra seu peito, abraçando-o com tal força que o bichinho ficou com dificuldade para respirar. Correu pelos desertos corredores da torre da Grifinória, descendo para o sétimo andar. Parou no fim do corredor, procurando por algo nas paredes. Parando em frente ao que parecia ser apenas uma parede lisa, começa a surgir diante de seus olhos uma porta de madeira, pintada com tinta plástica verde pastel, com um quadrinho artesanal pendurado por um prego, em forma de uma bruxinha estilizada voando numa vassoura junto com um gato preto, onde pendia uma plaquinha em aço polido com o nome Hermione gravado no metal numa caligrafia gótica.
Hermione girou a maçaneta redonda, abrindo a porta para um quarto não muito grande. Havia uma mistura de estilos, um quarto de menina que misturava-se a um estilo mais maduro. A cor predominante era verde, com um tom mais denso nas paredes e um tom bem clarinho no teto. Uma larga cama com cabeceira em vime trançado de cor natural sustentava uma grossa colcha com motivos florais, também em tons de verde. Aos dois lados da cama, um criado-mudo de mesmo padrão que a cama, em cada lado, sendo que um sustentava um abajur de tecido com flores pintadas a mão e dois livros, e o outro, um despertador de corda com design antigo e um vaso solitário em cristal com um pequeno buquê de rosas vermelhas em miniaturas, fazendo contraste com o ambiente verde. Um grande quadro com foto de folhas e violetas ampliadas ficava acima da cama. À frente, uma grande estante embutida, com várias bonecas de louça, muitos livros e outros objetos decorativos e utilitários. Ao lado da porta, uma penteadeira de vime natural trançado, estava embutida na parede, com um banquinho de mesmo padrão, acolchoado com motivos florais. Sobre a penteadeira, duas caixinhas em madeira decoradas artesanalmente e um grande espelho de parede, também em vime trançado. Ao lado da estante, no final do quarto, havia uma porta quase imperceptível, que daria entrada a um closet e a suíte. No final do quarto, uma grande janela, que ia de uma ponta a outra da parede, do chão ao teto, coberta por uma finíssima cortina em renda de tom natural, que parecia tremular com a brisa.
Hermione mergulhou sobre a cama fofa, afundando o rosto num macio e gordo travesseiro. Crookshanks estava ao seu lado, observando todo o ambiente. Ele estava atordoado, sabia que estava na sala de requerimento, mas jamais havia entrado ali com esse ambiente. Esse era exatamente o quarto da casa de Hermione, com todas as cores, todos os adereços, todos os livros e até com o mesmo perfume floral! Pulou da cama e rumou um pouco mais pra direção da janela e ali, após a cama de Hermione, encontrou um grande cesto de vime forrado com uma colcha fofa de babados, com o mesmo padrão da colcha da cama... era exatamente o cesto onde dormia quando ia pra casa com a dona nas férias... tinha até seu cheiro e dois brinquedinhos de tecido que a menina achava que ele gostava de brincar. Olhou tristemente, com as orelhinhas arriadas, para a menina afundada na cama fofa. Pelo olfato, sentiu que ela chorava, abafando seu pranto no travesseiro.
Pulou de volta na cama, passando sua patinha nos cabelos da menina. Hermione virou-se para o gato, com os olhos muito vermelhos e inchados, a face igualmente rubra, banhada pelas lágrimas. Sentou-se sobre as pernas, pegando o travesseiro e apertando-o fortemente contra o corpo, apoiando o queixo sobre, tentando abafar seu choro. Não suportando a força das lágrimas, enfia o rosto novamente contra o travesseiro, soluçando furiosamente. Crookshanks a observava sem saber o que fazer. Balançava a cabeça e a cauda nervosamente, andando de um lado para outro pela cama, como se fosse uma onça enjaulada! E é o que era, um animal enjaulado, impotente, vulnerável, domesticado pela força do medo ou escravidão e, no seu caso, pela força de uma maldição!
Hermione sentiu-se totalmente esgotada, suas energias se exauriram com a angústia, suas lágrimas começaram e escassear. Baixou o travesseiro e viu Crookshanks agir de forma estranha, como uma pessoa nervosa, andando de um lado para o outro, com a cabeça baixa. Hermione sentiu pena do pobre bichinho junto com uma pontada de culpa, por ele ser obrigado a passar por aquelas situações por sua causa. Espalmou sua mão direita sobre a cabeça do felino, fazendo-o se acalmar um pouco. Acariciou as orelhas e o queixo do gato, que o fez olhar diretamente para ela. Hermione sentiu um calafrio ao ver aqueles olhos amarelos marejados por lágrimas, que lhe pareciam muito com olhos humanos... jamais havia visto Crookshanks dessa forma, era como se ele estivesse se condoendo pela situação. Isso fez com que Hermione cessasse os carinhos, mas sem desviar seus olhos dos dele.
Está tudo bem agora, Shanks... estamos em casa... Vê? É o nosso quarto...
Hermione desliza para a cama, afundando-se novamente no travesseiro, mas continua olhando para o gato. Ironicamente, todo aquele choro, deixou Hermione ainda mais bonita, com suas faces mais coradas do que é naturalmente e os lábios num vermelho intenso.
Me desculpe, Shanks... me desculpe por você ter que passar por isso, por ter que presenciar essa minha fraqueza detestável! Como posso pertencer a Grifinória dessa forma?!
A menina puxava a colcha verde floral, cobrindo-se até o queixo. Virou-se de costas para Crookshanks, que continuava a olhá-la de forma pesar. Deu-lhe boa noite num suspiro. O gato, também exausto, deu duas voltinhas em torno de si, deitando enrolado e praticamente colado às costas de Hermione. Afundou seu focinho na cauda grossa de pêlos longos e sedosos, fechando seus olhinhos amarelos para mais um dia... e que dia!

Fim do Capítulo III – continua...
By Snake Eyes – 2004

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